Sete, o outro irmão de Caim


Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.

1. Deus Renova a Esperança

A impressão que temos ao ler Gn.4 é que aparentemente a promessa de Gn.3.15 parece estar mais longe do cumprimento do que se esperava. Enquanto as expectativas de Eva pareciam favorecer Caim como o descendente que terminaria o domínio da serpente, ele acabou por se tornar o assassino de seu irmão.

“Esta passagem completa o relato da família de Adão. Desse ponto em diante, nós geralmente encontramos com duas linhas paralelas da narrativa, como a família humana está dividida em dois grandes ramos, com interesses opostos e tendências. A principal linha refere-se ao resto da raça que está em termos de reconciliação aberto com Deus, enquanto uma linha colateral demonstra, tanto quanto necessário, o estado daqueles que partiram do conhecimento e no amor do Deus verdadeiro[1]

…a quem pois o nome de Sete: É interessante notar que o trocadilho realizado por Eva ao fala sobre Caim, acontece doutra forma aqui. O termo hebraico “Sheth”, que foi transliterado como descrição do nome de Sete, é uma forma similar do verbo “Shyit” que significa apontado, indicado, concedido. Assim, mais uma vez o nome do descendente de Adão tem alguma relação com a declaração de Eva. “Eva esperou pela salvação através de seu primeiro filho, Caim. Certamente não viria dele ou de seus descendentes. Nem poderia vir de Abel. Mas um outro filho foi dado, cujo nome, Sete, significa “apontado” (ou nomeado). Ele não foi apenas um substituto para Abel (verso 25), ele foi o descendente através do qual nasceria o Salvador[2]”. Sobre isso, Clarke completa:

“Eva deve ter recebido, nesta ocasião, alguma comunicação divina, mais como ela poderia saber que o filho foi nomeado no lugar de Abel, para continuar essa linha de santo pelo qual o Messias estava para vir? Daí se vê que a linha do Messias foi determinado desde o início, e que não foi corrigido pela primeira vez nos dias de Abraão, a promessa era então apenas renovado, e que o ramo de sua família designada por que a linha foi sagrado deve ser prosseguido. E é digno de nota, que a posteridade de Sete só continuou após o dilúvio, quando todas as outras famílias da terra foram destruídos[3]

Deus me concedeu outro descendente: Um detalhe interessante é observado aqui: Eva não usa o nome de Deus. Alguns tem sugerido que sua fala representa uma certa decepção, e por isso evita o nome do Senhor. Contudo, segundo a narrativa é perceptível que ela está aliviada com a possibilidade de ver a promessa de Gn.3.15 cumprida pelo substituto de Abel. O uso do termo mais genérico para descrever a Deus (hb. Elohim) apenas demonstra como esses dois termos são intercambiáveis. Keil & Delitzsch vêem ainda outra razão para o fato:

“O que Caim (maldade humana) tira dela [Eva], Elohim (onipotência divina) havia restaurado restaurado. Devido a essa antítese que chama o doador Elohim, em vez do Yahweh, e não porque as suas esperanças tinham sido, infelizmente, deprimidas por sua experiência dolorosa em conexão com o primogênito[4]

2. Deus restaura a verdadeira Adoração

A narrativa de Abel e Caim demonstra um fato interessante: ainda que os seres humanos em sua estrema vileza e maldade possam agir contra os propósitos de Deus, o Soberano Senhor, Yahweh, detém o controle de toda a história e está comprometido em cumprir sua palavra e por isso Seus Planos não são frutrados. Ainda que Caim intentasse contra o Senhor, Yahweh age misericordiosamente com Caim e com seus pais, dando-lhe um filho que seria progenitor de um povo que passou a invocar o nome do Senhor.

…pôs o nome Enos: A descrição da curta genealogia apresentada de Sete no capítulo 4 serve como ilustração da distinção entre a descendência de Caim e Abel. Enquanto os descendentes de Caim são marcados pela maldade, vingança, sentimento de soberba e assassinato, a descendência de Sete, o substituto de Caim, é marcado pela verdadeira adoração a Yahweh. Tudo o que sabemos sobre Enos é que ele é conectado com Sete e Noé, sendo considerado na maior genealogia do povo de Yahweh em 1Crônicas (1Cr.1.1) e associado a Cristo em sua genealogia (Lc.3.38). Essa relação entre Sete e Cristo demonstra historicamente que a promessa de Deus foi plenamente cumprida e demonstra definitivamente que Seus Planos não podem ser frustrados (Jo.42.2).

