Liderança Pastoral Feminina na Igreja Local


Vivemos dias em que a conversa sobre a validade ou a não validade do ministério pastoral feminino tem sido acirrada. Desde que se tornou público que a Convenção Batista Brasileira se manifestou favorável a inclusão de pastoras na denominação, defensores ferrenhos de ambos os lados tem enchido a internet de vídeos, artigos, comentários, notas explicando a razão de suas crenças. Nesse sentido o Teologando não é diferente.

Nesse post publicamos pouco mais de 60 páginas da dissertação de Mestrado em Ministérios escrita por Otoniel Wey Berti em 2007. Todo o conteúdo apresentado aqui reflete sua pesquisa de vários anos, que foi finalmente agrupada em um único trabalho. Como ficará claro, esse post deve ser lido em etapas, mas serve de referência de pesquisa para aqueles que gostariam de conhecer melhor o que as escrituras ensinam sobre o assunto. Esse texto é claro e abrangente o suficiente para ser lido e compreendido por qualquer pessoa que busca uma visão clara do ensino geral das escrituras sobre o assunto.

Bom Proveito!

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1. Introdução 

A liderança pastoral feminina tem sido um assunto muito debatido hoje no meio do povo evangélico no Brasil, causando divisões e grande polêmica entre as lideranças denominacionais. Este estudo visa tratar esse problema à luz da Palavra de Deus, com muita cautela, evitando, ao máximo possível, opinião pessoal motivada por preconceitos, sejam eles, culturais ou religiosos. A importância deste estudo está na tentativa de cooperar na promoção da unidade do povo de Deus no que se refere a esta questão. Liderança é um assunto que está bem claro na palavra de Deus e não deveria ser motivo de tantos debates. Por isso, este trabalho não irá se prender a detalhes onde precisaria discorrer sobre cada versículo, tentando provar uma interpretação. Através de pesquisas bíblica, literária e de alguns fatos históricos que têm influenciado o nosso contexto brasileiro, procuramos abordar este assunto, observando a administração divina ao longo do relato bíblico, chegando a textos específicos, para sua elucidação. Tem, no seu conteúdo, um caráter mais eclesiológico funcional do que hermenêutico teológico. O estudo conclui que na Bíblia, a Palavra de Deus, é onde se encontra o padrão perfeito a nos orientar sobre as funções, o valor e a dignidade da mulher, não havendo lugar, no corpo vivo de Cristo, para machismos ou feminismos, mas homem e mulher exercendo suas funções, segundo o padrão estabelecido pelo criador.

Devemos olhar para a Bíblia e vê-la como ela mesma se autodenomina: A Palavra de Deus. Esse é o livro mais importante da história humana. É o mais produzido, o mais traduzido, o mais estudado e o mais vendido em todos os tempos. Levou vários séculos para ser escrito através de homens inspirados por Deus usando as suas faculdades mentais.

F. F. Bruce conclui: “A primeira vista, a Bíblia parece ser uma coleção de literatura, principalmente judaica. Se investigarmos as circunstâncias em que foram escritos os vários documentos bíblicos descobriremos que foram escritos aos poucos, durante um período de aproximadamente 1.400 anos. Os escritores escreveram em vários paises, desde a Itália, no ocidente, até a Mesopotâmia, e possivelmente a Pérsia, no oriente. Os escritores formavam eles mesmos um grupo heterogêneo de pessoas, não apenas separados uns dos outros por centenas de anos e centenas de quilômetros, mas pertencentes aos mais variados ramos de atividades. Havia reis, boiadeiros, militares, legisladores, pescadores, estadistas, pessoas da corte, sacerdotes e profetas, um rabino fabricante de tendas, um médico gentílico, para não falar de outros de quem nada sabemos, senão os escritos que nos deixaram. Os próprios escritos pertencem a uma grande diversidade de estilos literários. Incluem historias, lei, (civil e criminal) ética, ritual, (sanitária) poesia lírica, parábolas e alegorias, biografias, correspondência pessoal, reminiscências pessoais, diários, além dos estilos caracteristicamente bíblicos de literaturas proféticas e apocalípticas. Por tudo a Bíblia não é uma simples antologia; existe uma unidade que dá coesão ao todo”.[1] 

“Foi um processo fascinante e misterioso em que o próprio Deus dirigiu e supervisionou a escolha dos livros certos usando concílios e conselhos, (até mesmo as intrigas e politicagens dos homens) para cumprir Sua perfeita vontade”.[2]      

A soberania de Deus esteve presente em todo instante, e como um milagre, ela foi preservada intacta até aos nossos dias. A Bíblia é o padrão perfeito, inerrante e infalível em seus escritos originais. É o padrão absoluto de autoridade sendo juiz sobre tudo e todos. É de suma importância dizer isso, porque nesse mundo pós-moderno em que vivemos, falar em padrão absoluto é muito difícil, porque o relativismo tem predominado. Por isso, dizer que a Palavra de Deus é a autoridade final em qualquer questão, parece ultrapassado. A própria palavra autoridade, por si só, tem caído em descrédito. Vivemos um momento de “crise de autoridade”. Hoje, perante toda autoridade que se levanta, seja no meio político, econômico ou religioso, ficamos sempre com um pé atrás, esperando quando vão falhar. A desconfiança e a incredulidade sobre os homens e suas ideologias têm permeado esse mundo contemporâneo.

Porém, para tratar sobre liderança na igreja local, é preciso crer e confiar na Palavra de Deus, como o padrão perfeito de autoridade. Sem essa perspectiva estaremos dando margem a grandes debates tangenciais, que não chegarão a lugar nenhum. É necessário dizer também, que a “igreja” não é a autoridade final, muito menos qualquer instituição religiosa, social ou política. A Bíblia, Palavra de Deus é o padrão absoluto de autoridade, capaz de medir toda e qualquer “novidade” que se levante no meio dos filhos de Deus.

Hebreus 4:12 diz: “Porque a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante de que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as cousas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas”.

A Palavra de Deus, não é uma palavra qualquer, mas viva e eficaz. Causa efeito no mais profundo do ser humano e produz discernimento sobre os pensamentos e propósitos nesses corações. Os grandes homens que marcaram a história bíblica tiveram a Palavra de Deus como o padrão perfeito de conduta. Em suas experiências é marcante o fato de que sempre que houve obediência a ela, vitórias aconteciam. Também o contrário era certo. Observando essas histórias com um pouco mais de atenção, verifica-se que a Palavra de Deus não é algo estático ou legalista de imposições. Mas a presença desse Deus perfeito, soberano, sempre acompanhou tudo o que disse. Essa palavra não foi jogada para que o homem dela fizesse uso segundo seus interesses pessoais.

Por exemplo: No Velho Testamento quando Deus dá uma ordem a Moisés em Êxodo 3:10-11 dizendo: “Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel do Egito. Então disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel”? Moisés conhecia aquela cultura, onde foi criado e sabia muito bem o poder de Faraó e daquela nação. Porém, o versículo 12 diz: “Deus lhe respondeu: Eu serei contigo”. E passou a responder todas as dúvidas e temores que Moisés relatava. A presença de Deus caminhou com ele e o seu povo em todo aquele processo de saída do Egito, como também em toda jornada até a terra de Canaã.

No Novo Testamento também podemos citar outra ordem em Mateus 28:18-20. “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado”. Essa foi uma ordem que para aquelas pessoas, na maioria simples, seria um tanto difícil de cumprir. É provável que na mente deles tivesse vindo uma sensação de impotência diante de uma tarefa tão grandiosa. Porém, no final do versículo 20, Jesus também disse: “E eis que estou convosco, todos os dias até a consumação do século”.

No decorrer da história neotestamentária, é visível a presença de Deus junto de seus filhos, realizando a Sua obra. Por isso, Sua Palavra, é a autoridade maravilhosa e perfeita, porque ela é viva, ou seja, tem a Sua presença. É eficaz, causando mudanças no mais profundo do ser humano, e produz discernimento necessário para que seus filhos possam andar na direção correta.

Tendo como base esse paradigma, poderemos chegar a uma compreensão correta sobre liderança pastoral feminina na igreja local.       


2. O valor e a função da mulher

A maioria das passagens, utilizadas pelos defensores da liderança pastoral feminina, é bem colocada e enfatizada, porém, se refere ao valor da mulher e o quanto Deus as tem usado na realização de seus propósitos.

Assim como Deus usou Débora em um determinado momento da história, muitas mulheres têm sido usadas grandemente e, às vezes, liderando projetos em certos momentos, tanto na igreja primitiva, como na contemporânea, principalmente na área de missões. Porém, no contexto bíblico geral isso não é regra, mas exceção. Todavia, é preciso relatar o valor da mulher perante Deus e a sociedade.

Em todo contexto bíblico e histórico verifica-se a importância de lideranças para melhor condução e direção na trajetória de um povo. Em relação à estratégia e conduta utilizada por Deus em seu projeto, o homem sempre vem exercendo essa função. Porém, a mulher nunca foi discriminada, diminuída ou anulada por Ele. O que ocorreu e vem ocorrendo ao longo desse trajeto é que a pecaminosidade humana tem ferido as orientações do Senhor.

Houve sem dúvida entre as culturas, principalmente aquelas que dominaram os períodos históricos, fatores que levaram a essa silenciosidade das mulheres.

2.1 No Oriente Médio Antigo

Culturas como a suméria e acádica tratavam a mulher como propriedade de seu marido. Legalmente, porém, havia leis e códigos para proteger a integridade física e a subsistência delas.

O famoso Código de Hamurábi, escrito por volta de 1750 a.C., garantia à viúva de um nobre o direito de sustentar-se com os bens de seu marido; garantia ainda a devolução do dote paterno e da quantia relativa ao preço da noiva à esposa que recebia carta de divórcio por não dar filhos ao marido. A legislação assegurava ainda o sustento da esposa doente, incapaz de desempenhar suas funções conjugais, mesmo depois de o marido ter-se casado de novo. O código legal hitita (cerca de 1200 a.C.) contemplava a possibilidade de a mulher iniciar o divórcio. Contudo, se a separação viesse a ocorrer, a preferência pela guarda (usufruto) dos filhos era do marido, pois a esposa tinha direito a apenas um dos filhos. As leis assírias do Império Antigo (cerca de 1100 a.C.) exigiam que a mulher abandonada esperasse por cinco anos o retorno do marido. Findo esse prazo, ela era considerada livre para contrair novo casamento, que não seria anulado ainda que o primeiro marido voltasse. Em caso de divórcio, não era obrigatória a compensação financeira.[3]

É possível que outros povos do oriente médio antigo seguissem legislações semelhantes a essas. O foco é que a mulher era propriedade do homem.

2.2 Na cultura grega

Platão foi quase que exceção, pois defendia a igualdade entre os sexos. Entendia que a mulher poderia participar de qualquer atividade social.

Já Aristóteles, seu discípulo, via o homem como padrão e a mulher era inferior por natureza. Como outros pensadores gregos dizia que no amor homossexual estava o verdadeiro relacionamento. O amor heterossexual era mero instinto e impulso, com a finalidade de procriação.

Em Esparta, uma cidade com ênfase militar, a mulher tinha apenas a função de mãe e gerar muitos filhos para benefício do estado. Havia muita promiscuidade e o divórcio era facilmente conseguido.

Em Atenas a preservação familiar já era levada mais a sério. Todavia, as mulheres enfrentavam muitos problemas. As casadas eram confinadas em suas casas para realizar os serviços domésticos. Elas também não participavam de forma ativa na vida intelectual grega.

Em outros lugares, como na Macedônia no século III a.C., mulheres alcançaram lugar de destaque na sociedade. Todavia, a diferença era marcante entre as que pertenciam à elite e as pertencentes ao povão.

