Era o vinho proibido no AT?


[Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]

Esse é o quarto artigo da série Vinho, as Escrituras e o Cristão. Em nosso primeiro artigo nós apresentamos em nosso os princípios que governam nosso estudo. Nós entendemos que as Escrituras apontam para o princípio da sobriedade e moderação em contraposição à proibição sugerida por alguns. Ao mesmo tempo, defendemos que as Escrituras claramente atestam o repúdio divino à embriaguez. Nós também afirmamos que o diálogo e o tratamento do assunto deve ser feito com maturidade. Nossa intenção não é, de forma nenhuma, promover a licenciosidade, mas em devoção a Deus e fidelidade à Sua Palavra apresentar como entendemos a relação entre o Vinho, as Escrituras e o Cristão.

Em nosso segundo artigo, nós demonstramos que diferente do que se pensa, o AT apresenta o vinho muito mais como bênção do que maldição. Dos 231 usos dos termos relacionados ao vinho no AT, apenas 56x os termos são apresentados de um ponto de vista negativo. Em outras 59x o termo não é acompanhado de qualquer reprovação ou recomendação, mas apresentado como parte da vida de Israel. Por outro lado, em 88x o ‘vinho’ ‘e apresentado de modo positivo, como bênção divina e até mesmo recomendada por Deus.

Em nosso terceiro artigo, nós demonstramos que em função dessa apresentação do vinho nas escrituras alguns afirmam que a explicação para esses números se dá no fato de que quando Deus aprova o produto da vide, Ele se refere ao suco de uva, ao passo que quando condena, Ele se refere ao vinho. Entretanto, de acordo com a evidência léxica do AT a teoria de que os termos hebraicos se referem a suco de uva quando são aprovados por Deus, e ao vinho quando reprovados por Deus não tem fundamento linguístico. A evidência vétero-testamentária precisaria ser deveras distorcida para sustentar tal teoria. Nós também observamos que tal teoria nasce do pressuposto de que Deus proíbe o consumo do vinho, e que portanto, quando um texto parece sugerir que Ele o recomenda, na verdade o texto fala sobre o suco de uva.

É por isso que nesse artigo precisamos responder a pergunta mais importante a respeito do assunto: Deus proíbe o consumo do vinho no AT?

Em outras palavras, é possível identificar passagens, exemplos ou proibições explícitas que justifiquem a afirmação dos proibicionistas de que Deus se opõe ao vinho em qualquer quantidade?

 1. Definindo Proibição

a. Em Português

O conceito de proibição chega ao português via Latim: prŏhĭbĭtĭo, a palavra latina que descreve proibição em português, é derivada do verbo prŏhĭbĕo que pode  eventualmente denotar o ato de proibir em clausulas formadas por particípios (cf. Plaut.Trin. 2, 2, 89; id. Curc. 1, 1, 33), embora normalmente descreva o ato de impedir, dificultar, prevenir, ou até mesmo afastar (cf. Cic. Leg. 3, 3; Cic. Phil. 2, 18, 46; Plaut. Ep. 2, 2, 103). Nesse sentido, o termo é também usado de modo sinônimo a ĭnhĭbĕo, cujo uso normal expressa o sentido de coibir e/ou refrear (cf. Petr. 105; Liv. 1, 48, 6; Liv. 39, 21, 10).

Embora apenas eventualmente usado com o sentido explícito de proibição, prŏhĭbĭtĭo é normalmente usado para descrever um impedimento legal (cf. Cic. Verr. 2. 85, 88, 104, 114). Nesse sentido, o termo encontra um paralelo conceitual no termo português proibição, do mesmo modo como o verbo latino prŏhĭbĕo  tem seu paralelo no verbo proibir em português, visto que o mesmo sugerir diferentes sentidos, como (1) ordenar que se não faça alguma coisa; (2) prescrever a abstenção de alguma coisa; ou (3) obstarimpediropor-se a algo ou a alguém.

Em Português, a construção sintática de uma proibição é normalmente descrita por um verbo imperativo modificado pelo advérbio de negação “não,” também conhecido como imperativo de negação. Na frase “não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gênesis 2:17) encontramos o imperativo negativo do verbo comer na segunda pessoa do singular, indicando que a pessoa a quem se destina a frase é proibida de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A mesma construção é vista na frase “não temas” (Gênesis 35:17).

Em outros casos, entretanto, a proibição pode ser descrita por um verbo indicativo modificado pelo advérbio de negação. Por exemplo, na frase “não matarás,” (Êxodo 20:13) nós encontramos o verbo matar, na segunda pessoa do singular, futuro do indicativo, modificado pelo advérbio de negação, indicando que o ato de matar é proibido.  Embora o tempo verbal seja futuro, a proibição não é exclusiva ao futuro, pois se aplica a todo momento. A mesma construção é encontrada em todas proibições do decálogo. Para nós em português, embora a diferença sintática exista, nós não encontramos razões para fazer alguma distinção conceitual entre as diferentes construções. Apesar de serem diferentes, elas apontam para o mesmo conceito.

b. Em Hebraico

Diferentemente do português, em hebraico uma proibição não é construída com um verbo imperativo modificado por um advérbio de negação (Allen Ross, Introducing Biblical Hebrew, p.152). Também diferente do portugues, em hebraico existem seis diferentes advérbios de negação:  לְבִלְתּי ,פֶּן ,לֹא ,אַל אֵין e מן. Ainda  que cada um deles tenham sua função sintática definida, é evidente que também existe certa sobreposição conceitual com todos eles, exceto com פֶּן, o mais raro dentre eles (Bruce Waltke, An Introduction to Biblical Hebrew Syntax, p.660). Dos seis advérbios hebraicos, apenas três são usados para descrever o conceito de proibição no AT: לֹא ,אַל ,אֵין. Cada um desses advérbios é usado em diferentes construções sintáticas e, por conseguinte, expressam diferentes sentidos [1].

(1) Proibição como falta de permissividade [2]: Normalmente, o advérbio de negação אֵין (hb. aein) é usado para modificar clausulas participiais (Merwe, Naudé, Kroeze, A Biblical Hebrew Reference Grammar, p.318). Entretanto, quando este advérbio é usado em uma construção infinitiva, o sentido expresso pela frase pode indicar a negação de permissividade (WaltkeAn Introduction to Biblical Hebrew Syntax, p.610-11). Por exemplo, na frase אֵין לָבוֹא (lit. não entrar; cf. Ester 4:2) nós encontramos a descrição não da proibição em si, mas da falta de permissividade para realizar determinada ação: Não é permitido entrar. Embora o contexto demonstre a existência de uma proibição, o sentido e ênfase da expressão recai sobre a falta de permissividade na realização de determinada ação. Uso similar encontramos na frase וְאֵין לְנוּ לְהָמִית (lit. e não para nós matar; cf. 2Samuel 21:4), da mesma forma descreve o conceito de proibição, sem usar  os elementos comuns descrevê-lo, sendo melhor traduzido como “Não nos é permitido matar” (Ronald J. Williams, Hebrew Syntax, p.146). Nesse tipo de construção, o contexto é determinante em apontar a abrangência e extensão da proibição. Esse tipo de proibição não é incomum no AT.

