Halloween


Com invasão da cultura americana no Brasil, seja na música, no cinema ou até mesmo na fala (o backup que o diga), a festividade conhecida como Halloween tem gerado alguma polêmica entre os cristãos pelo fato de que tal festa sido incorporada em muitos lugares do nosso país. Por todos os lados na internet encontram-se artigos apontando para os riscos e perigos de tal festividade. É portanto comum que pessoas se perguntem: Como Cristão, posso ou não posso participar da festa de Halloween? Por receber essa pergunta algumas vezes, resolvi escrever esse artigo sobre o assunto.

No que se refere a participação de cristãos na festa do Halloween existem três diferentes respostas conhecidas:

(1) Rejeição [1]:Entre os cristãos existe quem acredite que a única resposta adequada à festa seja a rejeição. Essa opinião é bem conhecida entre os cristãos evangélicos conservadores e os argumentos populares são os mais conhecidos no submundo das redes sociais e blogs.

(2) Reflexão [2]: Por outro lado, existem cristãos evangélicos e conservadores que compreendem as diferentes questões relacionadas a festa e entendem que no fim das contas a decisão de participar ou não da festa depende da festa e do indivíduo. Em outras palavras, são cristãos que entendem que as escrituras em si não não prescritivas na proibição da participação dos cristãos na festa.

(3) Redenção [3]: Por fim, existem aqueles que acreditam que a festa possa ser redimida e utilizada com novo significado e propósito. Para esses, criação e participação na festa é uma forma contextualizada da missão Dei.

Considerando as diferentes respostas conhecidas entre os cristãos, nesse artigo pretendo apresentar os argumentos favoráveis as diferentes opiniões antes de apresentar minha própria opinião sobre o assunto. A intenção desse artigo não é ser exaustivo na apresentação de defensores de cada uma dessas opções, mas abrangente o suficiente para incluir defensores significativos a cada uma das opções apresentadas. Também pretendo levantar algumas reflexões culturais e teológicas que possam auxiliar o cristão na sua dupla relação com a verdade, tanto do ponto de vista da escritura como do ponto de vista a aplicação da mesma na cultura em que vive.

A proposta relativamente abrangente desse post certamente fará do mesmo maior do que deveria. Entretanto, convido os leitores a ler atentamente, considerando as diferentes opiniões sobre o assunto entre evangélicos conservadores antes de promulgar juízo divino contra o autor desse post. Vale a pena refletir teologicamente sobre elementos culturais dos nossos dias, e o assunto do Halloween talvez nos prestigie com essa possibilidade.

I. Rejeição

Grande parte da oposição popular ao Halloween encontrada nas mídias sociais, blogs e afins se dá por três motivos: (1) Origem pagã da festividade, (2) Transposição conceitual e (3) Percepção Cultural equivocada. Por exemplo, Jader Borges no artigo Halloween. Inofensiva Brincadeira Americana? relembra seus leitores das origens pagãs da festividade, afirma que as festas conhecidas hoje ainda carregam elementos conhecidos em sua origem, mesmo nas versões mais brandas da festa, e que por fim sugere que os cristãos deveriam evitar a qualquer custo qualquer tipo de participação ou promoção do Halloween. Para ele, o Halloween brinca com coisa séria, com o oculto e o Diabo, e os cristãos não podem participar desse tipo de atividade (Dt.18.9-14; 20.17,18; Is. 8.19). De modo similar Renato Vargens demonstra as origens pagãs do Halloween e conclui que o santo evangelho de cristo em nada tem a ver com o Halloween. Por entender que por trás da festa encontram-se pressupostos absolutamente demoníacos, Renato sugere que o cristão deixe de celebrar o dias das bruxas para se concentrar na Reforma Protestante.

A. Origem Pagã da Festa

No submundo dos blogs, incontáveis são os artigos que defendem a completa abstenção do cristão das festas do Halloween [4]. No que se refere a origem da festa, vários artigos afirmam que “a festividade de halloween tem suas raízes nos festivais de outono dos celtas.” Segundo tais artigos, os celtas acreditavam que os mortos podiam andar entre os vivos e que eram “idólatras animistas, pois adoravam a natureza e tinham o deus sol como divindade favorita.” De acordo com esses artigos, “o halloween está associado a esses rituais pagãos, reminiscências de superstições ocultistas.” Baseado no fato de que a origem de tal festividade é nociva, vários cristãos entendem que tal festa deve ser evitada a todo custo pelos cristãos.

B. Transposição Conceitual

Assumindo que essa é a origem da festa do Halloween, esses artigos sugerem que todas as festas do Halloween, incluindo aquela realizada na  Escola Santa Filomena em Codó no Maranhão, tem as mesmas características da festa em sua origem pagã. Essa é a transposição conceitual, que atribui a eventos contemporâneos conceitos ligados a suposta origem do mesmo. Um desses artigos, depois de dizer que a origem do Halloween está ligada a comunicação dos mortos, sugere que “pessoa que até mesmo por brincadeira se entrega a esses contatos” com mortos nas festas hoje. É como se a festa fosse uma armadilha Satânica para aprisionar crianças que participam da festa a determinados demônios que visitam a festa.

C. Percepção Cultural Equivocada

Um detalhe que parece ser esquecido na conversa sobre o Halloween nas mídias sociais e blogs é que tal festividade é parte da cultura norte americana. A festa do Halloween que nós conhecemos está muito mais próxima daquela realizada nos EUA do que aquela praticada entre os Celtas do século XVI. E é exatamente aqui que a percepção cultural equivocada faz diferença. De acordo com esses artigos, a única forma do Halloween disponível é aquela que invoca e mantém as tradições pagãs da festa. Contudo, o Halloween em grande parte é nada mais do que um feriado que tem todas as características do capitalismo, como o dia das mães, dos pais, dos namorados e outros. Os supermercados vendem abóboras e doces sem fim, as lojas infantis fantasias e os pais, escolas, igrejas compram tudo isso. Isso não quer dizer que não existam alternativas nocivas da festa, especialmente entre jovens e adolescentes, cujo foco é a sensualidade, embriaguez e uso de entorpecentes. Isso sem contar que existe um pequeno grupo que de fato invoca as tradições pagãs do passado [5]. Isso apenas demonstra que existe um tipo de celebração do Halloween na qual é possível participar com os filhos e aproveitar uma noite agradável de coleta de doces entre vizinho.

