Bíblia aqui, não!


Escada do Ateísmo

Certa vez, participando de uma reunião administrativa numa igreja local, a tensão tomou proporções maiores que precisei intervir. Um quadro típico nas igrejas democráticas e congregacionais, infelizmente. Abri minha Bíblia para ler um trecho da Escritura e pedi a palavra. Até que, de súbito, o mais acalorado e destemperado cristão do recinto bradou em alta voz: “Bíblia aqui, não!” Fiquei horrorizado, claro. Hoje, a história é motivo de brincadeiras. Mas pensei que há algo de semelhante entre esta contumaz declaração e o liberalismo teológico presente em alguns seminários e igrejas de Cristo.

O termo liberalismo refere-se à atitude de libertar-se de amarras, dogmas fixos e doutrinas estabelecidas na cultura e sociedade submetendo tais ideias à inquirição racional, à experiência e à crítica científica. O liberalismo aplica-se a diversos campos de conhecimento como a economia, a sociologia, a política e a religião/teologia.

No campo da teologia, o liberalismo remonta ao século XVIII, logo após o iluminismo. Sua raiz foi o idealismo filosófico alemão (Kant e Hegel) e a influencia de Schleiermacher e outros pensadores da época. Embalados pelo otimismo racionalista de seu tempo e por diversas descobertas científicas tais estudiosos colocaram as Escrituras Sagradas debaixo do crivo da razão, libertando-se do conceito da Bíblia como Palavra de Deus. Essas novas perspectivas comprometeram doutrinas centrais que habitavam a fé da Igreja, como a crença na revelação e inspiração da Escritura.

As ideias iluministas proporcionaram inúmeros avanços em prol da humanidade nas artes e ciências em geral, mas a postura racionalista no campo teológico gerou um dualismo negativo entre fé e razão. O fruto desta semeadura na teologia foi o abalo da fé nas gerações subsequentes da Europa e América do Norte. Aonde o liberalismo teológico chegou constatou-se o enfraquecimento dos púlpitos, a diminuição crescente de vocacionados ao ministério eclesiástico, o esfriamento da paixão evangelística e missionária, a substituição da piedade pela erudição (um não deveria anular o outro) e a trágica perda de significado da igreja.  Trocando em miúdos, o movimento hasteou uma bandeira que dizia que a Bíblia não podia mais ser identificada como a revelação de Deus para todas as épocas e povos. Mesmo que seus pensadores não idealizassem o quadro final de suas teorias, a verdade é que a mensagem louca e escandalosa da cruz ficou sem lugar dentro de uma igreja ressabiada com seu livro sagrado e secularizada.

Em nossos dias, poderíamos identificar os sinais de liberalismo teológico como negação da autoridade da Escritura, negação do sobrenatural, abordagem do NT como mera construção psico-teológica dos apóstolos e crentes do primeiro século sem qualquer base histórica, e a interpretação dos acontecimentos espetaculares como mitos. Ou seja, nesta visão, o relato da criação, a queda do homem, a existência de satanás, o nascimento virginal de Cristo, os milagres e a ressurreição do Salvador não existiram, nem aconteceram, de fato. Estas coisas são subproduto da narrativa religiosa e mitológica dos homens do passado. A mensagem bíblica teria apenas objetivos éticos e estaria sujeita aos volúveis dogmas científicos ora comprovados em laboratório e aceitáveis à razão, ora desmentidos por pesquisas mais avançadas. Bem, se for assim, já não temos a obra de Cristo e seu significado, a redenção, o perdão dos pecados, e morreremos sem esperança.

As ideias liberais não foram avante em sua forma original devido à frustração com o sistema racionalista, mas as sementes lançadas continuam germinando e abrigando muita gente (mesmo dentro das igrejas). Os tempos mudaram, e o liberalismo perdeu terreno para o neoliberalismo (neo-ortodoxia), e a modernidade cedeu seu lugar à pós-modernidade. Porém, o que se tem de exemplo claro da semente liberal é a afirmação de que a Bíblia não é o parâmetro divino em matéria de fé, ética e moralidade. A pós-modernidade absolutizou o relativo. Conclusão: não podemos falar sobre absolutos nas questões da homossexualidade, do destino eterno, da salvação, da moralidade, do pecado, da relevância da oração, etc. O risco é chegarmos ao extremo de uma ética situacional ao sabor e gosto do freguês. Embora este não seja um resultado necessário ou apoiado pelos que não crêem em absolutos essenciais enraizados na Bíblia, tamanho caos é bem possível de acontecer.

