O problema do rótulo teológico


Na minha opinião, rótulos teológicos são um problema. Não que eu os tenha em baixa estima, o que pense que são desnecessários. Nada disso. Apenas acho que rótulos teológicos são um problema na teologia brasileira. Talvez minha história ilustre a questão. Desde que comecei o Teologando já recebi rótulos dos mais diversos: Quando escrevi sobre a criação, fui chamado de religioso fundamentalistaquando escrevi sobre Pedro e a Pedra, fui chamado de liberal; quando escrevi sobre a eleição, fui chamado de calvinista; quando ensinei sobre Cristo, fui chamado de arminiano; quando citei Rudolf Bultmann fui chamado de herege; quando escrevi sobre o reino de Deus no ensino de Cristo fui chamado de neo-dispensacionalista; quando escrevi sobre o Espirito Santo, fui chamado de pentecostal; quando escrevi sobre a bíblia, fui chamado de fundamentalista. De duas uma: (1) ou eu sou bipolar ou (2) existe algum problema com a prática de atribuir rótulos teológicos a outras pessoas. Talvez, alguém diga que as duas opções não são mutuamente excludentes.

Brincadeiras a parte, a verdade é que realmente acredito que a prática de rotular opiniões teológicas no ambiente de reflexão teológica da igreja brasileira está cercado de problemas. Nesse post gostaria de apresentar cinco problemas que eu considero sérios no que se refere a prática de se rotular teologicamente pessoas, práticas, interpretações. Entretanto, para não ser injusto com outras pessoas, vou apenas citar e contar histórias que aconteceram comigo. E acredite, todas as histórias aconteceram comigo.

Problema #1: Definição dos rótulos

O primeiro grande problema dos rótulos é que apenas poucas pessoas realmente sabem o que esses termos significam. Quais são as definições teológicas que definem um fundamentalista? Vou dar uma dica, são cinco afirmações teológica centrais. Sabe quais são? [1] Pois é, a maioria dos cristãos não sabe. O que define um liberal? Ou o que define a doutrina Pentecostal? Será que crer na contemporaneidade dos dons é o mesmo que ser Pentecostal? O que é um reformado? Será que qualquer calvinista tem o direito de se chamar reformado? É possível ser reformado [no sentido que os reformados definem o termo], e dispensasionalista ao mesmo tempo e ainda assim fazer parte da confraria reformada? A verdade é que depende da definição do rótulo, e como poucos sabem exatamente o que esses rótulos significam, fica bem difícil oferecer uma resposta.

O segundo problema dos rótulos teológicos é que muitos deles perderam o sentido original. O que o termo fundamentalista tinha de positivo quando foi cunhado, tem de negativo nos nossos dias. O termo arminianismo eventualmente tem sido usado para defender o que no passado era chamado de pelagianismo. O termo Pentecostal já não tem mais a mesma conotação, e dependendo do local que você vive é extremamente negativo ou a definição da verdade.

O terceiro problema dos rótulos teológicos é que as pessoas o redefinem como querem. Quando conversava com um cristão sobre minha interpretação de Mat 16.18, ele me atribuiu o rótulo de liberal. Quando questionado por que minha opinião fazia da minha pessoa um liberal, ele se defendeu dizendo: “Uma pessoa que estuda o texto em tantos detalhes e defende um opinião tão herética, só pode ser um liberal!” [essa é a versão aprovada pela censura… acredite… foi bem pior que isso]. Ou seja, estudar profundamente as escrituras é coisa de liberal! Ou: defender uma opinião diferente da minha, é liberalismo! Na verdade mesmo, as pessoas atribuem aos rótulos novo conteúdo e significado, e usam como bem entendem [se é que entendem] esses tais nomes.