D. Reflexão Teológica

Agora, nem todos os argumentos contrários ao Halloween são articulados do modo como apresentamos acima. Na verdade existem artigos e reflexões teológicas sérias que apesar de rejeitar os argumentos mais populares apresentados acima, concordam com a conclusão apresentadas por eles. São vários os sites e artigos escritos por cristãos sérios que consideram atentamente o caso do Halloween do ponto de vista da perspectiva cristã. Por exemplo, David Bissett, um pastor reformado, puritano e líder na igreja Clifton Park Community Church,  no artigo Because Men Love Darkness: Culture’s Dangerous Infatuation with Halloweenapresenta o desenvolvimento histórico do Halloween, porém, diferente dos argumentos populares, Bissett claramente estabelece que existe grande diferença entre a origem da festividade e o estado atual da mesma. De acordo com Bissett a diferença se dá na degradação do estado original da festa nos nossos dias. A controvertida afirmação de Bissett é justificada por sua definição da origem da festa como uma festividade cristã. [Para um artigo em português sobre a origem cristão do Halloween, clique aqui]. 

Para defender sua tese, David Bissett nos lembra que a história do Halloween começa com a reconsagração do antigo Pantheon de Roma, que havia sido construído por Agripa, dedicado a Augusto, consagrado ao deus pagão Júpiter, mas posteriormente doada ao Papa Bonifácio IV pelo próprio Imperador Flavius Phocas no ano de 607 d.C. Meses mais tarde, depois de uma limpeza física e cerimonial, no dia 13 de Maio de 608 d.C. esse mesmo prédio foi dedicado a Maria e aos mártires da fé cristã. Nesse mesmo dia foi estabelecido a Festa de todos os Santos, um dia para relembrar os grandes cristãos dos passado. Aos poucos essa celebração em memória dos cristãos do passado se espalhou pelo Império até que finalmente foi estabelecida como uma prática cristã em 835 d.C.

Já no nono século, a data dessa comemoração foi mudada para o dia primeiro de Novembro por uma questão conveniência. Aliás, não havia nada errado em fazer tal alteração uma vez que a data original da celebração havia sido estabelecida na ocasião da consagração do Pantheon de Roma. A  Festa de todos os Santos era conhecida em inglês como All Hallows’ Mass [a expressão Hallow significa nada menos do que santo] e era celebrada no dia primeiro de Novembro de todos os anos. No dia 31 de Outubro, portanto, celebrava-se o All Hallow’s Eve, que acabou ficando conhecido como Halloween.

Contudo, nesse mesmo dia era celebrado o ano novo de acordo com a religião druida tanto na Inglaterra como na Irlanda, e muitas das práticas relacionadas a essa festividade pagã foram associadas à celebração cristão da Festa de  todos os Santos até ao ponto de que as relações pagãs desse dia tornaram-se o carro chefe do Halloween. É por isso que Bissett afirma “Halloween de hoje é o descendente dessas influências pagãs antigas que há muito tempo já abandonou os antigos elementos cristãos da tradição desse feriado, de modo que já não resta qualquer semelhança com as intenções originais do feriado de todos os santos” [All Saints Day] (Bissett, Because Men Love Darkness: Culture’s Dangerous Infatuation with Halloween. Puritan Reformed Journal Volume 1, no. 2 (2009)]: p. 242). Ele também sugere que algumas de suas práticas permanecem até hoje, como por exemplo a prática de usar fantasias, customizar abóboras e o costume de ir de porta em porta brincando de gostosuras ou travessuras.

Em outras palavras, Bissett demonstra a transformação do All Hallow’s Eve (o feriado cristão) no Halloween que nós conhecemos e demonstra como a influência pagã transformou a antiga celebração cristã numa festividade com características derivadas do paganismo. Todavia,  para Bissett não é isso que deveria levar o cristão a abster-se de tal festividade. Para ele, existem três elementos doutrinários no Halloween que são incompatíveis com a fé cristã:

(1) O Halloween promove uma visão de mundo equivocada: Bissett afirma que a visão de mundo que a festa do Halloween promove  desfigura a verdade das escrituras, pois valoriza a morte, fantasmas, distorce a imagem bíblica do Diabo de forma que as atividades realizadas durante a festa não promovem a missão de Cristo.

(2) O Halloween diminue a luz e a alegria do cristão: Bissett defende que não existe qualquer problema em se celebrar a mudança do verão para o outono, mas que o Halloween tira do cristão tal oportunidade ao valorizar fantasmas. Na verdade ele afirma que a fé do cristão em nada se beneficia da participação de tal festividade. Mas o pior efeito colateral do Halloween é que essa celebração ofusca a celebração da Reforma Protestante.

(3) O Halloween abre um precedente perigoso: Por fim, Bissett afirma que de modo inocente a festividade ensina que o comportamento inapropriado na hora certa é aceitável. Além disso, ele afirma que muitos daqueles que em idade adulta se voltaram para práticas ocultista encontraram sua motivação primeira na festa do Halloween.

Tomados juntos, esses são alguns dos argumentos comumente utilizados para afirmar que o cristão não pode participar da festa do Halloween. Segundo aqueles que acreditam que a rejeição é a única possível resposta para o Halloween, o foco do argumento encontra-se na demonstração dos perigos da festa bem como o estado depravado da festa nos dias de hoje. De acordo com eles, tanto os perigos como o estado depravado da festa nos dias atuais são inevitáveis. Portanto, eles defendem que a única alternativa viável para o cristão é a rejeição do Halloween.

