O Cristão e a Plenitude Divina


“Portanto, vede diligentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, usando bem cada oportunidade, porquanto os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito” (Ef.5.15-18)

As escrituras são claras quanto as demandas morais esperadas do cristão: Ele deve manter um padrão exemplar entre os não cristãos (1Pe.2.15ss), em obediência aos mandamentos de Cristo (1Jo.2.3ss) e aos mandamentos da lei (Rm.8.4) na demonstração de amor a Deus (Mt.22.37; Mc.12.30) e aos outros (Rm.13.8; Gl.5.14). Entretanto, é importante afirmar que Deus não espera que o homem por sua força atinja tal padrão. O ser humano caído e resgatado pela Graça pode somente pela Graça alcançar as exigências divinas do cristianismo. Por isso mesmo é que o próprio Deus providencia o Espírito Santo como agente divino no homem para habilitá-lo a cumprir as exigências da lei:

Porque, aquilo que a Lei fora incapaz de fazer, por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado. E assim condenou o pecado na carne,  a fim de que as justas exigências da Lei fossem plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm.8.3-4)

Em outras palavras, o cristão é habilitado satisfazer plenamente as exigências Divinas quando vive em conformidade com o Espírito Santo. Ou seja, a identidade do cristão com Cristo é intrinsecamente dependente do grau de dependência do cristão ao Espírito Santo. O cristão dependente do Espírito Santo manifestará os frutos que somente o Espírito Santo pode produzir (Gl.5.22-23) e será, portanto, habilitado por Ele a manifestar os princípios morais da experiência cristã esperada por Deus: Isso o tornará mais parecido com Cristo. O cristianismo não é uma forma moralismo legalista como se o ascetismo auto-causado fosse de algum proveito.

O cristianismo é um relacionamento com Deus, por meio de Cristo e Seu Espírito. É apenas na experiência trinitária (Ef.1.3-14) que se pode desfrutar da plenitude divina (Ef.3.16-19) na experiência humana (2Pe.1.3-4).

Se nossa definição está correta, então a maturidade Cristã é apenas possível por meio da ação do Espírito Santo. Por isso, nesse post gostaria de (1) apresentar evidências bíblicas para a agência divina do Espírito Santo no cristão, (2) demonstrar o sentido e o resultado da plenitude do Espírito Santo e por fim (3) apresentar o Espírito Santo como O instrumento para a Plenitude da Divindade no cristão.

1. Evidências Bíblicas da Agência Divina do Espírito Santo

Antes de comentarmos sobre o assunto, uma nota sobre o sentido do termo agência é necessária. Com esse termo não estamos enfatizando o fato de que o Espírito Santo é o agente que realiza a ação, mas o instrumento pelo qual a ação é realizada. Entretanto, o fato de ser o instrumento da ação não significa que Ele o é de forma passiva. Pelo contrário, Ele é o ente intermediário pelo qual a ação é realizada,  não como um meio impessoal, mas como ente divino.

A. Salvação

Em primeiro lugar, o Espírito Santo está diretamente relacionado à Obra Divina da aplicação da Salvação. Enquanto o decreto salvífico encontra seu agente no Deus Pai (Ef.1.4-5), o execução no Filho (Ef.1.6) a aplicação da salvação é perfeita pelo Espírito Santo. É Ele quem convence o homem do pecado, da justiça e do Juízo (Jo.16.8-11), que opera a regeneração no homem (Tt.3.5; cf. Rm.2.29 – περιτομὴ καρδίας ἐν πνεύματι descreve o meio pelo qual a circuncisão do coração é realizada) e então possibilita a fé (1Co 2.4; 2Co.4.6). Ele é  recebido pelo homem por meio da fé (At.8.15, 17; 10.47; 19.2) como o ente que procede de Deus (1Co.2.12) após a pregação do evangelho (Gl.3.2), e passa a habitar no homem (Rm.8.9; 1Co.6.19) e a conviver com ele (Jo.14.16-17). Por meio do Espírito Santo o homem é batizado (Mt.3.11; Mc.1.8; Lc.3.16; Jo.1.33; At.1.33; 11.16; cf. αὐτὸς ὑμᾶς βαπτίσει ἐν πνεύματι– o Espírito não é o conteúdo do Batismo, mas o meio pelo qual o batismo é realizado) no momento de sua conversão (At.1.15; cf. 10.44-48; 11.15-18) em uma experiência una e indivisível (Ef.4.5; 1Co.12.13 –  ἐβαπτίσθημεν indica uma ação não repetível). No salvo, o Espírito se torna a garantia (2Co.1.22; Ef.1.13; 4.30) da salvação futura (Rm.8.29-30).