Problema #2: O uso do rótulo como forma de ataque

Esse é sem dúvida um péssimo exemplo de uso do rótulo teológico. Em um conhecido fórum calvinista, alguém sugeriu um artigo meu com um link, recomendando como boa leitura. Pouco tempo depois alguém respondeu ao comentário: “Marcelo Berti, ele é arminiano“. O interessante é que o artigo era sobre a pessoa de Cristo. Em nenhum lugar no artigo [ou no meu blog] eu defendo ou dou a entender que sou arminiano. Mas chamar alguém de arminiano num fórum calvinista é pior que chamar Corinthiano de sãoPaulino.

Você é um calvinista determinista, e acredita que os seres humanos são robôs!“. Essa é a típica forma de ataque contra calvinistas feitas por aqueles que não são calvinistas. Mas, duvido que qualquer calvinista acredite realmente nisso. Não conheço nenhum que defenda tipo de conclusão é derivada de sua opinião teológica sobre a salvação. O problema de usar rótulos desse modo é que em geral eles são mal aplicados. Todos os rótulos que recebi desse modo foram usados equivocadamente. A razão pela qual recebi o rótulo e o conteúdo/definição do rótulo que me foi aplicado em geral eram diferentes.

Sou reformado e dispensacionalismo é coisa de ficção… Tende  heresia“. “Dispensasionalismo é a doutrina escatológica defendida pelo Tim LaHaye na série de livros Deixados para trás“. A desinformação, ou o conhecimento parcial e tendencioso, também leva pessoas a definirem rótulos equivocadamente e o aplicarem como  forma de ataque. Heresia é outra dessas palavras que é mal aplicada como forma de ataque por que as pessoas não sabem o que heresia significa.

Problema #3: O uso do rótulo como demonstração de alienação

Rudolf Bultmann é um liberal. Não posso perder meu tempo lendo esse herege“. Esse é outro problema dos rótulos mal aplicados: eles tendem a alienação. Em primeiro lugar, Bultmann não é liberal, é neo-ortodoxo. Em segundo lugar, não é por que suas opiniões são diferentes das suas que seus escritos são sem valor ou sem importância. Eu discordo em larga escala com as conclusões do Bultmann, mas tenho encontrado no seu livro “Teologia do Novo Testamento” uma excelente fonte de pesquisa.

Você poderia me indicar um livro sobre a autoridade das Escrituras?“. Quando recebi essa pergunta, pensei um pouco nos livros que li e sugeri o livro lido mais recentemente: N.T. Wright “The Last Word” [A última palavra]. Na hora, sem pestanejar tal pessoa condenou o autor ao purgatório: “O que!! N.T. Wright é um dos hereges da Nova Perspectiva de Paulo. Ele destruiu a doutrina bíblica da justificação“. Esse é o tipo de alienação desinformada que prevalece no ambiente de estudo teológico no nosso país. Infelizmente, rótulos teológicos mal definidos tendem a ser mal aplicados. Rótulos mal aplicados tendem à alienação.

Certa vez, alguém me fez uma pergunta intrigante: “Que livro bom de teologia você recomenda? Mas me passa um arminiano por que não quero ler calvinistas“. Nesse caso, a pessoa queria apenas ler aquilo que acredita ser correto. A definição que tenho desse tipo de atitude é preguiça intelectual. Pessoas que não querem pensar nas suas próprias convicções tendem a ler somente livros e autores com quem concordam a priori, e assim aprofunda as raízes de seu conhecimento limitado e pressuposto. Esse tipo de uso do rótulo é uma forma de alienação. “Sou arminiano, leio Roger Olson e nunca li as Institutas“. “Sou calvinista, leio R.C. Sproul e um dia vou ler as Institutas“. E assim por diante…

Problema #4: O uso do rótulo base para conclusão

Sou Pentecostal! Portanto em Atos 2 tenho que acreditar que as línguas faladas eram línguas espirituais e incompreensíveis ao homem“. Nesses casos, a conclusão teológica é a base para definição da interpretação. Sem perceber, as pessoas que assim procedem argumentam em círculos: “Eu acredito no dom espiritual de línguas, por que a Bíblia assim ensina, mas a Bíblia assim ensina por que acredito no dom espiritual de línguas“.