Com a popularização das ideias pós-modernas, a razão deixou de ter o lugar de honra, concedendo o trono à subjetividade. Percebeu-se que o racionalismo não dava conta de explicar questões mais complexas da vida. Neste ponto, segundo Francis Shaeffer, a sociedade passou a dar um “salto” para um andar superior, em busca de significados, desconsiderando o a cognição como única fonte de respostas. Foi quando o sujeito acendeu um baseado, abandonou o emprego e foi procurar quem ele é na antiga esquina da juventude, de tão fadado de sua vida sem sentido, por exemplo. As drogas, o sexo livre, as buscas espiritualistas, o misticismo, a vazão à paixão e a coroação da vontade própria independentemente das razões ou porquês são exemplos deste salto. Viu-se que a vida é mais complexa, e que a razão não explica tudo. O homem angustia-se e maravilha-se de sua imaginada insignificância e relatividade no universo. A busca por autenticidade passou a ser uma das tônicas da cultura.

Diante deste quadro, precisamos avaliar a nossa fé. Em que cremos? O quanto temos consciência da veracidade e praticidade da boa nova? Nossa fé encontra seu ápice em Cristo, cujo resultado é vida eterna, plenitude e conhecimento de Deus (Ef 1.1-13; Cl 2.1-23; Jo 17.3). Não está fundada sobre dogmas, mas a pedra fundamental é uma Pessoa (1Co 3.11; 1Pe 2.4-8). Portanto, a fé cristã é viva, uma vez que seu Autor e Objeto está vivo (Hb 12.1,2). A fé cristã não é irracional, nem vazia de significado. Não porfia contra a ciência, nem se perde na fumaça da subjetividade. A fé cristã é histórica. Crê na revelação progressiva de Deus, Sua intervenção no tempo e espaço, Sua inspiração nos escritos originais redigidos pelos autores bíblicos. Cremos que por Sua Palavra Deus criou o mundo e estabeleceu os fundamentos da terra. Ele deu significado, ordem e estruturas a tudo, e encobriu o que lhe aprouve do alcance dos homens, dando aos reis e sábios a glória de esquadrinhar estas coisas (Pv 25.2). Através da Palavra de Deus é que alcançamos o processo cognitivo adequado para chegarmos à Verdade. Não é a verdade exaustiva sobre o universo. Mas é a Verdade, límpida, pura e essencial à vida e à piedade (2Pe 1.3,4). A Bíblia nos conduz ao conhecimento integral e multidisciplinar, dando-nos princípios que nos conduzirão no estudo, na academia e na inquirição (Sl 119.96,104).

Não se engane. O primeiro teólogo liberal apareceu no Éden na forma de serpente. Ele interpelou Eva pondo em xeque as palavras de Deus: “Foi isso mesmo que Deus disse?” (Gn 3.1) Como nada é novo debaixo do céu, o Novo Testamento também fala sobre o destino dos liberais. Basta lermos 2Timóteo 3.1-9, 2Pedro 3.1-22 e a carta de Judas. São estes os que resistem à verdade de Cristo, reprovados na fé e de entendimento corrompido. Aqueles que transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam o nosso único Soberano, Jesus Cristo, não irão adiante. Seus males serão manifestos e seria melhor que nunca tivessem conhecido o Salvador. Um servo do Senhor e da Igreja que se levanta contra aquele que um dia o salvou é, mesmo, como o cão que voltou ao próprio vômito. O conselho apostólico é o de não nos afastarmos das Sagradas Letras que nos tornam sábios para a salvação (1Tm 3.10-17). De não nos esquecermos de que nenhuma profecia vem de particular elucidação, mas homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.19-21). De não nos acharmos mais sábios, santos e inteligentes que Deus, que nos fez e criou o mundo por Sua Palavra, e agora nos fala pelo Filho (Hb 1.1-4).

Queridos irmãos, liberais nos ensinam a buscar erudição e a preocuparmo-nos com as questões sociais. Há nobreza neste fato, mas me questiono se não podemos aprender o mesmo com Jesus e Paulo. Entretanto, liberais não se envolvem com missões, não plantam igrejas, não fundam seminários visando a piedade e vitalidade de futuros obreiros e igrejas. Pois sem crer na autoridade da Bíblia estas coisas não fazem muito sentido, pois até a visão de salvação e eternidade está alterada. Fujamos deste mal que assola nossas comunidades e enterra a fé de pequeninos discípulos. Daremos contas a Cristo de cada um deles que se perder por nos ouvir mentindo contra a verdade de Deus e Seu Filho. Nada podemos contra a verdade, senão a favor da verdade (2Co 13.8). Precisamos lembrar que a loucura de Deus é mais sábia que sabedoria dos homens. A fraqueza de Deus, mais forte que a força dos homens (1Co 1.25). Mantenhamos firme a confissão que fizemos. “Disse Jesus: Eu Sou o caminho e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” Que digamos juntos em nossas comunidades de fé: “liberalismo teológico aqui, não!”

Firmeza, Graça e Fé a todos!

Pr. Marcelo Ferreira