Caim e a Graciosa Ira de Deus


É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.

Então o Senhor perguntou a Caim: “Onde está seu irmão Abel? ” Respondeu ele: “Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?”. Disse o Senhor: “O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão está clamando. Agora amaldiçoado é você pela terra, que abriu a boca para receber da sua mão o sangue do seu irmão. Quando você cultivar a terra, esta não lhe dará mais da sua força. Você será um fugitivo errante pelo mundo”. Disse Caim ao Senhor: “Meu castigo é maior do que posso suportar. Hoje me expulsas desta terra, e terei que me esconder da tua face; serei um fugitivo errante pelo mundo, e qualquer que me encontrar me matará”. Mas o Senhor lhe respondeu: “Não será assim; se alguém matar Caim, sofrerá sete vezes a vingança”. E o Senhor colocou em Caim um sinal, para que ninguém que viesse a encontrá-lo o matasse. Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. – Gênesis 4:9-16

1. Confrontação e Punição

Onde está Abel, teu irmão? Do mesmo modo que Deus havia se aproximado de seus pais no Éden, Deus aproximasse de Caim. Tenho a impressão Deus inicia suas conversas com perguntas na expectativa de que suas criaturas tenha a oportunidade de se arrepender. Note que Deus tem plena ciência do que havia acontecido, mas não inicia sua conversa com a punição mas com uma pergunta reveladora. Sobre isso Gill diz: “Essa pergunta é feita, não por não saber onde ele estava, mas na intenção de trazer Caim à convicção e confissão do seu pecado, para tocar sua consciência com ela, e enchê-lo de remorso por isso[1]”.

Não sei: Embora a pergunta de Deus a Caim relembre o cuidado de Deus em trazer Adão ao arrependimento no Éden, a resposta de Caim reflete um avanço significativo do poder do pecado em sua constituição. Barnes sobre isso fala que a “resposta de Caim revela um recurso desesperado de falsidade, uma alienação total do sentimento, a extinção do amor fraterno, a predominância desse egoísmo que congela carinho e desperta o ódio[2]”. Keil & Delitzsch afirmam que o ato de desafiar a Deus “cresce com o pecado, e a punição acompanha a culpa. Adão e Eva temeram diante de Deus, (…) Caim corajosamente nega [o pecado][3]”.

Sou eu tutor de meu irmão? A mentira deslavada é apresentada, e como se não bastasse, ele acresce a ela um alto teor de sarcasmo: “Sou eu tutor de meu irmão?”. Deffinbaug sobre isso diz: “A insolência de Caim é incrível. Não só ele mente ao negar qualquer conhecimento sobre o paradeiro de seu irmão, mas parece censurar a Deus pela pergunta. Pode até mesmo haver um jogo sarcástico nas palavras para dar a impressão de: ‘Não sei. Deverei eu pastorear o pastor?[4], [5]”.

Que fizeste? Mais uma vez Deus age misericordiosamente. Considerando a situação do diálogo, Krell afirma que “se eu fosse Deus, eu teria consumido Caim exatamente onde ele estava! Mas não o Senhor! Em vez disso, Ele pergunta a Caim uma questão de acompanhamento que é a mesma pergunta Ele perguntou Eve (3:13): “O que você fez?”[6]”. No lugar de Deus já teria perdido a paciência, como Krell, mas Deus mantém sua longanimidade e seu diálogo e caminha para a realização de sua disciplina. Deffinbaug, sobre isso nos diz:

“O solo foi amaldiçoado por causa de Adão e Eva (Gn. 3:17). Agora a terra é manchada com o sangue de um homem, e que foi espalhado por seu irmão. Esse sangue agora clama a Deus por justiça (4:10). Deus, então, confronta Caim com seu pecado. O tempo para arrependimento já passou e agora a sentença é dada a Caim pelo Juiz da terra[7]”.