B. Experiência da Salvação

Em segundo lugar, o Espírito Santo está diretamente relacionado à Vida Cristã. Ele é quem guia o cristão toda a verdade (Jo.16.13a) como o ente que proclama ao cristão (Jo.16.13b) tudo o que recebera de Cristo (Jo.16.14), que por sua vez recebeu do Pai (v.15). É Ele quem oferece ao cristão o conhecimento da verdade (1Jo.2.20) por que é Ele quem ensina o cristão todas as coisas (1Jo.2.27). O Espírito Santo direciona o cristão em conformidade com sua Vontade (At.8.29; 10.19-20; 13.2, 4; 16.6-7; 20.22-23). Ele também está intimamente relacionado à oração do cristão, seja na orientação do conteúdo em conformidade com Sua Vontade (Ef.6.20) ou na parceria com o cristão em sua oração (Rm.8.26; Jd.1.20). A experiência do amor de Deus na vida do cristão é também dependente da ação instrumental do Espírito Santo (Rm.5.5 – διὰ πνεύματος).

C. Santificação

Em terceiro lugar, o Espírito Santo é o ente divino por meio de quem a Santificação pode ser alcançada. A vida cristã e espiritual é completamente dependente da ação do Espírito como o ente instrumental da santificação, pois somente pela ação intermediária do Espírito Santo é que o cristão pode mortificar a carnalidade (Rm.8.13). O Espírito é o ente divino que estabelece o meio pelo qual a vida cristã pode ser vivida em sua plenitude (Gl.5.16). É Ele quem guia o cristão à santidade (Rm.8.14; Gl.5.17-8) por que Ele é também o modelo da santidade divina (Gl.5.25), em conjunto com o Pai (1Pe.1.16; Lv.11.44-45) e com o Filho (1Jo.2.6; cf. Jo.13.15). Isso não isenta o homem de sua insistente e repetida luta contra os desejos da carne (1Co.9.27; Gl.5.24; Ef.4.22ss; Cl.3.5ss; Tt.2.12ss; 1Pe.2.11s), mas que tal empenho deve ser realizado debaixo da ativa dependência do Espírito Santo, como Aquele que oferece vida (Jo.6.63; Rm.8.2, 10; 2Co.3.6; 1Pe.4.6) e vida eterna durante sua experiência nesta terra (Gl.8.6). O cristão pode apenas satisfazer as exigências da lei se viver em conformidade com o Espírito Santo (Rm.8.4), pois apenas o Espírito Santo pode produzir em sua vida os elementos morais do evangelho (Gl.5.22-23).