Em Corinto, devido ao culto a Afrodite, e em Éfeso, centro de adoração à Ártemis, houve uma pequena consideração feminina, porém o machismo predominava. 

2.3 Na cultura Romana

Durante os primeiros séculos da história romana, o pater famílias exercia absoluta autoridade sobre a esposa e os filhos. Isso incluía o direito ao divórcio, de determinar o casamento dos filhos e até de promover o divórcio entre filha e genro. Tinha poder de vida e morte sobre a família.[4]

No século II a.c (fim das Guerras Púnicas), novas liberdades foram concedidas. As mulheres passaram a ter direito de herança, de realizar contratos legais e de iniciar o divórcio. Apesar disso, ainda eram discriminadas. Em Tarso, cidade romana (apesar de localizada na Cilícia, atual Turquia), as mulheres eram obrigadas a andarem inteiramente cobertas, com apenas os olhos descobertos.[5]

Com a chegada do Império, houve certa emancipação da mulher, no que se refere à liberdade da autoridade do marido, tomar algumas decisões financeiras ou com respeito ao divórcio, como também em relação à religião. Todavia, tudo isso acontecia dentro de um ambiente de interesses políticos sem grandes mudanças de bases.

2.4 No Judaísmo

A Torá sempre foi à declaração de fé e prática judaica, tanto religiosa como politicamente. Mesmo que as interpretações fossem de interesses outros.

No livro de Provérbios, encontramos vários versículos enaltecendo e valorizando a mulher. Porém, a visão de um israelita médio estava mais próxima do pessimismo de Eclesiastes 7:28b  “… entre mil homens achei um como esperava, mas entre tantas mulheres não achei sequer uma”.[6]

Na sinagoga havia duas orações. A do homem dizia: “Bendito és tu, ó Senhor nosso Deus, Rei do universo, que não me fizeste um gentio, um samaritano ou uma mulher”. A da mulher dizia: “Bendito és tu, ó Senhor nosso Deus, Rei do universo, que me fizeste segundo a tua vontade”.[7]

Apesar de ter havido nessa cultura algum progresso na emancipação feminina, as estacas de limitações sempre estiveram presentes.

2.5 O que diz a Palavra de Deus

O livro de Gênesis capítulo 1 verso 27 diz: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Podemos entender logo na criação a distinção sexual entre ambos e o fato de serem ambos a imagem de Deus embora diferentes.

Em Gênesis 1:28, Deus concede responsabilidades iguais: “E Deus os abençoou, e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra”.

Verificamos claramente aqui um trabalho de cooperação, interdependência, ou seja, complementação e não de subordinação entre ambos. Certamente que a liderança masculina por todo o velho testamento foi muito marcante, porém, Deus jamais diminuiu ou discriminou o valor da mulher. Ela sempre teve a sua função nesse projeto divino.

Por exemplo:

A aliança que Deus fez com Hagar (Gênesis 16:7-14). Depois de ter sido usada pelo grande líder Abrão e humilhada por sua esposa Sarai, o anjo do Senhor lhe promete numerosa descendência, acudindo a sua aflição. Então ela invoca o nome do Senhor e o adora.

A aliança que Ele fez com Moisés (Deuteronômio 29:9-13). Essa aliança é estabelecida incluindo todos: homens, mulheres e crianças.

A lei deveria ser lida na presença de todos de sete em sete anos (Deuteronômio 31:10-13):  homens, mulheres e crianças.

As mulheres ministravam à porta da tenda da congregação (Êxodo 38:8; 1Sm. 2:22).

As mulheres ofereciam sacrifícios a Deus (Levítico 12:1-8; 1Samuel 2:19).

Não podemos perder de vista que a obra de Deus é realizada por todos que fazem parte do seu rebanho e não por pessoas independentes. Portanto, o homem e a mulher apesar de terem funções diferentes são igualmente herdeiros da mesma promessa. Precisamos lembrar ainda mulheres como Miriã, Hulda, Débora, Rute, Raabe e a mulher de Urias.

Antes de prosseguir sobre a importância das mulheres no Novo Testamento, faremos um breve relato sobre Maria, a bem-aventurada mãe de Jesus. Devido à ênfase exagerada dada a ela pela Igreja Católica Apostólica Romana, os evangélicos acabam silenciando sua vida, ministério e testemunho.

Certamente, Maria foi uma grande mulher! O capítulo primeiro de Lucas esboça bem sobre essa querida. Mostra como ela recebeu a visita do anjo Gabriel, enviado por Deus que lhe disse:

“Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo. Não temas, porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás a luz um filho a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim. Então disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum? Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus”.

Imaginar essa cena é interessante, lembrando que Maria era uma virgem, de origem pobre e humilde, tendo um diálogo grandioso com o anjo, recebendo uma promessa que mudaria a história da humanidade. Nesse texto encontramos também: “Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (Lucas 1:37).

Apesar de ter-se perturbado e talvez tido alguma dúvida, no meio dessa conversa, ela finaliza esplendidamente: “Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra”. E o anjo se ausentou dela.

Outro momento interessante na sua vida foi quando, visitando Isabel, ela expressa seu louvor a Deus com esse cântico:

“A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade de sua serva. Pois desde agora todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes cousas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem. Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que no coração alimentavam pensamentos soberbos. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. Amparou a Israel, seu servo, a fim de lembrar-se da sua misericórdia, a favor de Abraão e de sua descendência, para sempre, como prometera aos nossos pais”. (Lucas 1:46-55)

Apesar de toda a sua simplicidade, ela tinha consciência de que estava sendo utilizada por Deus para cumprir as promessas referentes à nação de Israel. E mais, estaria sendo uma ferramenta importante nessa nova etapa da administração divina.

A vida de Maria foi marcada por grandes emoções tanto de alegria como de sofrimento. Ainda no capítulo dois de Lucas vemos a visita que recebe dos pastores do campo, após terem uma experiência marcante, recebendo a mensagem do anjo vinda dos céus. Relataram tudo o que o anjo lhes disseram sobre o menino. Certamente disseram sobre a multidão da milícia celestial louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem. Maria guardava tudo isso meditando em seu coração.

O segundo capítulo de Mateus narra sobre a chegada dos Magos do Oriente. Uma caravana que já havia passado por Jerusalém causando um grande alarido, agora entra na casa em que Maria estava com Jesus. Esses, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas; ouro, incenso e mirra.

É interessante como ela administrava toda essa alegria e emoção na sua vida. Não temos detalhes sobre o seu relacionamento com Jesus, a não ser naquele episódio, quando aos doze anos, discutia com os doutores da lei no templo em Jerusalém.

Quando Jesus realizou o seu ministério, certamente ela acompanhou os milagres que ele fazia, curas e maravilhas, entendendo o cumprimento da promessa feita a ela pelo anjo. Tudo foi acontecendo exatamente como previsto.

No entanto, quando Jesus é preso, torturado, humilhado, passando por todo aquele castigo, ali estava ela sofrendo desesperadamente como mãe e discípula. Porém, três dias depois, volta toda a alegria, vendo-o ressuscitado e vivo. Que emoção! Quantas experiências fortes e marcantes passou essa mulher. Em seguida a encontramos depois da ascensão de Jesus, firme em Jerusalém, perseverando com os apóstolos, outras mulheres e seus filhos em oração, aguardando a promessa do Espírito Santo, o qual receberam no dia de Pentecostes.

Deus não escolheu a mulher de Herodes o Grande, por exemplo, ou uma das distintas mulheres dos líderes do templo, moradoras da bela cidade de Jerusalém. Preferiu nascer em uma aldeia sem importância e ser gerado no ventre de uma jovem camponesa.[8]

 Maria, mãe de Jesus, a bem-aventurada, mulher virtuosa, que ficou como exemplo e testemunho para todas as gerações!

Outra mulher que deve ser lembrada antecedendo o ministério de Jesus encontra-se em Lucas 2:36-38. Assim como ao velho Simeão, a ela também foi revelada a chegada do Messias.

“Havia uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, avançada em dias, que vivera com seu marido sete anos desde que se casara; e que era viúva de oitenta e quatro anos. Esta não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações. E, chegando naquela hora, dava graças a Deus, e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”.

Essa passagem é marcante porque mostra até que ponto a intimidade de uma pessoa com Deus pode chegar. Ela vislumbra uma criança e grita com toda certeza, é Ele! Lembrando que não havia visto Jesus realizar ainda nenhum milagre, ou maravilha, nem mesmo dizer palavras com tanta autoridade, como viram e ouviram muitos judeus e não creram, pelo contrário, o crucificaram.

2.5.1 Jesus e as mulheres

Observando todo o contexto cultural herdado e praticado no Império Romano e dentro do Judaísmo no tempo de Jesus, precisamos verificar como Ele se relacionava com as mulheres. Lembrando que naquele momento cultural e religioso o valor da mulher se restringia aos afazeres domésticos: não poderiam sair de casa sem estarem cobertas pelo véu e deveriam evitar encontros com o sexo oposto. Eram marcadas por uma discriminação social nos lugares públicos como nas ruas, praças e tribunais. Religiosamente, isso também acontecia nas sinagogas, pois eram vistas como indutoras ao pecado e uma ameaça ou perigo para os “homens santos”.

Nesse ambiente Jesus realiza o Seu ministério deixando o testemunho perfeito de ética, amor, sem acepção de pessoas. Ele tratava com homens e mulheres repreendendo-os ou motivando-os da maneira mais correta e justa.

Ele foi o líder por excelência, que dividiu a história da humanidade com apenas três anos de trabalho. Hoje, um terço da população mundial se diz cristã. Dois dos maiores dias santos do Brasil são a Páscoa e o Natal. Ambos referem-se a Sua vida. Jesus influenciou bilhões de pessoas ao longo dos últimos dois mil anos.

O conceito de liderança nos dias atuais, no mundo secularizado, está concluindo que o bom líder é o que serve. Hunter expressou muito bem em seu livro O Monge e o Executivo, onde no capítulo três ele aponta para o maior exemplo e padrão:

“Quem quiser ser líder deve ser primeiro servidor. Se você quer liderar, deve servir-Jesus Cristo”.[9] Jesus também disse: “Pois o próprio Filho de Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). Ele serviu, amou, se doou até a morte em favor de todos os homens.

No contato com as mulheres é visível a quebra de paradigmas que Ele executa naquela tradição. Nos quatro evangelhos encontramos vários momentos em que Jesus se relaciona com elas, contando ilustrações ou fazendo referências sobre as mesmas.

Na Sua própria genealogia em Mateus capítulo um, vislumbramos mulheres que perante aquela tradição não teriam chance alguma. No versículo três encontramos Tamar, que se disfarçou de prostituta e enganou Judá, gerando a Perez (Gênesis 38:1-30). O versículo cinco mostra Raabe que era prostituta em Jericó (Josué 2:1-24). Ainda no mesmo versículo encontramos Rute. Ela era Moabita, uma das piores raças da antiguidade, fruto do relacionamento enganoso de Ló com uma de suas filhas (Gênesis 19:30-38; Rute 1:1-22 e Sofonias 2:8-11). No versículo seis também encontramos Bate-Seba, a que fora mulher de Urias. Gerou Salomão após um relacionamento adúltero com Davi (II Samuel 11:1-27).

É impressionante ver Jesus como aquele que não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça vencedor o juízo (Mateus 12:20). Ele não despreza a flauta que rachou e nem o pavio queimado, quanto mais as mulheres, pintura de Suas mãos (João 8:1-11).