(2) Proibição geral ou permanente [3]: O uso primário o advérbio de לֹא (hb. lo) é negar frases verbais, embora ocasionalmente seja usado modificando um adjetivo (Gênesis 2:18), frases sem verbo (Jó 28:14) ou até mesmo frases preposicionais (Êxodo 18:17) (Bill T. Arnold, John H. Choi, A Guide to Biblical Hebrew Syntax, p.137; Paul Joüon, T. Muraoka, A Grammar of Biblical Hebrew, p.567). Entretanto, quando o autor usa esse advérbio seguido de um verbo imperfeito, ele pode descrever uma proibição permanente (Brian Webster, The Cambridge Introduction to Biblical Hebrew, p.128) ou geral (Ronald J. Williams, Hebrew Syntaxp.148). Por exemplo, na frase לֹא תֹאכַל מִמֶנּוּ, (lit. não comerá delaGênesis 2:17), nós encontramos uma proibição sem restrições temporais: Não coma desta [árvore]! O mesmo pode ser dito das proibições presentes no decálogo, como por exemplo לֹא תִּרְעָח (lit. não matarásÊxodo 20:13). Nesse tipo de construção o sentido é de proibição incondicional (Gesenius, Kautzsch, Cowley, Gesenius’ Hebrew Grammar, p.478). Muito embora, de modo geral, esse tipo de construção aponte para uma determinação absoluta, o contexto pode qualificar tanto a abrangência quanto a extensão de tal proibição.

(3) Proibição específica ou imediata [4]: O uso primário do advérbio de negação אַל (hb. al) é modificar verbos volitivos, como Jussivo e o Coortativo, embora eventualmente nos livros poéticos é possível encontrar tal advérbio substituindo לֹא, ou por motivos estéticos, ou até mesmo por questão de ênfase (Paul Joüon, T. Muraoka, A Grammar of Biblical Hebrew, p.568). Esse advérbio é também conhecido como advérbio vetitivo (Ronald J. Williams, Hebrew Syntaxp.145) e normalmente se aplica apenas a situações específicas (Merwe, Naudé, Kroeze, A Biblical Hebrew Reference Grammar, p.318) ou imediatas (Bill T. Arnold, John H. Choi, A Guide to Biblical Hebrew Syntax, p.130). Por exemplo, na frase אַל תִּירְאִי (lit. não temasGênesis 35:17), nós não encontramos uma ordem que transcende o tempo, mas um comando específico para uma situação específica. “Ter medo,” não é algo pecaminoso, mas naquela ocasião era necessário não temer. Novamente, embora o uso normal dessa construção indique uma proibição específica e não permanente, o contexto é o que qualifica a abrangência e extensão de tal proibição.

Agora, conhecendo as diferentes categorias sintáticas usadas em hebraico para descrever uma proibição [5], é importante demonstrar quando essas categorias são usadas em referência ao vinho no AT para então responder a pergunta se o vinho era proibido no AT.

2. Quando o Vinho é Proibido

A pergunta que nos interessa responder então é: Era o Vinho Proibido no AT? A resposta a essa pergunta deve ser positiva, se quisermos ser coerentes com a evidência. Entretanto, pelo mesmo motivo devemos também qualificar nossa resposta à luz das evidências apresentadas nas escrituras, afinal, apesar da imagem do vinho ser de modo geral positiva no AT, existem algumas ocasiões nas quais o mesmo é explicitamente proibido por Deus. Conhecer esses textos é fundamental para nosso estudo sobre o vinho nas escrituras.

a. Proibição Relacionada a Situação

(1) Nazireus: No AT existiam proibições ao consumo do vinho relacionadas a votos pessoais. Em Números 6:1-4 nós encontramos a regulamentação desse tipo de voto: “O Senhor disse ainda a Moisés: Diga o seguinte aos israelitas: Se um homem ou uma mulher fizer um voto especial, um voto de separação para o Senhor como nazireu, terá que se abster de vinho e de outras bebidas fermentadas e não poderá beber vinagre feito de vinho ou de outra bebida fermentada. Não poderá beber suco de uva nem comer uvas nem passas. Enquanto for nazireu, não poderá comer nada que venha da videira, nem mesmo as sementes ou as cascas.

Contextualmente, as prescrições do voto de Nazireu completam o primeiro ciclo de preparação do povo de Israel que se aventura em direção à terra prometida. Seguindo a seção a respeito das leis de purificação no acampamento devido a infidelidade individual, Moisés apresenta o que significa a dedicação total para o serviço do Senhor para aqueles que não estão incluídos entre os sacerdotes da nação. As funções dos sacertodotes e levitas já havia sido descrita, mas aqui, Moisés apresenta o meio adequado para aqueles que voluntariamente desejam seguir um caminho de piedade, devoção e santidade (R. Dennis Cole. Numbers. p.119).

α. Voto Especial: O voto de nazireu era um voto diferenciado e incomum. Não era mandatório, mas era aberto tanto para homens como para mulheres (אִ֣ישׁ אֽוֹ־אִשָּׁ֗ה; lit. homem ou mulher). A menção de mulheres nesse texto é impressionante visto que grande parte da legislação do culto em Israel incluia apenas restrições às mulheres. Wenham afirma que “[v]otos de consagração a Deus era um costume comum na vida de Israel. Tradicionalmente eles tem a forma de uma promessa de dar a Deus algo se Ele ajudasse aqueles que faz o voto (Gênesis 28:20-22Levíticos 27Juízes 11:30ss; 1 Samuel 1:11ss; Salmos 66:13ff; Jonas 1:16Atos 23:12ss). Entretanto, o voto Nazireu era um voto especial (v.2; Levíticos 27:2); o termo Hebraico (פלא) indica algo excepcional e incomum (cf.Juízes 13:19Isaías 28:29), no qual a pessoa se entregava a Deus por um período de tempo” (Gordon J. Wenham, Numbers, p 97). O termo que qualifica esse voto é פָלָא (hb. pala’) e seu uso é variado no AT, podendo descrever um ato divino fora do normal (Êxodo 15:12), algo incomum e excepcional (Salmos 77:12) ou até mesmo algo extremamente difícil (Gênesis 18:14cf. veja léxicos para mais detalhes The Hebrew and Aramaic Lexicon of the OT, p.927; Gesenius’ Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures, p.674; Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon, p.810; Theological Wordbook of the Old Testament. p.723). A LXX  descreve esse voto como μεγάλως εὔξηται (lit. um grande voto), enquanto outras versões sugerem que tal voto deve ser feito de modo explícito (Sif.Zut on 6.2), sugerindo que o voto não poderia ser siliencioso, mas deveria ser verbalmente articulado (Jacob Milgrom, Numbers, p.44; Baruch Levine, Numbers, p.218-9). Considerando isso, Ashley sugere que o uso desse termo aqui descreve um voto fora do comum, algo deveras especial (Timothy Ashley, Numbers, p.141). Em outras palavras

Esse voto, portanto, não descreve a rotina ou até mesmo os esperados atos de devoção que alguém poderia fazer por um período de tempo. Esse voto era um ato incomum de devoção a Deus, provavelmente baseado no desejo intenso de demonstrar ao Senhor sua dedicada separação a Ele (Ronald B. Allen, Numbers. p.138)