És maldito sobre a terra: A sentença iniciada por Yahweh contém claras evidências de seu Juízo. É Calvino que diz: “Caim, depois de ter sido condenado pelo crime, o julgamento é agora pronunciado contra ele. E em primeiro lugar, Deus constitui a terra do ministro de sua vingança, por ter sido contaminada pelo parricídio ímpio e horrível[8]”.

Quando lavrares a terra: É interessante que Deus inicia a sentença de Caim com o que ele supostamente tinha de melhor, o seu trabalho como lavrador. A terra já havia sido amaldiçoada, e tal maldição teria intensificado seu trabalho. Mas, com a maldição proferida por Deus, nem no seu trabalho Caim poderia ter prazer novamente. É Deffinbaug que diz:

“Caim tinha sido abençoado com um “polegar verde”. Ele tentou se aproximar de Deus através do fruto de seu trabalho. Agora Deus o amaldiçoou bem onde residia sua força e seu pecado. Nunca mais Caim seria capaz de se sustentar pelo cultivo do solo. Enquanto que Adão teve que obter seu sustento pelo suor de seu rosto (3:19), Caim não poderia nem sobreviver pela agricultura. Para ele a maldição do capítulo três foi intensificada. Para Adão a agricultura foi difícil; para Caim foi desastrosa[9]

Keil & Delitzsch nos lembram que tal punição não era demasiada, pois “a terra foi obrigada a beber o sangue inocente,[e] ela se rebela contra o assassino, e quando ele cultivá-la, ela irá retirar a sua força, de modo que a terra não possa produzir[10]”. Se o homem havia sido criado para encontrar no trabalho satisfação, Caim está fadado a nem nisto ter satisfação. “Ele foi banido para uma parte menos produtiva da terra, removida da presença de Deus e da sociedade de seu pai e sua mãe, e abandonado a uma vida errante e incerteza. A sentença de morte já tinha sido pronunciada sobre o homem[11]”.

…serás fugitivo e errante pela terra: O aspecto final da punição de Deus para Caim seria a vida de um “vagabundo”. O termo hebraico usado para descrever o castigo de Caim como fugitivo é o mesmo termo que Deus emprega para destinar o povo de Israel no futuro a vagar pelo deserto. O sentido é claramente um desalojar de Caim, para que perca os benefícios da vida próxima a família (com quem ele parece não conviver bem) para que viva à mercê da benevolência de outras pessoas, pois sua sentença de morte já estava lançada. Dois substantivos similares são usados nessa sentença e o sentido é reforçar a idéia. Invés de se tomar como duas características como a ARA fez, seria adequado tomá-las como descrição de uma mesma ação, como a BJ: “Serás fugitivo errante”.

Não posso suportá-lo: Ao ouvir sua sentença Caim admite ser demasiadamente pesado o seu fardo. A questão de Caim era que a punição parecia desproporcional com o crime, e como poderíamos esperar, Caim está unicamente preocupado consigo mesmo. Observe que em uma pequena sentença (v.13-14) ele conseguiu empregar o pronome pessoal 7x vezes. Sobre isso Krell diz:

“Tudo com o que Caim se preocupava era com ele mesmo. Não foi medo ou reverência a Deus, não foi o lamento pela perda de vida inocente, nem tristeza pelo pecado nem alguma consideração para com seus pais que tragicamente perderam um filho com o assassinato e estavam a ponto de perder o outro por causa da rebelião. Houve apenas uma preocupação consigo mesmo. O assassino tem medo de ser morto[12]”.

É interessante que o assassino tenha medo de morrer, mas é um fato que o pecador tem que encarar. O mentiroso sempre está alerta a mentira, o infiel sempre desconfiado, o ladrão sempre receoso. O pecado marca de tal forma o pecador que o que ele faz para outros, espera receber de outros. É por isso que Deffinbaug diz:

“As palavras de Caim soam familiares a qualquer pai. Às vezes uma criança está sinceramente triste por sua desobediência. Em outras está apenas triste por ter sido pega, e lamenta amargamente a severidade do castigo que vai receber. Tudo o que Caim faz é repetir amargamente sua sentença, e expressar seu medo de que os homens o tratem da mesma maneira que ele tratou seu irmão[13]”.