D. Ministério

Em quarto lugar, o Espírito Santo é o ente divino por meio de que o Ministério Cristão é possível. Os dons ministeriais são soberanamente administrados pelo Espírito (1Co 12.11), de modo que a variedade ministerial é, em última análise, responsabilidade do Espírito Santo (1Co.12.8-10). Nesse sentido o Espírito é co-agente com Cristo (Ef.4.11), e portanto partilha com Ele que o objetivo dos dons é o aperfeiçoamento dos santos para o serviço ministerial (v.12). É Ele quem possibilita o serviço agradável a Deus (Fp.3.3), por que é Ele quem santifica as ações ministeriais humanas (Rm.16.16) e capacita o homem a agir em conformidade com a santidade do evangelho (Rm.15.19). É o Espírito Santo quem garante a ortodoxia no ensino cristão, por que Ele é o ente divino responsável pela inspiração do AT (1Pe.1.10-11; Mt.22.43; At.4.25; 2Pe.1.20-21; cf. 2Tm3.16 – θεόπνευστος como indicativo da ação conjunta do Pai e do Espírito Santo), pela garantia da veracidade dos ensinos de Cristo tal como ensinado pelos Apóstolos (Lc.12.12; At.1.2; Jd.1.17; Jo.14.26; 16.13) e pela direção dos apóstolos e profetas neotestamentários na produção dos escritos do NT (1Pe.1.12; Ef.3.5; cf. 2.20). A própria divindade de Cristo só pode ser reconhecida por meio da ação divina do Espírito de Deus (Mat.16.16; 1Co.12.3; 1Jo.4.2-3; Jo.15.26). Em outras palavras, a garantia da ortodoxia cristã é em última analise dependente da ação do Espírito Santo (1Co.2.13).

Por fim, o Espírito Santo é quem pode “encher” o cristão, assunto que analisamos com detalhes abaixo.

2. A natureza e o resultado da Plenitude do Espírito Santo

A. Natureza da Plenitude do Espírito Santo

Temos que admitir que a natureza da plenitude do Espírito Santo no cristão deve ser coerente com experiência do nosso Mestre. Jesus Cristo é apresentado por Lucas como cheio do Espirito Santo (Lc.4.1) e que realiza as mais simples tarefas do seu ministério na dependência da força do Espírito Santo (Lc.4.14). Ele manifesta sua alegria em conformidade com o Espírito Santo e manifesta Seu louvor a Deus (Lc.10.21). Em Cristo a Plenitude do Espírito Santo foi manifesta como uma declaração de intimidade com Deus, por meio do Espírito Santo. Tal intimidade foi também reconhecida no fato de que, cheio do Espírito Santo, Cristo foi levado pelo Espírito Santo para ser tentado durante quarenta dias no deserto (Lc.4.1-2). A vitória na experiência da tentação de Cristo foi manifesta em sua dependência do Espírito Santo como exemplo para os cristãos de todas as eras.

Deve se notar também, que a experiência dos cristãos com o Espírito Santo foi apresentada de modo mais abrangente, sem em nenhum momento distorcer a imagem apresentada do nosso Senhor. Em conformidade com a experiência de Cristo, os cristão também experimentaram a plenitude do Espírito Santo. Diferente das descrições do batismo performado por Cristo, no qual Ele mesmo batizaria os cristãos por meio do Espírito (ἐν πνεύματι), as descrições da plenitude do Espírito, seja em Cristo ou nos discípulos, o Espírito Santo é descrito como o conteúdo de tal enchimento (πλήρης πνεύματος – cf. Lc.4.1; At.6.3, 5; 7.55; 11.24; ἐπληροῦντο […] πνεύματος – At.13.52).

O Espírito Santo é o ente divino que habita no cristão e nele está em todo o tempo. Após a conversão, no qual o Espírito Santo é recebido (At.1.8; 10.44) e nele permanece, e por isso mesmo é que como ente divino pode ser entristecido (Ef.4.30). Entretanto, a plena experiência da presença do Espírito Santo é dependente do grau de conformidade moral/espiritual do cristão para com Deus na manifestação da dependência ativa do Espírito Santo. Isso explica por que existem cristãos cheios do Espírito Santo em contraste com aqueles que não estão. Dessa forma, a plenitude do Espírito não é uma bênção recorrente ou posterior à salvação, mas a extensão prática e experiencial da benção da salvação. Nesse sentido, estamos afirmando que a natureza da plenitude do Espírito Santo é a experiência de dependência dEle na luta contra o pecado e a favor do Reino de Deus. Isso pode ser melhor percebido na apresentação dos resultados da plenitude do Espírito Santo.

