Abel, o irmão de Caim


O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.

Note que nenhuma declaração a respeito de Abel é dada no texto. Sobre Caim, Eva apresenta uma bela afeição, ao passo que nada mais se diz se não que Abel era pastor de ovelhas. A completa faltar de informações, além de nome e profissão, nos faz pensar que Caim tinha sido o filho esperado e que Abel teria vindo como conseqüência natural da existência humana.

Alguns pensam que Caim e Abel eram gêmeos[1], opção que não parece descrever a situação dos irmãos. O que se tem por certo é que a história de Caim e Abel parece iniciar a visão bíblica de que nenhum primogênito seria de fato o filho de quem Deus se apraz, ou escolhe, até que O Primogênito da Criação apareceu sobre a terra, Deus encarnado.

1. A Adoração de Abel

O que podemos perceber é que, a semelhança de Caim, Abel também se aproximou de Deus com sua oferta. Entretanto a descrição de sua oferta é tanto diferente do que se vê com Caim.

Pastor de Ovelhas: Abel era um pastor de ovelhas (2), uma profissão nobre, pois numa época em que os homens ainda não comiam carne (veja 9.3), ovelhas serviriam para pelo menos 2 propósitos: 1) Cobrir a nudez do homem, que tem precedente no próprio ato de Deus (3.21) e 2) Servir de oferta, um sacrifício pelo pecado, também conforme o modelo de Deus (3.21)[2].

Primícias de seu Rebanho: Note que a oferta de Abel foi similar a oferta feita por seu irmão Caim. Caim era lavrador e ofereceu o fruto do seu trabalho. Abel era pastor de ovelhas e trouxe a Yahweh o fruto do seu trabalho. Por outro lado, note que o silêncio agora é sobre a qualidade da oferta dada por Caim. A oferta de Abel era uma oferta das suas primícias. O termo hebraico “bekowrah” é usado poucas vezes no AT, e normalmente significa primogênito (Gn.43.33), ou até mesmo primogenitura (Gn.25.31). O sentido expresso aqui é bem captado pelas antigas versões portuguesas que verte a expressão como “primogênitos do seu rebanho”. A idéia que se tem desse texto é que Abel trouxe o que tinha de melhor. Seria isso um contraste com a oferta de Caim? Diante do caráter que Caim apresenta nesse capítulo não seria de se estranhar que sua oferta tivesse sido de baixa qualidade. Contudo, sobre isso, podemos apenas inferir. O que é certo é que Abel ofereceu do que tinha de melhor.

Yahweh se agradou de Abel e sua oferta: Como já temos demonstrado, Deus se agrada primeiramente de Abel e conseqüentemente de sua oferta. Isso me sugere que tal ordem é importante: A aceitação da oferta depende do coração do ofertante. Como Abel pode perceber que Deus aceitou sua oferta? O texto não especifica e muitas especulações são feitas sobre o assunto. “O olhar do Senhor em todo caso, é um sinal visível de satisfação. É opinião comum e antiga que o fogo consumiu o sacrifício de Abel e, assim, mostrou que foi gentilmente aceitou[3]”. Seja como for, tanto aprovação como reprovação foram claramente percebidos por Caim e Abel.

2. A Reputação Bíblica de Abel

O texto de Gênesis 4 nos oferece poucas informações sobre Abel, contudo sua reputação transcende as páginas do Antigo Testamento. Autores neotestamentário ao lançarem os seus olhos sobre o AT encontraram em Abel definições de um homem digno de atenção.  Sua fé, oferta, atitude e caráter são apresentados no NT como declaração de um homem justo.

Diante disso, comentaristas tem afirmado que Abel é, sem dúvidas, um exemplo para os cristãos em todos os tempos. Merckh, por exemplo, entende que Abel “representa o povo de Deus, fiel, com coração sincero, inocente, que adora a Deus em espírito e verdade, resplandescendo como luzeiros no mundo pervertido e corrupto[4]”.

