Uma coisa eu sei…


ἓν οἶδα ὅτι οὐδὲν οἶδα*

No dia 26 de Junho de 2015, a Suprema Corte dos Estado Unidos aprovou o casamento de pessoas do mesmo sexo em todo o país, uma notícia que repercurtiu o mundo, como uma vitória de um povo sem reconhecimentos e sem os direitos que tanto almejavam. O próprio presidente do EUA, Barack Obama, twittou em tom comemorativo: “Love Wins” (O amor vence). Evidentemente, essa decisão não foi bem recebida pela comunidade cristã ao redor do mundo. Quase que imediatamente, pastores, teólogos, igrejas, seminários e muitos outros cristãos anonimos começaram a usar as mídias sociais para darem o seu parecer sobre o assunto.

À princípio, eu optei pelo silêncio; precisava pensar melhor antes de opiniar sobre o assunto. Confesso que a questão é por demais complexa para ser resolvida por um post no FB ou por um Twitter. Quando Cícero afirmou afirmou “ipse se nihil scire id unum sciat” (Ele pensa que sabe alguma coisa, mas não sabe de nada), imagino que o fez pensado na minha atual situação, afinal, não sei exatamente quais serão as consequências desse evento na liberdade religiosa na sociedade americana, ou até mesmo a influência que tal decisão terá sobre o meu pais. Mas uma coisa eu sei: Essa decisão não vai redefinir o conceito de casamento.

É evidente que do ponto de vista da cosmovisão cristã, o padrão para o casamento é encontrado em Gn.1 e 2: O criador criou homem e mulher para o relacionamento de intimidade e procriação. A partir do momento que o cristão entende que a escritura é prescritiva na definição da cosmovisão cristã, não existe muito espaço para negociar com o Criador o conceito de casamento.

Entretanto, do ponto de vista da teologia cristã, entre Gn 1 e 2 e a nossa sociedade hoje existe Gn 3, um capítulo completamente esquecido nos últimos dias. É por isso que eu digo:

O casamento não foi redefinido na Suprema Corte dos EUA, ele foi redefinido na queda.

Aliás, todas as relações humanas foram afetadas e redefinidas na queda: As relações fraternais foram redefinidas (Caim atacou seu irmão Abel e o matou – Gênesis 4:8); o casamento foi redefinido (Lameque tomou duas mulheres: uma chamava-se Ada e a outra, Zilá – Gênesis 4:19); as relações íntimas foram redefinidas (Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações com eles – Gênesis 19:5); o relacionamento entre pai e filha foi redefinido (Ontem à noite deitei-me com meu pai. Vamos dar-lhe vinho também esta noite, e você se deitará com ele – Gênesis 19:34); as relações entre irmãos foram redefinidas (Deite-se comigo, minha irmã – 2 Samuel 13:11); o relacionamento entre homens foi redefinido (os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros – Romanos 1:27), o relacionamento entre mulheres foi redefinido (Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza – Romanos 1:26); e assim por diante.

A queda não é um mero evento passado, é a descrição da destrutura sistêmica da humanidade. É a origem do desarranjo das relações humanas em todas as suas esferas. É o ponto de partida de todos os efeitos e defeitos da maldade, do dolo, da mentira. É onde encontramos o princípio da redefinição de tudo aquilo que o Criador definou como certo.

É por isso que Ele mesmo resolveu revelar-se ao povo que escolheu para que pudessem viver o que Ele sempre desejou para sua criação. Foi para o Seu povo que Ele prescreveu Lev.18-19; foi para a igreja em Roma que Ele escreveu Rom.1; foi para igreja em Éfeso que Ele escreveu Efésios 4; foi para a igreja em Corínto que Ele prescreveu 1 Coríntios 6-7. Nenhum desses textos era para ser entendido como uma prescrição social absoluta, como se a missão da igreja fosse impor esses valores na sociedade em que vivem. Esses versos descrevem os princípios que usamos para restaurar os conceitos redefinidos na queda. Esses versos falam em restauração, e não em imposição. Eles estabelecem a contra-cultura que os cristãos geram quando assumem a cosmovisão cristã. Eles representam nossa resposta àquilo que consideramos caótico nesse mundo. Em outras palavras, esses versos descrevem valores que foram prescritos para o povo de Deus, a comunidade cristã. São os cristãos os responsáveis por restaurar os padrões estabelecidos por Deus e por manter os mesmos na comunidade cristã, e não para impor tais valores na sociedade.

É por isso que eu acredito que somente em Cristo os relacionamentos afetados e redefinidos pela queda podem ser restaurados. Somente em Cristo o relacionamento entre irmãos, o casamento, as relações íntimas, o relacionamento de pai e filha, o relacionamento entre homens, o relacionamento entre mulheres podem ser o que deveriam ser. Somente em Cristo o padrão estabelecido na criação pelo Criador pode ser restaurado. Em outras palavras, para os cristãos, aqueles que foram verdadeiramente transformados pelo Cristo que os salvou, o casamento continua o mesmo: Uma monogamia heterosexual. Os cristãos continuam valorizando o padrão estabelecido na criação, e se esforçando para manter o casamento tal como ele deve ser. Não importa quais serão as próximas mudanças, seja a institucionalização da pedofilia, bestialidade ou até mesmo da idiotice… Para os cristãos o casamento continua inalterado.


* “Uma coisa eu sei, não sei de nada” – A famosa alusão ao paradoxo socrático de uma adaptação latina (“scio me nihil scire) retraduzida para o grego, que reflete uma afirmação do próprio Sócrates encontrada no livro Apologia 21d: “ὥσπερ οὖν οὐκ οἶδα, οὐδὲ οἴομαι” (Como não sei de nada, estou certo que não sei).

5 comentários sobre “Uma coisa eu sei…

  1. Pingback: Gays Felizes (sim, isto foi um trocadilho) | Espaço Supimpa

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  3. Paulo Brasil

    Finalmente um texto que considera a queda como a interrupção do casamento institucionalizado pelo Altíssimo. Com o resgate em Cristo Jesus.
    Que o Senhor seja louvado.

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