Você não precisa de um chamado missionário


livro-do-YagoO livro Você não precisa de um chamado missionárioé o primeiro livro de quatro livros da série  A Grande Comissão é maior do que você imagina a ser publicada pela BTBooks. É também o primeiro livro publicado por Yago Martins, professor e diretor da Academia de Formação em Missões Urbanas em Fortaleza, CE e co-apresentador do programa Dois Dedos de Teologia. Yago é um jovem apaixonado tanto pelas escrituras como pela Missio Dei e com esse livro nos brinda com uma importante contribuição para a reflexão evangelística da igreja brasileira.

Essa paixão bi-direcionada do Yago é visível e perceptível em toda a leitura do livro: Seu zelo pela verdade das escrituras o leva a pesquisar em diferentes tipos de literatura e chega a usar gramáticas gregas para demonstrar a importância e a validade das afirmações que faz em seu livro. Mas sua paixão pela Grande Comissão fica evidente nos relatos missionárias igualmente apaixonadas pela missão de Deus. Essa combinação de zelo acadêmico com amor pela missão faz desse livro ímpar entre tantos livros sobre a evangelização.

Como primeiro livro da série, Yago analisa apenas a primeira parte dos versos que comumente chamamos de Grande Comissão: “E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, Ide…” (Mat. 28.18-19a). Sua análise trata tanto do texto no seu ambiente original, como as possíveis questões levantadas pelo leitor durante o processo de clarificação do sentido do texto. Nessa resenha, vamos observar quatro características que fazem desse livro uma leitura obrigatória para todos os jovens que entendem que precisam se engajar na missão evangelística da igreja.

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Em primeiro lugar, Yago estabelece a Soberania de Cristo como ponto de partida para a ação missionária da igreja. Aliás, ele afirma que “a motivação primária e principal apresentada por Cristo para nos dar força (…) na obra missionária é Ele próprio e Sua soberania” (p.22). “A soberania que Jesus recebeu não é só o fundamento sobre o qual nossos pés estão firmado ao pregarmos o Evangelho, mas, mas é também o motivo pelo qual os homens devem honrar a Cristo” (p.54). Entretanto, Yago não faz da Soberania o único elemento da motivação cristã, pois acredita que “não há outro motivo que levara Paulo a se dedicar tanto à pregação do Evangelho e a amar tanto os perdidos, se não a glória de Deus” (p.60); Ou seja, “a nossa pregação é motivada pelo desejo de glorificar a Deus, através da conversão do seu povo. Qualquer outro motivo que assuma a preponderância em nossa tarefa, desvia o sentido da evangelização” (p.58). A isso, ele ainda adiciona: “baseados em quem Cristo é que nós teremos força duradoura para ir, e em mais nada. Motivados pelos atributos do nosso poderoso Rei que nosso exército caminhará para a batalha (…) Na Escritura, temos a revelação clara da pessoa de Jesus, temos o ensino daquilo que Deus intentou que fosse nossa força e razão para o evangelismo” (p.36). Em outras palavras, a Soberania de Cristo, Glória de Deus e o ensino das escrituras devem ser entendidas como fundamentos essenciais da ação missionária da igreja.

Com isso, Yago diverge (e corrige na minha opinião) da opinião popular de que as necessidades do campo e do homem sem Cristo servem como o motivo primário da ação missionária da igreja. Ainda que as questões sociais tenha o devido impacto na direção do ministério de muitos, não são essas questões que deveriam servir como motivo-base da ação missionária. Citando Timóteo Carriker, o autor afirma: “Enraizamos a razão da obra missionário não no ser humano, na sua carência de Deus, ou no seu amor para com aqueles que não tem Deus, mas a razão da obra missionária está firmemente enraizada na iniciativa e na misericórdia de Deus, isto é, na sua soberania” (p.61).