Por que sou calvinista e acredito na Eleição e Predestinação a parte de qualquer mérito do homem. Por isso, quando Deus fala que quer salvar a todos [1Tim 2.4], na verdade ele quis dizer todos os eleitos”. Você já parou pra pensar que se Deus quisesse ter dito “todos os eleitos” ele teria dito “todos os eleitos”? Às vezes acredito que as pessoas usam as escrituras como espelho: Eles a observam para encontras nas escrituras o reflexo das suas ideias. Não seria melhor usar as escrituras como uma janela, para observar o criador!?

Um exemplo positivo nesse caso, nos é apresentado por Charles Spurgeon. Lendo 1Tim 2.4 ele disse: “Meu amor pela consistência da minha perspectiva teológica não é grande o suficiente para me permitir alterar conscientemente um único texto das escrituras. Tenho grande respeito pela ortodoxia, mas minha reverência pela inspiração é bem maior”. Ele sabe que esse é um texto difícil para sua opinião teológica, mas ele prefere ficar com as escrituras. Não tenho qualquer registro que ele tenha mudado de opinião, nem estaria sugerindo isso, mas sei que ele estaria disposto a abandonar suas ideias em favor das escrituras.

Problema #5: O uso do rótulo como definição de gueto

De todos os males apresentados aqui, esse é o pior. Não tenho qualquer problema que pessoas se organizem para servir cercadas de pessoas que defendem ideias similares. Eu realmente acredito que existe valor nesse tipo de iniciativa, das quais já participei diversas vezes. Mas eu tenho sérios problemas com aqueles que se limitam exclusivamente ao próprio gueto por se acharem o centro da ortodoxia. Deixem-me clarificar o que quero dizer com gueto teológico: São pessoas que:

1. Valorizam o Credo em detrimento do Cristo:

Me impressiona como alguns ministérios são sectários nesse sentido. Sectários não no sentido de serem teologicamente não-ortodoxos, mas no sentido de serem separatistas. Certa vez estava em uma reunião de pastores na qual uma instituição apresentou dados que apontavam para a região de São José do Rio Preto em São Paulo como uma região não alcançada pelo evangelho. Após ouvir os dados, achei estranho, por que anos antes estive servindo em um acampamento com mais de 500 jovens da Igreja Presbiteriana Independente naquela cidade. Achando estranho o dado, resolvi indagar o promotor da ideia e perguntei o que ele queria dizer como região não alcançada pelo evangelho e lhe contei minha experiência. Após ouvir atentamente ele me respondeu: “Eu estava falando do evangelho batista“. Eu não sabia que o evangelho batista era diferente do evangelho presbiteriano. Até onde sei, não existe qualquer diferença no conteúdo do evangelho. Mas as diferenças em questões extremamente secundárias para o Evangelho de Cristo obriga que homens e mulheres batalhem pelo Reino enquanto lutam entre si por espaço e pessoas. Isso sim é muito sério!

2. Valorizam o Credo em detrimento da Comunhão:

Alguns guetos teológicos são tão antipáticos com pessoas de diferentes opiniões teológicas que eles realmente acreditam que não existe comunhão entre pessoas de diferentes denominações. Certa vez fui convidado por uma denominação para ensinar a carta de primeira João para um grupo de diversas cidades do Mato Grosso. Conversando com os líderes durante aquele fim de semana, fiquei sabendo que essa era uma das primeiras ocasiões que um pastor batista ensinava para eles. Segundo eles, no passado essa denominação não se misturaria com outras pelo fato de não considerarem as outras denominações como parte da igreja.

Mas, antes que você pense que isso está longe de você, existem cristãos que acreditam que o casamento entre um calvinista e uma arminiana é uma forma de jugo desigual. Eles estão tão convencidos de que suas opiniões teológicas são bíblicas que estão dispostos a considerar o outro grupo fora da ortodoxia cristã, fazendo com que o casamento dessas pessoas seja a versão teológica de Romeu e Julieta.

