A Religiosidade de Caim


Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão. Os detalhes da biografia não são claros, e temos por certo que o texto apresenta apenas pedaços de cenas da vida de Caim. Entretanto, a partir das poucas palavras das escrituras, podemos aprender muito sobre a insuficiência de religiosidade no que se refere ao relacionamento com Deus

Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR (Gen 4:3 ARA)

1. A adoração de Caim

Lavrador da Terra: Caim é um lavrador da terra por profissão. Diferente de seu irmão, Caim era responsável por cuidar da terra. Gill entende que isso se deve à primogenitura de Caim, que por ser o primeiro filho assume do pai a profissão de lavrar a terra[1]. Note que expressão similar é usada em Gn.2.5 para descrever o trabalho de Adão como lavrador da terra, ou aquele que trabalha com a terra. É provável que Caim tenha aprendido de seu pai a profissão que  teria recebido de Deus.

Fim de uns tempos: A expressão usada pela ARA é uma tentativa de se definir aquilo que o hebraico parece ter deixado sem definições. O uso do substantivo “yom” para descrever tempo não expressa aqui uma definição específica de quantidade de tempo e por isso as traduções não são unânimes. A ACF e ARC optaram por verter esse texto por “ao cabo de dias”. A SBP optou por verter: “ao fim dum certo tempo”. Seja qual for a tradução, o sentido aqui não é a quantidade exata de tempo que se passara, mas que, em certa ocasião, depois de algum tempo passado, Caim trouxe uma oferta ao Senhor. Alguns, mais especifistas, entendem que a expressão deveria ser entendida como “ao fim de dias”, como uma alusão ao Sábado[2], entretanto, tendo a ver essa opção como um pouco especulativa demais.

O que é certo é que a oferta que deveria ser oferecida ao Senhor foi realizada em um dia específico (ainda que desconhecido por nós) no qual tanto Caim quanto Abel exerceram o privilégio de realizar um ato de adoração. É bem provável que a decisão por um momento específico para se realizar a oferta tenha sido algo aprendido no contexto familiar, afinal, de onde teriam aprendido os meninos Caim e Abel sobre a adoração sacrificial a Deus? Ao que tudo indica, os fiéis Adão e Eva, após a queda se tornaram propagadores dos ensinamentos de Yahweh a seus filhos.

Fruto da terra: Literalmente, Caim trouxe o resultado do seu trabalho. Por ser lavrador da terra, trouxe o que a terra havia produzido debaixo do seu esforço. Lembre-se que a terra após o pecado é maldita e produz cardos e abrolhos, e que sem o trabalho braçal do ser humano não seria possível o consumo. Era necessário a fadiga para que Caim pudesse tirar da terra “os Frutos da Terra”. Diante disso, não se pode dizer que a oferta em si tenha sido medíocre, nem resultado do descaso de Caim. Pelo contrário, ele apresentou a Deus o fruto do seu penoso trabalho.

Uma oferta: O termo empregado aqui por Moisés não é o termo técnico usado em Levítico para descrever uma oferta para oferta (hb. qorban), mas um termo mais genérico, usado inclusive para descrever uma oferta de cerais (hb. Minchah). Note que no segundo capítulo de Levítico, Deus dá a Moisés uma legislação para tratar das ofertas de cereais, que chamamos ofertas de dedicação: “Quando alguma pessoa fizer oferta de manjares ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha; nela, deitará azeite e, sobre ela, porá incenso. Levá-la-á aos filhos de Arão, os sacerdotes, um dos quais tomará dela um punhado da flor de farinha e do seu azeite com todo o seu incenso e os queimará como porção memorial sobre o altar; é oferta queimada, de aroma agradável ao SENHOR”. Essa oferta a Yahweh seria queimada e teria aroma agradável a Deus. Note que Deus não rejeitaria a oferta em si, uma vez que Ele mesmo teria incluído tais ofertas como um modo de oferta legítima.

Em outras palavras, não haveria nada intrinsecamente ilegítimo na oferta de Caim. Deve-se lembrar também que não encontramos nehuma especificação divina sobre a necessidade da adoração ou do conteúdo da mesma. O que as escrituras apresentam em suas poucas palavras, é que a adoração a Yahweh era tão necessária quanto a óbvia ausência da explicação da mesma. Portanto, temos que considerar que a postura de Caim em oferecer adoração a Yahweh é em si mesma louvável. Embora não possamos auferir os motivos pelo qual o fez, ao que o texto parece indicar, sua atitude não era coerente com sua oferta[3].

Yahweh: É interessante observar que a oferta de Caim foi a Yahweh, ou seja, uma manifestação de verdadeira adoração. Já temos dito que não há nenhuma menção explícita de que tipo de sacrifício era esperado, exceto se Gn.3.21 for usado como exigência de derramamento de sangue.