Em Seu ministério, é visível a sensibilidade exercida por Jesus em relação às mulheres. Em João 2:1-12, encontramos o episódio das bodas em Caná da Galiléia, onde a presença de Maria foi marcante, levando Jesus a realizar o Seu primeiro sinal miraculoso. Em Marcos 1:29-31, Ele realiza a Sua primeira cura sobre a sogra de Pedro. Observe esse exemplo interessante contido em Lucas 7:36-50:

“Convidou-o um dos fariseus para que fosse jantar com ele. Jesus entrando na casa do fariseu tomou lugar à mesa. E eis que uma mulher da cidade pecadora, sabendo que Ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava os pés e os ungia com o ungüento. Ao ver isto, o fariseu que o convidara, disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora. Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma cousa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos denários e o outro cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe Jesus: Julgaste bem. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com o seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta com bálsamo ungiu os meus pés. Por isso te digo: Perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. Então disse à mulher: Perdoados são os seus pecados. Os que estavam com ele à mesa, começaram a dizer entre si: Quem é este que até perdoa pecados? Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz”.

Em Lucas 8:1-3, verificamos que Jesus teve várias amigas como Maria Madalena, Joana, Suzana e como diz o texto, muitas outras as quais lhe prestavam assistência com seus bens. Esse é um fato de que não só os doze andavam com Jesus, mas muitas mulheres também, o que causava um desconforto naquela tradição.

No capítulo 10, encontramos o clássico relato sobre o seu relacionamento com Marta e Maria suas hospedeiras. Geralmente relacionamos Marta como a representante da vida ativa, porém, naquela cultura, era o papel que lhe sobrava. Ocupar-se das tarefas caseiras, nada mais. Por isso ela diz a Jesus: “Senhor, não te importas de que minha irmã tivesse deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me”. Em outras palavras, isso não está de acordo com as normas. Jesus disse: Maria, pois, escolheu a boa parte e esta não lhe será tirada. Mais uma vez Ele quebra o paradigma cultural.

Porém, em João 4, temos a história da mulher samaritana, onde essa quebra  é bem marcante. O povo samaritano já era desprezado pelos judeus, sendo que até quando necessitavam fazer uma viagem, calculavam para não passar em Samaria. Jesus, pelo contrário, entra em Samaria e tem um diálogo com uma mulher de vida complicada e difícil. Possivelmente estava lá naquele horário (hora sexta) porque ao meio dia ninguém iria buscar água e ela não seria importunada. Quando Jesus começa a conversar, ela própria ficou admirada, porque judeus não falavam com samaritanos, especialmente com uma mulher. Ela compreendeu que Jesus era o Messias que havia de vir e levou muitos da sua cidade a crerem também. Foi a primeira pessoa a exercer a função de evangelista.

Jesus conversava livremente com as mulheres, sendo que até os seus discípulos ficavam indignados. Ele deixou que elas o tocassem, impôs suas mãos para que fossem curadas e libertou várias (Lucas 13:12-13; Mateus 15:21-28; Mateus 26:6-13).

Em Marcos 10:2-12, Jesus tratando a respeito do divórcio, mostra as implicações para ambos os sexos sem nenhuma tendência. Inclusive no versículo 12, Ele deixa isso muito claro. “E se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério”. Naquele contexto, isso não cabia muito bem.

“É assim que ele promove os direitos das mulheres, tão desprezadas alhures. Se ele mantém a exigência monogâmica, ele rompe com o totalitarismo ambiente, que concedia todos os direitos ao homem e não reconhecia nenhum às mulheres”.[10]

Também em Seus ensinamentos Ele fala sobre temas importantes usando mulheres em suas parábolas, como por exemplo: A parábola das dez virgens, em que enfatiza a necessidade de vigilância (Mateus 25:1-13). A parábola do juiz iníquo, em que mostra a necessidade de perseverar na oração (Lucas 18:1-8). A parábola da dracma perdida, mostrando a importância da salvação (Lucas 15:8-9).

É preciso também mencionar a presença das mulheres nos momentos importantes da vida de Jesus.

2.5.1.1 Antes de Sua morte:

O capítulo 26 de Mateus nos versos de 6 a 13 diz: A mulher se aproxima de Jesus com um vaso de alabastro cheio de precioso bálsamo e derrama sobre a Sua cabeça. Jesus diz: “Derramando este perfume sobre o meu corpo ela o fez para o meu sepultamento. Em verdade vos digo: Onde for pregado em todo o mundo este evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua”. Que consideração!

2.5.1.2 Na Sua morte:

 A presença feminina nesse momento foi marcante. Mateus diz: “Estavam ali muitas mulheres, observando de longe; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galiléia, para servi-lo; entre elas estavam Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e de José, e a mulher de Zebedeu”. Foram mulheres muito perseverantes (Marcos 15:40-41; Mateus 27:55-56; João 19:25).

2.5.1.3 Na Sua ressurreição:

 Foi uma mulher que primeiro viu Jesus ressuscitado. Marcos diz: “Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios. E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e chorando”. Uma flauta rachada, tocando agora uma linda sinfonia (Mc. 16:9; Jo. 20:11-16).

Após a Sua ascensão os discípulos receberam a ordem para permanecerem em Jerusalém até que do alto receberiam poder para serem suas testemunhas até os confins da terra. Em Atos 1:14, notamos a presença das mulheres ali com eles perseverando no aguardo da promessa. Em Atos 2 é derramado do céu o Espírito Santo e tanto homens como mulheres participaram desse batismo. Em seguida vemos a pregação de Pedro e três mil pessoas foram salvas. Inicia-se, portanto a edificação da Igreja o corpo vivo de Cristo onde homens e mulheres são participantes no mesmo nível de igualdade.

2.5.2 O apóstolo Paulo e as mulheres

Observando as mulheres na perspectiva do contexto geral e histórico, corremos um risco menor de erros. No relacionamento do apóstolo Paulo com elas, é claro que ele jamais seria contrário aos ensinamentos de Jesus, porém, complementa e organiza no contexto da igreja local, o funcionamento orgânico do corpo de Cristo.

Em sua primeira carta aos coríntios, é notório o fato de que estava corrigindo aquelas pessoas, no sentido de promover a unidade entre eles, pois a divisão e a desordem em suas reuniões eram visíveis. Ele procura tratar vários assuntos e atitudes que estavam prejudicando a edificação da igreja naquela localidade. Quando se refere em alguns momentos às mulheres, as quais também têm suas funções no corpo, notamos ser pontos específicos para aquele momento, visando sempre a unidade e não a hierarquização.

Por exemplo: I Coríntios 11:2-16 mostra que havia ali um problema referente ao uso do véu que estava causando dificuldades entre eles. A exortação que faz tem o propósito de colocar as funções nos devidos lugares entre o homem e a mulher. Os versículos 11 e 12 esclarecem esse fato: “No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Porque como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher, e tudo vem de Deus”.

O capítulo 14 dessa mesma carta trata especificamente sobre a maneira de se reunir como igreja e evitar prejuízos no seu andamento. Tanto fica claro isso, que ele termina esse capítulo dizendo: “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem”. Além de colocar o dom de línguas no devido lugar, que era um causador de divisões entre eles, Paulo exorta também as mulheres que estavam deixando as suas funções, procurando assumir posições que não lhes eram devidas. Por isso, falou com dureza repreendendo-as nos versículos 34 e 35.

Esse mesmo capítulo, quando se refere ao contexto geral de membros, incentiva todos a procurarem com zelo os dons espirituais, mas principalmente que profetizassem. (Homens e mulheres) Ainda nesse contexto cita no versículo 26 o seguinte: “Que fazeis, pois irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação, aquele outro língua, e ainda outro interpretação. Seja tudo feito para a edificação.

Ainda o versículo 31 diz: “Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados (Homem e mulher). Sem um entendimento claro sobre os capítulos 12 e 13, é mais difícil compreendermos o capítulo 14. Pois esses se referem às funções, à interdependência e ao amor que deve haver entre os membros do corpo de Cristo.

Em sua carta endereçada às igrejas da Galácia, Paulo vai tratar diretamente sobre o legalismo judaizante, visando também a unidade daquelas igrejas. Porém, salta no meio de sua narrativa, mais uma vez, o valor que todos têm perante Deus. “Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes. Destarte não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão, e herdeiros segundo a promessa” (Gálatas 3:26-29).

Os escritos do apóstolo Paulo, sempre promovem de forma contundente e radical, a unidade do corpo de Cristo, indicando a interdependência e reciprocidade entre os sexos (I Coríntios 7:1-5; 7:10-16; II Timóteo 2:8-15 e Efésios 4:15-16).

É preciso dizer, que ele, teve várias amigas irmãs e cooperadoras. Na carta que escreve à igreja em Roma, nas suas saudações finais, encontramos algumas dessas: Febe, que servia à igreja em Cencréia. Priscila e Áquila, seus cooperadores em Cristo que arriscaram suas vidas em favor de Paulo e o evangelho. Maria, que muito trabalhou pela igreja. Trifena e Trifosa, as quais trabalhavam no Senhor. Perside, que muito também trabalhou no Senhor. A mãe de Rufo, que também foi uma mãe para Paulo. Também encontramos Júlia e a irmã de Nereu.

Em sua carta à igreja de Filipos, Paulo cita Evódia e Sintique, que juntas se esforçaram com ele a favor do evangelho. Ainda nas saudações finas de sua carta aos Colossenses, encontramos Ninfa que hospedava a igreja em sua casa. E em II Timóteo ele faz referência a Claudia.

Portanto, à luz de todas essas evidências encontradas, não podemos apoiar nenhum machismo, que venha adulterar a Palavra de Deus, a qual é o nosso padrão de excelência.

3.  Mulheres na história da igreja

 Quando olhamos para os primeiros séculos, deparamos com os nomes e as obras dos “pais da igreja”. Nada errado quanto a isso, mas certamente suas mulheres e outras, tiveram grande participação em seus ministérios e esse valor quase nunca é bem lembrado ou mencionado.

No século XVI grandes nomes marcaram a reforma da igreja e esses foram chamados de “os reformadores”. Conhecemos e estudamos com afinco suas obras. Porém, em relação a suas esposas ou outras mulheres que certamente lutaram juntos pelo mesmo objetivo, pouco se sabe.

Chegando ao século XVIII e XIX vemos a explosão do movimento missionário onde Deus usa grandes homens nessa liderança, os chamados “heróis da fé”.

O problema é que sem o auxílio das grandes mulheres todos esses movimentos não teriam sucesso. O que parece ter ocorrido, é que inconscientemente ou culturalmente, seja o que for, tem havido o não reconhecimento do trabalho precioso delas. Aos olhos de Deus, isso é pecado, porque para Ele não há acepção de pessoas. Se Ele considera a todos de igual modo, se amou o mundo de tal forma que se deu por ele, precisamos estar sensíveis e praticar um viver orgânico dentro do corpo de Cristo, em total interdependência, sem estrelismos, machismos ou feminismos.

“Pois todos compareceremos perante o tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2Corintios 5:10).

A seguir será registrada aqui, breve biografia, como um dos raros testemunhos encontrados sobre mulheres que marcaram a história da igreja.

3.1 Catarina de Sena (1347-1380)

Ela foi a mais nova de uma família em que sua mãe teve vinte e cinco filhos, sendo que perdeu metade desses. Desde pequena resolve dedicar-se com amor e afinco, servindo e ajudando dentro de sua própria casa. Aos dezesseis anos, começa a ter um interesse pela vida devota, pertencendo à ordem dos dominicanos. Porém, aos vinte e três, ela teve uma experiência com Deus, que marcaria o restante de seus dias.

A Itália, passava por momentos políticos difíceis, com muita corrupção e a igreja estava dilacerada em sua teologia e prática eclesiástica.