Talvez você não saiba, mas existem no nosso país pessoas que acreditam na mesma escritura que você, louvam o mesmo Deus que você, que conhecem o mesmo Cristo que você, mas que por detalhes extremamente secundários se consideram separatistas e não aceitam você com irmão deles em Cristo. Eles são tão puros teologicamente que o contato com pessoas de opiniões diferentes os tornaria impuros novamente.

3. Valorizam o Credo em detrimento do Crescimento:

Há alguns anos atrás, junto com amigos iniciamos um ministério de evangelização de rua. E para aprendermos como poderíamos trabalhar melhor, resolvemos visitar ministérios em diferentes regiões do Brasil, de diferentes denominações e opiniões teológicas. Em várias ocasiões tivemos a oportunidade de pensar e refletir sobre o evangelho, nossa missão e o corpo de Cristo. Uma dessas experiências aconteceu durante o carnaval. Nós gostaríamos de fazer um movimento de evangelização durante a festa ao invés de sairmos da cidade para vivermos no nosso gueto acampados em algum lugar. Sem saber exatamente como proceder, nos juntamos à iniciativa de evangelização da igreja Bola de Neve. Durante aquela semana aprendemos muito sobre o sacrifício da evangelização e como Deus pode usar diferentes formas de evangelização. Eu tive o privilégio de participar junto com eles de uma ação que promoveu o evangelho a pessoas desesperadas. Eu mesmo participei da ação de Deus na vida de vários homens que resolveram acertar suas vidas com Deus. Oportunidades como essas nos ajudam a pensar melhor na nossa visão do Corpo de Cristo e da Unidade da Igreja Universal. Nos fazem conhecer irmãos e irmãs que como nós estão interessados em promover o evangelho de Cristo.

Conclusão

Então quer dizer que temos que praticar alguma forma de ecumenismo teológico? Acho que esse não é o ponto. Será então que devemos considerar o credo teológico como desnecessário? Também não acredito nisso, nem ousaria defender algo dessa natureza. O que quero é promover algumas sugestões para o diálogo teológico:

#1 Conheça as definições dos rótulos

Em primeiro lugar, procure definir corretamente os rótulos teológicos. Leia dicionários de teologia, obras de teologia sistemática e outras obras teológicas específicas. Entretanto, evite ler as definições de determinados rótulos através daqueles que discordam do mesmo. Por exemplo, evite assumir como verdadeiro a definição de calvinismo escrita por arminianos, e vice-versa. Evite definições de amilenismo oferecida por premilenistas e assim por diante. Eventualmente a definição oferecida pelo crítico corre o risco de ser distorcida pelas convicções pessoais contrárias à doutrina que define. Isso não é uma regra, nem uma obrigação/necessidade, apenas algo recorrente.

#2 Leia a obras teológicas de diferentes pontos de vista

Em segundo lugar, dedique-se a ler obras teológicas de pessoas que defendem opiniões diferentes da sua. Isso lhe dará uma visão mais clara e abrangente do assunto. Calvinistas que só leem reformados tendem a ser separatistas. Arminianos que só leem aqueles que se encaixam na teologia remonstrante tendem a ser separatistas. E ambos o são em assuntos secundários. O método da aplicação da salvação não é um elemento central da fé sem a qual o cristianismo deixa de ser cristianismo. Fundamentalistas que lêem apenas autores evangelicos fundamentalistas, incorrem no mesmo erro. Em outras palavras, esteja aberto a aprender com pessoas de posições teológicas diferentes da sua, pois em muitos casos eles irão apontar as sus falhas teológicas.