É interessante que alguns comentaristas, como Keil & Delitzsch, defendem que o nome de Enos deriva de um verbo que significa ser fraco, frágil o que designa a sua condição frágil e mortal. Sobre o assunto, ainda acrescenta que “neste nome, portanto, o sentimento e o conhecimento da fraqueza humana e sua fragilidade foram expressos[5].

Invocar o Nome do Senhor: O que significa a expressão “invocar o nome do Senhor” é fruto de debates. Uma opinião interessante é que a partir de Enos, os seres humanos passaram se chamarem pelo nome do Senhor. Ou seja, não trata-se primeiramente de uma adoração, mas de uma identidade adoradora. Sobre isso Clarke diz: “os homens começaram a chamar-se pelo nome do Senhor, essas palavras demonstram que no tempo de Enos os verdadeiros seguidores de Deus começaram a distinguir-se, e ser distinguido por outros, pela denominação de filhos de Deus[6]”.

Ross opta por ver nessa expressão da proclamação do nome de Yahweh[7]. Uma vez que o termo hebraico  “shem” (nome) é seguida do nome próprio Yahweh, e que o mesmo termo é empregado para descrever o caráter ou atributos de uma pessoa (Is.9.6), pode-se supor que o texto trata da proclamação da Pessoa e Caráter de Yahweh. Walter Elwell, de modo similar, entende que o texto fala da adoração pública a Yahweh. Para ele o texto trata da inauguração da verdadeira adoração a Yahweh (Gn.12.8, 13.4; 16.13; 21.33; 26.25) [8]. Waltke entende que pelo fato de Enos significar fraqueza, fragilidade, a humanidade voltou-se para Deus em adoração (Sl.149.6) [9]. Finalmente, Krell entende que todas essas declarações apontam para o fato de que o homem não irá voltar-se a Deus enquanto não reconhecer sua fragilidade e inabilidade de agradar a Deus em sua própria força. Assim, “o primogênito de Caim e seus sucessores foram pioneiros na civilização, enquanto o primogênito e seus sucessores foram pioneiros na adoração[10]”. Seja como for, em Enos vemos o início da progressão da fé, que suponho ter sido passada desde Adão.

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Outros artigos da série:

  1. A religiosidade de Caim:
    Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão. Os detalhes da biografia não são claros, e temos por certo que o texto apresenta apenas pedaços de cenas da vida de Caim. Entretanto, a partir das poucas palavras das escrituras, podemos aprender muito sobre a insuficiência de religiosidade no que se refere ao relacionamento com Deus.
  2. A rebeldia de Caim:
    A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim tenha realizado um ato de adoração a Yahweh, ele não o fez corretamente. Provavelmente sua atitude o desqualificou como adorador, o que fez com que sua oferta fosse rejeitada. No estudo de hoje, vamos verificar os resultados dessa rejeição da vida de Caim e como ele resolveu reagir a ela.
  3. A inesperada graça Divina:
    Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.
  4. O assassinato de Abel:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.
  5. Graciosa ira divina:
    É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Caim estava tão irado, que nem mesmo Deus o conseguiu convencer de sua obstinação. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.
  6. Abel, o irmão:
    O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.
  7. Sete, o outro irmão:
    Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz apenas sobre mais um dos seus filhos: Sete.

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Notas

[1] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[2] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[3] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible.(http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[4] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[5] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[6] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible.(http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[7] Uso desta expressão no Pentateuco apoia mais a ideia da proclamação mais do a da oração (cf. Gn 12:8; Êxodo 34:6, Levítico 1:1). O significado do [termo hebraico] shem, “nome”, também exige a interpretação, já que a palavra é, na verdade, seguido do nome próprio. A palavra “nome” também se refere a características ou atributos (ver Isaías 9:6). A ideia desta linha é que as pessoas começaram a fazer a proclamação sobre a natureza do Senhor (“começou a fazer a proclamação do Senhor por nome”).. Ross, Creation & Blessing, 169. IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[8] Muito antes de Deus revelar-se plenamente como o Senhor a um povo chamado Israel (Ex 3:6), ou até mesmo para os patriarcas, há pelo menos um pequeno grupo de pessoas que compreender a identidade do verdadeiro Deus.Cf. Walter A. Elwell, ed., Evangelical Commentary on the Bible (Grand Rapids: Baker, 1989), Electronic Ed. IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[9] Waltke, Genesis, 101. IN: IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[10] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)