É válido notar que o autor não acredita apenas na soberania de Cristo como elemento primário da motivação cristã na tarefa evangelística, mas também defende que o cristão foi chamado para exercer a autoridade de Cristo na proclamação do evangelho (p.97). Para ele, “tudo o que fazemos com cristãos dever ter Cristo como fonte de autoridade. Ele é o Rei, o Salvador, o Filho de Deus, Aquele que sabe como agradar o Pai” (p.74). De acordo com o autor, “a Grande Comissão é uma afirmação da soberania mediatária de Cristo” (p.183). Nesse sentido, o autor sugere que a realização da Grande Comissão é parte do exercício da autoridade de Cristo no mundo opor meio de sua igreja, um conceito deveras esquecido na reflexão missionária dos nossos dias. Contudo, o autor vai ainda além ao afirmar que a autoridade de Cristo na Grande Comissão serve não apenas como motivo para a ação, mas também como a garantia final do sucesso missionário: “Todos aqueles que querem fazer missões têm uma santa confiaça naquele que salva o pecador. Deus salvará, sim, seus filhos. Estamos indo numa missão infalível. Motive-se” (p.104-5). “Nada é mais instigante para cristãos envolvidos com a pregação do evangelho do que saber que Cristo fará sua obra!” (p.106).

Em segundo lugar, Yago defende que uma boa teologia é a ferramenta fundamental para motivar o cristão a levar o evangelho. Ele acredita que teologia e missões precisam andar de mãos dadas sempre, e demonstra a importância de se conhecer as escrituras e do resultado prático dos seus ensinos na vida do cristão. De acordo com ele, “Nada pode acender fogo mais duradouro no coração do cristão do que a o Espírito Santo atuando através do conhecimento da Palavra” (p.44). O autor também recomenda que os cristãos “aprendam a meditar diariamente na mensagem do evangelho, pois ninguém se sentirá pessoalmente motivado a compartilhar aquilo que não compreende” (p.43).

Yago também apresenta importantes conceitos teológicos que fazem parte da reflexão missionária, como por exemplo os conceitos da glória ontológica e atributiva de Deus e defende que a Grande Comissão “é uma ordem para a glória atributiva tendo como motivo a glória ontológica de Cristo” (p.55). Ele também defende que o objetivo principal da pregação do evangelho “é a glória de Deus” (p.58), a centralidade de Cristo na mensagem do evangelho e afirma que nosso evangelismo “precisa ser cristocêntrico tanto na motivação quanto na mensagem pregada” (p.77-8). Com vasto apoio entre grandes teólogos reformados, o autor nos convida a valorizar a teologia do evangelho de acordo com as escrituras e nos apresenta exemplos inflamados da ação missionária na história da igreja.

Baseado em grande parte na teologia reformada, Yago também afirma que as doutrinas da graça motivam o cristão na prática evangelística: “É o próprio Senhor quem abre os corações dos infiéis para que atentem às palavras de salvação (At 16:14).” Sobre isso também afirma que “a Grande Comissão seria impossível sem a presença de Cristo, pois a tarefa é fazer discípulos, mas somente Ele pode mudar o coração humano.” (p.103). Tal percepção teológica tira do leitor o peso da responsabilidade de converter as pessoas, e se ocupar primariamente na tarefa de anunciar a Cristo. Falando sobre Paulo, o autor afirma que “o apóstolo era motivado a pregar por saber da existência dos eleitos” (p.104), e isso é, certamente, um grande incentivo teológico: “Se dependesse do nosso poder, força, ou capacidade, nenhum pecador seria salvo. Mas (exultem!) não depende do nosso poder, nem da nossa força, nem da nossa capacidade. Tudo, sim, tudo depende unicamente de Deus falando através da Escritura! Ele é o grande agente da obra missionária, não nós” (p.111). O autor também relembra que a ação missionária da igreja, apesar de motivada na autoridade de Cristo, é finalmente baseada no coração de Deus. Citando John Stott, ele afirma que “a missão surge do coração do próprio Deus e é transmitida de seu coração para o nosso. A missão é o alcance global de um povo global que pertence ao Deus global”, e depois completa “Deus não é só o dono da Missão; é também seu autor” (p.109); “O entendimento de que a obra de missões será concluída e que Deus está efetivamente levando sua palavra para as nações nos dá uma força sem igual para irmos por todo mundo, propagando o evangelho” (p.111).