B. Os resultados da Plenitude do Espírito

Os resultados da plenitude do Espírito Santo nas escrituras são claros e almejáveis. O cristão que hoje vive na dependência do Espírito Santo poderá perceber em sua vida uma variedade de manifestações espirituais, tais como as listadas abaixo.

1. Imersão no Ministério

Em primeiro lugar, a pessoa cheia do Espírito Santo é habilitada ao ministério. A igreja primitiva quando iniciou sua procura por homens que pudessem servir à comunidade cristã, busco homens cheios do Espírito Santo (At.6.3).

(1) Estevão: De acordo com o texto, esses homens também tinha um bom testemunho daqueles que não faziam parte da comunidade (cf. 1Tim.3.7) e também eram reconhecidos como homens cheios de sabedoria. A sensatez intelectual não era um empecilho para a abundante espiritualidade, na verdade ela era paralela e confluente. Entre os escolhidos pela igreja primitiva, encontrava-se Estevão, que é descrito como cheio de fé e do Espírito (At.6.5 – πλήρης πίστεως καὶ πνεύματος ἁγίου), cheio de graça e poder (At.6.8 –πλήρης χάριτος καὶ δυνάμεως), que era habilitado pelo Espírito Santo para realizar sinais e prodígios e ensinar a verdade de tal forma que seus opositores não o podiam responder (At.6.10), por que ensinava em conformidade com o Espírito de Deus. Tamanha foi sua fidelidade a Deus e ao evangelho de Cristo, que cheio do Espírito Santo Estevão foi morto por seus opositores (At.7.55).

(2) Barnabé: Outro homem chamado nas escrituras de cheio do Espírito Santo foi Barnabé. Por causa da perseguição em Jerusalém, os cristãos foram dispersos pelo mundo antigo (At.8.1) e eles pregavam o evangelho por onde passavam (At.8.4). O evangelho, por fim, chegou a Fenícia, Chipre, Cirene e Antioquia (At.11.19-20) e Barnabé foi comissionado pela igreja de Jerusalém para verificar a situação do evangelho, e ao tomar conhecimento dos acontecimentos, muito se alegrou com os irmãos. Isso aconteceu por que Barnabé era um homem cheio do Espírito Santo e de fe (At.11.24). Por isso, dizemos que um homem cheio do Espírito Santo se alegra com a expansão da igreja de Cristo. Posteriormente, ele mesmo fora selecionado pelo Espírito para tornar-se missionário, por que homens cheios do Espírito Santo proclamam o evangelho. Um homem cheio do Espírito Santo, como Barnabé, é capaz de vender suas propriedades para auxiliar os necessitados na igreja (At.4.37).

2. Pregação do Evangelho

Em segundo lugar, um homem cheio do Espírito Santo prega ousadamente o evangelho. Essa é uma recorrente afirmação do livro de Atos: Pedro cheio do Espírito Santo ousou apresentar o evangelho diante da liderança de Israel que o tinha prendido (At.4.8). A igreja de Jerusalém, depois de enfrentar mais uma perseguição, orou pedindo a Deus que pregassem o evangelho ousadamente (At.4.29), e depois de ficarem cheios dos Espírito Santo, anunciavam a palavra com toda intrepidez (At.4.31). Paulo também se enquadra nessa categoria (At.9.15, 17, 20).

3. Confrontação do erro

Em terceiro lugar, um homem cheio do Espírito Santo confronta o erro destemidamente. Durante o ministério de Paulo e Barnabé, eles tiveram o privilégio de anunciar o evangelho ao proconsul de Pafos, chamado Sergio Paulo. Este estava acompanhado de um homem chamado Barjesus, mágico falso profeta, também conhecido como Elimas o mágico, que atrapalhava o ministério dos apóstolos. Então, cheio do Espírito Santo, Paulo fixando os olhos nele o advertiu dizendo: “Filho do diabo, cheio de todo o engando e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor?” (At.13.9-10). João Batista, o profeta cheio do Espírito desde o ventre materno acabou morrendo por suas ferrenhas exortações da imoralidade da liderança de Israel (Mt.14.1-12; Mc.6.14-29; Lc.9.7-9).