II. Reflexão

Por outro lado, nem todos os cristãos concordam com essa opinião. Por exemplo, John MacArthur, um pastor reformado norte americano conhecido como fundamentalista, parece discordar de David Bissett. Para MacArthur o Halloween que nós conhecemos hoje tem sua origem na confusão entre os elementos cristãos do All Hallow’s Eve e as festividades pagãs, de modo similar àquele apresentado por Bissett. Por outro lado, ele acredita que a resposta do cristão ao Halloween não seja balizada pelos termos apresentados por Bissett. De acordo com MacArthur existem três princípios que o cristão deve ter em mente quando o assunto é Halloween:

(1) Em primeiro lugar, o cristão não deve responder ao Halloween como fazem os supersticiosos pagãos. De acordo com MacArthur, o cristão, por ser iluminado pelo conhecimento das escrituras, não acredita que os espíritos malignos estão mais ativos ou poderosos em um determinado dia. Ele também relembra que qualquer dia é um dia bom para Satanás andar ao redor procurando a quem possa devorar (1Pedro 5:8).

(2) Em segundo lugar, o cristão deve responder ao Halloween com sabedoria e cuidado. Ele defende que os cristãos devem usar de modo sábio suas posses e agirem de modo a proteger suas famílias. O jovem cristão deve evitar as festas seculares, e os pais devem supervisionar seus filhos, não permitindo que os mesmos tenha acesso a doces entregues por estranhos.

(3) Em terceiro lugar, o cristão deve responder ao Halloween com a compaixão do evangelho. Segundo MacArthur, o não cristão vive sua vida com medo da morte. Na verdade, não é apenas a morte que ele teme, mas o futuro juízo divino (Heb. 10:27). Ele também afirma que bruxas, fantasmas e espíritos malignos não são realmente assustadores. O que é realmente assustador é a manifestação da ira divina. Por isso, o cristão deveria aproveitar o Halloween, e tudo o que ele traz (como morte, superstição) como uma oportunidade de apresentar o evangelho.

Entretanto, diferente da impressão que esses argumentos parecem sugerir, MacArthur não afirma que a participação do cristão no Halloween é mandatória. Ao contrário, ele afirma que existem três modos cristãos de se engajar o Halloween: (a) Para alguns, a não participação é a melhor opção. Nesse caso, o evangelho seria apenas divido com aqueles que gostariam de mais informações sobre o evangelho; (b) Para outros, a participação em festas alternativas seria a melhor opção, pois nessas festas o Halloween é apresentado em sua versão mais light e permite a não cristãos e cristãos participarem juntos de uma noite agradável na qual o diálogo sobre o evangelho é sempre possível; (c) Por fim, MacArthur sugere que não existe nada necessariamente errado com doces, fantasias, gostosuras ou travessuras entre os vizinhos. Desde que as fantasias sejam inocentes e o comportamento seja aprovado por Cristo, a participação do cristão na brincadeira do gostosura e travessura pode favorecer a promoção do evangelho entre os vizinhos.

O que faz do MacArthur alguém de opinião moderada no que se refere ao Halloween é que ele termina seu artigo por dizer que a participação ou não do cristão na festa do Halloween é uma questão de consciência. Ele afirma que independente do nível de participação do cristão no Halloween, o cristão deve honrar a Deus mantendo sua separação do mundo e manifestando graça para aos perdidos.

De modo similar, John Piper, outro pastor reformado, afirma que existem basicamente três opções no que se refere a participar ou não do Halloween: (1) Não participação; (2) Participação e (3) Meio termo, que usa da ocasião para se vestir de personagens bíblicos e encenar histórias. É interessante notar que ele reconhece que em sua igreja existem pessoas nos diferentes lados da questão. Agora, no que se refere a sua preferência pessoal, Piper afirma não ter problema nem com a opção (3) ou com a opção (1), mas também não tem nada contra a opção (2). Ele mesmo cresceu participando da festa como criança e adolescente.

Na verdade, a preocupação primária de Piper não é relacionada a resposta do cristão ao Halloween, mas em como o cristão chega a essa resposta. Para ele, o importante é que “todo cristão pense bíblica e cuidadosamente a respeito de qualquer feriado, qualquer evento em como eles podem ser sal e luz nele.” A isso ele completa: “Se eles entendem que a participação pode ter algum valor para as crianças de algum modo, para ensiná-las, se a participação pode ser um modo inocente de aproveitar a graça de Deus e o aprendizado, que seja!” Piper está disposto a correr o risco de se associar com questões mundanas se a intenção é ser biblicamente fiel no seu testemunho.

Por fim, Piper afirma respeitar aqueles que optam pela total abstenção da festa bem como aqueles cristãos que se sentem livres para participar da mesma. No fim das contas, Piper responde ao Halloween do mesmo modo que MacArthur: Participar ou não da festa é uma questão de consciência, mas ambos pontuam a importância de se ser missional em sua participação.

III. Redenção

Por fim, é importante mencionar que existem cristãos que entendem que a festa do Halloween pode ser redimida e utilizada como uma forma de manifestação da graça de Deus. Jeff Vanderstelt, pastor reformado da igreja Doxa Church, líder do movimento Soma Family of Churches e membro do ministério Desiring God, acredita que o Halloween é um desses feriados que deveria ser aproveitado como oportunidade de se proclamar o evangelho. No video Open the Door to Halloween (abra as portas para o Halloween), ele argumenta a que realidade primeira da igreja é que ela deve ser responsável e ativa na proclamação do evangelho. Ainda que seja fácil para a comunidade se fechar em sua bolha social, ou que seja difícil distinguir entre a abstenção do mundanismo e a participação do ministério de Cristo no mundo, os cristãos devem ser ativos na proclamação da mensagem de Cristo com aqueles que ainda não o conhecem.