2. Graciosa Punição Divina

Qualquer que matar a Caim: Apesar da punição, Deus também ofereceu uma promessa. A declaração não era uma garantia de que Caim não seria assassinado, mas de que, aquele que o matasse, teria sobre si a vingança punitiva de Deus multiplicada por sete. Isso significa que a punição contra essa pessoa será “sete vezes maior do que Caim, ou seja, ele deve ser extremamente punido; a vingança deve ser tomada sobre ele de uma forma muito visível, e em outro patamar, mais elevado[14]”. O targum de Onkelos sugere que a punição será em sete gerações, o que demonstra que o entendimento da passagem era de uma vingança ainda maior contra Caim. O sentido dessa punição demonstra para Caim que, embora ele mesmo não tenha dado valor a vida humana, Deus a valoriza de tal modo que garante que Caim não seja morto.

Pôs o Yahweh um sinal: A demonstração da Graça de Deus avança ainda mais, pois além de assegurar que o assassinato de Caim seria vingado pelo próprio Deus, Yahweh coloca um sinal em Caim com o objetivo de protegê-lo de pessoas que o encontrassem. Não temos certeza de que tipo de sinal o texto está nos falando. Três propostas são oferecidas: (1) Um sinal físico, como quem sabe uma marca na pele, uma espécie de tatuagem. (2) Um evento; um sinal como um evento que relembre os homens do valor da vida humana; (3) Antigos rabinos chegaram a afirmar que um cachorro iria ao lado de Caim como proteção. Embora não saibamos com exatidão que tipo de sinal é esse, é certo que o objetivo esse sinal era a proteção da vida de Caim, que protege a Caim da recriminação.

E saiu Caim da presença de Yahweh: O retrato final da sentença de Caim é similar ao que vemos em Adão e Eva, que foram colocados fora do Éden, mas de Caim é dito que ele foi expulso da Presença de Yahweh. A impressão que temos com essa declaração é que Deus encaminhou Caim a vaguear pela terra, e ele foi. Agora sem alternativas, Caim parece ter cumprido a primeira ordem de Deus. “O retirada de Caim da proximidade do afeto dos pais, dos relacionamentos familiares, e da manifestação divina, deve ter sido acompanhada de profundo e ulterior sentimento de arrependimento e remorso. Mas um profundo e recorrente transgressor e ele deve sofrer as conseqüências[15]”.

Terra de Node: “O nome Node denota uma terra de transição e exílio, em contraste com Éden, a terra do deleite, onde Yahweh andava com o homem[68]”. “Alguns sugerem que este versículo deve ser assim traduzido: ‘e Caim saiu da presença do Senhor, a leste do Éden, e habitou como um errante na terra’; assim a maldição pronunciada sobre ele em Gn.4.12, foi realizada[16]”.

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Outros artigos da série:

  1. A religiosidade de Caim:
    Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão. Os detalhes da biografia não são claros, e temos por certo que o texto apresenta apenas pedaços de cenas da vida de Caim. Entretanto, a partir das poucas palavras das escrituras, podemos aprender muito sobre a insuficiência de religiosidade no que se refere ao relacionamento com Deus.
  2. A rebeldia de Caim:
    A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.
  3. A inesperada graça Divina:
    Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.
  4. O assassinato de Abel:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.
  5. Graciosa ira divina:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.
  6. Abel, o irmão:
    O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.
  7. Sete, o outro irmão:
    Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.

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Notas

[1] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible.(http://www.freegrace.net/gill/).

[2] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[3] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[4] Gerhard VonRad, Genesis (Philadephia: The Westminster Press, 1972), p. 106.

[5] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[6] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[7] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[8] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[9] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[10] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[11] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[12] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[13] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[14] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible.(http://www.freegrace.net/gill/).

[15] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[16] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[17] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible.(http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)