Parte 3: As Filhas dos Homens


“Chegamos agora a uma parte profundamente importante e fortemente acentuada deste livro. Enoque tinha desaparecido de cena. A sua carreira, como estrangeiro na terra, tinha terminado na transladação para o céu. Ele fora levado antes que a maldade humana tivesse atingido o seu máximo, e, portanto, antes do julgamento divino ter sido desencadeado[1]

O desenvolvimento da humanidade não tem sido sem problemas: o aumento da desgraça, seja na natureza ou na humanidade, demonstra que a vida distante de Deus não pode produzir Vida com Deus, ainda que possa ser cercada de avanços tecnológicos, científicos, educacionais, artísticos, como a narrativa da descendência de Caim deixou evidente. Do mesmo modo, a narrativa dos descendentes de Sete nos apresentou não o relato de grandes homens de negócio, ou de referência na história da humanidade. Pelo contrário, o legado que deixaram foi o da santidade, vida com Deus e esperança em Deus. Esse legado não foi um grande legado para a humanidade, do ponto de vista da humanidade, mas certamente foi a razão pela qual esse mundo não fora destruído antes.

Por outro lado, que terrível mal poderia acometer a humanidade se os descendentes de Sete se misturassem com os de Caim? O que aconteceria se os filhos de Deus se juntassem com as filhas dos homens? O que aconteceria se aqueles que prezavam por Deus e o adoravam passassem a se envolver com as coisas do mundo? E se seus casamentos passassem a demonstrar que tipo de preferência eles tinham: apreço ao prazer pessoal em detrimento de uma vida centrada em Deus?

Bom, essa é a história de Gênesis 6: Os descendentes de Sete encontraram na descendência de Caim sua conexão e a referência de uma descendência dedicada ao Senhor aos poucos foi se esvaziando. Em Gênesis 6 vemos que em função dessa união, o desenvolvimento da maldade da humanidade se desenvolveu a tal ponto que Deus resolveu dar cabo da humanidade. Essa história é, sem dúvidas, um claro lembrete de quem Deus é e o que espera de seus filhos.

1. Multiplicação:

O que temos percebido na narrativa de Gênesis é que o desenvolvimento da humanidade é seguido do crescimento e expansão da maldade do homem. Em Adão vimos a mentira, a terceirização da culpa, mas em Caim vemos o desgosto (inveja), a ira, o assassinato, a indiferença e o egoísmo. Entre seus descendentes ainda vemos a poligamia, o assassinato por retribuição desnecessária e a soberba e o auto-louvor por ser assim. Por isso, não é de surpreender o relato de Moisés na seqüência da história: a medida que o homem se multiplica a maldade cresce com ele. Esse aprendizado logo foi inserido na cultura e mentalidade judaica: “Quando os perversos se multiplicam, multiplicam-se as transgressões” (Pv.29.16).

O texto de Gênesis aqui é bem específico ao contar o desenvolvimento da humanidade, e o modo como retrata esse fato pode muito nos instruir sobre o modo como Deus permite o avanço do homem: Embora o rumo primário da humanidade caída foque a distância de Deus, Ele pacientemente trata com suas criaturas. Contudo, quando a perversão se torna insuportável, Ele graciosamente exerce Seu Justo Juízo, que nesse caso se manifestou em destruição e devastação.

…se foram multiplicando os homens: O primeiro destaque a ser feito nessa sentença é o uso do termo hebraico adam, que já fora usado por Moisés como descrição de Adão o primeiro representante da humanidade. Nesse caso, o substantivo vem com o artigo prefixado o que sugere o uso genérico do termo: humanidade. As versões mais contemporâneas e em alguns casos mais parafraseadas já adotam esse uso aqui reforçando a extensão do crescimento numérico e imoral dos seres humanos. Portanto, desde seu início se percebe o foco abrangente que o texto apresenta os fatos narrados aqui: A vida marcada pelo pecado havia tomado toda a humanidade, exceto um homem identificado pouco a frente na narrativa – Noé (Gn.6.8).

…naquele tempo havia gigantes na terra: Embora nenhuma referência específica de tempo tenha sido oferecida na narrativa mosaica, temos por certo que trata-se de um tempo em que já existiam gigantes na terra (hb. nephilim). O termo é de significado incerto, muito embora quase todas as versões em português sigam a Vulgata na sua preferência por Gigantes. A LXX também traz um termo interessante aqui “gigantes”, usado para descrever na literatura clássica, homens valentes e poderosos que foram destruídos pelos deuses. Algumas versões inglesas optam por apenas transliterar o termo para tentar transmitir uma proximidade mais acurada do texto. Entretanto, a transliteração nesse sentido em nada ajuda, pois não conhecemos nenhum paralelo em inglês ou em nosso luso idioma.