Nesse contexto, Catarina vai dar o exemplo de vida cristã consagrada. É na igreja de São Domingos que ela se torna expressiva para a Igreja e para o mundo. Através de seu grande amor por Deus e ao próximo, ela vem gerar muitos filhos espirituais. Esse grupo de convertidos acaba sendo reconhecido como a “santa brigada”. A maioria era constituída de pessoas pobres e humildes. Ela via, nesse grupo, um instrumento poderoso nas mãos de Deus para reformar a igreja. Ocorreu, em certa ocasião, que o Frei Lazarino de Piza foi investigar o trabalho que ela estava fazendo e acabou se convertendo, numa experiência com muito choro.

“Para se ter uma primeira idéia de sua atividade e de sua influência, basta lançar os olhos sobre os destinatários das suas 381 cartas, que nos restaram. Dessas, 23 foram endereçadas a papas, 19 a cardeais, bispos e prelados, 13 a reis e rainhas, 6 a comandantes militares, 38a governadores, 29 a senhoras da aristocracia, 15 a artistas, 12 a advogados e médicos, 16 a membros de sua família, 32 a discípulos, 17 a monjas, 81 a monges, frades e eremitas, 9 a sacerdotes, 11 a membros de associações de leigos, 23 a comerciantes e artesões, 20 a destinatários diversos”.[11]

A sua grande influência literária, além das cartas e uma coletânea de orações, foi sem dúvida “O Diálogo”. Conta o seu relacionamento “místico” com o Pai Eterno. Nesse diálogo, Catarina pede a Deus pela sua própria vida, pois cria que se não fosse um exemplo no ensino e na prática da oração, não faria nenhuma diferença na sociedade. Pede, também, pela iluminação de Deus para a igreja e seus ministros, no sentido da santificação. Clama, ainda, pela misericórdia de Deus, em salvar a humanidade pecadora. Devido à conversão embaraçosa de um condenado, levou-a a escrever a quarta súplica do livro, pelos condenados.

“Apesar de um ou outro retoque de seus secretários, especialmente de seu confessor e biógrafo, o bem-aventurado Raimundo de Cápua, ela fala e escreve do jeito mais feminino, mais direto, tal qual ela é. Vai avançando em um estilo circular, retomando e reforçando suas grandes certezas, que vão afirmando-se e ampliando-se a partir sempre da certeza primordial de um grande amor”.[12]

Catarina deixa uma grande marca de generosidade em seu trabalho social, que começou desde cedo em sua própria casa, dando esmolas aos pobres e necessitados. Apesar de alguns familiares ficarem preocupados, pois, a fila de mendigos aumentava a cada dia, seu pai a apoiava completamente, crendo que Deus supriria.

Outro trabalho de Catarina foi com os doentes, tanto nas casas como nos hospitais. Todos ficaram sabendo, em Sena, do seu carinho para com uma leprosa chamada Cecca (Francisca), a quem levava comida e ministrava os cuidados de higiene até o dia da morte da pobre doente.[13]

Um momento marcante na sua vida foi quando, após passar um tempo em Florença, ela volta a Sena e encontra a cidade arrasada pela peste e com muitos famintos. Várias pessoas de sua família faleceram. Ela se desdobra, visitando hospitais e casas, enterrando mortos, e conta-se que algumas pessoas foram curadas através de suas orações.

Catarina de Sena imprimiu e marcou com sua vida a história da igreja, como uma mulher que exerceu a sua função no corpo de Cristo, o qual ela demonstrava grande clareza nessa visão. Depois de dez anos em plena atividade social e evangelística, ela vem a falecer aos 33 anos de idade. Ela poderia ser colocada na história eclesiástica como uma pré-reformadora.

Catarina implora a Luz de Deus

Trindade eterna, tu és um mar profundo, no qual, quanto mais procuro, mais te procuro.

Tu nos sacias de maneira completa, pois, no teu abismo, sacias a alma de tal sorte, que ela fica para sempre com fome de ti.

Que poderias dar-me mais do que tu mesmo?

És o fogo que queima sempre e nunca se consome.

És o fogo que consome no teu ardor, todo amor-próprio da alma.

És o fogo que tira todo frio, que ilumina todas as inteligências e,

pela tua luz, me fizeste conhecer a verdade.[14]

Certamente houve milhares de mulheres dedicadas à expansão do reino em todos esses séculos. Porém, esse depoimento sobre Catarina de Sena, é de grande contribuição para os nossos dias.

Podemos olhar a luta das mulheres escritoras da Renascença e da reforma, em deixar algum legado, que as elevassem a uma posição de respeito.

“Essas escritoras não agradavam alguns homens que as consideravam assexuadas e lhes era recomendado que abandonassem suas deformidades para se revestirem das qualidades próprias à mulher: Silêncio, castidade, obediência ao marido e amor aos filhos”.[15]

À luz da palavra de Deus, o silêncio da contribuição feminina na história, foi pernicioso para a edificação da igreja.

Para encontrar uma mulher como Margarida de Navarra, que sobressaiu com seus escritos e como protetora de reformadores como Calvino, Rute Salviano Almeida se dedicou com muito afinco numa profunda pesquisa o que resultou no seu livro “Uma voz feminina na reforma”.

Reconhecendo a importância dos registros para as gerações posteriores, no Brasil, somente nas últimas décadas tem surgido escritores na área bíblica. Algumas mulheres estão aparecendo também e essa será uma grande ferramenta para o reconhecimento do papel e o valor que elas possuem no corpo de Cristo.

4. Diferença entre hierarquia organizacional e funções orgânicas

 Antes de iniciar a abordagem e discussão das questões referentes à liderança feminina na igreja local, faz-se necessário melhor compreender a diferença entre organização hierárquica e função orgânica.

É necessário dizer que existe uma grande diferença entre posição hierárquica humana e funções vitais no corpo vivo de Cristo. Discorrendo um pouco sobre a igreja, esse organismo vivo, percebemos que muitas comunidades têm um entendimento correto, porém, na prática eclesiástica este permanece obscuro, dando lugar a um denominacionalismo com suas estruturas hierárquicas humanas.

A primeira vez que a igreja é mencionada no Novo Testamento se encontra em Mateus l6:18 quando Jesus diz: “Também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Nesse versículo já podemos perceber que Jesus é à base da igreja, que ela é única e está sendo edificada por Ele. Essa igreja seria um prédio? Certamente que não!

No grego “Ekklesia” significa os chamados para fora ou um grupo de indivíduos chamados para formar uma reunião ou assembléia. No contexto do Novo Testamento essa palavra é usada para descrever um grupo de pessoas que creram no Senhor Jesus. “Esta palavra em suas formas correlatas nos dão a idéia de um grupo de pessoas que estão reunidas em obediência a uma convocação”.[16]

Podemos compreender isso através de uma simples leitura no Novo Testamento. Por exemplo: Em Romanos 16:3 e 5 Paulo diz o seguinte: “Saudai a Priscila e a Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus; saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles”. Em Colossenses 4:15 ele também diz: “Saudai aos irmãos de Laodicéia  e a Ninfa e à igreja que ela hospeda em sua casa. Nessas pequenas passagens, podemos notar que a igreja que Jesus está edificando é composta por pessoas e não por pedra e cimento”.

“A igreja não é uma organização, mas um organismo. Não é uma instituição mas uma unidade viva. É a comunhão de todos os que nasceram de novo e participam da vida de Cristo e, conseqüentemente, estão unidos uns aos outros pelo Espírito Santo. É uma simples comunhão de pessoas sem caráter de instituição humana”.[17]

Outro fator importante sobre a igreja é citado por Paulo na carta aos Efésios capítulo 1 versículos 22 e 23 que dizem: “E pôs todas as cousas debaixo dos seus pés e, para ser o cabeça sobre todas as cousas, o deu a igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas”. Aqui começamos a ver mais profundamente que essa igreja tem Jesus como a sua cabeça e que ela forma o Seu corpo místico aqui na terra. É necessário lembrar que esse organismo é muito bem organizado.

Precisamos neste momento ressaltar que essa igreja tem duas características. Ela por um lado é universal, ou seja, seus membros são todos aqueles que foram lavados, regenerados e habitados pelo Espírito Santo, para adorarem em comunidade neste mundo (I Coríntios 12:12 e 13). Por outro ela é local, ou seja, ela é formada por um grupo de pessoas que confessam sua fé em Cristo, que foram batizados e que se organizaram para o propósito de fazer a vontade de Deus em uma determinada localidade (2 Coríntios 1:1, Efésios 1:1 e Filipenses 1:1). Portanto, a igreja é o corpo de Cristo universal, porém, a sua expressão se manifesta em uma determinada localidade.

Quando Paulo escreve sua primeira carta à igreja de Corinto, onde havia muitos problemas, principalmente de divisões, e uma hierarquia humana já começava a ser valorizada, ele vai discorrendo sua narrativa de forma a ir quebrando esse paradigma, e chega ao capítulo 12 trazendo luz a tudo isso, mostrando a unidade orgânica da Igreja o corpo vivo de Cristo.

“Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo, nem por isso deixa de o ser. Se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo, nem por isso deixa de o ser. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde o olfato? Mas Deus dispôs os membros colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro onde estaria o corpo? O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer a mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos, são necessários; e os que nos parecem menos dignos no corpo, a estes damos muito maior honra; também os que em nós não são decorosos, revestimos de especial honra. Mas os nossos membros nobres não têm necessidade disso. Contudo Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam.  Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente membros desse corpo”. (I Coríntios 12:12-27)

Esse relato analógico, comparando o corpo de Cristo com o corpo humano, é sem dúvida alguma fantástico, pois explica de forma simples e clara o relacionamento entre os membros e suas diferentes funções.

Verificamos que existe um relacionamento de unidade perfeita, dentro de uma diversidade funcional, onde Jesus é o cabeça. Ele produziu e coordena todo esse organismo, colocando cada membro no seu devido lugar. É visível, também, a interdependência que deve haver entre os membros, e sem a existência ou o exercício funcional de alguns, o corpo todo sofre.

A sabedoria de Deus concedida a Paulo, quando escreveu tudo isso, para uma igreja espiritualmente carente, foi muito prática. Pois, fica muito claro, que não se trata de posições ou grupos hierárquicos humanos, mas de um organismo vivo. Sem esse entendimento fica difícil falar sobre a função de liderança.

Paulo vai desenvolvendo seu pensamento nesse intuito de promover um funcionamento correto da igreja, chegando ao ponto máximo no capítulo treze de primeira Coríntios.

“E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba”…(I Co. 13:1-8)

Para que o organismo vivo de Cristo tenha uma expressão correta aqui na terra, é pertinente que entendamos e pratiquemos esse amor narrado acima pelo apóstolo Paulo. Esse amor é o próprio Deus, porque Deus é amor. Os dons e funções são mais facilmente exercitados e entendidos nesse contexto de amor. Aqui não há espaço para qualquer função que venha a denegrir ou rebaixar a outra. Nem mesmo lugar para que um membro se ache inferior em sua função.

Com essa compreensão, falar sobre a função de liderança na igreja local, fica mais simples e prático. Porém, é necessário ainda, comentar o motivo pelo qual o apóstolo Paulo escreve os últimos capítulos de primeira Coríntios. O contexto dessa carta apela para a unidade que deveria haver naquela comunidade. Todo organismo vivo em perfeito estado de funcionamento, reflete uma unidade perfeita. O corpo de Cristo deve refletir essa unidade entre os seus membros. O apóstolo Paulo em I Coríntios 12:12 diz: “ Porque assim como o corpo (humano) é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo”. A unidade sempre será manifestada quando a mensagem do cabeça for atendida e cumprida.

O desejo de Deus sempre foi que os seus filhos vivenciassem a unidade. Encontramos esse sentimento tanto no Velho como no Novo Testamento. Por exemplo: O Salmo 133:

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes. É como o orvalho de Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali ordena o Senhor a sua benção e a vida para sempre”.

