Série sobre Caim: Introdução


A história de Caim não está demonstrada por acaso nas escrituras. Sua atitude para com seu irmão serve como um claro ilustrativo dos efeitos da queda sobre os seres humanos. Aquele ser criado para estar com Deus, criado para amar, prefere sua distância de seu Criador e dá ao ódio liberdade e os efeitos são completamente danosos. O que pretendemos observar nesse estudo são as atitudes de Caim e Abel, sua relação com Deus e como Deus intervém de modo Misericordioso e Benevolente com suas criaturas, mesmo após o pecado.

Introdução (Gênesis 4.1)

Coabitou o homem com Eva, sua mulher. Esta concebeu e deu à luz a Caim; então, disse: “Adquiri um varão com o auxílio do SENHOR” (Gen 4:1 ARA)

Coabitou: Não é novidade que as escrituras usam em muitos lugares a expressão “Conhecer” para descrever o que a ARA definiu como coabitou. As versões mais antigas em português (ARC, ARF, BRP) todas optam pelo termo “conhecer” para descrever esse ato. As novas versões e paráfrases já tornaram o sentido ainda mais claro que a ARA, como a NTLH optou por descrever o ato como: “teve relações sexuais”. É bem verdade que a ARA e a NTLH são assertivas no que se refere ao sentido do termo, contudo, o termo hebraico tem um sentido mais aprofundado desse relacionamento, e esse sentido merece ser relembrado em nossos dias em que a sexualidade tem sido banalizada.

O termo empregado em hebraico é “yada’”, traduzido para grego na LXX pelo termo “gnoskö”. Ambos expressam o sentido de conhecer pessoalmente e profundamente e por isso é usado com freqüência como um eufemismo para o relacionamento sexual. Entretanto, note que o termo já havia sido usado 4x no capítulo anterior (Gn.3.5x2, 7, 22) e, por conseguinte, não podemos descartar sua conotação mais primária aqui. Todos os usos denotam informação, conhecimento, ciência, e em particular nos versos 5 e 22 demonstram o conhecimento que Deus tem. Por isso, e possível inferir que o nível de intimidade do primeiro casal ao ser descrito por esse eufemismo é muito mais do que a atividade sexual em si, é uma descrição de um relacionamento. É bem verdade que no mesmo livro vamos encontrar o uso do mesmo eufemismo para descrever atos perversos, como em Sodoma (Gn.19.5, 8) ou com as filhas de Ló (19.33, 35), tendo a visualizar uma perversão no sentido do termo, de relacionamento à atividade sexual, à medida que o pecado se alastrava na humanidade. Seja como for, a ênfase do texto descreve a intimidade do casal de modo eufemístico para demonstrar a procriação da humanidade conforme esperada por Deus na Criação.

Concebeu e deu a luz: Essa expressão é importante pelo fato que inaugura a expectativa do cumprimento da promessa: Um varão que termine com o estrago feito pela serpente no Éden e que acabe com a própria serpente. Seria muito inferir que essa era a expectativa do primeiro casal? Provavelmente sim, observe a alegria de Eva em receber um filho homem.

Com auxílio do Senhor: É bem verdade que a expressão hebraica literalmente deveria ser traduzida como “Alcancei do Senhor um homem”, embora Kidner entenda que a expressão possa ser entendida de outros modos, como a ARA verteu[1]. Essa exaltação de Eva nos faz pensar que era parte da expectativa de que a promessa divina estaria a ponto de iniciar. Em suas notas nas Escrituras, Jonatas Edwards diz:

“Na expressão de Eva, é possível que ela tenha lançados os olhas nas palavras de Deus, que sua semente iria pisar na cabeça da serpente e agora vendo que ela tinha um filho, sua fé e esperança foram fortalecidas de que a promessa deveria ser cumprida[2]”.

Calvino, do mesmo modo entende que o sentido genuíno do texto é a expressão da fé de Eva que via em seu filho o cumprimento da promessa de Deus feita no capítulo anterior, embora afirme que Eva estava enganada quanto à pessoa que esperava, que não seria através de Caim, mas de Cristo, que tal promessa seria levada à efeito[3] (Concordam com esse parece, Barnes, Gill, Keil & Delitzsch).

Essa não é a opinião exclusiva para o assunto. Clarke chega a considerar tal possibilidade, mas entende que o sentido é mais restrito, pois entende que tal conclusão seria deveras avançada para aquele período. Segundo ele, Eva apenas agradece as bênçãos de Deus[4]. John Sailhamer entende que a exclamação de Eva não é tão positiva quando Edwards nos faz pensar. Segundo ele, “as palavras de Eva foram proferidas com orgulho de modo que como o Senhor criou o homem, agora a mulher tinha criado um homem[5]”.

Entretanto, é importante notar que a expressão usada por Eva inclui o nome de Deus, Yahweh. Observe que no discurso com a serpente ela o teria chamado Deus de modo genérico (elohim), mas nesse verso faz questão de chamá-lo pelo nome que tem. Nesse contexto, usar a expressão “Deus de salvação” como reconhecimento de auxílio, certamente nos leva a concluir que Eva demonstrava sua expectativa e fé, de receber por meio das mãos de Yahweh a semente que pisaria a cabeça da serpente.

É interessante, que nesse sentido as expectativas do primeiro casal seriam firmemente frustradas. David Merck, que defende tal opinião, afirma:

“O descendente-Libertador da mulher tão esperado nasceu não como semente de vida, mas de morte.  Em vez de libertar da pena da morte, ele se tornou um assassino!  E o filho justo, em vez de esmagar a cabeça da Serpente, foi esmagado pelo próprio irmão, que mostrou-se semente (filho) da Serpente[6]

Caim: Um interessante trocadilho acontece nessa sentença entre o nome de Caim e a declaração de Eva sobre seu filho. Em hebraico, o substantivo Caim (qayim) pode significar “consegui, alcancei, adquiri”, e Eva usa a forma verbal desse substantivo ao dizer “Adquiri um varão” (qanah). Considerando esse paralelo, Krell chega a dizer que Caim é o nome hebraico do primeiro filho de Adão e Eva, mas que em português seu nome seria “consegui[7].

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Outros artigos da série:

  1. A religiosidade de Caim:
    Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão. Os detalhes da biografia não são claros, e temos por certo que o texto apresenta apenas pedaços de cenas da vida de Caim. Entretanto, a partir das poucas palavras das escrituras, podemos aprender muito sobre a insuficiência de religiosidade no que se refere ao relacionamento com Deus.
  2. A rebeldia de Caim:
    A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.
  3. A inesperada graça Divina:
    Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.
  4. O assassinato de Abel:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.
  5. Graciosa ira divina:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.
  6. Abel, o irmão:
    O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.
  7. Sete, o outro irmão:
    Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.

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NOTAS

[1] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.69.

[2] EDWARDS, Jonathan, Notes on The Scriptures. (e-sword.net).

[3] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[4] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible.(http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[5] SAILHAMER, John, Genesis. Pp.60.

[6] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[7] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

Um comentário sobre “Série sobre Caim: Introdução

  1. paulo

    Foi um dos melhores estudos que já vi sobre esse assunto. Merece inclusive um aprofundamento ainda maior. Acredito que saia um belissímo de um livro nisso tudo que foi dito aí. Parabéns. Manda mais.

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