β. Separação e Consagração: Esse voto além da normalidade da vida de Israel era um voto especificamente de consagração. Os verbos usados para descrever esse voto são apresentados de modo interessante pela Vulgata: fecerit votum ut sanctificentur et se voluerint Domino consecrare (lit. fazer um voto para santificar e quiser se consagrar a Deus). Em Latim, a sentença evidencia a voluntariedade do voto, cujo alvo é a santificação (no sentido de ser separado) e a consagração (no sentido de servir) para vida com Deus. O mesmo tipo de redundância é vista na tradução da LXX: ὃς ἐὰν μεγάλως εὔξηται εὐχὴν ἀφαγνίσασθαι ἁγνείαν κυρίῳ (lit. se alguém [solenemente] votar [no sentido de fazer um voto] um voto para se santificar [em] pureza ao Senhor). Entretanto, em Hebraico há um aparente jogo de palavras que parece tornar essa redundância ainda mais intensa. Os termos נֶדֶר (hb. neder, voto) e נָזִיר (hb. nazir, nazireu), cujas formas verbais aparecem outras vezes no texto, servem para sugerir as restrições e o tipo do voto (cf. Dennis R. Cole, Numbers, p.119). De modo que  נֶדֶר (hb. neder, voto) poderia ser entendido positivamente como devoção, compromisso, promessa. Ao passo que o termo נָזִיר (hb. nazir, nazireu) poderia aqui denotar o sentido negativo de restrição, abstinência e auto-negação. O uso dos termos nesse verso parece sugerir que o voto apresentado aqui é um compromisso voluntário de auto-negação e abstinência como demonstração de devoção e compromisso. (Baruch Levine, Numbers, p.218-9). Milgrom sugere que o sentido expresso pela expressão é claro: “Apenas através da separação voluntária, ao se abster de certos atos permitidos para todos os outros, ele poderia ser separado para Deus” (Jacob Milgrom, Numbers, p.44). Desse modo, homens e mulheres poderiam, por um período de tempo, se dedicar ao serviço ao Senhor com restrições quer eram mais específicas e duras do que aquelas impostas sobre os sacerdotes. Enquanto o sacerdote era restrito de consumir o vinho na tenda da congregação durante o serviço sagrado (cf. ponto b.1 abaixo), o nazireu era proibido de beber vinho em qualquer contidade e em qualquer ocasião. Por outro lado, voto do nazireu era temporário, ao passo que a dedicação ministerial do sacerdote não. Além da questão do cabelo, a grande diferença entre o voto de nazireu e o ofício do sacerdote era a temporalidade  e a possibilidade de mulheres se separarem para dedicação ao Senhor durante os dias do seu voto.

γ. Abstinência: A exigência da abstinência  do vinho ou qualquer bebida fermentada é evidenciada por duas interessantes construções verbais: (1) מִיַּ֤יִן וְשֵׁכָר֙ יַזִּ֔יר חֹ֥מֶץ יַ֛יִן וְחֹ֥מֶץ שֵׁכָ֖ר (lit. do vinho e [da] bebida fermentada se separar vinagre de vinho e vinha de bebida fermentada). O uso do verbo נָזַר (hb. nazar), usado aqu ino Hifil, sugere um ato auto-restrição ou abstinência ao passo que a preposição מִן modifica os substantivos que descrevem a que se dirige a abstênção. Por exemplo, em Levíticos 15:31 vemos uma construção similar na qual os filhos de Israel devem manter-se separados daquilo que os faria impuros (וְהִזַּרְתֶּ֥ם אֶת־בְּנֵי־יִשְׂרָאֵ֖ל [מִ]טֻּמְאָתָ֑ם). Do mesmo modo, o uso dessa construção aqui deixa evidente que a abstinência do nazireu era voluntária e direcionada ao vinho, a bebida forte e ao vinagre de vinho ou bebida fermentada; (2) לֹ֣א יִשְׁתֶּ֑ה (lit. não beberá) essa expressão é repetida duas vezes no v.3, e como já demonstramos, descreve uma proibição permanente: Aqui o autor usa לֹא + imperfeito para evidenciar que trata-se de uma ordem de caráter negativo. Observe também que a mesma construção é usada para descrever a proibição de se comer qualquer produto derivado da uva (לֹ֣א יִשְׁתֶּ֔ה; lit. não comerás). Em outras palavra, o voto de nazireu era um voto de absoluta abstinência de qualquer produto derivado da uva, seja qual for a forma que se apresente tal produto: “vinho e de bebida forte; não beberá, vinagre de vinho, nem vinagre de bebida forte, nem bebida alguma feita de uvas, nem comerá uvas frescas nem secas” (v.3). Qualquer tipo de bebida fermentada era proibida para aquele que fizesse tal voto, bem como as uvas, uvas passas, ou até mesmo outros produtos derivados ou produzidos com uvas.

“Até o suco não fermentado de uva (mistrat anabim), ou até mesmo as próprias uvas (anabim), sejam elas frescas (lah) ou secas (yebes), devem ser evitadas, ao ainda as menores partes da uva, como sua semente ou casca” (Timothy Ashley, Numbers, p.142).

δ. Temporário: Entretanto, devemos observar que as exigências absolutas e permanentes eram requeridas apenas durante o tempo do voto. Aquele que voluntariamente faz o voto, durante o voto deveria cumprir cabalmente as exigências do voto. Entretanto, antes do voto ou depois do mesmo, as exigências não seriam aplicadas. Em outras palavras, as exigências do voto de Nazireu não eram exigências feitas para todo o povo de Israel. Na verdade, eram as exigências da manutenção do voto que fariam do Nazireu distinto entre o povo de Deus.

“Esses compromissos [do voto de nazireu] são, entretanto, de natureza temporária, e procedimentos rituais são apresentados como provisão para o término do voto, para garantir ao Nazireu o retorno à vida normal (vv.13-21) (…) É verdade que o o voto poderia durar por um longo período de tempo, mas a definição de rituais para marcar o fim do voto (vv.13-21) criam um novo paradigma dentro do qual o voto é normalmente realizado, e predispõe o futuro em direçãode um voto de tipo limitado” (Phillip Budd, Numbers, p.73).

Em todo o AT, apenas dois homens são descritos como sendo nazireus desde o nascimento: Sansão e Samuel (Juízes 13:5; 1Samuel 1:11). É interessante que ambos são filhos de mães que não poderiam engravidar naturalmente (Juízes 13:2; 1Samuel 1:2) No que se refere ao relato da vida de Sansão, as restrições impostas pelo mensageiro do Senhor e as restrições do voto de dedicação de Sansão são apresentados de modo muito interessante. No que se refere à mãe, o mensageiro lhe disse no v.4: נָ֔א וְאַל־תִּשְׁתִּ֖י יַ֣יִן וְשֵׁכָ֑ר וְאַל־תֹּאכְלִ֖י כָּל־טָמֵֽא (lit. por favor, não beba vinho ou bebida fermentada, e não coma nada impuro). A introdução da partícula נָא junto com a estrutura de proibição com אַל + jussivo (imperfeito em forma) apresenta uma construção interessante. Em casos similares a esse aqui, a partícula נָא introduz pedidos e solicitações, mesmo quando usada em sentenças de ordens negativas (Jó 6:29cf. Gênesis 44:18)[6]. O uso de אַל aqui demonstra que apesar de ser proibida do consumo de vinho e outras bebidas fermentadas, essa proibição não era permanente. Já no que se refere à proibição dirigida a filho (Sansão), o texto é mais enfático: וּמוֹרָה֙ לֹא־יַעֲלֶ֣ה עַל־רֹאשׁ֔וֹ (lit. e navalha não passará sobre a cabeça dele). A construção de לֹא + imperfeito deixa evidente que a restrição aqui é permanente e absoluta. A LXX deixa evidente a diferença entre os dois termos quando traduz אַל + jussivo da proibição dada à mãe de Sansão com μή + subjuntivo (μὴ πίῃς; lit. não bebas), ao passo que a ordem com לֹא + imperfeito dirigida a Sansão com ούκ + indicativo (οὐκ ἀναβήσεται; lit. não permitas passar). É interessante notar, entretanto, que a restrição dada a Sansão, apesar de fazer parte das restrições de um voto voluntário e temporal, foi feito sem seu consentimento e por toda sua vida. Nesse sentido, a separação de Sansão como juíz é paralela à experiência dos profetas que foram separados por Deus para serví-lo de modo especial desde o nascimento (Jeremias 1:5; Isaías 49:1).