Esse Salmo expressa e motiva a unidade entre os filhos de Deus de forma radical e amorosa. Depois de usar a analogia sobre o óleo sagrado da unção, que era derramado sobre a cabeça do sacerdote, e também sobre a neve que derretia no cume do Monte Hermom, atingindo os montes menores, trazendo um ambiente de frescor e paz, Davi termina sua poesia dizendo: “Ali ordena o Senhor a sua benção e a vida para sempre”. Ali, onde vivem unidos os irmãos!

No livro de João capítulo 17 nos versos de 20-23, Jesus em sua oração menciona o seguinte:

“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste, e os amaste como também amaste a mim”.

Nota-se nessa passagem, outra grande expectativa revelada na súplica de Jesus, a favor da unidade do Seu povo. Pois através dela o mundo poderá crer na Sua obra redentora. Quando não há compreensão da igreja como um organismo vivo, fica difícil entender e praticar a unidade de maneira viva e correta. A conseqüência é o que estava ocorrendo na igreja em Corinto. Com a divisão e partidarismos (I Coríntios 1:11) surgiram, no meio deles, imoralidades, dúvidas com o casamento, com a adoração e com a ressurreição. Crenças e práticas aberrantes acabaram prevalecendo ali.

Portanto, se os membros do corpo de Cristo exercerem suas funções, submissos ao cabeça, nesse ambiente de unidade e amor, o machismo e o feminismo que há no meio da igreja institucional e no mundo, poderá ser curado.

5. A influência da liderança pastoral feminina no Brasil

Como acontece com várias áreas do conhecimento, a teologia no Brasil também recebe influência de outros países, principalmente da América do Norte. Nesse tema em questão, principalmente nas chamadas igrejas históricas, essa influência e seu desenvolvimento acontecem mais recentemente.

5.1 Seus defensores

As Igrejas Episcopais Anglicanas, Metodistas e de Confissão Luterana, há várias décadas, têm a liderança pastoral feminina como prática na sua conduta organizacional. No Brasil esse número de adeptos à liderança pastoral feminina até os anos noventa, foi inexpressivo, compreendendo somente essas igrejas já citadas e uma ou outra das chamadas igrejas independentes.

No final dos anos oitenta e início dos noventa, surge no cenário brasileiro uma mulher chamada Valnice Milhomes trazendo mensagens através da televisão, cativando corações de muitos irmãos e irmãs. Depois de cursar o seminário, ela foi enviada pela sua igreja como missionária à África, onde alegou ter tido uma forte experiência com o Espírito Santo. Volta ao Brasil e passa a pregar mensagens que muitas vezes eram mais empolgantes do que se podia ver naquele momento através de outros pastores televisivos.

Como em nosso contexto evangélico geral não havia profundidade no conhecimento bíblico, ela se tornou referência para grande parte das igrejas. Participou como preletora em várias conferências nacionais e internacionais. Hoje, apesar de estar um pouco retraída no quadro evangélico, Valnice possui o título de apóstola.

Paralelamente a isso, o movimento feminista começa a borbulhar numa pós-ditadura em reação a um país machista de coronéis.

Nesse período são publicados livros como: “As Origens Cristãs a partir da Mulher, uma nova hermenêutica” e “Discipulado de iguais, uma Ekklesiologia feminista crítica da libertação”, escritos por Elisabeth S. Fiorenza, causando grande impacto dentro do contexto acadêmico.

Sibyla Baeske, jornalista com atuação na imprensa eclesial e secular, cita na contra-capa de seu livro, “Mulheres desafiam as igrejas cristãs”, o seguinte:

Durante dez anos a condição feminina teve ênfase especial nas igrejas do Brasil. De 1988 a 1998, foi desdobrada a Década Ecumênica de Solidariedade das igrejas com a mulher. O objetivo era verificar como pessoas, grupos e instituições podem remover barreiras que dificultam a plena participação de mulheres nos vários campos da atividade humana. No Brasil essa Década teve o apoio do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic, com sede em Brasília), o Conselho Mundial de Igrejas (com sede em Genebra, Suíça), que lançou o decênio, e acompanhou sua implantação em setenta países. Uma frase emergiu da avaliação, ao final da Década: A violência contra a mulher é pecado! E uma senha foi gravada: “Não desistir”. A resistência é necessária porque milênios de opressão não desaparecem em dez anos. A Nova Década – Ação Ecumênica de Mulheres, já está em andamento.[18]

Outra mulher que nesse mesmo período aparece no cenário evangélico brasileiro é a Dra. Neuza Itioka. Bacharel em teologia pela Faculdade Metodista Livre, formada em Pedagogia pela USP, doutora em Missiologia pelo Seminário Teológico de Fuller (Pasadena, Califórnia, EUA). Seu livro “Os deuses da Umbanda” levou-a a ser conhecida neste país desenvolvendo o ministério de Batalha Espiritual com ênfase em libertação e cura interior. Hoje ela continua na ativa, bem divulgada na internet e possui no seu currículo o título de apóstola também. [19]

Chegando ao final dos anos noventa e principalmente no início deste século, assistimos a uma explosão de pastoras surgindo no Brasil. Nas chamadas Igrejas Independentes e Comunidades Evangélicas em geral, quase toda esposa de pastor automaticamente se tornou pastora e, algumas destas, bispas.

A Convenção Nacional de Madureira das Assembléias de Deus, uma organização considerada tradicional em suas doutrinas, também adotou esta posição. “A Conamad ordena a cantora gospel Cassiane como pastora. A consagração pegou todo mundo de surpresa, inclusive a própria, durante a 37ª Convenção, realizada em 2006 na cidade de Paulínia (SP)”.[20]

Em outra ramificação das Assembléias de Deus, a Betesda, a pastora Silvia Geruza R. Rodrigues, esposa do conhecido pastor e escritor Ricardo Gondim Rodrigues, tem sido grande influência no contexto nacional através de suas participações em conferências.

A liderança pastoral feminina chega agora também nas igrejas tradicionais como Presbiteriana Independente, Congregacional e Batista (em algumas localidades).

Acompanhando esse processo, a Reverenda Carmen Etel Alves Gomes, pastora há 21 anos pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, respondendo sobre a evolução feminina diz: “Acredito que a liderança feminina está trazendo alma nova para as igrejas tradicionais, muita criatividade e um novo perfume para as comunidades”. [21]

Outra fonte mais recente de influência no Brasil, a evangelista Joyce Meyer.

“Começou pregando a palavra em sua casa em 1976 e já construiu um ministério mundial, sendo que em 2005, foi citada, pela prestigiada revista Time, como um dos 25 líderes evangélicos mais influentes nos E.U.A. Dos seus setenta livros publicados, vinte já foram lançados aqui no Brasil. Esteve em uma conferência aqui em 2005, e disse ter neste país uma de suas prioridades” [22]

Devemos ainda levar em consideração o fato de que este assunto é motivo de muitos debates e teses dentro das Universidades. A Universidade Metodista de São Paulo, em seu programa de pós-graduação em Ciências da Religião possui em seu acervo várias dissertações de mestrado relacionadas ao papel da mulher na igreja, desde 1988.

Outras Universidades como Unicamp e Mackenzie, têm projetos prontos e em andamento sobre o papel da mulher na sociedade, onde é tratada, inclusive, a posição dela como líder nas igrejas. Vêem sempre as dificuldades como preconceito cultural ou religioso. Estão nas Universidades os grandes formadores de opiniões, os quais atingem a população em geral, sendo a igreja parte disso.

Tem havido muitos fóruns regionais, estaduais e nacionais entre as denominações sobre esta pauta. Podemos encontrar, também, um extenso material na internet. Esse tema é muito relevante e não podemos ficar alheios ao mesmo, diante desta corrente de defensores.

5.2 O que pensam

Defendem que o cristianismo tem suas origens no judaísmo dentro de um contexto greco-romano. Nesse pano de fundo pode-se encontrar a dominação patriarcal que marcou definitivamente o mundo ocidental. Nós somos herdeiros dessa ideologia e colhemos amargos frutos.

Marga J. Stroher, na conclusão de sua monografia, “A Igreja na Casa Dela”, diz o seguinte:

 “Apesar de limitadas e filtradas, as fontes bíblicas de que dispomos, ainda conseguem revelar grandes coisas sobre a história das mulheres nos primeiros tempos cristãos. E as mulheres reveladas na ponta desse iceberg, como diz Elisabeth Schussler Fiorenza, com toda certeza não aparecem como exceções à regra, mas como representativas das mulheres cristãs que sobreviveram às redações androcentricas e ao silêncio histórico”.[23]

“Assim, a certeza bíblica baseia-se não só numa compreensão teológica antiquada e equivocada da revelação bíblica, mas também numa compreensão historicista equivocada do que afinal é a Bíblia”.[24]

Mulheres como Sarah Osborne que viveu durante o chamado Grande Avivamento, (1725-1770) dirigia reuniões de adoração em sua casa em Newport, Rhode-Island. Dizia que havia procurado homens para dirigir o trabalho, mas não encontrou. Afirmava que as pessoas da comunidade preferiam seu aconselhamento ao dos homens.

É dito que as mulheres são mais humildes, sensíveis, emocionais, criativas e mediante essas virtudes se tornam piedosas no ministério. Da mesma forma, dizem que quando uma mulher está debaixo da autoridade de uma liderança masculina, ela pode exercer qualquer atividade eclesiástica. Joyce Meyer exerce uma posição de destaque como pregadora e preletora, atingindo muitas igrejas em vários paises, porém, diz que em casa, o seu marido é o líder.

Baseados em relatos como estes, irmãos e irmãs no Brasil, estão desenvolvendo uma teologia, usando além de argumentos históricos, várias passagens bíblicas, procurando nas suas entrelinhas encontrar detalhes que possam comprovar a liderança pastoral feminina na história da igreja.

Em Gênesis 1:26-27 mostram que não há nenhuma distinção ou ordem hierárquica entre homem e mulher e que ambos foram criados a imagem de Deus.

O que realmente trouxe essa hierarquia foi a entrada do pecado no mundo. A partir daí o homem se torna governante sobre sua mulher. Para completar esta idéia citam Gálatas 3:26-27 que diz: “Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes. Destarte não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”.

Observações feitas sobre algumas mulheres ainda no Velho Testamento procuram favorecer a liderança feminina. Por exemplo:

Miriã, filha de Joquebede e Aurão, irmã de Moisés e Arão, é mostrada como uma pessoa muito sábia no episódio do salvamento do bebê Moisés no rio. Em Êxodo 15:20-21, liderou todas as mulheres israelitas na celebração da grande vitória concedida por Deus ao povo. Em Miquéias 6:4 ela é citada como líder da nação de Israel junto com Moisés e Arão.

Hulda, é observada em II Reis 22:14-20, como profetiza consultada pelo rei Josias. Em resposta a palavra de Hulda, ele guiou o povo num ato de renovação da aliança.

Débora, como profetiza e juíza é a pessoa mais citada como liderança feminina sobre o povo de Israel, na conquista de mais uma batalha que daria prosseguimento à ocupação da terra de Canaã, após a morte de Josué (Juizes 4).

Alguns comentaristas fazem menção também a mulheres como Raabe, Rute e a mulher de Urias, pessoas cruciais na genealogia de Jesus.

No Novo Testamento relatam outras passagens nessa direção:

O livro de Atos no capítulo 2 nos versos 17 e18 diz: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão os vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias e profetizarão”.

Atos 21:9 mostra que Felipe tinha quatro filhas donzelas que profetizavam.

Atos 12:12 relata sobre a casa de Maria mãe de João Marcos que liderava a congregação.

Atos 18:26 comenta sobre o ensino ou esclarecimento da palavra de Deus para Apolo através de Priscila e Áquila. I Coríntios 16:19 também mostra que Priscila e Áquila eram líderes da igreja que se reunia na casa deles.