Para Vanderstelt, Halloween é um dos únicos momentos no ano no qual as pessoas batem na sua porta. Os cristãos deveriam estar prontos para abençoar seus vizinhos, fazer amigos e usar essa oportunidade como uma boa ocasião para ser sal e luz. Para ele o Halloween oferece mais uma oportunidade para o cristão engajar em conversas e criar oportunidade para levar o evangelho. Aliás essa opinião é também apresentada e defendida por David Mathis Jon Bloom também membros do ministério Desiring God.

Tendo consciencia dessa possibilidade, algumas igrejas resolvem fazer suas próprias celebrações do Halloween como uma oportunidade de alcançar a comunidade não cristã. Todos os anos nós participamos do Fall Fun Fest, uma versão mais light do Halloween promovida pela Northwest Bible Church, a igreja que frequentamos aqui em Dallas. Nessa festa a igreja abre as portas para a comunidade e recebe centenas de pessoas que são apresentadas a comunidade dos santos numa noite descontraída, alegre e que abre oportunidades para o diálogo sobre a vida em Cristo. Nossos filhos vão fantasiados, e via de regra, o Nathan escolhe um super-herói enquanto a Melissa veste-se como uma princesa.

Nos Estados Unidos são várias as igrejas que fazem esse tipo de evento, e nós já participamos na Prestonwood Baptist Church, que oferece um dos maiores eventos desse tipo que nós já vimos por aqui. São milhares de pessoas que na noite do Halloween participam de uma versão light da mesma, conhecem a comunidade da fé, a igreja e em ocasiões específicas escutam a respeito do evangelho de Cristo. O mesmo podemos dizer da celebração realizada pela Primeira Igreja Batista de Dallas que também aproveita da oportunidade para criar vínculos com a comunidade e levar o evangelho.

Isso é tão comum por aqui que até mesmo a igreja do Charles Swindoll, a Stonebriar Community Church promove uma festa desse tipo com o mesmo propósito. Aliás, aqui mesmo no Dallas Theological Seminary, nós sempre temos algum tipo de festa para a comunidade de estudantes no qual as crianças são convidadas a participarem com fantasias e pegarem doces com os professores e funcionários da escola. Nada de sombrio ou inapropriado existe nesse tipo de contexto, o que faz da celebração do Halloween um dia bem agradável.

É por isso que Ed Stetzer sugere que os cristãos participem das celebrações nos bairros em que vivem. Para ele o Halloween é uma oportunidade para conhecer novas pessoas e criar vínculos. Ele defende que a coisa mais missional que o cristão pode fazer no Halloween é comprar uns doces e fazer amizade com vizinhos que talvez ele não fosse conhecer em outra ocasião.

Em outras palavras, existem cristãos que entendem que o Halloween é um evento cultural, que apesar de ter influências do paganismo não é um evento impossível de ser redimido. Na verdade, eles acreditam que ele pode ser resignificado de tal modo que venha a ser usado como um veículo para manifestar a Glória de Deus. Nas mãos desses cristãos, a festividade que era anteriormente usada para fins inadequados, é agora adotada como uma ferramenta na expansão da influência do cristão em prol da propagação do evangelho de Cristo.

IV. Reflexão Teológica e Cultural

É por isso que a reflexão teológica e cultural é importante. Visto de longe e baseado em argumentos superficiais, muitos cristãos realmente acreditam que a abstenção do Halloween é a única alternativa para o cristão. Esse tipo de postura parece ignorar o fato de que existem pessoas que defendem a mesma fé, vivem tendo em vista os mesmos objetivos da fé, mas que entendem a questão de outra perspectiva.

A distinção entre eles não é tanto uma questão de compreensão do que as escrituras ensinam, mas de como aplicam em relação ao Halloween os princípios quem encontram nas escrituras. Outro aspecto dessa distinção se dá definição de critérios que permitam ao cristão avaliar a situação. É por isso que a partir desse ponto passo a ser mais específico ao apresentar minha opinião sobre o assunto para então apresentar alguns critérios que possam auxiliar o cristão em sua reflexão sobre o assunto. Antes, entretanto, pretendo responder algumas das afirmações daqueles que acreditam que a única opção viável para o cristão é a rejeição do Halloween.

A. Problemas nos Argumentos da Rejeição

1. A questão da origem pagã da festa: O argumento mais recorrente no que se refere ao Halloween é a suposta origem pagã da festa. Baseado nesse princípio muitos afirmam que o cristão deve abster-se de tal festividade. Entretanto, devemos questionar se tal princípio é razoável, pois são inúmeras as práticas da nossa cultura que tem raízes no paganismo e nem por isso são igualmente rejeitadas.

Considere por exemplo o seu aniversário ou o aniversário do seu casamento. Ao que parece, os cristãos primitivos não comemoravam nem um nem outro evento. Orígenes chega a afirmar que “não vemos nas Escrituras ninguém que haja celebrado uma festa ou celebrado um grande banquete no dia do seu nascimento. Somente os pecadores celebraram com grande regozijo o dia em que nasceram neste mundo” (Hom.Lev.8). O argumento parece infeliz, mas de acordo com as escrituras, Orígenes está correto: ninguém comemorou seu aniversário nas escrituras exceto Faraó e Herodes. Agostinho sugere que apenas palermas comemoram o próprio aniversário ou o de seus filhos (Aug., Serm. (NPNF) 34.2). Por outro lado, o canon 52 do Concílio Calcedônia afirma que a celebração de aniversários e casamentos era apenas proibida durante a quaresma (cf. The Seven Ecumenical Councils,  Vol. 14. A Select Library of the Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, Second Series. New York: Charles Scribner’s Sons, 1900, p. 156). Apesar da suposta origem pagã da celebração de aniversário, que tanto preocupou a igreja primitiva, anos mais tarde a mesma foi recebida sem qualquer problema apesar de ainda impor algumas restrições. Hoje, séculos mais tarde não encontra-se entre os cristãos alguém de razoável intelecto que proíba a celebração de um aniversário baseado na origem pagã de tal celebração.