Em terceiro lugar, Yago traz o texto original à reflexão missionária da igreja. Apesar de considerar que seu conhecimento no idioma é “parco e extremamente limitado” (p.190), ele aponta para o uso de  preposições no texto e as implicações práticas que pequenos detalhes podem sugerir (p.22). Ele não evita, como fazem alguns comentaristas, comentar a voz passiva do verbo dar no verso 17 (“me foi dada”) e a define como um passivo divino, denotando que a autoridade de Cristo é em última análise dependente da autoridade divina (p.71-2). Mas, a mais importante contribuição de Yago nesse ponto é a correção de uma má compreensão frequente relacionada a Grande Comissão: O ide significa ide mesmo – é uma ordem! Alguns pastores desavisados, como uma análise sumamente superficial do texto, acreditam que o particípio πορευθέντες usado no início do v.19 deveria ser entendido como um particípio modal e traduzido como: “Indo, façam discípulos.” Felizmente, o autor demonstra a invalidade desse argumento por demonstrar que a construção grega usada aqui é um particípio circunstancial antecedente, e funciona como “uma ordem dependente da ordem principal, que precisa ser obedecida como uma circunstância necessária para se obedecer aquilo que se deseja” (p.191). Yago demonstra a validade dessa construção grega em textos indisputáveis (cf. Mat.19:13; 18; 28:7; Lc.5:14) e acertadamente conclui: “só podemos concordar que neste texto Cristo não só nos ordena fazer discípulos e pregar o evangelho, mas também nos comissiona a ir como um meio para que essa missão seja concretizada” (p.192).

Por fim, Yago convida o leitor a participar na missão evangelística da igreja de forma corajosa e habitual: “Queremos segurança e garantias. Esperamos que Ele nos revele apoteoticamente que é o Seu plano para nossa existência. A verdade é que Ele espera que nos arrisquemos mais, pulando de corpo inteiro no fogo das possibilidade a fim de proclamar o Nome d’Ele por entre as nações” (p.173). De acordo com o autor, “Ser missional significa basicamente viver de modo que usemos todas as oportunidade que existem para cumprirmos nossa missão de propagar a salvação que há em Jesus” (p.208). De modo irônico, o autor nos estimula a pensar seriamente no nosso engajamento missionário: “o único lugar fora do céu onde você pode estar perfeitamente a salvo de todos os perigos missionários é o inferno” (p.178).

De acordo com Yago, o genuíno amor a Cristo e a verdadeira submissão a sua autoridade são suficientes para fazer de um cristão um missionário: “Se você conhece realmente o Deus que serve, você não cumprirá verdadeiramente o papel missionário: mostrar Deus para os que estão longe de Cristo” (p.47). É por isso que você não precisa de um chamado missionário, tudo o que você precisa é ser um cristão genuíno: “Se você é um cristão, você será testemunha de Cristo” (p.108). “Ame a glória de Cristo, e a glória de Cristo vai mover você ” (p.114). Afinal, “todo cristão é um missionário ou é um impostor” (p.142). E no que se refere a esse conceito, Yago não apenas apresenta o conceito, mas também demonstra que o mesmo faz parte de sua vida: “Confesso que participo de obras missionárias urbanas e já preguei o evangelho em alguns lugares do país, mas eu nunca senti um chamado para isto. Eu simplesmente fui. Entendi que pregar é uma ordem à qual eu precisava obedecer” (p.167).

Esse livro é uma excelente introdução a Grande Comissão e cumpre o papel que lhe foi proposto: Ele informa, motiva e inflama o jovem leitor a se engajar na ação missionária da igreja. Como o primeiro livro de uma série, também nos deixa curioso com o que mais precisamos sobre a nossa missão que ainda não foi apresentado até aqui. O fim abrupto do livro deixa um gostinho de quero mais e leva o leitor a esperar ansiosamente pelo próximo volume da série.

Depois de ter lido esse livro, digo que vale a pena lê-lo atentamente. Certamente o leitor será motivado a fazer da evangelização um estilo de vida, assim como o autor dessa resenha sentiu-se ao termina-lo. De leitura simples e encorajadora, esse livro tem condições de mudar sua vida. Vale a pena lê-lo!

Um comentário sobre “Você não precisa de um chamado missionário

  1. Gostei muito da análise e principalmente desse trecho: “Queremos segurança e garantias. Esperamos que Ele nos revele apoteoticamente que é o Seu plano para nossa existência. A verdade é que Ele espera que nos arrisquemos mais, pulando de corpo inteiro no fogo das possibilidade a fim de proclamar o Nome d’Ele por entre as nações” (p.173). A Deus toda glória.

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