4. Profecia e Louvor

Em quarto lugar, um homem cheio do Espírito Santo profetiza em louvor ao Senhor. Ainda que em situações distintas, foi exatamente isso o que aconteceu com Isabel (Lc.1.41ss) e Zacarias (v.67). Ambos cheios do Espírito Santo reconheceram o soberano trabalho de Deus ao enviar Cristo e seu predecessor João Batista. A profecia mencionada nesses texto em nada se assemelha com a previsão do futuro, pois é na verdade uma reflexão piedosa do passado que produz exultação pelos eventos do presente e permite avaliar o futuro. Ambos olhara para a Graça Divina apresentada na história e sendo finalmente concretizada nos seus dias e como resultado de tal reconhecimento, ambos manifestaram seu louvor ao Senhor. João Batista, que dentre os nascidos de mulher é o maior na opinião de Cristo (Lc.7.28), é chamado de Profeta e é considerado cheio do Espírito Santo desde o ventre materno (Lc.1.15).

5. A questão do “falar em outras línguas”

Por fim, um homem cheio do Espírito Santo pode falar em línguas. Nas escrituras encontramos apenas uma descrição de homens e mulheres cheios do Espírito Santo manifestando sua presença por meio de línguas (At.2.4). Entretanto, em duas outras ocasiões um fenômeno similar acontece, no qual ao receberem o Espírito Santo, os cristãos passaram a falar em línguas (At.10.46; 19.6). Quatro detalhes devem ser, entretanto, notados:

(1) As línguas faladas eram idiomas conhecidos: A comunidade cristã quando recebeu o Espírito Santo em Atos 2 passou a falar em outras línguas em conformidade com a ação do Espírito Santo. Ao que o texto parece indicar, falar em línguas foi o resultado do recebimento do Espírito Santo. Entretanto, eles falavam outros idiomas conhecidos (ἑτέραις γλώσσαις) que eram entendidos pelos ouvintes de todo o mundo (At.2.6, 8, 11) que estavam em Jerusalém para a Festa de Pentecostes (At.9-10).

(2) As línguas faladas tinha como propósito proclamar as grandezas de Deus de modo inteligível: Os cristãos que saíram falando em línguas, o fizeram de modo tão inteligível que as pessoas reconheciam que seu próprio idioma (At.2.6) os cristãos estavam anunciando as grandezas de Deus (At.2.11). Deus usou desse evento sobrenatural para anunciar a mensagem de Cristo para pessoas do mundo inteiro que estavam em Jerusalém. Em Atos 10.44, pela primeira vez um gentio de nascimento recebia o Espírito Santo. Isso, apesar de anunciado por Cristo, era inesperado pelos judeus (v.45), que passaram a entender o acontecido pelo fato de falarem em outros idiomas aqueles que haviam ouvido a proclamação do evangelho (v.46). De modo interessante, eles engrandeciam a Deus. Similarmente, em At.19.6 encontramos discípulos de João recebendo o Espírito Santo, falando em outros idiomas e profetizando. Em outras palavras, a manifestação da habilidade de falar em outros idiomas serviu como confirmação do avanço do evangelho no mundo antigo.

(3) As línguas parecem ter sido um fenômeno extraordinário e não recorrente na experiência da igreja primitiva: Apesar de os primeiros cristãos falarem em outros idiomas ao receberem o Espírito Santo, o mesmo não aconteceu três mil que se converteram no mesmo dia (At.2.41), ou que se converteram com a pregação de Pedro dias depois (At.4.4), ou na ação evangelistica da igreja (At.4.31). O mesmo não aconteceu com a pregação de Filipe em At.8, nem em todas as outras pregações de Paulo no decorrer do livro. Apenas em três ocasiões tal fenômeno acompanhou a chegada do Espírito Santo. Não se pode, entretanto, afirmar que as línguas aqui eram resultado de uma segunda benção por que em todas elas, encontramos a primeira experiência dos cristãos. Ou seja, temos que admitir que falar em outros idiomas não é a característica comum do homem cheio do Espírito Santo, até por que outros homens cheios do Espírito Santo não falaram em outros idiomas.