Embora a origem da celebração de aniversários e aniversários de casamento tenham suas raízes no paganismo, nada do sentido original dessas festividade sobrevive nos dias de hoje. Quem é que associa a comemoração do seu aniversário com a decapitação de João Batista? O parabéns para você não tem denota nem embriaguez nem assassinato. Seria inapropriado condenar a comemoração do seu aniversário baseado na suposta origem pagã da festividade. Aliás, em ambas as festividades, entre os cristão é comum que se celebre a fidelidade de Deus na comemoração do aniversário. Os cristão não apenas celebram aniversários de seus amigos, bem como aniversários de casamento, como também usam tal celebração com um novo foco, celebrando a Graça de Deus.

Ao afirmar que o Halloween tem suas origens entre os celtas, druidas ou que a invocação dos mortos estavam incluídas na festividade no século XVI, esses artigos conseguem demonstrar que um cristão jamais poderia participar da festa se morasse na Espanha, Irlanda ou Inglaterra no sec. XVI. O critério utilizado aqui não se aplica a realidade que intentam os defensores da rejeição do Halloween. O que quero dizer com isso é que a validade ou não do Halloween seja definido pelas características que a mesma tem nos dias de hoje, não no que ela significou tantos anos atrás quando veio a existir, se é que tal suposição é verossímil.

Em outras palavras, condenar o Halloween da escola de inglês do seu bairro baseado no argumento da suposta origem pagã da festa é inadequado, a não ser que você possa demonstrar que os elementos pagãos existentes na suposta origem do Halloween estejam igualmente presentes na festa em questão. Agora, se você acredita que o argumento da origem é suficiente para rejeitar o Halloween, use esse critério de modo consistente e abstenha-se também de celebrar o seu próprio aniversário, ou o aniversário do seu casamento [boa sorte ao comunicar isso a sua esposa]. A inconsistência com que o argumento da origem é usado, sugere que tal critério não serve como crivo lógico para a definição da práxis cristã. Nesse caso, fica evidente que aqueles que usam de modo inconsistente tal argumento o fazem não pela validade do argumento, mas para validação das suas preferências, e por isso, o autor desse artigo prefere se abster desse tipo de argumento.

2. Sobre a Transposição Conceitual: O mesmo pode ser dito pelo argumento da transposição conceitual. Aqueles que defendem a origem do Halloween como uma festa pagã, normalmente atribuem os elementos pagãos conhecidos nas festividades do Hallloween em sua origem à todas as festas de Halloween conhecidas hoje. Entretanto, não tenho conhecimento de nenhuma escola de inglês que promova a festa do Halloween como oportunidade para se invocar os mortos com os alunos, da mesma forma que nunca participei de uma festa de aniversário no qual o aniversariante bêbado exige a decapitação de um profeta para agradar a dançarina. Ao mesmo tempo que seria tolo dizer que a festa do Halloween é isenta de qualquer maldade, me parece igualmente equivocado dizer que qualquer festividade relacionada ao Halloween é necessariamente satânica. Existe uma diferença muito grande entre uma cerimônia religiosa de invocação satânica e uma festa cujo objetivo é conseguir encher o baldinho de doces enquanto visita-se os vizinhos vestido de Buzz Lightyear.

Novamente, o problema do argumento da transposição conceitual é a inconsistência do mesmo com a verdade. Se a origem de uma celebração determinasse a ontologia do evento de modo que todas as subsequentes celebrações fossem necessariamente alinhadas com os motivos, princípios e valores da celebração original, as pessoas seriam santificadas todas as vezes que celebrassem o Natal, a Sexta-Feira Santa, a Páscoa e assim por diante. A origem sagrada da Páscoa não determina o sentido e significado da versão consumista e chocólatra que nossa sociedade conhece. Ninguém é abençoado secretamente na páscoa por celebrar uma festa de origem cristã. Entretanto, os defensores da transposição conceitual no caso do Halloween são ávidos em afirmar que isso acontece com essa festa. Não é por que na origem da festa as pessoas invocavam os mortos que o mesmo acontece hoje. O que quero dizer com isso é que a validade de determinada festa de Halloween deve ser avaliada pelas características que tal festa tem nos dias de hoje. Em outras palavras, não parece correto condenar o Halloween da escola de inglês da sua cidade baseado na transposição conceitual entre a origem da festa e a prática atual.

3. Um Mundo Estático: O princípio fundamental implícito na defesa popular da proibição da participação de cristãos no Halloween é a invariabilidade do mundo. Ou seja, os princípios uma vez definidos na origem de um evento serão mantidos sem qualquer alteração através da história onde quer que seja realizado. Infelizmente, esse universo paralelo não existe. Na verdade, o mundo muda, os símbolos mudam de sentido, as palavras mudam de sentido, até mesmo as festas mudam de sentido. Dessa forma, é importante perceber que a descrição da origem de um símbolo, de uma festa, palavra nada mais atesta do que sua origem. O sentido e o significado contemporâneo dos mesmos deve ser auferido pelo estado atual dos mesmos nos dias de hoje. Em outras palavras, o que quero dizer com isso é que a validade da festa do Halloween deve ser avaliada pelas características que a festa tem nos dias de hoje. Se uma determinada festa tivesse nascido em um convento como um ato de adoração, mas fosse usado hoje para a promover a violência contra a vida, dificilmente alguém tentaria defender tal violência baseada nos valores santos da festividade em origem. Do mesmo modo, parece imprudente condenar o Halloween baseado na suposta origem pagã da festa, ou na transposição conceitual em um mundo estático.