#3 Defina as doutrinas centrais do cristianismo

Em terceiro lugar, aprenda a definir quais são as doutrinas centrais do cristianismo, i.e., quais são as doutrinas que sem as quais o cristianismo deixa de ser cristianismo. Opiniões escatológicas como amilenismo e dispensasionalismo são fundamentais para o cristianismo? Evidentemente não! Opiniões sobre o método de realização do batismo com água são fundamentais para o cristianismo? Evidentemente não! O problema dos separatistas é que eles definem que todas as opiniões teológicas que defendem são equivalentes à ortodoxia, e quando assim procedem, definem como errado e herege qualquer um que defenda uma opinião diferente da sua. Esse é o caso daqueles que defendem com centrais aspectos secundários das doutrinas cristãs, como a distinção ou não de Israel e a Igreja, eleição incondicional ou condicional e assim por diante. Esse tipo de postura nasce da alienação teológica e promove a separação desnecessária do corpo de Cristo.

#4 Defina heresia corretamente

Em quarto lugar, e como um desdobramento óbvio do ponto #3, é importante que você aprenda a definir o que é heresia. Embora, extensos debates acadêmicos nos nossos dias tem sido produzidos para se definir corretamente esse termo, uma cosia é certa: Opiniões de interpretação específica em assuntos secundários da fé não se enquadram na definição de heresia. Afirmar que Pedro é a pedra em Mat.16.18 não é heresia; ou que a criação não aconteceu em 6 dias de 24h não é heresia; afirmar que Marcos 16.9ss não faz parte do texto original do evangelho também não é heresia; e assim por diante. Heresia é a distorção das doutrinas centrais do cristianismo. Ou seja, se as doutrinas centrais do cristianismo estão indefinidas, dificilmente você será habilitado a compreender onde estão as heresias. Por outro lado, se você incluir nas doutrinas centrais do cristianismo elementos secundários, você verá heresia em todo lugar. Do mesmo modo, se você não incluir na sua definição de doutrinas centrais, os elementos centrais do cristianismo, você dificilmente poderá encontrar a heresia. O exercício de definir corretamente as doutrinas centrais do cristianismo é árduo e demorado, mas fundamental para o diálogo teológico, defesa da fé e o combate das heresias.

#5 Entenda sua opinião teológica como opinião

Em quinto lugar, aprenda a atribuir o valor correto das suas opiniões. Por mais importantes que elas sejam para você para teologia, sempre as submeta à autoridade das escrituras. A revelação é superior à opinião, mesmo que seja a sua opinião. Tenha as escrituras como fonte e fundamento de suas opiniões teológicas e evite acreditar demais em sua própria sabedoria. Pela inerente inabilidade das nossas faculdades mentais em compreender a suprema riqueza do conhecimento de Deus, nós vamos errar em algum lugar. Nós não podemos estar teologicamente corretos em todas as nossas afirmações teológicas. Isso é incoerente com nossa natureza depravada e caída e com a magnificência do conhecimento de Deus. Defenda as doutrinas essenciais da fé como tal, mas esteja aberto a conversar e aprender com pessoas de opiniões teológicas diferentes, pois nesses casos sua opinião é tão baseada em preferência pessoal como as deles.

#6 Valorize a diferença de opinião

Por fim, é importante que você aprenda a valorizar a diferença de opiniões teológicas. Com isso não quero dizer que você concorde com o diferente, ou aprecie a heresia. O que estou dizendo é que você aprenda a valorizar as interpretações textuais diferentes da sua; ou que aprenda a encontrar o valor em opiniões teológicas que são diferentes da sua, pois isso promove o enriquecimento do diálogo teológico e da compreensão das escrituras. Um exemplo talvez seja interessante aqui. Quando fazia mestrado em NT no Brasil, tive o privilégio de fazer a matéria ‘Teologia de Paulo’ com um professor que se não se considera calvinista ou arminiano. Nós tínhamos opiniões teológicas diferentes e por isso abordávamos o texto de maneira diferente, o que enriquecia o modo como entendíamos a escritura. Lendo Tit.2.11, ele observou que o termo todos significa todos sem excessão. Ao ouvir isso indaguei se contextualmente o termo não poderia significar todos em relação às diferentes classes apresentadas no contexto, como por exemplo, no v.2 ele enfatiza os homens, v.3-5 as mulheres de diferentes faixas etárias, v.6-8 jovens; v.9-10 servos. Ao observar o texto ele humildemente respondeu, ‘sim’. Tanto eu quanto ele naquele momento estávamos favorecendo a interpretação do texto em detrimento de nossas preferências teológicas. Mas, em primeiro lugar estava a escritura, tanto para mim como para ele. Isso enriquece nosso conhecimento das escrituras e da teologia. Valorize o diálogo teológico, pois isso irá enriquecer seu conhecimento das escrituras.