O fato de o voto ser temporal, mesmo que por um grande período de tempo, não pense você que tal voto não significativo para a nação de Israel: “Na tradição dos nazireus encontramos homens especialmente devotos a Deus desde o nascimento (cf. Juízes 13:5; 1Samuel 1:11), cuja dedicação perdurou por toda sua vida. Em Sansão encontramos uma dimensão carismática para as atividades do Nazireu, enquanto em Amós 2:11-13 os nazirenos são descritos ao lado do grupo de profetas de homens de Deus e inspirados por Ele” (Phillip Budd, Numbers, p.73).

No que se refere ao consumo do vinho em Israel no AT, parece evidente que a abstinência de vinho e bebidas alcoólicas era obrigatória apenas para aqueles que voluntariamente tomavam para si um voto de consagração e serviço. As excessões a essa regar parecem ser Sansão e Samuel, que foram dedicados desde o ventre como nazireus. No mais, parece evidente que nem vinho nem a bebida fermentada eram proibidos em moderação para o povo de Deus.

(2) Recabitas: Os Recabitas eram um grupo entre o povo de Israel que exemplificavam a vida nômade ideal, e sua existência é mencionada em Jeremias 35. É provável que o interesse por esse tipo de vida tenha nascido na tentativa de recriar a experiência de Israel no deserto (cf. Deuteronômio 29:5-6), renunciando a cultura agrária e urbana assimilada por Israel e com isso, intentando demonstrar sua lealdade a Yahweh através da obediência a Jonadabe, seu antecestor (John Bright, Jeremiah, p.190). Entretanto, a constituição desse grupo era mais do que uma vida nômade apenas, pois a legislação que seguiam era também parecida com as estipulações dadas aos nazireus, como vemos em Jeremias 35.6:  לֹ֧א תִשְׁתּוּ־יַ֛יִן אַתֶּ֥ם וּבְנֵיכֶ֖ם עַד־עוֹלָֽם (lit. não beberão vinho, nem vocês nem seus filhos para sempre). A construção לֹא + imperfeito para descrever a proibição do consumo do vinho é ainda enfatizada pelo termo עוֹלָֽם (hb. olam; para sempre). A LXX captura muito bem a intensidade dessa proibição vertendo oὐ μὴ πίητε οἶνον (…) ἕως αἰῶνος (lit. não bebereis vinho mesmo (…) por toda eternidade). A dupla negativa (oὐ μὴ) representa a mais enfática forma de negação em grego é ainda seguida pela expressão ἕως αἰῶνος, que aqui descreve a máxima extensão possível de tempo. Em outras palavras, a proibição além de permanente era sem fim. O compromisso dos recabitas com a abstinência era tão intenso que entre ele nem mesmo obter sementes de uvas, ou iniciar plantação era permitivo (v.7cf. vv.8-10). Vale notar que “[t]odas essas [estipulações] eram fortes e permanentemente proibidas pelo uso da negativa לֹא (lo) (ao invés de אַל [al]) antes do verbo” (J.A. Thompson, Jeremiah, p.617). Apesar de Jeremias elogiar a postura dos Recabitas, é improvável que ele esteja com isso recomendando o tipo de vida que eles advogavam. John Bright coloca isso de modo brilhante (desculpe o tracadilho):

De qualquer modo, os Recabitas, dois séculos e meio depois de Jonadabe, ainda eram fiéis ao voto que fizeram. E por isso, Jeremias os elogia. Isso evidentemente não significa que Jeremias compartilhava com o sentimento deles em todos os sentidos, ou entendia que o modo de vida que levavam era um modelo a ser seguido por todos. Ele mesmo vivia em uma casa (ele passou a maior parte de sua vida em Jerusalém), presumivelmente bebeu vinho  (como Jesus o fez; até por que era uma bebida comum), e certamente comprou e possuiu um terreno (32.1-5).

Em outras palavras,

“Jeremias não intenciona manter o estilo de vida dos Recabitas como um modelo de vida para Israel. Ele também não conclama a nação à abstinência do vinho. Ele também não advoga um retorno a vida nômade. Ao contrário, ele apresenta um poderoso contraste entre um pequeno grupo de pessoas que se mantiveram com determinação os costumes estabelecidos séculos antes por um antecesor humano da nação de Judá, que parecia incapaz de ouvir e obedecer os mandamentos do Senhor dos Exércitos” (Keown, Scalise, Smothers, Jeremiah, vol.2, p 198).

b. Proibição Relacionada a Posição

(1) Sacerdócio: Em Levíticos 10:8-11 nós encontramos um texto interessante, no qual o próprio Deus fala diretamente com Arão, sem qualquer intervenção de Moisés: “Você e seus filhos não devem beber vinho nem outra bebida fermentada antes de entrar na Tenda do Encontro, senão vocês morrerão.” De acordo com o texto, Arão e seus filhos haviam sido proibidos por Deus de consumir vinho (יָיִן) ou qualquer outra bebida forte (שֵׁכָר): “Não bebereis vinho nem bebida forte” (v.9). Note que a proibição aqui é específica e imediata, como deixa evidente a construção sintática dessa frase em hebraico: יַ֣יִן וְשֵׁכָ֞ר אַל־תֵּ֣שְׁתְּ (lit. vinho e bebida forte não beberás). A opção do autor em usar a construção אַל + jussivo sugere que essa proibição dada por Deus era específica e não incondicional (cf. próximo parágrafo). Note também que tal proibição foi dada diretamente a Arão e seus filhos, e não a todo o Israel: אַתָּ֣ה וּבָנֶ֣יךָ (lit. tu e teus filhos), do mesmo modo que ela não se aplica a toda a vida de Arão e seus filhos, pois ela é também restritiva ao momento do serviço sacerdotal:  בְּבֹאֲכֶ֛ם אֶל־אֹ֥הֶל מוֹעֵ֖ד (lit. quando tu entrardes na tenda da congregação).

Entretanto, é importante notar que apesar de o autor usar אַל + jussivo, ele completa a sentença por dizer que aquela proibição era perpétua entre os descendentes de Arão: חֻקַּ֥ת עוֹלָ֖ם לְדֹרֹתֵיכֶֽם (lit. estatuto perpétuo para vossas gerações). Ou seja, embora o autor use אַל + jussivo, pelo contexto e pela abrangência da proibição nós esperaríamos a construção לֹא + imperfeito, assim como vemos em Ezequiel 44:21, onde o autor aplica esse texto ao serviço do sacerdote no templo: וְיַ֥יִן לֹֽא־יִשְׁתּ֖וּ (lit. vinho não beberás). A diferença entre as duas construções é visível na LXX, visto que o אַל + jussivo de Levíticos foi traduzido com οὐ (lit. não) ao passo que a construção לֹא + imperfeito traduzida como a dupla negativa οὐ μὴ (não mesmo), a mais enfática forma de negação do grego.  Devido a esse fato, Jacob Milgrom considera que o uso de  אַל + jussivo aqui inexplicável (Jacob Milgrom, Leviticus 1-16, p.611).

Um detalhe que é faz dessa proibição interessante, é  que os israelitas comumente ofereciam no altar vinho como oferta de libação juntamente com a oferta queimada e com a oferta de paz (Exodo 29:40; Levítico 23:13; Numeros 15:5, 6-7, 10; 28:14). Eles também ofereciam o dízimo do vinho aos sacerdotes e bebiam do vinho dizimado durante seus sacrifícios (Numeros 18:12; Deuteronômio 12:17; 14:23, 26). Contudo, o sacerdote, enquanto servindo na tenda da congregação, era privado de participar dessa prática (John W. Kleinig, Leviticus, p.227).

