A Rebeldia de Caim


A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.

…ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante (Gen 4:5 ARA)

1. A Rejeição de Caim

…de Caim e de sua oferta: Chamo a sua atenção a um detalhe já apresentado: Deus não se agradou de Caim em primeiro lugar. Tenho a impressão que a ordem de palavras aqui é significativa: Por não ter se agradado de Caim a oferta que trouxera também não fora aceita. Isso nos ensina que a oferta segue o coração do ofertante. Não há oferta agradável se não há um coração grato por trás da oferta. Sobre isso, Calvino nos instrui:

“Não se pode duvidar, que Caim comportou-se como os hipócritas estão acostumados a fazer; ou seja, que ele queria apaziguar Deus, como um cumprimento de uma dívida, através de sacrifícios externos, sem a menor intenção de se dedicar a Deus. (…) Quando Deus vê tamanha hipocrisia, combinada com brutal escárnio manifesto contra Ele mesmo, não é surpreendente que ele odeie, seja incapaz de suportar, de onde segue-se também, que ele rejeita com desprezo os trabalhos daqueles que se afastam Dele[1]”.

A verdade é que Moisés apresenta o caso de Caim em poucas palavras, e para melhor compreender o que significou essa rejeição, é necessário olhar para as escrituras para verificarmos que impressões essa história deixou sobre os autores sagrados.

Em primeiro lugar, deve-se lembrar do Apóstolo João, que diz que o problema de Caim estava relacionado suas atitudes: “Não [sejamos] como Caim, que era do maligno, e matou a seu irmão. E por que causa o matou? Porque as suas obras eram más e as de seu irmão justas” (1Jo.3.12). Observe que as obras referidas por João se referem ao seu ato de adoração. Em outras palavras, sua adoração era a realização de algo mal. Note também que João fala de obras no plural, dando a entender que a cena registrada em Gênesis não era um caso isolado, mas um modo continuado de adoração.

Esse conceito é plenamente verificado nos ensinos de Cristo. Em primeiro lugar, o bom fruto só pode nascer da boa árvore, pois “a árvore boa não pode produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (Mat 7:18 ARA). Isso confirma o que já temos dito: A oferta segue o coração do ofertante. Em segundo lugar, o serviço ministerial de pessoas como Caim é apresentado por Cristo como obra de iniquidade: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.” (Mat 7:22-23 ARA). Em outras palavras, a aceitação diante de Deus não está fundamentada no serviço ministerial ou na adoração. Na verdade, ambos são decorrentes do verdadeiro relacionamento com Deus através de Cristo Jesus.

Em segundo lugar, o autor de Hebreus entende a rejeição de Deus estava ligada ao fato de que o sacrifício de Caim não tinha sido excelente: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas” (Heb 11:4 ARA).  Mas, o que fez do sacrifício de Abel ser mais excelente que o sacrifício de adoração? Observe que o texto diz que Abel realizou o sacrifício pela fé. A adoração à parte da fé genuína é, portanto, uma obra má que será rejeitada por Cristo, pois “ as nossas obras de justiça, são como trapo da imundícia” (Isa 64:6 ARA) diante de Deus. A parte da fé, que possibilita o relacionamento genuíno com Deus, não existe verdadeira adoração. E a adoração vazia de homens à parte da fé é rejeitada por Deus.

2. A Rebeldia de Caim

Irou-se sobremaneira: Por ter sido rejeitado, Caim agora manisfesta mais claramente seu caráter. O texto não e claro em descrever como Deus teria rejeitado sua oferta, mas é claro que, pela descrição do texto, Caim percebeu a rejeição e isso lhe deixou irado. Contra quem Caim ficou irado o texto não é plenamente claro, mas parece evidente que a ira de Caim deu-se primeiramente contra Deus, mas que aos poucos  se desenvolveu contra seu irmão. É interessante que, do mesmo modo que a rejeição de Deus pela oferta de Caim é visível para Caim, a rejeição de Caim para com o veredito de Deus é plenamente perceptível para Deus.

Descaiu o Semblante: A expressão descrita quase literalmente pela ARA, descreve de modo figurado que a ira de Caim havia se tornado tão evidente que seu semblante já o testemunhava. Note o contraste entre o semblante descaído de Caim, e o rosto levantado de Deus como sinal de bênção para o povo em Nm.6.26. O contraste entre os dois tipos de semblante nos serve para descrever a situação de Caim como profundamente irado.

O pecado é como os círculos formados na água depois que uma pedra é jogada nela: ele tende a crescer. Quando a ira tomou conta do coração de Caim, o assassinato não estava distante dele.

Conclusão

A partir dos dois últimos estudos sobre Caim, podemos concluir que:

I. A adoração de Caim e Abel tinham alguns detalhes em comum:

1. Ambos adoraram o mesmo Deus.

2. Ambos trouxeram algo para ofertar a Deus.

3. Ambos esperavam que sua oferta fosse aceita por Deus.

II. Ainda assim, a adoração de Caim e Abel era diferente:

1. Na oferta apresentada.

2. Na atitude com a qual a oferta foi realizada.

3. Na reação diante da resposta divina.

III. O resultado da rejeição da oferta de Caim:

1. Caim não reagiu com vergonha ou arrependimento, mas permitiu que a inveja tomasse conta do seu coração. Ira e ódio consequentemente seguiram sua inveja, que pouco-a-pouco tornou-se em assassinato.

2. Entretanto, isso não o colocou à parte do relacionamento com Deus. De modo surpreendente e inesperado, Deus ainda se aproxima de Caim para auxiliá-lo. Ele bem que poderia tê-lo rejeitado, mas optou graciosamente ao oferecer a Caim uma nova oportunidade para ser aceito.

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Outros artigos da série:

  1. A religiosidade de Caim:
    Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão. Os detalhes da biografia não são claros, e temos por certo que o texto apresenta apenas pedaços de cenas da vida de Caim. Entretanto, a partir das poucas palavras das escrituras, podemos aprender muito sobre a insuficiência de religiosidade no que se refere ao relacionamento com Deus.
  2. A rebeldia de Caim:
    A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.
  3. A inesperada graça Divina:
    Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.
  4. O assassinato de Abel:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.
  5. Graciosa ira divina:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.
  6. Abel, o irmão:
    O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.
  7. Sete, o outro irmão:
    Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.