O livro de Romanos capítulo 16 verso 7 ainda diz que Júnias era notável entre os apóstolos.

Usando textos como esses e outros, uma teologia está aparecendo no contexto evangélico brasileiro, dando plena liberdade e ação às mulheres no ministério de liderança eclesiástica.

Caminhando nessa jornada, não será feita nenhuma exegese de textos citados, para defender ou atacar a liderança pastoral feminina, porque isso já tem sido debatido exaustivamente entre os estudiosos. O mais viável é expor de forma geral, sem perder o foco, a administração de Deus, no Seu projeto de restauração e consumação de Sua obra, visando à compreensão desse assunto.

6. A administração divina na história

 Deus é um administrador por excelência que fornece o projeto e usa o ser humano para realizá-lo, conforme o seu querer. Seu propósito para a humanidade tem sua origem no livro de Gênesis e o seu término no livro de Apocalipse. Portanto, devemos observar à luz da história bíblica, como Ele tem executado essa tarefa através de cadeias de comando.

6.1 Cadeia de comando familiar

Gênesis 1-3

O capítulo 1 de Gênesis no verso 27 diz: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”.

Na criação observamos que perante Deus tanto o homem como a mulher têm o mesmo valor e consideração. São feitos, igualmente, à imagem de Deus.

O capítulo 2 de Gênesis nos versos de 4-17 mostra a criação do homem, o jardim do Éden e a ordem de Deus para que este não comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Continuando o relato nos versículos 18-25 verificamos a criação da mulher a partir de Adão. Quando este a vê diz: “Esta afinal é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada”.

Mais uma vez notamos a igualdade posicional de ambos, todavia já podemos vislumbrar o início de uma cadeia de comando instituída por Deus. A mulher é formada a partir do homem e este inclusive lhe concede o nome, o que no Velho Testamento foi tido como sinal de autoridade.

No capítulo 3 do livro de Gênesis encontramos o relato sobre a queda do homem. O que vemos aqui é a mulher assumindo a frente do casal, e depois de ser enganada e comer da árvore que não devia, deu ao seu marido e ele também comeu. Satanás não atacou Adão e sim a auxiliadora. Porém, quando Deus reprova aquela ação, Ele não o faz chamando a auxiliadora, mas o líder. E diz: “Visto que atendeste a voz da tua mulher”, e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses…

Com o desenrolar da história, essa cadeia de comando fica mais clara. Deus inicia a administração de Seu grande projeto concedendo funções diferentes ao homem e a mulher. A ordem dada a Adão foi cobrada dele.

No versículo 15 desse mesmo capítulo, uma profecia marcante, fruto da misericórdia e bondade de Deus é feita demonstrando o grande valor que Ele concedeu a mulher, independente de seu erro cometido. Dela nasceria alguém que iria derrotar aquele que a enganou.

Ainda no versículo 16, a expressão “e ele te governará”, para muitos de nós, quando lemos superficialmente, concluímos de uma forma rápida, que Deus a está castigando. Não é isso exatamente o que acontece. Deus está indicando novamente, e de uma forma mais direta, como deve prosseguir esse relacionamento, para que Seu projeto seja realizado. Em Seu grande amor, está colocando o marido como guarda de proteção de sua mulher. Portanto, encontramos essa cadeia de comando familiar estabelecida por Deus, tanto antes da queda do homem, como depois. 

Efésios 5:18-6:4

No Novo Testamento, vamos analisar a visão concedida por Deus ao apóstolo Paulo, que se encontra nessa passagem. Dentro desse contexto orgânico, o imperativo de ser cheio do Espírito, direcionará e trará vida a essa fisiologia. Paulo diz:

“Enchei-vos do Espírito. Falando entre vós com Salmos. Entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais. Dando sempre graças por tudo. Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo“.

Como?

As mulheres sejam submissas a seus próprios maridos, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas a seus maridos”.

“Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama a sua esposa, a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a sua própria carne, antes a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja, porque somos membros do seu corpo”.

A mulher deve se sujeitar ao marido sendo submissa, e o marido deve se sujeitar à mulher, amando-a como Cristo amou a sua igreja. Comparando superficialmente esses dois textos, parece que a sujeição do marido é mais profunda e penosa.

É muito importante percebermos o contexto de sujeição, para sermos cheios do Espírito, num ambiente de igualdade perante Deus. Porém, seguindo os passos dessa administração fisiológica espiritual, e não hierárquica humana, machista ou feminista.

Da mesma forma o capítulo 6 trata a respeito da sujeição entre pais e filhos.

“Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra”. “E vós Pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor”.

Na seqüência desse capítulo entre os versículos 5 e 9, Paulo trata com os senhores e servos, dentro deste mesmo conceito de sujeição e termina com uma frase muito apropriada. “Para com Ele não há acepção de pessoas”.

A compreensão dessa fisiologia nos leva a um viver correto e saudável, sem preconceitos, e certamente os resultados serão muito positivos, dentro da família, que por sua vez, irá influenciar a sociedade.

I Pedro 3:1-7

Esta carta foi escrita pelo apóstolo Pedro aos forasteiros da Dispersão, no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia. É muito interessante como ele vai desenvolvendo o seu pensamento explicando:

a) A nossa salvação e posição em Cristo para uma viva esperança e herança incorruptível. (cap. 1)

b) A necessidade de santificação como filhos de Deus obedientes deixando os moldes da velha natureza e desejando ardentemente o genuíno leite espiritual. (cap. 1)

c) O dever de nos sujeitarmos a toda instituição humana por causa do Senhor. (cap.2)

d) Também como servos estarmos submissos com todo temor aos nossos senhores. (cap.2)

e) O grande exemplo de Jesus em seu despojamento para seguirmos os seus passos. (capítulo 2)

É importante notarmos como Pedro parte de citações gerais e vai caminhando para o mais específico e agora chega ao capítulo três. 

Versículos 1 e 2

“Mulheres, sede vós igualmente submissas a vossos maridos, para que, se alguns deles ainda não obedecem à palavra, sejam ganhos, sem palavra alguma, por meio do procedimento de suas esposas, ao observarem o vosso honesto comportamento cheio de temor”.

Um ponto a ser observado nesses versículos, inicialmente, é a palavra igualmente, referindo-se ao contexto anterior. Ele volta a citá-lo no versículo sete quando se refere ao marido, mostrando que tanto a esposa como o marido estão no mesmo plano espiritual. A partir dessa observação podemos compreender que a mulher será capaz de praticar o que vem a seguir partindo de um relacionamento íntimo com Deus

Quando Pedro cita maridos que não obedecem à palavra, é provável que naquele momento da história e naquelas regiões, muitas mulheres se converteram e estavam passando por essa dificuldade. A orientação deixada é que elas deveriam ganhá-los sem palavra alguma. Isso não quer dizer que ficariam mudas em um canto da casa, mas que, com sabedoria e no Senhor, poderiam dar exemplos com um bom procedimento e honesto comportamento cheio de temor.

O que poderia estar ocorrendo e ocorre em nossos dias é que mulheres nessa condição geralmente acabam irritando seus maridos pelo muito falar. Estão sempre fazendo sermões, retrucando a tudo, importunando e atormentando. Ainda que o desejo de ganha-los seja legítimo a maneira é inadequada. Portando, nesses versículos Pedro relata de forma simples e clara a maneira correta para as mulheres terem sucesso.

Versículos 3 e 4.

Não seja o adorno das esposas o que é exterior como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja porém, o homem interior de coração, unido ao incorruptível de um espírito manso e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus”.

O que Pedro está se referindo aqui, é que não são os enfeites, penteados, exageros ou ostentação de vestidos, que vão fazer com que o marido entenda a mensagem do evangelho, mas o que faz a grande diferença em termos de testemunho é o interior.

Uma esposa de espírito manso e tranqüilo certamente terá um marido que irá ouvi-la com mais atenção. Essa atitude ou comportamento tem grande valor diante de Deus. Note que ele ( Pedro) não está proibindo a mulher de se vestir bem, mas é contra o exagero e por pensar que isso é mais importante para o marido.

Versículos 5 e 6.

“Pois foi assim também que a si mesmas se ataviaram outrora as santas mulheres que esperavam em Deus, estando submissas a seus próprios maridos, como fazia Sara, que obedeceu a Abraão, chamando-lhe Senhor, da qual vós vos tornastes filhas, praticando o bem e não temendo perturbação alguma”.

Essa carta caminha em uma seqüência muito forte quanto ao exemplo cristão. Ele usa as santas mulheres como testemunho ou modelos que esperavam em Deus. Note que o princípio de tudo é estar em Deus. Deus estava em primeiro lugar, depois como conseqüência vinha a submissão aos seus próprios maridos.

Ele conclui essa parte citando um exemplo mais específico ainda referindo-se a Sara. Observando a história vemos que ela era uma mulher muito bonita e atraente. Todavia, o que marcou sua vida foi sua obediência e submissão ao seu marido, a ponto de chamá-lo Senhor em sua meditação, demonstrando grande consideração e respeito para com ele.

É marcante como Pedro termina esse relato dizendo que as irmãs se tornaram filhas de Sara, (Somos todos filhos de Abraão) que praticou o bem e não temia perturbação alguma, vivia em paz! 

Versículo 7.

“Maridos, vós, igualmente vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, por isso que sois juntamente herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações”.

Apesar de o apóstolo Pedro ter gasto seis versículos com as mulheres e somente um com os homens, não significa outra coisa a não ser o seu amor por elas. Sua exortação se refere apenas a submissão, o restante da narrativa vai esboçar como viver isso na prática do dia a dia. Já para com os homens, em apenas um versículo, ele foi firme e direto. Inicia nivelando com a palavra igualmente, ou seja, do mesmo modo.

            a) “Vivei a vida comum do lar com discernimento”.

Aqui o machista leva uma paulada, porque é tudo o que ele não quer. Viver a vida comum do lar engloba a participação em todas as tarefas que envolvem a esposa, filhos e afazeres domésticos. Não só deve haver a participação dele, mas acima disso tudo, com discernimento. Não de qualquer maneira. Como diz Champlin:

“Com uma autêntica iluminação espiritual que torna a pessoa cônscia das necessidades alheias e cônscia das obrigações sagradas do matrimônio”.[25]

            b) “Tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil”.

Ter consideração. Segundo o dicionário Aurélio, seria dar toda importância a ela, respeitá-la e tê-la em alta estima.

Como parte mais frágil, não significa depreciação, mas no cotidiano do lar, o marido deve lembrar que os serviços mais pesados são dele, visto que fisicamente ele leva vantagem sobre ela.

c) “Tratai-a com dignidade”, ou seja, com honra. Ela deve ser vista como uma pedra preciosa necessitada de cuidado, com respeito e carinho.

d) “Por isso é que sois juntamente herdeiros da mesma graça de vida”.

Pedro torna a lembrá-lo de que não há diferenças hierárquicas e que para Deus, marido e mulher estão no mesmo plano espiritual devendo participar igualmente da mesma herança.

e) “Para que não se interrompam as vossas orações”.

Pedro chega ao clímax de sua exortação, mostrando que quando esses princípios não são praticados no matrimônio, a fisiologia orgânica espiritual será interrompida, o que irá causar grandes prejuízos.

Com esses textos, podemos entender que todos nós temos o mesmo valor perante Deus, mas as nossas funções dentro dessa administração são diferentes. Não há de forma nenhuma aqui lugar para a dominação de poder humano, mas a expressão do amor e do cuidado de Deus. 

6.2 Cadeia de comando geral no Velho Testamento.

Após a queda do homem, Deus em sua economia vai trazê-lo de volta à comunhão com Ele. Em Gênesis 4:26 é dito: “A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do Senhor”.

No capítulo 5 encontramos entre os descendentes de Adão um homem chamado Enoque que andou com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si.