No que se refere ao motivo pelo qual essa proibição foi atribuída ao sacerdote nesse contexto, comentaristas contemporâneos e antigos divergem de opinião:

α. Contexto Anterior: A falta de relação específica, ou até mesmo clara, dessa proibição para os sacerdotes com o contexto anterior levou os antigos comentaristas judaicos a sugerirem que Nadabi e Abiú estivessem embriagados quando introduziram o fogo estranho no tabernáculo (Pesiq. Rab Kah 26:9; Midr. Lev. Rab 20:9). Alguns comentaristas contemporâneos ainda mantém essa posição (Nobuyoshi Kiuchi, Leviticus, p.182; (Wenham, Leviticus, p.158; R. Laird Harris, “Leviticus,” Expositor’s Bible Commentary (1990), Vol.2, p.567). Aliás, considerando que durante a história de Israel, a embriaguez de sacerdotes não foi apenas hipotética (Isaías 28:7), é bem possível que a restrição aqui aplicada tenham alguma ligação com a possível embriaguez de Nadabi e Abiú (Jacob Milgrom, Leviticus 1-16, p.612).

β. Contexto Histórico-Religioso: Por outro lado, é também possível que tal proibição seja resultado do costume de algumas nações de usar vinho, ou até mesmo outros tipos de substâncias inebriantes (ANET 3, 66; Enuma Elish 3.134-38), para habilitar o sacerdote a transcender o corpo e se unir à divindade num ato de transe como serviço religioso prestado ante a comunidade (Lloyd R. Bailey, Leviticus-Numbers, p.113). Se esse é o caso, então é também possível que  a ordem seja dada aqui como uma polêmica contra essas práticas, como uma forma de demonstrar a separação e a pureza de Israel em relação as outras nações.

γ. Contexto Posterior: Outra possibilidade é que a proibição do consumo do vinho ou de qualquer outra bebida fermentada esteja relacionada a função do sacerdote, que incluía a percepção ou identificação daquilo que era santo ou profano, puro ou impuro (v.10). A expressão hebraica usada pelo autor para descrever o serviço de identificar ou separar o que é puro e impuro, é o mesmo verbo usado para descrever a ação divina ao separar as trevas da luz na criação (בָּדַל; Gênesis 1:18). Vale lembrar também que os sacerdotes também foram ordenados a ensinar em Israel todos os estatutos dados por Deus por intermédio de Moisés (v.11). As duas exigências apresentadas aqui exigem plena habilidade das faculdades mentais por parte do sacerdote, e faltar com essas atividades é faltar com a responsabilidade que o serviço exige, afinal, é certo que um sacerdote sob a influência de bebidas fermentadas prejudicaria sua habilidade de realizar suas funções com precisão. Vale lembrar também que de acordo com Ezequiel 22:26, violar esses mandamentos é uma violência contra Deus (Mark Rooker, Leviticus, pp.161-2). É por isso que Hartley afirma:

“Enquanto ministrando ante a YHWH, os sacerdotes devem estar mentalmente aptos para que pudessem seguir todas as ordenanças de modo preciso. Eles precisariam estar alertas, caso contrário colocariam suas próprias vidas em perigo ao violar o sagrado. Eles também precisariam ter bom julgamento para instruir o povo adequadamente a respeito da aplicação da lei. Por isso, a proibição dada a eles exige que se abstenham de toda bebida fermentada, especialmente o vinho e outras bebidas fermentadas, quando ministrando no santuário.” (John E. Hartley, Leviticus, p.135)

Ou seja, seja qual for a razão da proibição, (1) seja a suposta embriaguez de Nadabi e Abiú, (2) seja a prática das nações pagãs de usar vinho ou outro tipo de entorpecente nas celebrações religiosas,  (3) uma exigência necessária para o tipo de serviço prestado pelo sacerdote, ou até mesmo um pouco de cada (4?), o que é certo é que tal proibição era direcionada apenas para o sacerdote durante o serviço na tenda da congregação. Tentar fazer desse texto uma regra para todo o povo de Israel é incorrer na violação das estipulações desse texto e na contradição de outros que deixam evidente o contrário (cf. Exodo 29:40Levítico 23:13Numeros 15:56-71018:1228:14Deuteronômio 12:1714:2326).

Vale lembrar também que além dessa clara restrição divina, o serviço do sacerdote enquanto na tenda da congregação era restrito por mais duas diretrizes específicas: (1) a vestimenta sacerdotal (Êxodo 28:43) e (2) o ato de limpeza ritual (Êxodo 30:20). Evidentemente, essas diretrizes divinas não eram exigências para todos os momentos da vida do sacerdote, afinal ele não era obrigado a passar pelo ritual de limpeza cerimonial para entrar em casa, ou fazer uso da vestimenta sacerdotal quando não estivesse a serviço na tenda da congregação. Da mesma forma, o vinho não lhe era proibido quando não estivesse ministrando na tenda da congregação. Sugerir que era necessário que o sacerdote em Israel vivesse em abstinência de tempo integral, além de violar o texto da escritura, implicaria em sugerir que ele também levasse uma vida de limpeza ritual enquanto vestido da estola sacerdotal.

(2) Rei: Em Provérbios 31:4 nós encontramos um interessante texto: “Não é dos reis, ó Lemuel, não é dos reis beber vinho, nem dos príncipes desejar bebida forte.” O texto hebraico por trás dessa sentença é repleto de dificuldades, e aqui mencionamos apenas algumas que são pertinentes ao nosso estudo. Em primeiro lugar, não se sabe quem é Lemuel, e muito provavelmente não teremos condições de saber com qualquer grau de certeza quem ele foi. [7] De acordo com o que o texto nos diz, Lemuel foi um rei, mas não sabemos exatamente nem quando nem onde. [8] Em segundo lugar, a sentença אַ֤ל לַֽמְלָכִ֨ים ׀ לְֽמוֹאֵ֗ל אַ֣ל לַֽמְלָכִ֣ים שְׁתוֹ־יָ֑יִן (litnão para reis, ó Lemuel, não para reis beber vinho) é deveras difícil de traduzir, visto que a construção da sentença hebraica aqui pode dar diferentes possibilidades para tradução:

α. Sentença sem verbo: Em primeiro lugar a sentença אַ֤ל לַֽמְלָכִ֨ים repetida duas vezes nesse verso não tem um verbo explícito. Na tentativa de entender qual verbo deveria ser usado aqui, comentadores e tradutores divergem.

א. Sem verbo: Em primeira análise, é possível que o verbo nessa sentença não era mesmo esperado e אַל estaria aqui modificando a construção preposicionada לַֽמְלָכִ֨ים (lit. para os reis). Williams surege que quando אַל modifica um substantivo prefixado com לְ o sentido do texto não é descrever uma proibição, mas uma descrição de responsabilidade. Nesse caso, a frase אַל לַמְלָכִים שְׁתִוֹ יָיִן (lit. não para reis beber vinhoProvérbios 31:4) nós não encontraríamos uma proibição do consumo do vinho, mais uma descrição de algo que seria impróprio para o rei realizar: “não convém aos reis beber vinho.” (Ronald J. Williams, Hebrew Syntaxp.146; cf. NVI).Entretanto, tal sugestão parece improvável: Em todo AT são encontradas outros dois versos com esse tipo de construção, e nenhum deles denota esse sentido.

ב. Verbo נָתַן (hb. nathan; dar):  Outra possibilidade é que o verbo implícito aqui é o verbo que frequentemente aparece no contexto do v.4. Por exemplo, no v.3 nós encontramos a seguinte construção paralela, אַל־תִּתֵּ֣ן (lit. não dê). Nessa construção, o advérbio אַ֤ל modifica o verbo נָתַן (dar) no imperfeito, uma construção atípica. Essa é a mesma construção esperada na segunda parte do verso, e faz desse conselho da mãe do rei uma ordem a ser atentamente considerada. No v.6 nós também encontramos o verbo נָתַן (dar) sendo utilizado de modo imperativo, o que sugere que a construção anterior também deva ser entendida como uma ordem. Agora, assumindo que נָתַן é o verbo que rege a passagem, é possível que o verbo esperado no v.4 é a forma imperfeita do verbo נָתַן (hb. nathan), vertendo então אַ֤ל [תִּתֵּ֣ן] לַֽמְלָכִ֨ים (lit. não dê aos reis). Essa é exatamente a tradução que encontramos no Vulgata para esse texto: noli regibus dare vinum (lit. não ao rei dai vinho). Entretanto, parece que tal tradução exige que o infinitivo שְׁתוֹ (beber) seja entendido de modo genitivo (não dê aos reis de beber), o que também parece improvável.