4. Um necessário adendo: Com as afirmações feitas acima, não tenho qualquer intenção de validar o Halloween. Na verdade, minha intenção é apenas demonstrar que os argumentos usados na defesa da abstenção do cristão na festa do Halloween são ruins. Existem boas razões para um cristão se abster de determinadas festas de Halloween, mas certamente não aconselharia a ninguém usar os argumentos acima listados. A defesa da verdade precisa ser consistente com a realidade do mesmo modo que a defesa da práxis cristã precisa ser consistente consigo mesma.

B. Paralelo Cultural

Um interessante paralelo cultural brasileiro para se refletir é a festa junina. Muito embora a origem da festa tenha suas raízes no catolicismo romano idólatra, a festa em si é um evento cultural que em muitos lugares do Brasil que não tem qualquer conotação religiosa. Eu mesmo comi muita paçoquinha, arroz doce, canjica e pé de moleque nas festas juninas das escolas que estudei e dos acampamentos evangélicos que visitei. Não me recordo de ter participado de uma festa junina essencialmente religiosa, ou que incluísse o catolicismo romano como parte da festa. Por outro lado, me lembro muito bem que meu amigo Marcos Zezé, nascido e criado no interior da Bahia, tinha uma visão muito diferente da minha sobre o assunto. Para ele era impossível separar o catolicismo da festa junina.

Em alguns casos, o Halloween será para muitos o que  a festa junina é para o Marcos, meu amigo. Para algumas pessoas será impossível separar o conceito da origem da festa com a prática recente da mesma. Para essas pessoas, seria um erro participar do Halloween. Por outro lado, outros cristãos não terão qualquer problema em participar do Halloween, do mesmo modo que não tem tem problema com a festa junina.

Agora, uma vez considerando a festa junina como paralelo cultural ao Halloween, acredito ser apropriado lembrar os três princípios que o Augustus Nicodemus oferece para cristãos avaliarem a festa junina, aqui aplicados à questão do Halloween:

(1) Lembre-se que existem limites (1Cor 10:19-23): De acordo com esse texto o cristão “não deveria ir ao templo pagão para estas festas e ali comer carne, pois isto configuraria culto e portanto, idolatria.” Considerando esse princípio, Nicodemus afirma que os cristãos hoje deveriam evitar festas juninas onde os valores e práticas idólatras da igreja católica estão presentes. Do mesmo modo, acredito que o cristão deveria se abster de participar de festas de Halloween onde os elementos pagãos, como invocação dos mortos, apreço a morte, ou até mesmo fortes elementos de mundanismo com sensualidade, embriaguez.

(2) Lembre-se do seu irmão (1Cor 10:27-31): Considerando esse texto, Nicodemus sugere que o cristão “poderia aceitar o convite de um amigo pagão e comer carne na casa dele, mesmo com o risco de que esta carne tivesse sido oferecida aos ídolos,” desde que tal participação não implique no escândalo dos irmãos mais fracos. Desse modo, ele também sugere que o cristão estaria livre para participar de uma celebração particular e com não cristãos comer comidas típicas da festa junina. De similar modo, acredito que o cristão pode participar de festas de Halloween, mesmo do evento de gostosuras e travessuras, com não cristãos desde que isso não escandalize o irmão mais fraco. Algumas festas de Halloween são desprovidas dos elementos pagãos e mundanos conhecidos da festa, e o cristão é convidado a refletir teológica e culturalmente sobre o assunto antes de decidir a respeito de sua participação ou abstenção do evento.

(3) Lembre-se da liberdade em Cristo (1Cor 10:25-26): Tendo em vista o ensinamento desses versos, Nicodemos afirma que Paulo permite que o cristão coma “de tudo que se vende no mercado sem perguntar nada. A exceção é causar escândalo.” Novamente, os limites apresentados por Paulo a respeito da participação de cristãos da vida pública da comunidade em que estavam inseridos está primariamente relacionada ao outro cristão, e a questões de consciência do cristão. Ao que parece, Paulo não entende que a legislação é a resposta para os problemas da igreja em relação à sua participação na vida da comunidade, mas o amor para com os outros irmãos e consciência para com as escrituras.

Em outras palavras, Nicodemus parece entender que a avaliação de questões culturais como a participação ou não de festas juninas (e do Halloween) de ser balizado pelos limites apresentados nas escrituras, no respeito aos nossos irmãos e na liberdade que temos em Cristo. Para ele, o critério primário para esse tipo de avaliação é o amor ao próximo. O zelo pela unidade da comunidade cristã e pela integridade dos nossos irmãos deve sobrepujar nossos interesses e preferências pessoais.

De modo prático isso significa que aqueles que não teriam problema com a participação em determinadas festas de Halloween teriam como opção a abstenção por amor aos seus irmãos. Do mesmo modo, aqueles que entendem que não devem participar de qualquer festividade teriam como opção a libertadora disposição de se alegrar com aqueles que entendem que podem participar. A mútua manifestação de amor pelo próximo e zelo pela unidade deveria ser uma disposição consciente independente do preferência individual.

C. Cristianismo Cultural

Entretanto, é evidente que os critério que auxiliam cristãos na decisão relacionada a participação ou não de uma determinada festa de Halloween não podem ser limitados apenas à comunidade da fé e aos irmãos em Cristo. Existem questões diretamente relacionadas ao evento em si que precisam ser considerados. A reflexão teológica aplicada a questões culturais também tem seu papel nesse assunto. Entretanto, a reflexão teológica brasileira tem crescido de modo desproporcional à sua reflexão cultural de tal forma que a sanidade e santidade teológica é apenas encontrada na rejeição de aspectos culturais.

O tipo de evangelho que recebemos no passado imprimiu no cristianismo brasileiro uma reação aversiva à cultura brasileira de tal modo que até hoje nas igrejas ritmos, músicas, pinturas e poemas de características tupiniquins sejam consideradas de segunda classe, senão inapropriados para o culto ou para a comunidade da fé. Nosso cristianismo tupiniquim ainda não aprendeu a lidar com as questões da nossa própria cultura, quanto mais a questões ligadas a culturas estranhas a nossa.