É quase convenção entre os cristãos de que a oferta de Caim não foi aceita em função da falta de derramamento de sangue da sua oferta a Yahweh, contudo, temos que considerar que o texto não vai nessa direção. O texto diz que Deus não se agradou de Caim e de sua oferta. Kidner nos lembra que “tudo o que é explícito aqui é que Abel ofereceu a fina flor do seu rebanho e que o espírito de Caim era arrogante[4]”. Sailhamer entende que o texto, tomado como um todo, não nos ensina sobre que tipo de sacrifício é aceitável a Deus, mas que tipo de atitude é necessária para se ofertar a Yahweh[5]. Note que tanto a aprovação, quanto reprovação de Yahweh iniciam com a declaração pessoal: “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta” (Gn.4.4); “ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gn 4:5).

Deus rejeitou tanto a Caim quanto a sua oferta. A questão não era a oferta unicamente, mas primeiramente o ofertante. Aliás, ao que sabemos a partir das escrituras que a oferta em si não era problemática, mas tornou-se problemática nas mãos de um homem de coração impuro. Não sabemos ao certo qual era o motivo impuro do coração de Caim, mas sabemos que ele foi rejeitado diante de Deus, ainda que sua adoração tenha sido legítima.

2. O que se pode concluir sobre a adoração de Caim?

  1. Caim ofereceu a Deus o fruto do seu trabalho. Diferente de muitos cristãos que nos nossos dias oferecem a Deus apenas o que lhes sobre, quando sobra (se sobra) Caim ofertou do resultado seu trabalho. Onde teria aprendido a fazê-lo? Provavelmente no ambiente familiar em casa. O que é certo é que Caim sabia que deveria fazer do seu trabalho um exercício de adoração a Deus, o que fez, aparentemente de modo equivocado.
  2. Caim ofereceu a Deus no tempo específico para isso. O texto nos ensina que “no fim duns tempos” tanto Abel quanto Caim ofereceram a Deus sua adoração. Ambos ofertaram no mesmo período, manifestando assim a primitiva função religiosa de se adorar a Deus num período específico. O problema não era, portanto, a ocasião, nem a frequência ou a consistência/inconsistência do evento. O problema era outro.
  3. Caim ofereceu uma oferta legítima. Ao contrário do que pensam muitos dos cristãos, a oferta de Caim nada tinha de ilegítima. Na verdade, posteriormente esse tipo de oferta foi outorgada por Deus como modo adequado de adoração. Ou seja, o problema de Caim era outro.

Portanto devemos nos perguntar: Qual era o problema de Caim?

  1. Ele pode ter rejeitado uma informação explícita (e desconhecida por nós) de Deus sobre como Deus gostaria de ser adorado. Se esse é a ênfase principal do texto, entendemos que o modo autônomo de Caim em ofertar nos alerta para o fato de que Deus não quer ser adorado de qualquer jeito, mas que ele espera de nós uma adoração adequada. Deus não quer ser adorado com sinceridade apenas, mas também do modo que Ele determina que deve ser adorado.
  2. Ele certamente realizou a adoração com uma atitude desprezível diante de Deus, de modo que Deus rejeitou a Caim e sua oferta. Assim, aprendemos que Deus não se apraz da adoração desconexa com a atitude.  Em outras palavras, Caim prefigura os Fariseus[6], que faziam o que era certo do modo errado, eram peritos em conhecer o que Deus esperava, mas incapazes de Lhe oferecer o que era devido em conformidade com Sua vontade.

Com esse estudo aprendemos que Deus rejeita tanto a pessoa como seu modo de adoração. Diante do exemplo de Caim, entendemos que Deus se opõe ao erro e também àquele que erra. O cristianismo e suas desvirtudes na modernidade têm insistido que Deus aceita qualquer adoração de qualquer coração, mas a história de Caim nos lembra que um Deus Santo e Justo como Yahweh deve ser adorado, como Ele determinar que deve ser adorado. E nós sabemos que a adoração religiosa desconexa da vida diária de devoção a Deus é hipocrita (Mt.9.13; 12.7; cf. Is.1.11; 1Sm.15.22; Pv.15.8; Am.5.21).

O sacrifício dos perversos já é abominação; quanto mais oferecendo-o com intenção maligna!” (Pv.21.28).

Viva em adoração a Deus, mas entenda como Ele quer ser adorado e o que Ele espera de você como adorador. Caso contrário, Deus também poderá rejeitar a você e sua adoração. “Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo“.

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  1. A religiosidade de Caim:
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  2. A rebeldia de Caim:
    A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.
  3. A inesperada graça Divina:
    Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.
  4. O assassinato de Abel:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.
  5. Graciosa ira divina:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.
  6. Abel, o irmão:
    O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.
  7. Sete, o outro irmão:
    Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.

 

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Notas

[1] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible.(http://www.freegrace.net/gill/).

[2] Jamieson, Fausset, Brown, John Gill, Adam Clarke

[3] Cf. NET Bible notes (http://net.bible.org/bible.php?book=Gen&chapter=4), Kidner, pp.70.

[4] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[5] SAILHAMER, John, Genesis. Pp.60.

[6] EDWARDS, Jonathan, Notes on The Scriptures. (e-sword.net).

[7] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)