ג. Verbo היה: Por outro lado, não é incomum em hebraico que o verbo היה (ser) seja usado implícitamente. Nesse caso, o texto leria algo como אַ֤ל [תִּֽהְיֶ֥ה] לַֽמְלָכִ֨ים  (lit. não é dos reis). Essa construção é comum em hebraico e faz sentido com o contexto. Não exige muitas excessões sintáticas e parece que melhor explica o sentido expresso pela expressão. Essa é também a tradução mais comumente encontrada em nosso idioma.

β. Aspecto do verbo implícito: Uma vez que o verbo não é explícito no texto, existe também o problema em identificar o aspecto escolhido pelo autor para expressar sua ordem. Estaria o autor usando a estrutura sintática atípica do verso anterior, fazendo com que אַל modifique um verbo imperfeito (היה ou נָתַן ?), ou ele o faz do modo normal, usando um verbo jussivo (היה ou נָתַן ?) modificado pelo advérbio de negação אַל?  De fato, essa é uma questão difícil de ser respondida, mas parece mais prudente pelo contexto supor que o sentido expresso aqui segue a construção atípica do v.3, um imperativo negativo, visto que todos os verbos usados pela mãe de Lemuel aqui são imperativos (cf. v.6 תְּנוּ־שֵׁכָ֣ר [dê bebida fermentada], v.8 פְּתַח־פִּ֥יךָ [abra sua boca], v.9 פְּתַח־פִּ֥יךָ [abra sua boca]).

Em outras palavras, se a construção que estamos sugerindo aqui é de fato aquela intencionada pelo autor do texto, nós encontramos uma negação enfática (Bruce Waltke, Proverbs, Vol.2, p.504; cf. Koehler, Ludwig, Walter Baumgartner, M. E. J. Richardson, and Johann Jakob Stamm. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the OT, 1:48; Gesenius, Kautzsch, Cowley, Gesenius’ Hebrew Grammar, p.107). Esse é o caso que já mencionamos anteriormente: Eventualmente nos escritos poéticos, אַל é usado no lugar de לֹא, e expressa o sentido esperado desse tipo de construção. Nesse caso, devemos entender o ensino da mãe do rei, como uma ordem direta, tal como todas as outras que vemos no texto. Desse modo, aqui o autor implora que Lemuel persistentemente evite o vinho e a bebida fermentada (Michael Fox, Proverbs, Vol.2, p.886).

Mas, uma negação enfática nesse contexto, com características de uma proibição, implica em uma vida de abstinência do vinho e outras bebidas fermentadas? Dificilmente. A mesma construção de proibição é usada no v.3 אַל־תִּתֵּ֣ן לַנָּשִׁ֣ים חֵילֶ֑ךָ (lit. não dê às mulheres a sua força), mas ninguém esperaria encontrar aqui indicação do celibato. É digno de nota que a mãe de Lemuel não afirma que a proibição é irrestrita, mas aplicada apenas às mulheres que arruinam reis: לַֽמְח֥וֹת מְלָכִֽין (lit. aquelas que destroem reis). A expressão לַֽמְח֥וֹת aqui descreve ou a mulher que oferece intimidade sexual foral do casamento (Provérbios 2:16-19; 5:1-23; 6:20-35; 7:1-27; cf. 2Samuel 12:9-10) ou a um grande harém de concubinas (1 Reis 11:11; Ester 2:10; cf. Deuteronômio 17:17) (Bruce Waltke, Proverbs, Vol.2, p.507). Vale lembrar também que a sábia mãe que aponta as características da mulher que leva um rei à ruína é a mesma que descreve a mulher virtuosa pouco à frente (Provérbios 31:11-31; cf. Michael FoxProverbs, Vol.2, p.883), o que evidencia que a absoluta abstenção de relacionamento amoroso na vida do rei não era intencionada por sua mãe, mesmo quando a linguagem de proibição era deveras enfática.

Do mesmo modo que a restrição enfática do v.3a é qualificada pelo v.3b, a restrição enfática apresentada no v.4, é qualificada pelo v.5: פֶּן־יִ֭שְׁתֶּה וְיִשְׁכַּ֣ח מְחֻקָּ֑ק וִֽ֝ישַׁנֶּה דִּ֣ין כָּל־בְּנֵי־עֹֽנִי (lit. para que não bebam e se esqueçam do que foi decretado, e não pervertam o direito de todos os filhos da aflição). A descrição do esquecimento aqui aponta para um problema de inépcia não de memória. Normalmente no AT o termo שָׁכַח (hb. shakah, esquecer) descreve a atitude de Israel em voltar-se contra YHWH em rebeldia (Juízes 3:7; 1 Samuel 12:9; Isaías 51:13), e nesse contexto descreve o efeito da bebida naquele que a ela se dedica de modo exasperado: ‏יִשְׁתֶּה וְיִשְׁכַּ֣ח רִישׁ֑וֹ וַ֝עֲמָל֗וֹ לֹ֣א יִזְכָּר־עֽוֹד (v.8; lit. para que bebam e se esqueçam de sua pobreza, e da sua miséria não se lembrem mais). O esquecimento aqui descreve a corrupção das faculdades mentais do rei pelo poder inebriante do vinho em uso excessivo.

Ou seja, do mesmo modo que o problema do rei não são as mulheres, mas apenas aquelas que levam o rei à ruína, o vinho e a bebida fermentada não são os problemas do rei em si, mas a embriaguez que vinho e a bebida forte podem produzir. A razão para isso é que uma vez embriagados, os reis incorrem no risco de não exercerem sua função de modo justo e honesto, como vimos no exemplo do sacerdote. Um líder embriagado pode ignorar a legislação e perverter o direito dos necessitados. Aliás, esse tipo de alerta não era novidade no mundo antigo, pois o lendário sábio sumério Shuruppak também alerta o seu filho dizendo: “Quando você estiver bêbado, não julgue!” (Suhuppak 1.131). Nesse sentido, a intenção da mãe de Lemuel é alertar seu filho a manter a sobriedade, a fim de realizar o trabalho de estabelecer a justiça no reino (Duane A. Garrett, Proverbs, Ecclesiastes, Song of Songs, p.246).

Em outras palavras, o texto não fala da absoluta proibição do consumo do vinho, mas do consumo do vinho ao ponto da embriaguez (Bruce Waltke, Proverbs, Vol.2, p.507), de modo que a embriaguez é aqui apresentada como um inimigo da justiça real (Roland Murphy, Proverbs, p.241). Sem contar que a proibição do vinho na corte real seria desconhecida no mundo antigo (Allen P.  Ross, Proverbs, 244). Comentando esse verso, Longman diz:

O problema aqui é relacionado a habilidade do rei em tomar boas decisões se o mesmo estiver sob influência do álcool. Uma mente apta é fundamental para a pessoa sábia. A Bíblia como um todo de modo nenhum se opõe ao álcool, e ainda elogia o que pode ser considerado como uma leve embriaguez, mas desaprova veementemente o beber exageradamente. É muito importante para o rei saber o que ele está fazendo a medida que ele toma decisões, por que suas decisões tem importantes ramificações para muitas pessoas (Tremper Longman III, Proverbs, 539).