É por isso que o Halloween é um show de horrores quando o assunto é opinião evangélica. Ao que parece, reflexão e razoabilidade não fazem parte do diálogo. O fundamentalismo legalista nos ensinou a legislar contra o pecado, mas não nos ensinou a refletir a favor da graça. E com isso, as questões culturais estão dentro do pacote de proibições e não da reflexão. Aliás, para o cristianismo evangélico brasileiro, é mais fácil proibir que ensinar a refletir e avaliar. É por isso que a primeira e mais conhecida resposta ao Halloween é a completa abstenção da festa.

Mas seria impossível ser missional no Halloween? Seria impossível usar dessa oportunidade para fazer amigos e manifestar a graça divina entre pessoas perdidas nas trevas de sua própria pecaminosidade? Seria o Halloween um evento além da redenção? É evidente que o cristão deve ser missional a qualquer momento, mas minha pergunta aqui é: Por que não no Halloween? Por que não usar dessa oportunidade para criar vínculos com pessoas que você não veria em outra ocasião, como os pais dos amigos do seus filhos? Será que faremos do Halloween mais uma ocasião para o ostracismo evangélico? Espero que mais cristãos cresçam em sua consciência missional e estejam preparados para tornar-se tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns (1Cor. 9.22). Cristãos que fazem de tudo por causa do evangelho (v.23), inclusive fazer amigos entre os não cristãos intencionalmente, e com eles dividir o evangelho, mesmo que tal relacionamento passe a existir em uma festa não-evangélica como o Halloween.

V. Halloween: Afinal, Posso ou Não Posso?

Infelizmente não sou eu quem vou responder a essa pergunta por você. Eu não conheço a festa a que você foi convidado, nem sei que tipo de cristão você é. Não sei se você planeja ir na festa do Maternal da Escola Branca de Neve ou na Rave de 8 dias na fazenda deserta do tio do seu amigo Osvaldo. Mas, antes de encerrar esse post, gostaria de deixar algumas questões para você refletir a respeito:

1. Onde é a festa? Existe uma diferença brutal entre a escola de inglês e a Boate Sexy Appeal. Alguns lugares você simplesmente não frequenta, não importa se a festa é o Halloween ou o Natal. A questão não é necessariamente relacionada ao lugar, mas ao tipo de atividade, festividade ou celebração que se faz nesses lugares. Cristãos comprometidos com Cristo evitarão celebrações que enalteçam a sensualidade, embriaguez e outras atividades que entram em confronto com a práxis do evangelho.

2. Qual é o tipo da festa? Existe uma certa diferença entre o tipo de festa de Halloween da escola de inglês e a festa wicca de celebração das bruxas do passado. Em alguns casos a festa é apenas um evento cultural no qual a socialização é bem muito bem vinda. Em outros casos, o tipo da festa não será adequado. Cabe ao cristão usar discernimento para avaliar o tipo da festa para a qual foi convidado e avaliar a mesma a partir das escrituras.

3. Como sua comunidade cristã pensa sobre o assunto? Participar do Halloween em um local apropriado, em um tipo de festa apropriado poderia levar seu irmão a ficar escandalizado? Talvez o sacrifício nesse caso seja grande demais. Como já disse, a unidade do corpo de Cristo e a integridade dos nossos irmãos é mais importante que nossas preferências pessoais. Vale lembrar entretanto, que escândalo nas escrituras não é o susto santo; não é ficar decepcionado, chocado ou até mesmo horrorizado. O conceito de escândalo nas escrituras se refere ao ato de fazer alguém tropeçar (cair em pecado, Mat 5:2930), ou até mesmo abandonar a comunidade da fé (Mat 18.6; cf. 11:6; 13:21; 24:10; 26:24). Se participar de uma festa de Halloween pode levar um irmão mais fraco a abandonar a fé, faça um favor ao corpo de Cristo, não vá a essa festa!

4. Como você pode usar dessa oportunidade de modo missional? Ser missional é mais do que apenas levar o evangelho, é ser intencional em sua postura de representação de Cristo num mundo perdido. Se a festa que você foi convidado lhe permite a oportunidade de conhecer outras pessoas com quem você possa dividir o evangelho, não hesite participar. Aproveite todas as oportunidades que tiver para o evangelho.

Caso você consiga responder essas perguntas sem violar as escrituras e a própria consciência, acredito que você tem liberdade para participar da festa do Halloween em questão. Entretanto, deve ficar evidente que participar ou não de determinada festa do Halloween é uma questão de consciência, e a abstenção é uma opção viável. O que tentei demonstrar nesse artigo é que alguns dos argumentos usados para manter tal opção não são válidos. Em outras palavras, a reflexão teológica e cultural é, na minha opinião, a melhor opção no que se refere a decisão de participar ou não do Halloween. Mas no fim das contas a decisão é sua: Por isso seja prudente e honre a Cristo!

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Notas

[1] Nesse post, como de costume, apresento diferentes opiniões sobre o assunto antes de apresentar uma resposta mais direta a questão. No caso das objeções feitas ao Halloween, apresento  as objeções mais populares (comumente encontradas na internet) para então apresentar objeções melhor fundamentadas na cosmovisão cristã. A razão para tal divisão é mais didática que factual: A intenção é demonstrar que muito do que lemos nas objeções populares são argumentos infundados ou falaciosos, sem desmerecer aqueles que propriamente se posicionam sobre o assunto.

[2] No que se refere a opiniões mais moderadas sobre o assunto, cito exemplos apenas de cristãos acampados entre os conservadores. A razão para tal proposta é também didática: A intenção é demonstrar que mesmo entre os cristãos conservadores há espaço para diferença de opinião, e que o diálogo é mais saudável que a condenação injustificada daqueles que diferem da nossa opinião pessoal.

