Era Júnia uma apostola?


Saúdem Andrônico e Júnias, meus parentes que estiveram na prisão comigo. São notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim – Romanos 16.7 [NVI]

Com a recente decisão da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil para aceitar mulheres como integrantes do ministério pastoral na denominação, pessoas de todo o Brasil passaram a se perguntar a respeito da validade de tal decisão. Blogs, Sites, Páginas do Facebook foram criadas para dialogar sobre o assunto. Até mesmo Augustus Nicodemos, um pastor presbiteriano, sentiu a necessidade de apresentar sua opinião a respeito do assunto no artigo Resposta a Argumentos Usados em Favor da Ordenação de Mulheres. Entre os argumentos respondidos pelo Reverendo Augustus Nicodemos encontra-se a questão sobre Júnias: Era ou não era ela uma apóstola? Se Júnia era de fato uma apóstola, isso não seria uma excelente evidência das escrituras sobre a validade do ministério pastoral feminino na igreja local?

A questão é de fato complexa e precisa ser analisada com atenção. A primeira evidência da complexidade do assunto encontra-se na falta de clareza nas traduções conhecidas em português. A ACF, bem como as mais antigas traduções em português, verte o texto dando a entender que Júnia é de fato um homem: “Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e meus companheiros na prisão, os quais se distinguiram entre os apóstolos e que foram antes de mim em Cristo“. Usando versões como essa, muitos cristãos sinceramente acreditam que Paulo aqui saúda a dois homens que no passado foram companheiros de prisão. Tomamando por base que todos pronomes são masculinos, muitos tendem a ver tanto Andrônico como Júnias como homens. De fato, a tradução oferecida aqui não é clara o suficiente para se expressar com confiança nenhuma opinião sobre o assunto.

A segunda evidência da complexidade do assunto é a divergente opinião dos comentaristas sobre o significado do texto.

a. A vasta maioria dos comentaristas parece não ter certeza. R.C. Sproul, por exemplo, afirma em seu comentário: “É duvidoso se nós podemos saber com certeza se Júnia era um homem ou uma mulher, por que a forma que Paulo usa aqui poderia ser tanto masculino coom feminino. Se é um homem, o nome é Júnias; se é feminino, é Júnia” [Sproul, R. C. The Gospel of God: An Exposition of Romans, p. 251]. Similarmente Spence-Jones afirma que é incerto se o texto se refere a um homem ou uma mulher, mas que se for uma mulher ela é certamente considerada como esposa de Andrônico [Spence-Jones, H. D. M., ed. The Pulpit Commentary: Romans. p. 455]. John Witmer acredita que se Júnia descreve uma mulher a saudação é direcionada a um casal, mas não tem certeza se o termo é masculino ou não [Walvoord, John F., and Roy B. Zuck, Dallas Theological Seminary. The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures. Vol.2, p.499-500].

b. Alguns parecem certos de que Júnias era um homem, mas sem certeza se ele era um apóstolo ou não. Calvino defende que o texto fala que ambos Andrônico e Júnias são chamados apóstolos aqui, mas defende que o uso do termo aqui é abrangente e que não os inclui no ministério apostólico da igreja primitiva. Deve-se admitir por outro lado, que Calvino nem se quer debate o gênero de Júnias, mas o tem como homem pela própria descrição do mesmo como missionário [Calvin, John, Commentary on Rormans]. Johann Bengel, por sua vez, acredita que ambos devem ser contato entre os apóstolos pois eles são apresentados como estando no evangelho antes de Paulo e que por isso devem ter visto o Senhor. Isso não os incluía entre os 12 apóstolos, mas os incluía no ministério apostólico da igreja primitiva. Contudo, Bengel entendia que ambos eram homens [Bengel, Johann, Gnomon of the New Testament, p.365-6]. John Peter Lange reconhece  a possibilidade de o termo ser feminino, mas defende que é mais provável que o termo seja abreviação do nome masculino latino Junianus. Lange o faz seguindo dois outros comentaristas, Meyer e Thouluck. Lange ao contrário de Calvino e Bengel, entretanto, defende que o homem Júnias era um apóstolo visto que Paulo nunca usa o termo de modo abrangente [Lange, John Peter, Philip Schaff, F. R. Fay, J. F. Hurst, and M. B. Riddle. A Commentary on the Holy Scriptures: Romans. p.447-8].