Como fica evidente, ainda que uma leitura mais conservadora pudesse ser imaginada nesse texto, afirmando que o rei deveria ser abstênio, o fato continua claro: essa proibição não seria aplicada a todo o povo. Por outro lado, fazer esse texto afirmar que todo o rei é obrigado a viver uma vida isenta de do vinho, além de violar o texto, implicaria em afirmar que todo rei deveria também ser celibatário.

3. O Conceito de Proibição do Vinho no AT

Como vimos, o vinho e outras bebidas fermentadas eram proibidas em conformidade com algumas situações ou posições. Nós também vimos que tais proibições eram enfáticas, em alguns casos permanentes e em outros sem fim, mas ainda assim não eram abrangentes para todos os israelitas. De acordo com a análise que fizemos,  a proibição do vinho e outras bebidas fermentadas para o povo de Deus no AT era ocasional e não aplicada a todos os israelitas. Diante das evidências que analizamos aqui, três princípios ficam claros:

(1) Voluntária: Em primeiro lugar a abstinência do vinho e bebidas fermentadas era voluntária, exceto no caso do sacerdote durante o serviço sagrado. Um homem ou mulher dentre os filhos de Israel poderia voluntariamente dedicar-se ao Senhor com um voto de abstinência. O profeta Daniel, por exemplo, em  função da situação em que se encontrava decidiu evitar o consumo de bebidas fermentadas: “Daniel, contudo, decidiu não se tornar impuro com a comida e com o vinho do rei, e pediu ao chefe dos oficiais permissão para se abster deles” (Daniel 1:8). Até onde sabemos, José não precisou tomar a mesma decisão quando colocado em situação similar. Então, por que razão Daniel deixaria de comer a comida do rei? Calvino a isso responde:

“Daniel se absteve em primeiro lugar, da luxúria da corte para evitar ser influenciado por ela. Não era ilegal nem para ele, nem para seus amigos se alimentar com qualquer tipo de dieta, mas Daniel percebeu as intenções do rei. Nós sabemos quanto a sedução nos engana prevalece, especialmente quando somos tratados graciosamente; a experiência também nos mostra quão difícil é ser moderado quando ao nosso redor tudo flui abundantemente, por que a luxúria imediatamente segue a abundância. Tal conduta é, de fato, tão comum, e a virtude da abstinência é raramente exercitada quando há abundância de provisão” (John Calvin. Commentary on the Book of the Prophet Daniel. Vol.1, p.97).

No caso de Daniel, o problema não era o vinho, era a contaminação. O problema de Daniel não era o vinho, mas aquele vinho naquele momento. Ao invés de juntar-se aos costumes irrefreados da corte, Daniel voluntariamente decidiu não contaminar-se com ela. Ele não era obrigado a fazer isso, e Calvino claramente atesta que atitude de abstinência de Daniel era um exercício de moderação, não de obediência. Daniel serve como excelente exemplo para a virtude da auto-disciplina, e exemplo para uma vida sem o consumo de bebidas fermentadas. O mesmo pode ser dito dos nazireus. Eles representam uma atitude dedicação e devoção a Deus, que no caso deles incluia a abstinência. Mas, em todo caso, a decisão deles era voluntária, não mandatoria.

(2) Temporal: Em segundo lugar, a abstinência do vinho era vista como temporal. No que se refere ao sacerdote, apenas durante o serviço sagrado no templo. No que se refere ao rei, apenas durante o exercício publico de sua função. No que se refere ao nazireu, apenas durante o voto. Em nenhum lugar no AT nós encontramos uma proibição do consumo do vinho e bebidas fermentadas de modo permanente e absoluta para todos os filhos de Israel. Nem mesmo aqueles que tinham tal proibição, não eram requeridos da abstinência absoluta. Calvino nos lembra que o “os sacerdotes, enquanto serviam seu turno, eram obrigados a se abster do vinho, mas eles tinham permissão dada pela Lei aos Levitas para beber vinho” (John Calvin, Commentaries on the Prophet Jeremiah and the Lamentations. Vol.4, p.306).

(3) Específica: Em terceiro lugar, a abstinência do vinho e das bebidas fermentadas acontecia em ocasiões específicas. Os recabitas o faziam para demonstrar sua distinção daquilo que acreditavam ser a descrição da perversão em Israel. Daniel se fez abstênio apenas durante os anos que passou como jovem na corte. Vale dizer também que a abstinência era obrigatória para algumas pessoas em situações específicas, como já demonstramos.

Mas não pense você que a abstinência era a única evidência de santidade, pois homens não abstênios de Israel também foram considerados homens santos. Abraão, por exemplo, em Gênesis 14:17-20 fez uma refeição com Melquizedeque, o rei de Salém, na qual vinho foi servido. Em Gênesis 27:28-25, Isaque faz uma refeição com Jacó (pensando que era Esaú), no qual o mesmo lhe oferece vinho, e ele bebe sem restrições. Ao terminar a refeição, Isaque ainda abençoou seu filho para que tivesse uma vida de vinho abundante. Ana, quando prepara Samuel para levar ao templo, encaminha para Eli um odre cheio de vinho (1 Samuel 1:24). É bom lembrar que até mesmo Daniel bebeu vinho em outras ocasiões (Daniel 10:3). Sobre Daniel, Calvino afirma:

“No começo deste livro, Daniel havia declarado se conter a comer pão, legumes e água ao invés de carne e vinho. Essa declaração não, de modo nenhum, contrária à presente passagem (…) O método de vida de Daniel era claramente parte da vida comum, no estilo de vida dos Caldeus, e de modo nenhum implica na rejeição do vinho ou da carne, ou qualquer outro tipo de comida. Quando ele diz que não comeu nada saboroso, ele descreveu um símbolo de tristeza e luto, bem como a abstinência da carne e do vinho” (John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Daniel, Vol.2, p.235-6).

Por fim, devemos afirmar aquilo que já deixamos claro nos artigos anteriores: A abstinência de vinho e bebidas fermentadas, tal como encontramos no AT, exigem que o consumo de vinho e outras bebidas fermentadas fosse comum em Israel, caso contrário não haveria qualquer dedicação especial ao Senhor em abster-se desses produtos. Aqueles que defendem que o AT exige a abstinência completa do povo de Deus do vinho e da bebida fermentada, o fazem a despeito do ensino das escrituras, defendem aquilo que a escritura não ensina e incorrem na deturpação das escrituras.

Com isso, afirmamos que: A abstinência bíblica é voluntária, temporal e específica. Caso alguém entenda que o tempo para tal abstinência se extende por toda vida, essa pessoa o faz de acordo com as escrituras, desde que não tente impor tal decisão voluntária e pessoal a outras pessoas. Qualquer legislação eclesiástica que obrigue todo cristão a se abster do vinho, testifica a invenção de uma lei não dada por Deus e com isso valoriza a tradição de homens a despeito da escritura. Entretanto, vale dizer que o mesmo não se aplica a instituições cristãs, que podem incluir na sua constituição elementos culturais, como a abstinência do vinho, desde que tal restrição não seja afirmada como suportada pela escritura.

Contudo, caro leitor, não suponha que somos contrários à abstinência do vinho. As escrituras são claras em se demonstrar a importância da abstinência e seu valor na santificação e devoção. No próximo artigo, por exemplo, nós vamos demonstrar que diversas vezes o AT também atesta o perigo do consumo do vinho. Como isso vamos balancear melhor as informações apresentadas aqui e demonstrar que a abstinência do vinho é uma atitude prudente e perspicaz. De acordo com nossa pesquisa, 24% das declarações do AT relacionadas ao vinho descrevem exemplos a serem evitados, exortações contrárias ao uso do vinho e comparações de caráter negativo. E se intencionamos ser bíblicos, precisamos avaliar essas informações.