Caráter: Ainda sobre Abel, Jesus afirma: “Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar” (Mt.23.34-35). Com esses dois versos aprendemos:

  1. Que Jesus reputava a Abel como um profeta: “eis que eu vos envio profetas”. Não sabemos ao certo que tipo de profeta ele teria sido, mas o fato de Jesus iniciar por Abel e finalizar com Zacaraias (uma impressionante demonstração da extensão do Canon vétero-testamentário) confirma a idéia que Jesus tinha a respeito de Abel.
  2. Que Jesus reputava a Abel como um mártir: “o sangue justo derramado sobre a terra”. Abel é listado como o primeiro que morreu, cujo sangue será Vingado por Deus (Ap.6.9-10).
  3. Que Jesus reputava Abel como Justo: “o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias”. Duas vezes Jesus usa o termo “justo” (Gr. diakiós) para descrever a Abel, uma vez em referência a seu sangue e outro em relação a sua pessoa.

Oferta: No que se refere à sua oferta, o autor de Hebreus nos diz: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb.11.4). Desse texto retiramos as seguintes observações:

  1. O autor de Hebreus entendeu que o sacrifício de Abel teria sido mais excelente, o que sugere também a diferença de qualidade entre as ofertas. Alguns tem objetado à essa conclusão, em função de que o uso normal do adjetivo “pleíona” descreve algo maior em quantidade (Mt.21.36; Mc.12.43; Lc.21.3). Contudo, o sentido qualitativo do termo é claramente encontrado no NT (Mt.6.25; 12.41, 42; Mc.12.33; Lc.11.31, 32; 12.23) e perfeitamente concebido aqui em Hebreus.
  2. O autor de Hebreus defende que Abel, em função da sua oferta, teria otestemunho de ser justo. De onde proveio tal testemunho? O autor de Hebreu diz que sua oferta, apesar de ter sido ele morto, ainda fala. Ou seja, o exemplo registrado em Gênesis serve como fundamento para se descrever Abel como um homem justo. O termo justo (Gr. dikaiós) descreve uma pessoa honesta, boa, reta. Essa definição do caráter de Abel é confirmado pela opinião de Jesus a seu respeito.
  3. O autor de Hebreus confirma o fato de que a oferta de Abel fora aprovada por Deus. Na verdade o termo que descreve aprovação é testemunhar (Gr.martureö). O sentido aqui é que Deus testificou sua oferta e a aceitou.
  4. O autor de Hebreus também defende que a oferta de Abel teria sido pela fé. É bem possível que Abel tenha sido fiel a Deus no exercício de sua adoração, ao passo que seur irmão teria inventado seu próprio modo de adorar a Yahweh. A aceitação da oferta de Abel certamente foi recebida por Deus em função de sua qualidade, mas especialmente por sua fé!

Atitudes: Sobre Abel, o apóstolo João diz: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo.3.11-12). A equiparação que João oferece entre Caim e Abel demonstram ao menos que as atitudes de Abel seguiam seu caráter, conforme já demonstrado por Jesus e o autor de Hebreus. Era de se esperar que um homem cujo caráter é justo, que suas ações seguissem seu caráter.

Em simples palavras, Abel foi o que Caim deveria ter sido e também serve de exemplo para nós cristãos.

  • Abel é um exemplo da adoração a Deus que manifesta diante dos homens que ele era justo!
  • Abel é um exemplo de fé, que apesar das poucas informações que tinha a respeito de Deus e sobre Sua adoração, o fez corretamente!
  • Abel é um exemplo de justiça, pois foi morto em função de sua adoração e fé genuína.

Agora, você deve se perguntar: Com que você se parece mais, Caim ou Abel? Que exemplo você tem seguido?

Que Deus os abençoe!

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Outros artigos da série:

  1. A religiosidade de Caim:
    Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão. Os detalhes da biografia não são claros, e temos por certo que o texto apresenta apenas pedaços de cenas da vida de Caim. Entretanto, a partir das poucas palavras das escrituras, podemos aprender muito sobre a insuficiência de religiosidade no que se refere ao relacionamento com Deus.
  2. A rebeldia de Caim:
    A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.
  3. A inesperada graça Divina:
    Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.
  4. O assassinato de Abel:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.
  5. Graciosa ira divina:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.
  6. Abel, o irmão:
    O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.
  7. Sete, o outro irmão:
    Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.

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Notas

[1] Adam Clarke, John Gill apresenta a possibilidade.

[2] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[3] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[4] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)