c. Outros parecem certos de que Júnia era uma mulher, mas não a entendem como parte do ministério apóstólico. Robert Utley parece convencido de que, apesar da complexidade da questão, Júnia descreve uma mulher. Ele também entende que o termo apóstolo é usado nesse texto de maneira restritiva, especialmente em função do uso do artigo acompanhado o termo grego. Entretanto, entende que a frase ‘entre os apóstolos’ a descreve não como parte do grupo apostólico, mas como alguém notável para a comunidade apostólica .[Utley, Robert James. The Gospel According to Paul: Romans]. Similarmente, Robert Mounce também entende que o termo usado por Paulo aqui descreve uma mulher chamada Júnia, mas defende que o fato ter sido chamada de ‘exemplar entre os apóstolos’ não a inclui entre os apóstolos, mas como alguém que participa do ministério missionário da igreja primitiva. Nesse sentido ela estaria em igualdade a Priscila, esposa de Áquila [Mounce, Robert H. Romans. Vol. 27. The New American Commentary. p. 275]. Henry Alford parece ter a mesma opinião, entretanto oferece um tratamento mais extensivo com respeito as diferentes possibilidades [Alford, Henry, The New Testament for English Readers, p.Vol.3 p.130-1].

d. Por fim, existem aqueles que estão certos de que Júnia era uma mulher e uma apóstola. Eldon Jay Epp afirma que em sua opinião é indubitável não somente que Júnia[s] era uma mulher como também era contada entre os apóstolos [Epp, Jay Eldon, Junia, the first female apostle, p.81]. James Dunn afirma que se pode concluir com confiança que um dos apóstolos do período de fundação do Cristianismo era uma mulher casada [Dunn, James D. G. Romans 9–16. Vol. 38B. Word Biblical Commentary, p.895]. Carolyn Osiek define Júnia como ‘uma dedicada seguidora do movimento de Jesus Cristo da primeira geração que era engajada em tempo integral com o ministério apostólico, provavelmente com seu marido’ [Pederson, Rena, The Lost Apostle, p.22] Osiek está convencida do gênero e função da pessoa descrita em Rm16.7, sua única dúvida está relacionada ao fato se ela era casada ou não. A Rev. Kathryn J. Riss compartilha a mesma convicção e defende que Júnia era uma mulher contada no ministério apóstólico e que demonstra sua validade como tal pelo fato de ter sido aprisionada por causa do evangelho [Riss, Kathryn, The Apostle Junia].

A terceira evidência da complexidade do assunto é o ambiente cultural dos nossos dias. Diferente de outros momentos da história, nossos dias são marcados por um intenso diálogo [debate] relacionado ao papel da mulher no ministério impulsionado pelo feminismo da nossa era. Nesse cenário, qualquer tentativa de apresentar uma opinião que manifeste a prioridade masculina no ministério soa como machismo, do mesmo modo que, qualquer manifestação de uma opinião contrária ao consenso evangélico se parece com feminismo, ou com alguma forma de liberalismo. Um detalhe interessante a ser notado, é que o debate sobre o gênero de Júnia[s] aparece apenas nos comentários mais recentes. Essa era uma questão de menor ou insignificante em grande parte dos antigos comentaristas. Entretanto, nos nossos dias esse é um assunto importante que precisa ser tratado com seriedade e profundidade.

Por isso, nesse post pretendo analisar e oferecer uma resposta substancial para duas questões importantes sobre o sentido e significado desse texto no cenário do ministério pastoral feminino na igreja local nos nossos dias: (1) O termo grego usado para descrever Júnia é feminino ou masculino? (2) Júnia era de fato uma apóstola ou alguém estimada pelos apóstolos? 

1. A questão do gênero: Júnia (fem) ou Júnias (mas)?

A verdade a respeito do gênero de Júnia[s] é muito mais simples e complexa do que alguns pensam: a diferença entre um nome masculino e feminino é apenas uma questão de acentuação. O termo grego Ἰουνιαν é o termo usado por Paulo, e se tiver um acento agudo na paroxítona o termo é feminino [Ἰουνίαν], se tiver o acento circunflexo na oxítona [Ἰουνιᾶν] o termo é masculino. A simplicidade da diferença faz com que o assunto se torne extremamente complexo, especialmente pelo fato de que os manuscritos gregos só passaram a ser acentuados depois do sétimo século. Diante dessa dificuldade, como podemos chegar a uma conclusão razoável?