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[1] Não sabe o que é fundamentalismo, né!? Pois aqui vão as cinco doutrinas que definem o fundamentalismo teológico:

(1) Inspiração e inerrância das Escrituras:
(2) Nascimento Virginal de Cristo;
(3) Expiação Vicária de Cristo;
(4) Ressurreição Corpórea e Segunda Vinda de Cristo;
(5) Historicidade dos Milagres;

Tá se sentindo mais fundamentalista agora!? Pois bem, esses cinco pontos foram definidos como reação ao liberalismo teológico que negava essas cinco afirmações teológicas. Agora você também sabe o que é o liberalismo…

9 comentários sobre “O problema do rótulo teológico

  1. Jonas Paulo Volc

    Prezado irmão Marcelo:
    1) Muitíssimo oportuno seu artigo! Eu mesmo tenho muito a aprender no que se refere a este campo dos rótulos, tendo sido criado desde a infância sob credos batistas (“da Convenção”) e agora, recebido de modo extremamente amoroso por meus irmãos presbiterianos (“do Brasil”).
    Ganhei, de repente, uma quantidade gigantesca de novos irmãos a quem ignorava. Não perdi nenhum dos antigos, aos quais amo muito. Ao mesmo tempo, recebi um novo fôlego em um período em que me encontrava abatido e, por circunstâncias geográficas e dos tempos me encontrava sem perspectivas.
    Tenho absoluta certeza de que Deus não é propriedade de quaisquer grupos humanos, mas está acima destas grandes dificuldades que criamos sobre a maneira “certa” de crer!!!
    Peço a Deus que nos amadureça a todos, no sentido do que realmente importa, e é imensamente urgente, enquanto neste campo de batalha: levar o Evangelho da Salvação em Jesus Cristo.
    Talvez estejamos tentando nos alimentar de manjares espirituais elaborados, sendo ainda necessitados de leite, como cristãos infantis, brigando por nossos brinquedos. Que o Senhor nos esclareça!

    2) Diversos irmãos vieram a sentir, independentemente, e ao mesmo tempo, um desejo muito grande de desenvolver um projeto de “missões urbanas” em nossa região. Observei seu relato de experiência pessoal, e gostaria de saber se me indica alguma estratégia de sua preferência, algum trabalho de seu conhecimento ao qual possamos visitar, ou obra literária pertinente. Por enquanto, a “cara-dura” e o “vamo-que-vamo” vai nos ensinando. Nos interessa conhecer o que evitar (por seus eventuais resultados negativos), embora saibamos que tal obra seja muito maior do que nós mesmos, da qual somos meros instrumentos.

    Obrigado.
    Em Cristo.
    Jonas.

  2. Pingback: O problema do rótulo teológico na teologia brasileira ‹ Todah Elohim

  3. Prezado Marcelo Berti.

    Parabéns, por este post e por seu blog. Realmente muito edificante.
    Embora eu não seja teólogo, de formação, aprecio muito esta disciplina e interesso-me em aprender sobre as escrituras e sobre a vida! Acompanharei sei blog.
    Deus lhe abençoe muitíssimo em Cristo, Jesus.

    Karis kai eirenè!

    Philothanatos

  4. Olá Marcelo,

    achei seu blog muito bom e substancioso. Indiquei entre os meus favoritos.