Toda a tradição judaica, e posteriormente a cristã, entendeu a expressão como a descrição de homens poderosos e valentes. Aliás, o texto denota exatamente isso: “estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade”. Seja o termo uma referência ao tamanho físico ou da valentia deles, pouco importa, o fato é que tais homens já existiam antes da mistura racial entre os descendentes de Sete e Caim. Sobre isso Derek Kidner atesta: “Vale a pena observar que não se diz que os gigantes provieram exclusivamente dessa origem. Se alguns surgiram desse modo (e também depois), outros já existiam (naquele tempo)[2]”. Sailhamer parece concordar com esse parecer quando diz: “O sentido da frase wegam ahare-ken aser não define os hannepilim como descendentes da união dos filhos de Deus e as filhas do homens. Além disso os estavam na terra (…) naqueles dias e (…) também depois do tempo da união dos filhos de Deus e as filhas dos homens[3]”. Essa observação é importante na definição de quem são os filhos de Deus, pois aqueles que defendem que estes são seres angélicos defendem que a única origem para os Gigantes seria a união entre tais seres e as mulheres. Entretanto, o texto define que eles já estavam em existência antes da suposta união entre os filhos de Deus e as filhas dos homens.

É importante notar que a origem da tradução para “gigantes” em português provém de uma tardia e má compreensão da LXX, preservada na Vulgata, adotada na KJV e absorvida em diversas das versões em português. O termo grego nada tem a ver com pessoas de alta estatura, mas se refere a pessoas nascidas nessa terra, ou “earth-born”, como prefere Adam Clarke[4]. A idéia é de pessoas desse mundo, com hábitos dessa terra. O termo latino já tem certa proximidade com o usado pelas versões inglesas e portuguesas, entretanto, o termo hebraico não se define assim, na verdade a idéia e de pessoas caídas em sua moralidade e não gigantes. Esses homens depravados já existiam na terra e a marca da sua perversão se estendia por toda a terra.

2. Sedução:

Outro aspecto que podemos notar no desenvolvimento da humanidade é usa preferência pessoal pelo prazer. A descrição encontrada para descrever a humanidade é muito semelhante àquela encontrada para descrever a queda de Eva: ver, desejar, tomar. Deve ser por isso que João, em sua primeira carta, estabelece que as coisas que existem no mundo, que não devem ter nossa atenção (amor) são: desejo da carne e dos olhos e a soberba da vida (1Jo.2.16).

…vendo os filhos de Deus: A primeira descrição dos filhos de Deus aqui inclui a visão, mas a questão não era o que estava diante dos seus olhos, mas em que você coloca seus olhos. Certamente as escrituras não estão defendendo que nessa época apenas belas mulheres existissem, mas que os olhos dos filhos de Deus estavam focados nelas. Deve ser por isso que as escrituras constantemente nos ensinam a cuidar dos nossos olhos (Pv.3.21; 4.21; 16.30; 2Pe.2.12-15), pois são eles a lâmpada do corpo, e portanto, se forem bons os olhos, todo o corpo o será (Mt.6.22). Entretanto, se a luz do corpo se tornar em trevas, em densas trevas estarão (Mt.6.23).

O início do relato do dilúvio nos dá a impressão de que a humanidade não estava apenas destituída de uma visão saudável da vida com Deus, mas seus olhos estavam fitos no prazer pessoal. A preferência pelo eu, a marca registrada do pecado, havia se alastrado por todos os lados e havia atingido todos os seres humanos, até mesmo aqueles que professavam sua fé em Yahweh.

É importante lembrar o leitor que a expressão “filhos de Deus” aqui não é uma referência a seres angélicos, mas uma referência aos descendentes de Sete (para mais informações veja o artigo: Quem eram os Filhos de Deus em Gênesis 6?). Alguns comentaristas vêem nessa expressão uma referência aos seres angélicos em função do uso da mesma expressão (hb. bünê-hä|´élöhîm) no livro de Jó (Jó.1.6; 2.1; 38.7) e em outros lugares no AT (Sl.89.6; Dn.3.25) como uma referência a eles. Entretanto, todas as vezes que o termo é usado ele descreve “anjos” como seres espirituais a serviço de Deus e não como seres espirituais a serviço de paixões carnais. Parece muito improvável que Moisés usaria uma expressão tão nobre para descrever “demônios”, fato que não aconteceu em todo AT. Outro detalhe que merece nossa atenção é que Moisés usa outro termo para se referir a seres angélicos no Pentateuco, “ma’alk” usado 34x para descrever seres angélicos. Em nenhuma ocasião ele usou a expressão de Gn.6 para se referir a seres angélicos. Isso certamente demonstra que é muito improvável que Moisés tenha feito um uso diferenciado aqui.