Existem cinco fontes de informação disponíveis para nos auxiliar a encontrar uma resposta razoável para essa pergunta. A primeira delas é a própria morfologia do termo Ἰουνιαν e o que se pode concluir da própria palavra no que se refere ao gênero da mesma. A segunda fonte de informação são as evidências da tradição manuscrita do NT. Nela poderemos encontrar evidências de como o texto foi entendido na história da igreja e como ela nos ajuda a compreender o sentido do texto. A terceira é  a literatura grega do primeiro século. Nela podemos encontrar como o termo foi empregado e que pessoas ela descrevia. A quarta é a literatura latina, pois nela podemos investigar se o nome usado em Rom.16.7 pode ser encontrado e a que gênero ele se refere. E por fim, devemos observar como os Pais da Igreja interpretaram esse texto e como a interpretação deles nos ajuda a melhor compreender o dilema apresentado aqui.

a.  Morfologia do termo: A grafia não acentuada do termo poderia indicar um nome tanto masculino como feminino. A terminação aparentemente feminina do termo não necessariamente indicaria que o nome descreve uma mulher, pois em grego Koine existem substantivos nominais da primeira declinação [i.e. com terminação feminina] que descrevem nome de homens. Em Rom.16.14-15 encontramos três nomes masculinos que são declinados como substantivos femininos: Pátrobas [Πατροβᾶν], Hermas [Ἑρμᾶν] e Olímpas [Ὀλυμπᾶν]. Outros exemplos como esse são encontrados por todo o NT [Ἀντιπᾶς (Ap.2.13), Θευδᾶς (At.5.36), Ἀρτεμᾶς (Tt.3.12), Ζηνᾶς (Tt.3.13), Δημᾶς (Cl.4.14; Fl.1.24; 2Tim4.10) entre outros], e podem ser resultado direto de um sistema de abreviação de nomes comum no primeiro século [cf. BDF, §125, p.67-8].

b. Crítica Texual: O mais antigo manuscrito das cartas paulinas conhecido como 𝔓46 contém uma surpreendente variante para o nome de Júnia[s]: Júlia [Ἰουλίαν], um nome claramente feminino atribuído indubitavelmente a uma mulher. Nesse caso, Andrônico seria na verdade esposo de Júlia, também mencionada no verso 15 do mesmo capítulo de Romanos. Essa leitura é suportada por alguns manuscritos gregos medievais menos significantes [6. 606. 1718. 2685], pelas versões Armênia e Copta Boárica e por alguns dos manuscritos da Vulgata latina [vgmss]. Contudo, dificilmente essa leitura seja original, pela falta de distribuição genealógica e completa ausência nos escritos dos pais da igreja. O comitê da UBS foi unânime em rejeitar a leitura Ἰουλίαν [Júlia] aqui, muito embora não pudesse chegar a consenso de como Ἰουνιαν deveria ser acentuado [Metzger, Bruce Manning, United Bible Societies. A Textual Commentary on the Greek New Testament, Second Edition. p.475-6]. Contudo, deve-se lembrar que a partir do momento em que os mss gregos do NT passaram a ser acentuados, os escribas acentuaram o termo Ἰουνίαν, dando a entender que o termo se refere a uma mulher. Em outras palavras, não existe na tradição manuscrita do NT nenhum mss que descreva Ἰουνίαν indubitavelmente como homem. Vale a pena dizer que o termo foi acentuado Ἰουνίαν [fem] da edição de Erasmus de Roterdã [1516], a primeira versão impressa do NT, até a edição de 1927 Erwin Nestlè, com a excessão do comentário de Henry Alford [1852] e nenhuma outra variante parece ter sido apresentada como possível em nenhum aparato crítico, com a excessão de Weymouth [1892]. Soma-se a isso, o fato de que as antigas versões (Antiga Latina, Vulgata, Copta Saídia e Boárica e Siríaca) sem excessão traduziram o termo de forma a se entender uma mulher.