    Gostaria só de conversar sobre o “rótulo” quanto a Rudolf Bultmann. Sei que ele começou no movimento da neo-ortodoxia iniciado e mentoreado por Karl Barth mas me parece que ele migrou para o que eu chamaria de neoliberalismo (diferente do liberalismo clássico em Friedrich Schleiemacher) assim como Paul Tillich (tipo uma segunda geração do liberalismo).

    Digo isso pelas suas conclusões naturalistas (programa de desmitologização do NT) e a hermenêutica Heideggeriana para as aplicações existências do texto bíblico e da teologia cristã.

    Gostaria de conversar a respeito.

    Um abraço.
    Juan

    1. Juan,

      Excelente pergunta. Evidentemente é difícil definir a distinção entre as conclusões teológicas de um liberal e um neo-ortodoxo, mas me parece muito mais difícil identificar as diferenças entre o liberalismo clássico e o tal ‘neo-liberalismo’. Como você os diferencia?

      No que se refere ao Bultmann, a questão não é tanto relacionado às conclusões que ele chegou, mas ao método teológico que usou para chegar às conclusões que chegou. Embora os neo-ortodoxos não sejam todos iguais, são quatro os distintivos dessa ‘categoria’ teológica:

      (1) Ênfase na revelação de Deus por Deus com base para a doutrina cristã: Diferente do liberalismo teológico que enfatizava a Teologia Natural associada a razão com fonte para a Teologia, Barth, Brunner e Bultmann defendiam que as escrituras deveriam ser a base das doutrinas cristãs;

      (2) Ênfase na transcendência de Deus: Barth acreditava que uma ênfase na imanência de Deus levou os seres individuais a crer que Deus se tornou com um de nós, limitado. Entretanto, ele enfatizou a distinção qualitativa infinita entre o ser humano e O Ser Divino. Bultmann cunhou uma descrição de Deus com o “Totalmente Outro” (Wholly Other)

      (3) Ênfase no existencialismo: Barth foi fortemente influenciado por escritos do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard século 19. Bultmann foi fortemente influenciado pela filosofia de seu colega Martin Heidegger. Eventualmente, a teologia neo-ortodoxa também é chamada de teologia existencial exatamente por esse motivo.

      (4) Ênfase na pecaminosidade humana: Desiludidos com a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o otimismo teológico do liberalismo morria aos poucos e a realidade alarmante da pecaminosidade do homem se tornava auto-evidente. Isso certamente influenciou a teologia conhecida hoje como neo-ortodoxa. Em sua teologia do Novo Testamento, Bultamnn apresenta claramente a visão paulina do homem antes da fé como o quadro de um homem caído.

      A neo-ortodoxia é portanto distinta tanto do Fundamentalismo e do Liberalismo Teológico.

      Espero que isso ajude a clarificar o assunto,
      Marcelo Berti

  5. Oi Marcelo,

    obrigado pelo esclarecimento.

    Eu faria a diferença entre liberais clássicos e neoliberais no sentido de que o primeiro afirma claramente a crença no método histórico-crítico e na visão iluminista da “fé cristã” quanto método teológico negando os fundamentos históricos. Os neoliberais usariam a linguagem cristã dando um re-significado a ela (exemplo de Jurgen Moltmann escrevendo sobre trindade e cristologia ou Leonardo Boff sobre cristologia e eclesiologia). Mas entendi as ligações que você fez.

    Me parece que Barth era mais crente que Bultmann. Por mais que Barth tenha tido alguns problemas teológicos a luz da fé reformada, ele ainda mantinha alguns pressupostos da fé cristã enquanto Bultmann faz uma ruptura por causa da desmitologização.

    Ai chego a conclusão que havia uma diferença entre a neo-ortodoxia e o neoliberalismo ou diferenças dentro do próprio movimento neo-ortodoxo.

    Mais uma vez obrigado,

    abraços
    Juan

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