Tendo pois observado a natureza e o resultado da Plenitude do Espírito Santo podemos concluir que a maturidade cristã à estatura de Cristo é possível apenas pela instrumentalidade do Espírito Santo. A Plenitude do Espírito como extensão prática e experiencial da salvação é então manifesta na na luta contra o pecado e a favor da expansão do Reino de Deus.

3. A instrumentalidade do Espírito Santo na Plenitude da Divindade

Uma vez que estabelecemos que o Espírito Santo como ente divino é o agente intermediário na aplicação da salvação, no desenvolvimento da santidade e ministério cristão, e que é Ele quem enche o cristão e o torna maduro no que se refere à sua luta contra o pecado e pleno no exercício do ministério, devemos finalmente nos perguntar como alcançar tal bênção. Nesse momento, temos que atentar para o verso citado no início desse post:

“Portanto, vede diligentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, usando bem cada oportunidade, porquanto os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito [ἀλλὰ πληροῦσθε ἐν πνεύματι]” (Ef.5.15-18)

No que se refere a esse texto e os versos subsequentes, três observações são necessárias.

Em primeiro lugar, a voz do verbo encher nesse verso foi traduzido de modo equivocado. πληροῦσθε é um imperativo passivo e portanto melhor traduzido pela expressão: Deixem-se encher. Nesse caso, a ênfase é completamente diferente da proposta pela tradução oferecida na citação. Ou seja, nossa participação não se encontra na realização de algum bem espiritual, mas na permissão para a abundância da manifestação do Espírito em nossas vidas. É nesse sentido que definimos a expressão dependência ativa. Não se trata de passiva expectativa de intervenção divina, mas na ativa dependência da manifestação do Espírito e suas virtudes em nossa vida.

Em segundo lugar, nesse caso, o conteúdo do enchimento não é o espírito. ἐν πνεύματι é meio pelo qual a plenitude pode ser alcançada e não o conteúdo do enchimento. Isso altera significativamente o sentido do verso supra-citado. Ao invés de lermos enchei-vos do Espírito, deveríamos ler deixem-se encher através do Espírito. Nesse caso, algumas definições são necessárias:

(1) Jesus Cristo é o alvo da plenitude divina: Paulo apresenta a Jesus Cristo como a medida da plenitude divina (Ef.4.13 – εἰς μέτρον ἡλικίας τοῦ πληρώματος τοῦ Χριστοῦ) e o homem perfeito (ἄνδρα τέλειον). Isso é apenas possível pelo fato de que, em Cristo, de acordo com a vontade do Pai, residisse toda a plenitude (Cl.1.19 – πᾶν τὸ πλήρωμα κατοικῆσαι). O pleonasmo toda plenitude é melhor explicado à frente, quando Paulo qualifica a totalidade da plenitude como sendo a totalidade plenitude de Deus (Cl.2.9 – πᾶν τὸ πλήρωμα τῆς θεότητος). Em outras palavras, o cristão cheio do Espírito Santo será mais parecido com Cristo, pois esse é o alvo da vida cristã.

(2) Deus Pai é a fonte da plenitude divinaQuando Paulo afirma que em Cristo reside a totalidade da plenitude da divindade (τῆς θεότητος), o sentido expresso pode ser tanto a plenitude que pertence a Deus ou que procede de Deus. Em qualquer caso, a origem da plenitude é o próprio Pai. O cristão tem acesso ao mesmo benefício, e por meio do conhecimento do amor de Cristo, que está além das capacidades intelectuais das faculdades humanas, o cristão pode se tornar pleno da plenitude de Deus (Ef.3.19 – πληρωθῆτε εἰς πᾶν τὸ πλήρωμα τοῦ Θεοῦ). Novamente, fica claro que a plenitude ou pertence ou procede de Deus (τοῦ Θεοῦ).