c. Literatura grega: Em terceiro lugar, devemos considerar a literatura grega do primeiro século e considerar como o nome Ἰουνιαν era usado. De modo interessante, o nome Ἰουνιᾶν como descrição de um homem é desconhecido na literatura grega no primeiro século. Já o nome Ἰουνίαν [fem] é encontrado outras duas vezes fora de Rom.16.7 como descrição de uma mulher. Plutarco descreve Junia, mulher de Cássio e irmã de Brutus [Plutarch’s Lives, ed. by E. H. Warmington , vol. 6, Brutus (Cambridge: Mass.: Harvard University Press, 1918) 138- 39]. Tácito descreve uma virgem do templo de Vesta durante o reino de Tibério (EC 20) chamada Júnia Torquata [Tácito, Annals, 3.69]. Apesar da virtual vantagem do nome feminino na literatura grega, deve-se admitir que o nome é deveras incomum. Contudo, do ponto de vista da literatura grega é mais provável que o nome seja feminino.

d. Literatura latina: Em quarto lugar, devemos considerar a literatura latina e considerar como o nome latino era usado. A razão de se observar a literatura latina se deve ao fato de que o Império Romano, Roma em especial, falavam latim, o que pode sugerir que o nome encontrado em Rom.16.7 fosse uma transliteração do latim, como vários outros nomes o são. De modo interessante, o nome feminino latino é usado mais de 250 enquanto o nome masculino não é encontrado em lugar nenhum [P. Lampe, Die stadtromischen Christen in den ersten beiden Jahrhunderten, WUNT, p.139-40, 147 IN: Dunn, James D. G. Romans 9–16. Vol. 38B. Word Biblical Commentary, p.894; cf. Sanday and Headlam, 422; Schulz, 109]. Diante disso devemos considerar que é mais provável que a referência feita em Rom.16.7 seja feita a uma mulher e não a um homem. É importante notar, todavia, que alguns sugerem que o termo Ἰουνιαν fosse na verdade uma forma de abreviação grega de um nome latino como Junianius, or Junilius, nomes também bem comuns no mundo latino do primeiro século [BAGD, 380; BDF §125, 2]. De fato, casos como esses são conhecidos  no NT. Entretanto, deve-se lembrar que não se encontra na literatura grega o nome Ἰουνιᾶν como descrição de um homem [BDAG, 480]. Se Júnias pretendia ser uma abreviação do nome Junianius, por que o nome Júnias [a forma contraída] nunca foi usado em nenhum outro lugar? Em outras palavras, não existe qualquer evidência que demonstre que tal contração de fato aconteceu com esse nome. Aliás, é fundamental notar que de acordo com o sistema de transliteração de um nome latino para o grego, tal teoria não pode ser sustentada. Nomes masculinos em latim que eram terminados em –us eram transliterados em grego como –ος. Aqueles terminados em –o eram transliterados em grego como –ων. Nomes femininos em latim terminados em –a eram transliterados como –ας. Os nomes masculinos em latim terminados em –ius eram normalmente transliterados como –ιος em grego. Ou seja, o nome Iunus/Iunia seriam transliterados Ἰοὐνιος/Ἰουνἰα. A forma acusativa desse nomes [a forma usada em Rm.16.7] desse nome latino seria Iunium/Iuniam deixando evidente o gênero do substantivo nominal. Essa forma seria transliterada em grego como Ἰοὐνιον/Ἰουνἰαν, que também se permite distinguir claramente o gênero do substantivo nominal [Cervin, Richard, Note regarding the name Junia(s), p.468-9]. Também vale a pena notar que a mudança de opinião entre BADG [3ed.] BDAG [4ed. BADG revisado e atualizado] sugere que os recentes avanços no estudo do assunto apontam para uma definição mais clara de que Paulo realmente se refere a um mulher em Rm.16.7 Em outras palavras, é bem provável que a referência de Paulo em Rom.16.7 seja mesmo feita a uma mulher.

