Caim e a Inesperada Graça Divina


Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.

O Senhor disse a Caim: “Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto? Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo”. Gênesis 4:6-7

Graça inesperada

Por que andas irado? A aproximação de Deus nesse verso não o apresenta como um Deus desinformado da razão do furor de Caim, muito pelo contrário, de forma graciosa Deus aproxima-se de Caim para auxiliá-lo com sua Ira. Sobre isso Barnes diz que “O Senhor ainda não desistiu de Caim. Em grande misericórdia Deus interage com ele. Ele coloca uma questão que demonstra que não há justa causa seus sentimentos[1]”. Kidner vê nessa aproximação de Deus “Seu apelo para a razão e Seu interesse pelo pecador [que] são assinalados tão vigorosamente como Seu interesse pela verdade e pela justiça[2]”. Do mesmo modo que Deus se apresenta como Justo nesse texto, ele também se apresenta como Gracioso. A rejeição de Caim não era definitiva, a tal ponto que Ele mesmo estava interessado na restauração de Caim.

Se procederes bem: Após sua graciosa aproximação, Deus também deixa com Caim alguns conselhos práticos para enfrentar a situação que tinha diante de si mesmo. Mas, o que poderia ser um bom procedimento para o momento? É bem verdade que nenhuma instrução específica sobre o assunto havia sido dada, mas tendo a crer que Caim teria entendido. Deffinbuag sobre isso diz: “Ainda que não saibamos os pormenores do que o “proceder bem” envolvia, Caim sabia. O problema de Caim não era falta de instrução, mas insurreição e rebelião contra Deus[3]”. De fato, essa expressão aponta, do meu ponto de vista, que a questão fundamental da rejeição era o comportamento e não a oferta em si.

Contudo, não podemos deixar de considerar que o Deus Todo-Conhecedor estava a falar com Caim e que proceder bem pode certamente implicar em não fazer o que Caim parecia predisposto a. Barnes alude ao fato de que Caim teria um caminho de retorno a uma postura aceitável diante de Deus que incluiria reconsiderar seu modo de viver, de oferecer ao Senhor com intenção correta[4].

Serás aceito: Uma breve nota deve ser feita aqui: “No hebraico, aceito é literalmente um exaltar, expressão que pode indicar um semblante sorridente contrariamente a um semblante carrancudo (descaído). Pode ser que o sentido seja o de que o simples olhar para o rosto de Caim o traia; mas provavelmente vai além, incluindo a promessa de restauração da parte de Deus sobre uma mudança de coração[5]”.

E se não fizeres bem: O leitor poderia esperar aqui uma sentença de Deus: “Se não fizeres bem, você morrerá”. Entretanto não é assim que Deus procede para com Caim. Em primeiro lugar, devemos admitir que ele já havia feito o que não era bom, com sua oferta arrogante. Contudo, em seu diálogo, Deus evidência que ele poderia manter-se nesse caminho errôneo, mas assegura que, embora não recomendável, isso não implicaria em um caminho sem retorno Aliás, é digno de nota, que o caminho que teria adotado até aqui ainda tinha retorno e Deus, graciosamente tinha se aproximado de Caim para adverti-lo. Krell, sobre isso diz:

“Isto implica claramente que Caim sabia o que era certo. Ele sabia que a qualidade da oferta a se levar e optou por não trazê-la. Ele sabia que seu coração não estava adequado, mas ele optou por não abordar a questão. No entanto, este versículo mostra também a graça de Deus, pois Caim foi ainda convidado a apresentar a oferta correta. Deus o avisou e  queria que Caim “fazesser o bem”, mas Caim endureceu o seu coração[6]

O pecado jaz à porta: O alerta de Deus é claro: O pecado estará à sua disposição para realizar todo o mal que intentar realizar. Ainda que Caim optasse pela manutenção do seu estado de rebeldia isso não lhe colocava em situação de homicida, ele ainda tinha a possibilidade de controlar sua ira. O alerta de Deus era que “um terrível ato pecaminoso estava perigosamente próximo; estava ali como um animal feroz, esperando para saltar sobre ele[7]”. Deuffinbaug sobre isso diz que “se Caim preferia ignorar a suave cutucada de Deus, que fique então completamente ciente dos perigos à sua frente. O pecado jazia esperando por ele como um animal à espreita. Queria controlá-lo, mas ele devia dominá-lo.  Caim tinha que tomar uma decisão e ficaria responsável por sua escolha[8]”.

Conclusão

De forma prática essas instruções de Deus para Caim podem ser entendidas como boas e más notícias, observe:

  • Más notícias:
    • O pecado está a nossa espera. A influência do mundo, da carne, do Diabo sempre conspiram a favor da nossa queda. Tudo o que lhe falta é oportunidade.
    • O pecado nos deseja, ou melhor, nossa carne deseja o pecado. Por sermos conhecedores do bem e do mal, nos tornamos aptos a saber o certo, mas desejamos o errado.
  • Boas Notícias:
    • Nós podemos dominar o pecado. A partir da salvação em Cristo, somos habilitados a suportar a provação, uma vez que Deus conhece nossa capacidade pessoal e não permitirá que uma tentação venha sobre nós a tal ponto que não possamos suportar. Krell usa uma figura interessante para descrever esse fato: “Quando a tentação bater à porta, nós pedimos para que Jesus atenda[9]”.
    • Nós podemos nos humilhar e voltar a Deus. Ainda que um erro tenha acontecido, como aconteceu com Caim, podemos ter a certeza que podemos nos voltar a Deus humildemente arrependidos por nossas faltas e prontos a aceitar Dele a devida punição graciosa que tem a oferecer para nos purificar o caráter.

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Outros artigos da série:

  1. A religiosidade de Caim:
    Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão. Os detalhes da biografia não são claros, e temos por certo que o texto apresenta apenas pedaços de cenas da vida de Caim. Entretanto, a partir das poucas palavras das escrituras, podemos aprender muito sobre a insuficiência de religiosidade no que se refere ao relacionamento com Deus.
  2. A rebeldia de Caim:
    A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.
  3. A inesperada graça Divina:
    Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.
  4. O assassinato de Abel:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.
  5. Graciosa ira divina:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.
  6. Abel, o irmão:
    O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.
  7. Sete, o outro irmão:
    Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.

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Notas

[1] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[2] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[3] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26).

[4] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[5] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[6] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

[7] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.88.

[8] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[9] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).