(3) O Espírito é quem realiza a mediação da plenitude divina no cristão com o objetivo de torná-lo semelhante a Cristo: Ao que tudo parece indicar, quando Paulo afirma “deixem-se encher por meio do Espírito” intenciona dizer que o cristão deve permitir a ação do Espírito Santo em torná-lo pleno da divindade para que então ele cresça em sua identidade com Cristo. Em outras palavras, O Pai é a fonte, o Filho o alvo e o Espírito o instrumento para a plenitude divina na experiência cristã.

Em terceiro lugar, os verbos subsequentes à ordem “deixem-se encher [da plenitude divina] por meio do Espírito Santo” não descrevem o modo pelo qual um cristão atinge à plenitude, como normalmente se entende o texto. Na verdade, Paulo expressa os resultados da plenitude da divindade. Ou seja, a plenitude da divindade é manifesta de quatro modos:

(1) Na alteração do modo de comunicação: Paulo nos ensina que a pessoa cheia da plenitude de Deus manifesta o caráter de Deus através do modo como se comunica. Sua linguagem é de tal forma influenciada pelas escrituras que sua fala é marcada por salmos, hinos e cânticos espirituais (v.19a).

(2) Na alteração do modo de pensar: Paulo também afirma que o cristão cheio da plenitude divina medita interiormente (τῇ καρδίᾳ – sentido locativo) nas escrituras de modo a buscar glorificar ao Senhor (v.19b).

(3) Na manifestação da gratidão: O cristão cheio da plenitude da divindade é grato a Deus independente das situações (v.20). Veja o exemplo já mencionado de Estevão, que era capaz de oferecer perdão aos que o assassinavam pouco antes de morrer.

(4) Na rejeição do orgulho e egoísmo: Quando Paulo usa a expressão “sujeitando-vos uns aos outros” ele intenciona afirmar que no corpo de Cristo não se deve agir com partidarismo ou preferências egocêntricas (cf. Fp.2.1-4). O cristão cheio da plenitude divina sabe evitar seu próprio egoísmo pelo benefício do corpo de Cristo.

Conclusão

Diante das evidências encontradas nas escrituras, podemos afirmar seguros que a Plenitude da Divindade é um alvo para o cristão. Entretanto, tal experiência não é subsequente à salvação, como se fosse uma segunda bênção, mas na verdade é a extensão da bênção da salvação manifesta na dependência do Espírito Santo. Também se pode afirmar que a Plenitude da Divindade não é uma experiência mística, mas uma experiência relacional com a divindade por meio do Espírito Santo. É a descrição da intimidade do relacionamento cristão. Também concluímos que a fonte para tal experiência é o próprio Pai, o alvo o Filho sendo o Espírito Santo o meio pelo qual podemos desfrutar da ação divina em nós. Também concluímos que a experiência da Plenitude da Divindade leva o cristão ao ministério da expansão do Reino de Deus, à luta contra o pecado e a uma vida mais parecida com a Jesus Cristo. Os resultados da Plenitude da Divindade sempre são coerentes com o caráter moral e social da Divindade e portanto, sempre benéficos para o Corpo de Cristo. Homens e mulheres cheios do Espírito Santo são, portanto, cristãos maduros no seu relacionamento com Deus com os outros e manifestam o caráter de Deus em suas ações. São homens e mulheres comuns que experimentam o extraordinário poder de Deus através do Espírito Santo nessa vida. São pessoas como nós, mas que resolveram levar a vida com Deus à sério.

Soli Deo Gloria!

2 comentários sobre “O Cristão e a Plenitude Divina

  1. Laerte Carlos da Costa

    Texto muito bem fundamentado nas Escrituras. De fato, acredito que a dependência do homem ao Espírito Santo no viver diário, leva-o à maturidade cristã e não o inverso. Muito bom!

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