e. Pais da Igreja: Por fim, devemos considerar o testemunho dos pais da igreja. A vasta maioria dos pais da igreja considerava que Júnia era a esposa de Andrônico, como por exemplo, Ambrosiaster (c. 339-97); Jeronimo (c. 342-420), João Crisóstomo (c. 347- 407), Teodoreto (c.393-458); Ps.-Primasio (c. 6 século.); João Damasceno (c. 675-749) [Fitzmyer, 737-38]. Crisóstomo é comumente usado como exemplo desse fato, por que diz: “É evidente que ser um apóstolo é uma grande coisa. Mas considere que grande elogio é ser considerada notável entre eles. Eles eram notáveis por seu trabalho e por suas conquistas. Quão grande era a devoção dessa mulher que recebeu o privilégio de ser chamada de apóstola“. [Chrysostom, Homily on Romans 16, in Philip Schaff, ed, A Select Library of the Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, vol. II, p. 555]. De fato, os comentaristas medievais também suportavam tal interpretação do texto [Hatto (?); Oecumenius; Lanfranc de Bec (c.1005-89); Bruno o Cartuxo (c.1032-1101); Theophylact (c. 11 século); Pedro Abelardo (1079-1142); and Pedro Lombardo (c. 1100-1160)]. Talvez a escolha fosse óbvia pelo simples fato de que não se encontrava com essa grafia um nome que representasse um homem em grego [Dunn, James D. G. Romans 9–16. Vol. 38B. Word Biblical Commentary. p.894]. O único pai da igreja que parece considerar que Paulo se refere a um homem em Rom.16.7 é Epifânio, que diz que “Júnias, que Paulo também menciona, se tornou bispo em Apameia da Síria”. O testemunho de Epifânio  apresenta informações históricas a respeito de Júnias e o apresenta como homem que posteriormente se torna bispo. Contudo, seu testemunho deve ser balanceado pelo fato de que na frase seguinte ele também se refere a Prisca (Rom.16.3) como sendo um homem.

O que se pode concluir dessas evidências? Deve-se admitir que as evidências dão amplo favor à identificação de Ἰουνιαν como sendo uma mulher e nesse caso esposa de Andrônico. Ainda que  alguma contestação seja possível, é plenamente razoável concluir com as informações disponíveis que Paulo se refere a uma mulher em Rom.16.7. E tendo dito isso, o que concluímos da expressão preposicionada ἐν τοῖς ἀποστόλοις [entre os apóstolos vs. pelos apóstolos]? Estaria Paulo chamando o casal Andrônico e Júnia de membros do corpo apostólico? É essa questão que tratamos no próximo ponto.

2. A questão da função: Apostola ou Estimada pelos apóstolos?

A segunda investigação que se deve fazer é como a expressão preposicionada ἐν τοῖς ἀποστόλοις deve ser traduzida: Ela é a descrição de que Andrônico e Júnia eram conhecido pelos apóstolos ou eram estavam incluídos entre os apóstolos? Essa questão, como a anterior, é complexa por sua simplicidade. A verdade é que gramaticalmente ambas são possíveis [não igualmente possíveis]. Como forma de demonstrar esse fato, gostaria de demonstrar como em anos recentes os comentaristas tem expressado suas opiniões sobre o assunto. Por uma questão de conveniência, vamos usar as categorias de R.S. Cervin para o dilema e classificar a tradução “entre os apóstolos” como aquela que demonstra o sentido inclusivo da expressão, ao passo que a tradução “pelos apóstolos” como aquela que demonstra o sentido excluisivo da expressão:

a. Sentido Inclusivo: Cranfield afirma que o sentido exclusivo é gramaticalmente possível, mas que é “é muito mais provável – nós poderíamos dizer virtualmente certo – que essas palavras significam proeminente entre os apóstolos'” [C. E. B. Cranfield, Romans 9-16 (International Critical Commentary), p.789]. Dunn defende o mesmo ponto aqui, embora com um pouco mais de suporte do que Cranfield [James D. G. Dunn, Word Biblical Commentary, vol. 38B, Romans 9-16, p. 894]. Shcreiner defende essa leitura como consenso na academia e que “é qualque que completamente certo que, essa é a maneira mais natural  de se entender essa expressão preposicionada” [T.R.Schreiner,Romans (Baker Exegetical Commentary on the New Testament, p.786]. Douglas Moo defende que o sentido inclusivo é esperado nesse texto, pois o sentido exclusivo seria possível se Paulo tivesse usado a preposição ὑπό seguida do genitivo plural τῶν αποστολῶν [Douglas J. Moo, The Epistle to the Romans, p.923]. John Sttot atribui o peso da decisão do sentido da expressão sobre a abrangência do significado do termo apóstolo: Se o termo se refere exclusivamente aos doze, então a tradução deveria ser “notáveis pelos apóstolos”, entretando acredita que essa leitura parece mais distante do texto grego. Tendo feito esse comentário, Sttot conclui: “é provavelmente melhor entender ‘apóstolos’ no sentido de apóstolos da igreja [não exclusivo aos 12], e concluir que Andrônico e Júnia eram notáveis missionários” [John Stott, Romans: God’s Good News for the World, p.396]. William Hendriksen defende que a dupla Andrônico e Junías [embora a descreva como homem] devem ser entendidos como “notáveis entre os apóstolos” dando a entender sua preferência pelo sentido inclusivo da expressão [Hendriksen, William, New Testament Commentary on Romans, p.504-5].