Até a próxima!

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Notas

[1] O leitor fará bem se considerar mais detalhadamente os advérbios de negação aqui apresentados para informações mais específicas. Como referência, considere: Koehler, Ludwig, Walter Baumgartner, M. E. J. Richardson, and Johann Jakob Stamm. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the OT. Leiden; New York: E.J. Brill; Gesenius, Wilhelm, and Samuel Prideaux Tregelles. Gesenius’ Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2003. Brown, Francis, Samuel Rolles Driver, and Charles Augustus Briggs. Enhanced Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, 2000. Swanson, James. Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains : Hebrew (Old Testament). Oak Harbor: Logos Research Systems, Inc., 1997. Swanson, James. Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains: Aramaic (Old Testament). Oak Harbor: Logos Research Systems, Inc., 1997.

[2] A construção apresentada aqui é utilizada no AT cerca de 312, e é importante enfatizar que tal construção não implica no sentido exposto acima em todas as ocasiões. Em outras palavras, a construção אֵין + infinitivo pode ser usado para descrever uma situação, na qual o conceito de proibição é implícito, mas não que todas as ocasiões dessa construção deva ser entendida como uma negação de permissão.

[3] A construção לֹא + imperfeito é usada cerca de 3654 vezes em todo AT, e é importante enfatizar que tal construção pode indicar diferentes sentidos. Entretanto, é nesse tipo de construção que encontramos as proibições incondicionais. Uma rápida pesquisa no AT pode demonstrar a abrangência de usos dessa construção.

[4] A construção אַל + Jussivo é usada cerca de 1272 vezes em todo AT, e é importante enfatizar que tal construção nem sempre é usada com o sentido de proibição específica ou imediata.

[5] Como já vimos, as categorias sintáticas não são absolutas e é possível encontrar na literature hebraica do AT a sobreposição desses conceitos. Por isso, o leitor precisa estar ciente de que as construções aqui apresentadas sugerem um padrão geral, não uma regra. Considerando isso, o leitor poderá ser mais eficiente em sua pesquisa sobre o conceito de proibição em Hebraico. Também é importante notar que seria equivocado sugerir que todos os usos das construções acima indicam algum tipo de proibição. Uma rápida pesquisa demonstrará exatamente o oposto. O que estamos enfatizando aqui é que o conceito de proibição em hebraico segue o padrão sintático acima exposto, e não que as construções sintáticas analisadas sempre descrevem proibições. Também é importante reforçar que as construções sintáticas acima expostas, por não serem absolutas, são também modificadas pelo contexto no qual elas estão inseridas. Por isso, quando o leitor encontrar num texto de caráter proibitivo uma das categorias sintáticas apresentadas, ele deve avaliar contextualmente tanto a abrangência quanto a extensão de tal proibição.

[6] A partícula נָ֔א também é usada para descrever transições na narrativa, e é também utilizada com o sentido de “Agora.”

[7] Lemuel: O texto que o apresenta é certamente difícil de entender: “As palavras do rei Lemuel, rei de Massá.” Aqueles que lêem a versão Almeida e Corrigida dirão que ele foi rei de Massá (v.1), enquanto os que lêem a Vulgata dirão que não saber de onde vem tal informação (v.1). Os que lêem a LXX, nem Lemuel encontrarão no texto (v.1). A razão para tal discrepância entre as traduções se deve a dois motivos:

1. Má Tradução: A LXX equivocadamente traduz o termo לְמוּאֵ֣ל (Lemuel) como ὑπὸ θεοῦ (da parte de Deus), assumindo que o nome Lemuel é formado pela preposição ְל com a partícula enclítica מו (cf. Jó 27.27:14; 29:21) seguida de אֵל, um dos termos hebraicos usados para descrever a divindade. Dá sai a má tradução Οἱ ἐμοὶ λόγοι εἴρηνται ὑπὸ θεοῦ (Minhas palavras foram ditas da parte de Deus). Uma vez que Lemuel não é mencionado no v.1, ele também não é apresentado no v.4, o que faz da tradução da LXX nesse verso pouco assertiva. Por essas e outras razões, o leitor deveria tomar o texto da LXX aqui como secundário.

2. Ambiguidade: O termo hebraico מַ֝שָּׂ֗א (massa) poderia indicar tanto um lugar (Norte da Arábia?) como uma revelação profética. A Almeida e Corrigida tomou a expressão מֶ֑לֶךְ מַ֝שָּׂ֗א (hb. malak massa) como rei de Massa, assumindo que מֶ֑לֶךְ aqui modifica מַ֝שָּׂ֗א (Richard Cliffard, Proverbs, p.268-9; Roland Murphy, Proverbs, p.239). A suposição é que em algum lugar existiu um país desconhecido chamado Massa que fora governado por um desconhecido rei chamado Lemuel. (Crawford Toy, Proverbs, p.539) A Vulgata, por outro lado, entende que מֶ֑לֶךְ é usado como aqui como um substantivo absoluto (não construto), e por isso não modifica מַ֝שָּׂ֗א, mas está em aposição ao nome próprio לְמוּאֵ֣ל (Andrew E. Stainmann, Proverbs, p.616). Por isso, a Vulgata traduziu a expressão como: “verba Lamuhel regis” (Palavra de Lemuel, um rei). A tradução “Rei Lemuel” está provavelmente equivocada, visto que tal tradução exigiria לְמוּאֵ֣ל חַמֶ֑לֶךְ (lit. Lemuel, o rei), fato que não aconteceu aqui (cf. הַמֶּ֣לֶךְ דָּוִ֔ד = Rei Davi – Samuel 3.31; 5.3; 6.12, 16; 7.18; 8.8, 10; 9.15, et al; הַמֶּ֣לֶךְ שְׁלֹמֹ֔ה = Rei Salomão – Cantares 3:9, 11).

No que se refere a identidade de Lemuel, é possível ele fosse um prosélito que veio a juntar-se a nação de Israel, visto que seu nome é desconhecido entre os reis de Judá ou Israel (Bruce Waltke, Proverbs, Vol.2, p.503). Por outro lado, o nome Lemuel poderia ser um pseudônimo de um rei justo (Andrew E. Stainmann, Proverbs, p.615), e há quem diga que Lemuel é na verdade Salomão, ou até mesmo Agur, mas tal hipótese, como quase qualquer outra nesse caso, não pode ser demonstrada com suficiente grau de certeza.

[8] Diante de algumas incertezas que o texto apresenta, o que se sabe por certo, é que nesses versos estamos lidando com o único texto de sabedoria do AT escrito por uma mulher: אֲֽשֶׁר־יִסְּרַ֥תּוּ אִמּֽוֹ (lit. que lhe ensinou sua mãecf. Michael Fox, Proverbs, Vol.2, p.883). Seu filho, Lemuel, reconhece o conselho de sua mãe como revelação profética (hb. מַ֝שָּׂ֗אlat. visio, visão; gr. χρημᾰτισμός, declaração divina), algo digno de ser escutado. É verdade que a forma do texto em nada se parece com uma revelação profética, mas talvez a ênfase do termo recaia sobre sua importância e não sobre a forma do seu conteúdo.

3 comentários sobre “Era o vinho proibido no AT?

  1. Antonio

    Análise muito boa, trabalhada sobre uma exegese acurada. Do ponto de vista bíblico, perfeito.
    Agora, para entender a reserva e a atitude negativa da igreja contemporânea de base puritana contra o alcool, precisa de uma análise histórico-cultural-religiosa. Pois a base para esse posicionamento é mais cultural e tradicional-religioso que bíblico.

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