Mais importante ainda é que Moisés usa uma expressão similar a encontrada em Gn.6.2 para descrever pessoas: “Filhos sois do SENHOR, vosso Deus” (Dt.14.1; cf. Dt.32.5). Nessa expressão “filhos do Senhor” (hb. banim YHWH) é uma clara descrição de seres humanos, e nenhuma razão há para se dizer que se trata de seres angelicais. Diversas vezes no AT a nomenclatura de “filho” de Deus faz referência ao povo de Deus (Sl 73.15; Is 43.6; Os 1.10, 22.1). Todas essas designações demonstram que a terminologia sugere que o modo mais natural de ser entendido o texto é em referência a seres humanos.

Outro detalhe importante é que quando Moisés descreveu a vida de Enos, ele usou a seguinte expressão: “daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gn.4.26). Adam Clarke sobre isso afirma que “os homens começaram a chamar-se pelo nome do Senhor, essas palavras demonstram que no tempo de Enos os verdadeiros seguidores de Deus começaram a distinguir-se, e serem distinguido por outros, pela denominação de filhos de Deus[5]”. É bem verdade que tal expressão fala em primeiro lugar sobre a adoração do povo de Deus (Gn.12.8, 13.4; 16.13; 21.33; 26.25), mas também denota uma identidade pessoal de pertencimento a Yahweh. Segue-se que na descendência de Sete houve a manutenção da verdadeira adoração a Yahweh como Deus Salvador, e que tal identidade religiosa foi transmitida de geração em geração e grandes homens de Deus fizeram história nessa descendência (Enos, Enoque, Noé).

A tragédia desse texto, todavia, é a demonstração de que mesmo aqueles que invocavam o nome de Yahweh, seus verdadeiros adoradores, estavam se corrompendo e buscando uma vida centrada em seus próprios prazeres. A idéia aqui não é tanto de perversidade sexual, mas de jugo desigual: Os filhos de Deus estavam se casando com mulheres que não invocavam o nome de Yahweh. Ou seja, mesmo entre os verdadeiros adoradores, Yahweh passou a ser ignorado e a busca pelo prazer pessoal exaltada. Essa é a grande tragédia do pecado de Gênesis 6: ninguém na humanidade havia restado como representante da verdadeira adoração a Yahweh, exceto Noé, homem justo e íntegro.

…filhas dos homens eram formosas: A expressão “as filhas dos homens” aqui é uma referência a descendência de Caim, tratam-se de mulheres que não eram marcadas por uma vida piedosa diante de Yahweh: São mulheres que viviam segundo os padrões da humanidade, por isso “filhas dos homens”. Entretanto, essas mulheres são descritas como “formosas“. A palavra em si mesma não denota nada necessariamente sensual, até por que o mesmo termo é usado para descrever lugares (Gen 49.15; 2Re 2.19), alimentos agradáveis ao paladar (Gen.2.9; 36) entre outros usos interessantes (Ne 2.5; 1Sam 29.6; etc). Entretanto, dois usos do termo podem nos ajudar a compreender o que está acontecendo aqui. Em Gen 3.6, Moisés descreve o fruto proibido como “atraente aos olhos” usando o mesmo termo hebraico, o que sugere as mulheres eram desejáveis aos olhos dos filhos dos homens. Reforça essa ideia, o fato de que Salomão descreve as carícias de sua amada como mais agradáveis que o vinho. (Can 1.2). Como já mencionamos, Moises parece descrever a sociedade pre-diluviana nos termos apresentados na queda, o que também sugere que a atitude de Adão e Eva diante do pecado se tornaram endêmicas a tal ponto que no verso cinco já não se pode saber que são os descendentes de Sete e os de Caim. A rebelião alcançou toda a humanidade.