b. Sentido exclusivo: Charles Hodges defende que Paulo nunca usa o termo apóstolo de forma não oficial, como evidenciado o uso do artigo com o termo apóstolo e define que Andrônico e Júnia era “conhecido pelos apóstolos” [Charles Hodge, Commentary On the Epistle to the Romans, p.449]. Argumento similar é apresentado por J.Murray [J. Murray, The Epistle to the Romans, Vol.II p.229-30] e Meyer [H. A. W. Meyer, Critical and Exegetical Hand-Book to the Epistle to the Romans, p.568]. Lenski, diferente dos comentaristas já citados, afirma que a questão não pode ser exclusivamente definida pelo uso do termo apóstolo, mas pelo uso locativo da preposição έν e defende que a paráfrase “no círculo dos apóstolos de Jerusalém” bem descreve o sentido do termo grego [Richard C. H. Lenski, The Interpretation of St. Paul’s Epistle to the Romans, p.906-7].

Antes que alguém queira inferir das conclusões supracitadas que o posicionamento inclusivo é fruto do liberalismo, é importante que se note que entre os autores citados Cranfield e Dunn dificilmente poderiam ser classificados com fundamentalistas, da mesma forma que Hendriksen, Moo ou Sttot dificilmente seriam chamados liberais. A questão é complexa pelo simples fato de que ambas as opções são gramaticalmente possíveis e não necessariamente por causa pano de fundo socio-cultural pró-feminismo.

Novamente observamos que o sentido do texto não é tão simples de ser auferido. Como então, alguém pode ter algum grau de certeza do sentido do texto? Eu acredito que a análise de três elementos desse verso podem ser úteis aqui:

a. O termo πόστολος: Em primeiro lugar é fundamental notar que grande parte da discussão gira em torno do conceito usado por Paulo para a palavra apóstolo aqui. Sabe-se que o termo carrega diferentes nuances dependendo do lugar onde é usado. O termo pode indicar tanto um apóstolo como alguém investido de autoridade [ofício; cf. Rm.1.1; 11.13; Ef.1.1], alguém enviado como um mensageiro [cf. Jo.13.16] ou até mesmo um missionário [cf. At.14.14; 15.2]. Alguns comentaristas sugerem que o sentido esperado aqui é necessariamente o primeiro, em função de que Paulo nunca usa o termo de outro modo. Entretanto, essa afirmação não é verdadeira. Seria mais adequado à evidênca afirmar que esse é o sentido mais provável para o termo em função de que Paulo normalmente usa o termo com o primeiro sentido. Vale acrescentar que Paulo também usa o termo em descrição de seus parceiros ministeriais [cf. Epafrodito, Fp.2.15; Tito, 2Cor.2.23] sem dar a entender que os mesmos são apóstolos à sua estatura.  Paulo também descreve Tiago como apóstolo [Gl.1.19] e o papel do apóstolo como algo comum e recorrente no ministério da igreja [1Co.4.9; 9.5; 12.28ss; 15.7; 2Co.11.13; Ef.2.20; 1Ts.2.7]. Tendo considerado essas afirmações, é possível entender que uso do termo ἀπόστολος feito por Paulo, não exige que o sentido seja o Apóstolo como ele o era, mas que poderiam se referir ao ministério apostólico da igreja primitiva.

b. A preposição ν: A preposição ἐν é usado de pelo menos 12 diferentes categorias no NT [BDAG, pp.326-330]. O uso mais recorrente da preposição [e mais natural] seria como um marcador de posição ou localizacão [BDAG, 1, p.326]. Quando usado de modo pessoal, a preposição denota o sentido de entre e é comumente usado desse modo quando seguido de um dativo plural [Rom.1.12; 15.5, 9; Gl.1.14; 1Tm.3.16]. Esse sentido é quase que esperado na construção ἐν τοῖς ἀποστόλοις usada por Paulo aqui. Outra objeção plausível à tradução conhecido pelos apóstolos é que a preposição ἐν é apenas usado com sentido de agência em raríssimas ocasiões no grego Koine, dentro e fora do NT, o que faz dessa catergoria quase inexistênte [Wallace, ExSyn 163-6]. Ou seja, pelo uso dessa preposição acompanhado de um dativo plural pessoal, seria mais apropriado entender que ela sugere o sentido inclusivo.