Apesar desses modelos positivos, no capítulo 6, Deus olha para a humanidade e esta estava corrompida e cheia de violência. Então, decide dar cabo de toda carne. Entretanto, Ele vê um homem chamado Noé, justo e íntegro entre os seus contemporâneos e o escolhe para construir uma arca e preservar a humanidade.

No decorrer da história, os descendentes de Noé, agora com seus corações cheios de orgulho e soberba, decidem construir uma torre que pudesse chegar aos céus. O juízo de Deus desce sobre eles, confundindo a sua linguagem, para que um não entendesse o outro. Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra.

Naquele contexto, Deus olha para um homem chamado Abrão e diz: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma benção”.

Na seqüência dessa história, Abrão se torna Abraão, que gera Isaque, o qual vem a gerar Jacó dando origem as 12 tribos de Israel. Nesse relato histórico, Deus está sempre chamando um homem para liderar seus pequenos projetos dentro do contexto maior.

Quais são então os líderes dessas doze tribos? Rubem, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulon, José e Benjamim.

Continuando, notamos outro fato histórico, quando Deus escuta o gemido de seu povo escravizado no Egito. Ele chama então Moisés que junto com Arão, vão liderar a libertação desse povo, seguindo para a terra de Canaã. Dando continuidade a essa tarefa, encontramos também mais dois homens liderando, Josué e Calebe.

Outro fato a ser considerado está na instituição dos Reis de Israel. Todos eles eram do sexo masculino. Houve, porém, uma exceção, que se encontra no livro de II Reis 11:1-3 e 12-16. Esse texto narra a história de Atalía que usurpa o trono mandando matar todos os descendentes da linhagem real. Porém, um deles foi preservado, e depois de seis anos, o sacerdote junto com o povo, o aclama rei. Atalía é executada.

Na linhagem real, encontramos também dois personagens que marcaram a história. O rei Davi e seu filho Salomão.

Nesse rápido panorama, encontramos ainda líderes como Esdras, Neemias, os profetas maiores e menores concluindo a história veterotestamentária.

A pergunta que fazemos até aqui é a seguinte: Essa administração usando pessoas do sexo masculino, foi ao acaso, foi um problema cultural, Deus é machista ou Ele sabe como deve ser conduzida a Sua obra? Em Sua conduta perfeita de respeito e consideração, sem preferências, Deus distribui funções diferentes às pessoas que Ele criou com características, sensibilidades e habilidades diferentes.

6.3 Cadeia de comando geral no Novo Testamento

O Novo Testamento inicia com os evangelhos relatando sobre a chegada do Messias o grande líder supremo e seu ministério. Cristo Jesus, homem. (I Timóteo 2:5)

Jesus diz: “Eu edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (Mateus 16:18)

Sabendo que seu tempo era limitado neste mundo, Ele escolhe 12 discípulos para liderarem a continuidade de Sua obra. São estes os 12 apóstolos: Simão Pedro, André, Tiago, filho de Zebedeu, João, Felipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão o zelote e Judas Iscariotes.

Podemos pensar nesse momento porque Jesus escolhe 12 homens. Ele tinha a Sua mãe, a bem-aventurada entre as mulheres e era amigo de muitas outras como Marta e Maria. Não podemos dizer que Ele agiu dessa maneira porque estava preocupado com a cultura da época. Ele bateu de frente com os judeus todas às vezes que houve necessidade. Em se tratando deste assunto, Jesus quebrou vários protocolos culturais ou tradições da religiosidade vigente, dando toda a atenção às mulheres com quem se relacionava, elevando-as à posição de cidadãs.

Seguindo o relato bíblico, vamos encontrar outros líderes que darão continuidade na expansão da igreja como: Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas, Nicolau, Paulo, Barnabé, Silas, Timóteo, Tito e outros colaboradores.

6.4 Cadeia de comando na história da igreja

A história da igreja também foi marcada por homens que fizeram diferença como líderes, principalmente nos momentos cruciais onde houve a necessidade de defesa da fé e a continuidade da expansão do reino. Nos primeiros séculos Deus levanta vários que marcaram aquele momento como: Policarpo (70-155) – discípulo de João, Justino Mártir (100-165) – Apologista, Irineu de Lyon (130-200) – Teólogo e bispo de Lyon, Clemente de Alexandria (150-215) – Teólogo, Tertuliano (150-220) – Apologista, Orígenes de Alexandria (185-254) – Teólogo, Eusébio de Cesaréia (264-340) – Pai da história eclesiástica, Atanásio de Alexandria (293-373) – Bispo de Alexandria, Ambrósio de Milão (340-397) – Bispo de Milão, João Crisóstomo (347-407) – Bispo de Constantinopla, Jerônimo (347-419) – Tradutor da Vulgata, Agostinho (354-430) – Bispo de Hipona e muitos outros.

Outro movimento que marcou a história foi a reforma protestante no século XVI onde Deus levantou alguns homens para liderarem essa tarefa. Martinho Lutero, (1483-1546) Zwinglio, (1484-1531) Meno Simons, (1496-1561) João Calvino, (1509-1564) João Knox, (1514-1572) James Arminius, (1560-1609) e outros.

Nos séculos XVIII e XIX encontramos também líderes que marcaram o movimento missionário com grande impacto na história. Jonathan Edwards, (1703-1758) George Whitefield, (1714-1770) John Wesley, (1703-1791) Charles Finney, (1792-1875) e muitos outros.

Essa cadeia de comando, como foi visto, teve seu início no livro de Gênesis e vai se desenvolvendo por toda a história bíblica e eclesiástica até chegar ao livro de Apocalipse. Em Apocalipse é mostrado que, na ocasião da grande tribulação, Deus levantará duas testemunhas que também deverão ser do sexo masculino.

Portanto, não podemos fechar nossos olhos para todo esse contexto bíblico e histórico, indicando como Deus vem realizando o Seu projeto maior em relação ao Seu povo, colocando cada pessoa para exercer uma função, conforme lhe apraz. Certamente que muitas mulheres foram grandemente usadas por Ele em suas funções, porém, quanto as lideranças dos movimentos, o homem é destacado.

7. A liderança na igreja local

Não serão enfatizadas passagens muito utilizadas, que aparentemente inibem a participação da mulher no contexto de igreja local como: I Coríntios 11:2-16 e 14:26-40. A partir de textos como estes, teríamos que fazer um estudo muito extenso, analisando todo contexto histórico e da própria carta, exegese dos textos e estudo de vocábulos, o que poderia nos tirar do foco em que estamos caminhando, dentro dessa visão panorâmica sobre liderança.

Logo no início da igreja em Jerusalém, vemos uma liderança formada pelos apóstolos e a instituição também de diáconos. Homens de boa reputação e cheios do Espírito e de sabedoria. Eles lideraram servindo debaixo de perseguições e sofrimentos e assim fizeram até a morte. A maioria foi martirizada. Essa igreja recém-nascida tem sido o modelo ao longo da história, em sua administração, piedade, comunhão, ensino e crescimento.

Entretanto, iremos diretamente para as chamadas cartas pastorais, onde o apóstolo Paulo, após o surgimento de várias igrejas, recomenda aos seus liderados como organizar a cadeia de comando para a melhor administração da igreja local. Não nos esqueçamos de que se trata de um funcionamento orgânico e não o de uma instituição de hierarquia humana.

7.1 Base bíblica sobre liderança na igreja local

I Timóteo 2:8-15

Depois que Paulo faz algumas recomendações a Timóteo no capítulo 1 sobre o cuidado com a sã doutrina, ele também o incentiva a continuar combatendo o bom combate. No capítulo 2, enfatiza a oração por todos os homens os quais Deus deseja que sejam salvos. A partir do versículo 8 ele se detem mais especificamente no que se refere ao comportamento dos santos e diz:

“Quero, portanto, que os varões orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem animosidade. Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas). A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o marido; esteja porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se elas permanecerem em fé e amor e santificação, com bom senso”.

Com essa cadeia de comando em mente, este texto não mostra outra coisa a não ser o carinho e amor de Deus através do apóstolo Paulo, dando orientações fundamentais sobre relacionamentos, colocando o homem e a mulher nas suas funções vitais, e ainda demonstrando o grande valor que cada um tem a desempenhar. Em relação à mulher, uma grande demonstração de afeto e proteção.

I Timóteo 3:1-13

Neste capítulo, Paulo vai ser bem específico no que concerne a liderança na igreja local. Organiza as funções para o bom desempenho desse organismo vivo.

“Fiel é a palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja. É necessário portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a sua própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito; (pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?) não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça, e incorra na condenação do Diabo. Pelo contrário, é necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo. Semelhantemente, quanto a diáconos é necessário, que sejam respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho, não cobiçosos de sórdida ganância, conservando o mistério da fé com a consciência limpa. Também sejam estes primeiramente experimentados; e, se se mostrarem irrepreensíveis, exerçam o diaconato. Da mesma sorte, quanto às mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo. O diácono seja marido de uma só mulher, e governe bem seus filhos e sua própria casa. Pois os que desempenharem bem o diaconato, alcançam para si mesmos justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus”.

Paulo foi muito claro e específico quanto à pessoa que deve liderar. Ele também não esquece a função e o papel da mulher nesta composição. Não há de forma alguma um desmerecimento feminino por parte dele, pelo contrário, está direcionando as funções para uma administração correta na igreja local.

Os versículos 14 e 15 mostram:

“Escrevo-te estas coisas esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade”.

Assim como não podemos comentar sobre liderança à luz da palavra de Deus com uma mente machista ou feminista, estes versículos mostram como é muito importante não vermos a casa de Deus ou Igreja do Deus vivo, como um prédio ou uma organização humana denominacional, mas sim, um organismo vivo composto por pessoas. Sem este entendimento nos perderemos em loquacidade frívola.

Tito 1:5-9

Nesta carta Paulo afunila a necessidade de se constituir lideranças nas igrejas locais, orientando Tito para a realização dessa tarefa, indicando mais uma vez, as credenciais que tal pessoa deveria ter, para exercer esta função.

“Por esta causa te deixei em Creta para que pusesses em ordem as cousas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi; alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância, antes hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, apegado à palavra fiel que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder, assim para exortar pelo reto ensino como para convencer os que contradizem”.

Essa narrativa completa a idéia da necessidade desta administração em cada igreja local. O homem deveria ser o líder com um caráter irrepreensível. A responsabilidade impetrada ao líder, tem um grande peso, sendo que se esse vier a desempenhar a sua função no frescor orgânico do corpo de Cristo, não haverá lugar para esse vírus cancerígeno espiritual chamado machismo.

7.2 Implicações da liderança feminina na igreja local

Para compreendermos essas implicações é necessário observarmos um pouco mais sobre o papel da mulher. Quando temos em mãos a clareza das funções determinadas para cada individuo, o não cumprimento das mesmas certamente acarreta diversos problemas, com dimensões de curto e longo prazo.

Por exemplo, em I Timóteo 2:15, encontramos a função que ela deve exercer como mãe, sendo uma discipuladora ou treinadora de uma futura liderança. Pode-se ter essa confirmação em II Timóteo 1:4,5 e também em II Timóteo 3:14,15 que diz: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E, que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus”. Paulo deixa claro, escrevendo para Timóteo, a importância e influência que sua avó Lóide e sua mãe Eunice tiveram em sua vida, como a base para que ele agora adulto pudesse usufruir exercendo o papel de líder.