…tomaram para si: É interessante Moisés usar essa expressão, pois tal expressão é usada para descrever relacionamentos matrimoniais e não perversões sexuais, observe: “Abrão e Naor tomaram para si mulheres; a de Abrão chamava-se Sarai, a de Naor, Milca, filha de Harã, que foi pai de Milca e de Iscá” (cf. Gn.4.19; Jz.21.18; Rt.1.4). A NIV já assumiu o uso do termo e traduziu assim o verso: “e os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e então se casaram com qualquer quer uma que escolhessem”. Essa idéia é totalmente avessa a uma suposta ação demoníaca: Por que razão seres angelicais deixariam a presença de Deus para se casar? Por que valorizariam a oficialização de seus relacionamentos? Não faz o menor sentido encontrar nessa declaração a ação de seres angélicos, aliás, é contraditório ao testemunho das escrituras que afirma que anjos não sem casam nem se dão em casamento (Mc.12.25; cf. Mt.22.30; Lc.20.25). Além disso, se anjos foram responsáveis por tais acusações, por que razão ficaram impunes ante ao juízo de Deus, que destruiu todos os seres viventes, animais e homens, além de afirmar que tal juízo também era para a terra (Gn.6.13)?

3. Conquista:

Outra característica que acompanhava os seres humanos naquela ocasião era sua disposição para a conquista. É fato que tal disposição não parece tão clara, mas o modo como Moisés apresenta a humanidade nos dias de Noé nos faz pensar que o seu foco não era muito distinto daquele encontrado na humanidade do período da Torre de Babel: a idéia era ser conhecido e reconhecido. O texto mesmo dá a entender que a reputação de alguns desses homens era de homens valentes, pois eram varões de renome.

…também depois: Já notamos que essa sentença é a demonstração que tais Nephilins já existiam antes do encontro entre os filhos de Deus e as filhas dos homens, e também depois disso existiram. A idéia aqui é que tal união não preservou a verdadeira adoração a Yahweh, antes, manteve a depravação da humanidade. Ou seja, a linhagem que havia se dedicado no passado a andar com Deus e a invocar Yahweh já não mais prezava por sua identidade de filhos de Deus, nem mesmo para o culto prestado a Ele: agora até mesmo seus filhos viviam como seres humanos depravados.

…filhos de Deus possuíram: A expressão aqui é um pouco mais enfática que aquela encontrada no versículo 2: “tomaram para si”. Enquanto a primeira expressão fala de uma união matrimonial essa fala sobre relacionamento sexual. Em hebraico, Moisés usa o termo “bow’” que tem por sentido mais simples “entrar” como é visto nas mais antigas versões em português, inclusive nesse verso (ACF, ARC), mas é usado aqui como um eufemismo para o relacionamento sexual.

…valentes: O termo hebraico “gibbowr” é usado aqui e em mais 3 lugares no Pentateuco (Gn.10.8, 9) e todos tem a conotação de homens poderosos, exceto Dt.10.17: “Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno”.

…varões de renome: Eles eram homens famosos, ou melhor, infames, pois para alguns homens obter um nome no mundo, não por sua bondade, mas por sua grandeza, e às vezes por sua grande maldade, é o mais importante. Sua sede é a conquista, a superioridade, não importando o modo como se conquista o que se busca. Além de depravados esses homens eram reconhecidos por suas conquistas, seja na caça, nos múltiplos casamentos ou outras façanhas de baixa moral: Esses eram homens lembrados por suas conquistas, e por elas foram mortos pelo Senhor.

Conclusão

O que nós vemos nessa história é que mesmo a linhagem daqueles que foram outrora chamados de Filhos de Deus se permitiram aderir a rebelião contra Deus. As atitudes que foram vistas na descendência de Caim, agora descrevem toda a humanidade. Não sabemos quanto tempo levou para que a descendência de Sete finalmente se juntasse à descendência de Caim, mas sabemos que eles escolheram os próprios prazeres em detrimento da religião de YHWH. A adoração a YHWH e a expectativa por Sua intervenção foram substituídas pelo prazer barato da carnalidade. A esperança de que um dia um descendente de Eva, prometido por Deus, finalmente findaria o domínio da serpente se esgotou. Quando a esperança se esgota, esquece-se as razões para a perseverança e para o caráter aprovado. Em outras palavras, a sociedade pré-diluviana experimentou o que Deus nos ensina em Rom 5.3-5 às avessas: “porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona“.

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Notas

[1] MACKINTOSH, Charles Henry, Estudos sobre o livro de Gênesis. pp.73.

[2] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.80.

[3]SAILHAMER, John, Genesis. Pp.78.

[4]CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[5]CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)