c. O adjetivo πίσημος: O último detalhe a ser notado aqui é o uso do adjetivo ἐπίσημος, que de modo interessante, não foi comentado por nenhum dos comentaristas citados acima. Do ponto de vista estritamente morfológico, o termo tem um dois conceitos implícitos: (1) comparativo [proeminente, notável entre] ou (2) elativo [reconhecido por] [BDAG, p.378]. O termo em si, pode ser usado com ambos os sentidos e o sentido intencionado pelo autor é explícito pelo tipo de construção no qual o adjetivo é usado. O problema é que o termo é apenas usado 2x em todo o NT e por isso não encontram-se paralelos a esse uso. Por outro lado, o grego koine não é restrito ao NT e podemos encontrar fora do NT exemplos literários que nos permitem observar como o sentido do termo é expresso pelo autor [1].

1. Sentido comparativo: Normalmente o adjetivo ἐπίσημος tem sentido comparativo quando seguido por genitivo. Em 3Macabeus 6.1 nós lemos que Eleazar era “um homem proeminente entre os sacerdotes do seu pais” [ἀνηρ ἐπίσημος τὤν ἀπό τῆς χώρας ἰερέων] e usa o adjetivo seguido de genitivo para descrevê-lo. O mesmo acontece no livro Martírio de Policarpo [Mart.Pol.14.1], que descreve um “notável ovelha entre o grande rebanho” [κριὸς επισήμος ἐκ μεγάλου].

2. Sentido elativo: Normalmente o adjetivo ἐπίσημος tem sentido elativo quando seguido da preposição ἐν + dativo. No livro Salmos de Salomão encontramos uma frase sintaticamente idêntica, na qual o autor descreve os Judeus cativos do seguinte modo: “ἐπισήμῳ ἐν τοιῖς ἔθνεσιν”. Duas observações são importantes nesse verso: (1) o primeiro grupo [judeus] não é parte do segundo [gentios]; e  (2) o que estava entre os gentios eram a notoriedade dos judeus. Dessa forma o texto deveria ser traduzido como “os judeus era considerado notáveis pelos gentios“. Esse verso oferece um interessante paralelo para o estudo de Rm16.7, e que talvez o sentido elativo do adjetivo sugira que a expressão como um todo tenha sentido exclusivo.

Apesar de a evidência ser escassa, os exemplos observados demonstram que o adjetivo ἐπίσημος seguido de ἐν + dativo pessoal não demonstra membresia no grupo descrito, mas simplesmente que este é conhecido pelo grupo [Burer, Michael and Wallace, Daniel, Was Junia Really an Apostle? A Re-examination of Rom 16.7, p.88].

Diante disso, podemos entender que Júnia era a esposa de Andrônico e que como casal eram reconhecido pelos apóstolos, no sentido de que, a fama do serviço ministerial deles havia chegado até até os apóstolos. Se nossa análise está correta, os apóstolos mencionados aqui, sejam os missionários itinerantes ou o grupo apostólico da igreja primitiva, estão em um grupo distinto do casal.

Conclusão

Nossa conclusão de forma nenhuma minimiza o papel da mulher na igreja. Aliás, em nada minimiza o lugar de Júnia ou Andrônico: Eles são notáveis! Pelo que se sabe, esse casal estava em Cristo antes de Paulo e batalharam pelo ministério a ponto de serem encarcerados por isso. Eles são notáveis! Isso também sugere o elevado papel da mulher na igreja primitiva como propagadoras do evangelho. E mais: Júnia não estava sozinha! Febe, Priscila, Maria, Trifena, Trifosa, Pérside, a mãe de Rufino, Júlia e a irmã de Nereu, Entre elas estão mulheres consideradas cooperadoras de Paulo (v.3), mulheres dispostas a arriscar a própria vida pelo evangelho (v.4),  que recebiam em suas casas as reuniões proibidas da igreja (v.5), que trabalharam arduamente no Senhor para servir a igreja (v.6, 12). São fundamentais e necessárias para o ministério e vida da igreja.