“Hoje o papel de mãe tem sido menosprezado. Mas é ele o primeiro e o mais importante papel da mulher na igreja. É um lugar de honra, de dignidade, de serviço à igreja. Quem forma em sua igreja a próxima geração de líderes moldados na Palavra de Deus? O departamento de juniores? A Escola Bíblica Dominical? O Seminário? Não!!! São as mães:” fazedoras de homens e mulheres de Deus”![26]

Certamente que quando elas ocupam outros afazeres, especialmente aqueles em que toma o lugar de seus maridos, como por exemplo, liderança eclesiástica, acabam não cumprindo de forma específica as suas funções de mães, causando danos a si mesmas, a suas famílias e ao corpo de Cristo.

A liderança pastoral deve ser exercida com muita dedicação e perseverança, pois, irá enfrentar uma gama muito grande de problemas e crises existenciais no meio da comunidade alvo, e o líder tem a necessidade de alguém que vai ficar na sua retaguarda cuidando do lar. À mulher é dada essa função, e somente ela tem as habilidades concedidas por Deus para desempenhá-las. A inversão desses papéis poderá levar a uma  desestruturação.

Outro ponto a ser considerado é que à mulher é dada a responsabilidade de discipular ou treinar a próxima geração de esposas e mães. Tito 2:3-5 diz:

“Quanto às mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias em seu proceder, não caluniadoras, não escravizadas a muito vinho, sejam mestras do bem, a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem a seus maridos e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas a seus próprios maridos, para que a palavra de Deus não seja difamada”.

“Esse é um ministério exclusivo para mulheres. Os homens não ensinam as mulheres a serem idôneas. O pastor não mostra as jovens como cuidar das suas casas. Trata-se de um ministério praticamente reservado às mais idosas, que já criaram filhos, cuidaram dos maridos e serviram na igreja”.[27]

Novamente, verificamos que Deus concedeu dons e habilidades distintas aos membros de seu corpo, especialmente entre homens e mulheres, com o intuito de edificar e administrar o Seu eterno projeto.

Esse último ponto, mostra que a mulher tem a função de servir às necessidades práticas da igreja. I Timóteo 5:9-10 diz:

“Não seja inscrita senão viúva que conte ao menos sessenta anos de idade, tenha sido esposa de um só marido; seja recomendada pelo testemunho de boas obras, tenha criado filhos, exercitado hospitalidade, lavado os pés aos santos, socorrido a atribulados, se viveu na prática zelosa de toda boa obra”.

O papel da mulher, como visto, deve ser desempenhado com muita responsabilidade, dedicação e diligência, porém, quando ela busca outros papéis, outras funções, que não às suas, está tomando sobre si, aquilo que outra pessoa deveria realizar. Então, pode ser criado um desequilíbrio espiritual nesse organismo vivo e a saúde do corpo fica comprometida. O papel dela fica comprometido e o dos outros também. Logo, as funções de cada parte se confundem, causando danos a igreja local.

Um testemunho que ajuda a clarear essa belíssima função da mulher, é esse de Sandra Rolim, esposa de Maurício e mãe de Calebe e Ana Tereza. Eles são missionários na Guiné Conacry-África. Em entrevista a revista Confins da Terra, uma pergunta foi feita a Sandra.

Como é o dia-a-dia da mulher missionária?

Sandra – Como esposa e mãe tenho minhas obrigações comuns a todas as mulheres: Cuido dos filhos, atendo às necessidades do lar e do marido, e até no ano passado alfabetizei meu filho Calebe em casa; porém, sou uma missionária atuante. Gosto de estar sempre com as mulheres da aldeia, a fim de conhecê-las e estabelecer relacionamentos. É interessante explicar que temos duas casas. Uma num terreno doado pelo povo, um pouco afastado do centro da aldeia, onde passamos dois ou três dias da semana, para termos maior contado com o povo durante a noite, porque durante o dia eles trabalham muito no campo. Desde o início focalizamos nosso ministério na área da saúde e eu participei fazendo curativos que, às vezes era muito repugnante, mas o Senhor me deu coragem para enfrentar a situação. Com isso conquistamos a confiança das pessoas e, graças a Deus, o povo abraçou o projeto saúde, que atualmente já está em funcionamento. Recebemos doações de igrejas e o governo da Guiné enviou e está mantendo profissionais de saúde, para atender o povo. Louvem ao Senhor por estas bênçãos.[28]

Essa resposta de Sandra expressa muito bem a função da mulher, segundo o padrão da Palavra de Deus. Uma discipuladora em casa de uma futura liderança. Discipuladora da próxima geração de esposas e mães, no meio da comunidade. E, servindo as necessidades práticas, como a área de saúde, tão carente no meio do povo de etnia Baga-Foré

Os resultados de um viver, o mais próximo possível dos padrões de Deus, produzem famílias estruturadas e estabilizadas, que vão influenciar as gerações seguintes, trazendo relacionamentos saudáveis e sem grandes turbulências sociais. Para que isso ocorra, o homem e a mulher não podem deixar de exercer suas funções, segundo o padrão estabelecido pelo criador, que sabe todas as coisas. Em Mateus 5:13, Jesus disse: “Vós sois o sal da terra, ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens”.

É proposital nesse trabalho, não citar conseqüências negativas específicas, quando o padrão de Deus não está sendo cumprido, porque gastaríamos muito tempo, criaríamos dúvidas, discórdias e perderíamos o foco em questão. Entretanto, é preciso frisar que quando esse padrão divino é quebrado na família, a igreja local é afetada e a sua expressão no mundo fica alterada.

Enfim, a liderança pastoral feminina na igreja local não condiz com os padrões perfeitos da Palavra de Deus, causa grandes prejuízos, tanto nas famílias, como na própria igreja, e deixa de influenciar essa sociedade tão decadente.

8. Considerações Finais

 A Bíblia – A Palavra de Deus – é muito clara sobre as funções, o valor e a dignidade da mulher. Não há lugar na Igreja – o corpo vivo de Cristo – para o machismo, que tem sido pernicioso ao longo da história. Também, não há lugar para o feminismo, que principalmente nas últimas décadas tem se levantado fortemente, em oposição à dominação do homem. É importante salientar que tanto o machismo quanto o feminismo não resolverão os problemas da sociedade. A reação feminista tem o seu valor nesse contexto social hierarquizado, porém e infelizmente, poderá causar prejuízos para as próprias mulheres e para suas famílias. Nessa luta pela igualdade de posição, elas poderão se violentar, como também prejudicar seus lares e, especialmente, os seus filhos.

É de extrema relevância o discernimento quanto ao mistério de Cristo, que é a igreja, seu corpo, organismo vivo e organizado de forma perfeita pelo próprio Senhor (Efésios 3:1-11). Como analisado anteriormente, sem esta compreensão, continuarão os debates e as divisões entre o povo de Deus. Perderemos o propósito, como igreja, de influenciarmos este mundo, pois, esses conflitos causados pelo machismo e feminismo ofuscam a beleza e eficácia da vida cristã.

Através desse panorama geral sobre a economia de Deus, ficou claro que não há lugar para a liderança pastoral feminina na igreja local. Isso, além de estar em desacordo com a administração divina, coloca sobre as mulheres um grande peso, e para os homens se torna uma grande omissão.

Diante de tantos livros, teses, debates, comentários e estudos feitos sobre liderança pastoral feminina, fica ainda uma questão: Será que a igreja evangélica brasileira está precisando urgentemente de uma grande reforma? Ou melhor, será isso possível?

Nesse contexto, quando pequenas rachaduras aparecem, se não forem logo tratadas, podem tornar-se destrutivas. Vislumbra-se que quando alguns argumentos levam no seu conteúdo a influência da Teologia da Libertação, estes podem sugerir a quebra de determinados “preconceitos”, tais como a liderança pastoral de homossexuais. Isso já ocorre em algumas denominações na América do Norte e está desembarcando no Brasil.

“A salvação para os teólogos da libertação está na humanização do homem. “Humanizar” o homem é livrá-lo da violência e da opressão. É dar-lhe as condições de tornar-se um sujeito livre”.[29] Ora, é sabido que a liberdade humana, neste mundo, jamais será completa. Logo, essa afirmação de tornar-se um sujeito plenamente livre é um engodo.

Por muitos anos, o povo evangélico tem protestado contra a Igreja Católica Apostólica Romana, no sentido de que ela tem exercido uma autoridade acima da Bíblia, ditando as normas. Hoje, esse mesmo erro é cometido no meio evangélico. Isso leva a crer que o estudo da Palavra de Deus está muito debilitado no meio cristão.

É na Bíblia, a Palavra de Deus, onde encontramos o padrão perfeito, que nos orienta e nos conduz a um viver correto, como participantes desse grande projeto estabelecido por Ele. Por isso, é preciso estudá-la com dedicação e perseverança.

Um versículo citado pelo apóstolo Paulo muito importante é o seguinte: “Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhes são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (I Coríntios 2:14). Ele diz ainda: “Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito, e para isso vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Efésios 6:17-18).

Jesus também disse em João 6:63: “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito, são espírito e são vida”.

É pela iluminação do próprio Deus sobre a Sua igreja, através da Sua Palavra, que assuntos como liderança pastoral feminina na igreja local, não se transformem em deformações e transtornos, que podem macular a unidade que deve ser preservada com todo esforço e diligência (Efésios 4:3), impedindo a expressão e glorificação de Jesus Cristo entre os homens a quem Ele quer bem.


[1] MCDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredicto. Volume I, p. 21,22.

[2] LIMPIC, Ted. De Onde Veio a Bíblia. p. 12.

[3] REGA, Lourenço Stelio, org. PAULO sua vida e sua presença ontem, hoje e sempre. p. 139.

[4] Ibid, p. 142.

[5] Ibid, p. 142.

[6] Ibid, p. 144.

[7] Ibid, p. 144.

[8] TAMEZ, Elsa. As mulheres no movimento de Jesus, o Cristo. p. 18.

[9] HUNTER, James C. O Monge e o Executivo. p. 57.

[10] LAURENTIN, René. A vida autêntica de Jesus Cristo. Tomo 1, p. 330.

[11] JOSAPHAT, Carlos. As Santas Doutoras; espiritualidade e emancipação da Mulher. p. 43.

[12] Ibid, p. 51.

[13] BASÍLIO, João Alves. Vida de Santa Catarina de Sena, p. 28.

[14] JOSAPHAT, Carlos. As Santas Doutoras, espiritualidade e emancipação da Mulher, p. 63.

[15] ALMEIDA, Rute Salviano. Uma voz feminina na reforma. p. 63.

[16] ROSLIM, Suwandoko e David Duncan. A Bíblia e a Igreja. p. 144.

[17] MACDONALD, William. Cristo Amou a Igreja. p. 10.

[18] BAESKE, Sibyla. Mulheres desafiam as igrejas cristãs. Contra-capa.

[19] ITIOKA, Neuza. http://www.40.brinkster.com/rede de Intercessão/neusaitioka,htm. 01/06/2007.

[20] Revista Eclésia. Edição 110, pg. 12.

[21] Igreja Episcopal Anglicana.. http://www.alcnoticias.org – 16/10/2006.

[22] Revista Igreja. Edição junho/julho 2006, pg. 82.

[23] STROHER, Marga J. A Igreja na Casa Dela. p. 26.

[24] FIORENZA, Elisabeth S. As origens cristãs a partir da mulher, uma nova hermenêutica. p. 94.

[25] CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado. Volume 6. p. 135.

[26] COX, Mary-Ann e Carol Sue Merkh. 101 Idéias Criativas para Mulheres. p. 126.

[27] Ibid, p. 127.

[28] ROLIM, Sandra. Entrevista a Revista Confins da Terra. Ano 41, nº 128, p. 6.

[29] CONN, Havie e Richard Sturz. Teologia da Libertação. p. 128.

Um comentário sobre “Liderança Pastoral Feminina na Igreja Local

  1. marcela pacheco

    Ainda não finalizei a leitura, mas até onde li percebo um artigo precioso e importante pra construção das relações na comunhão dos cristãos. Muito bom, aprofundado e embasado!

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