Paulo não apenas reconhece o ministério feminino nesse texto como ele também o elogia. No antigo mundo romano dificilmente uma mulher seria encarcerada sem ter feito expressiva manifestação. Júnia e seu marido certamente batalharam insistentemente pela fé. Certamente a fama desse casal chegou até o conhecimento dos apóstolos.

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[1] A análise desse adjetivo foi feito de modo exaustivo por Michael Burer e Daniel Wallace [Burer, Michael and Wallace, Daniel, Was Junia Really an Apostle? A Re-examination of Rom 16.7, p.84-91], que após examinarem 22 exemplos na literatura grega do primeiro século, conluiram que normalmente [não exclusivamente]  ἐπίσημος tem sentido comparativo quando seguido por genitivo e elativo quando seguido da preposição ἐν+dativo.

Essa conclusão foi amplamente contesta por Eldon Jay Epp [Junia, the first female apostle, p.69-78]. Epp, após re-examinar as mesmas passagens, re-organiza a evidência e sugere que apenas 13 dos exemplos usados podem ser considerados comparáveis ao uso em Rm.16.7 e sugere que entre esses 8 casos de ἐπίσημος seguido de ἐν + dativo tem sentido exclusivo; que nenhum caso de ἐπίσημος seguido de genitvo pode ser considerado exclusivo mas penas inclusivo [o que sugere que o padrão definido por Burer-Wallace não é imporvável], mas que, contrário ao padrão uniforme sugerido por Burer-Wallace, existem 3 usos de ἐπίσημος seguido de ἐν + dativo que tem sentido inclusivo. Epp então conclui por afirmar o sentido “proeminente entre os apóstolos” é o sentido esperado do termo.

Sem perceber, entretanto, Epp demonstrou que o padrão apresentado por Wallace-Burer existe e defendeu a excessão como regra. Embora a conclusão oferecida por Epp seja possível, é provável que ela esteja errada pelas próprias evidências que oferece.

5 comentários sobre “Era Júnia uma apostola?

  1. Pingback: Era Júnia uma apóstola? ‹ Todah Elohim

  2. Marcelo, confesso que fiquei em dúvida na seção 2, entre os argumentos “b” (da preposição “en”) e “c” (adjetivo “episemos”). Você entendeu que o argumento “c” suplanta o “b”. Mas seu texto faz parecer que o argumento “b” seria bem mais forte. Principalmente se conjugado ao argumento de Epp.

    Ficou parecendo que você iria concluir uma coisa e, de repente, concluiu outra.

    De qualquer forma, parabéns pelo texto.

    1. Flávio,

      Você entendeu o texto corretamente. Eu coloquei a análise do texto propositadamente nessa ordem para apresentar a razão por trás da dificuldade de se apresentar uma resposta para o dilema.

      A frase ‘οἵτινές εἰσιν ἐπίσημοι ἐν τοῖς ἀποστόλοις’ pode te ajudar a entender melhor: Se a expressão ἐν τοῖς ἀποστόλοις (entre/pelos apóstolos) não fosse governada pelo adjetivo ἐπίσημος, a conclusão inevitável seria que Andrônico e Júnia seriam considerados entre os apóstolos (οἵτινές εἰσιν ἐν τοῖς ἀποστόλοις). Entretanto, a inclusão do adjetivo altera o entendimento da frase preposicionada ἐν τοῖς ἀποστόλοις, por que agora essa frase não modifica o verbo mas o adjetivo. Portanto, as definições léxico-sintáticas do adjetivo ἐπίσημος é que devem coordenar o sentido da expressão, e não o contrário.

      E mais…. Segundo o Epp, 13 dos 22 casos analisados por Wallace-Burer podem ser paralelos em sentido ao texto de Rom.16.7, por que apenas esses 13 se referem a casos pessoais (como no caso de Rom).

      Desses 13, 11 reproduzem o padrão encontrado em Romanos. Desses 11, 8 tem sentido exclusivo (reconhecidos por) e 3 tem sentido inclusivo (admirados entre). Ou seja, em 72% dos casos, o sentido da expressão usada por Paulo fora do NT tem sentido exclusivo.

      Em outras palavras, é mais provável que o sentido seja exclusivo que inclusivo.

      Clarifiou ou obscureceu?

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

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