[3] No que se refere a opiniões mais favoráveis à participação de cristão nas festividades do Halloween, cito cristãos relevantes entre os evangélicos também conservadores. A razão para citar apenas conservadores aqui também é didática: A intenção é demonstrar que nem tudo que se conhece ou se propaga a respeito dessa celebração entre os evangélicos mais conservadores descreve aquilo que igrejas e cristãos também conservadores estão fazendo.

[4] Aqui apresento informações sem citar a fonte da referência por duas razões: (1) Não consegui identificar quem foi o primeiro a postar e promulgar tais informações a respeito do Halloween e (2) as informações aqui apresentadas refletem mais um disse que me disse da internet do que propriamente um artigo específico sobre o assunto. A natureza popular do argumento é também representada na natureza paupérrima do uso de fontes confiáveis de informação. Entretanto, segue aqui uma lista de sites visitados:

http://www.cacp.org.br/halloween-a-festa-das-bruxas/

Halloween – A festa das Bruxas e os Evangélicos

O cristão e o Halloween

http://www.evangelon.org/paginas/Palavra/Halloween.html

[5] Segundo o Pew Forum on Religion & Public Life, em uma pesquisa realizada em 2008, apenas 0.4% dos Americanos podem se consideram “New Age,” um grupo que inclui como subgrupo pessoas que se descrevem como pagãos, wiccan. [“U.S. Religious Landscape Survey 2008,” Pew Forum on Religion & Public Life, Page 12, IN: http://religions.pewforum.org/].

6 comentários sobre “Halloween

  1. Gedeão F. Alves

    Por isso prefiro malhar o judas para ganhar minhas balinhas. A quem prefira é claro e Cosme e Damião. Excelente artigo meu amigo. Recomendo.

  2. Gostei muito do artigo! Ele é claro e bem escrito. A reflexão, que cada cristão deve fazer diante das inúmeras possibilidades (rock in rio, carnaval, festas etc), deve conduzi-lo a pensar em sua igreja e em sua santidade, além das possíveis oportunidades de proclamação do evangelho – algo raro de se ver.
    Bem, entendo que o maior problema hoje é o mundanismo aflorado no meio cristão, que conduz ao liberalismo em todos os sentidos e que embaça o pensamento cristão . Estamos vivendo numa época difícil! A cultura tem conduzido as pessoas à sensualidade e à busca da felicidade sem fim. Sinceramente, na realidade brasileira, não sei se a liberdade ajuda ou atrapalha, pois, para tê-la, faz-se necessária a maturidade, que está escassa hoje.
    Por mais que tenhamos uma liberdade condicionada, na maioria dos casos, esse pretexto tem sido usado equivocadamente. Nos dizeres de Paulo “nao se enganem, as más conversações corrompem os bons costumes”. Ou seja, é mais fácil cair no pecado do que ficar de pé.
    Fora isso, está difícil encontrar igrejas com sólido fundamento. Entretanto, nessas igrejas, o conceito de liberdade já está inserido.
    É difícil encontrar um pastor que pergunte: quais foram os princípios que te motivaram a ir em x lugar? E mais difícil ainda um crente responder acertadamente.

    Creio que o objetivo de um pastor seja o amadurecimento do rebanho, mas,
    por causa dessa confusão gigantesca, creio que seja melhor trazer uma postura contra-cultural do que uma postura mais branda. De qualquer modo, ainda estou refletindo a esse respeito. Obrigado pelo artigo.

    1. Sabe Estevão,

      As vezes eu penso que a liberdade oferecida por Cristo é mal compreendida entre os cristãos não apenas do Brasil. Na primeira igreja apostólica de Corinto, Paulo dizia que a liberdade em Cristo não poderia ser usada de modo a fazer o irmão mais fraco abandonar a fé (1Cor.8:9). Para a igreja dos Gálatas, Paulo afirmou que os cristãos não deveriam voltar à escravidão de onde eles saíram, mas que deveriam aproveitar a liberdade de Cristo (Gal.5:1). Na mesma carta, Paulo exorta os cristãos a usarem sua liberdade para servir uns aos outros, ao invés de usar para dar ocasião à carnalidade (5:13). Pedro também fala que os cristãos devem viver a liberdade que receberam para serem servos do Senhor, e não como desculpa para fazer o mal (1Pe.2:16). A liberdade é parte da vida cristã, mas foi mal entendida mesmo nas igrejas apostólicas. Vale a pena lembrar que nas escrituras a liberdade está sempre associada a fidelidade: “Andarei em verdadeira liberdade, pois tenho buscado os teus preceitos (Salmos 119:45).

      A razão para a má compreensão da liberdade cristã talvez seja o fato de que Deus oferece sua Graça e Liberdade de modo integral, a ponto estar disposto a correr riscos. Quando Paulo ensina sobre a graça, ele afirma que onde havia pecado Deus fez a graça transbordar (Rom 5:20) com a intenção de fazer que a graça reinasse pela justiça para conceder vida eterna (v.21). E é interessante que Paulo imediatamente se pergunta: “Que diremos então? Continuaremos pecando para que a graça aumente?” (Rom.6:1) A resposta de Paulo não poderia ser mais enfática: μὴ γένοιτο (de modo nenhum). A liberdade que Cristo oferece é tão libertadora que alguns se esquecem que não podemos usá-la para dar ocasião a carne, a ofender o irmão, como desculpa para o mal, ou para a vida dissoluta.

      Mas, mesmo sabendo disso, os apóstolos não tentaram legislar o comportamento, mas ensinaram a comunidade da fé a refletir a partir da graça sobre as questões culturais que enfrentavam, como a relação do cristão com as comidas oferecias a ídolos no mercado (1Cor.10) ou a questão de preferência de calendário ou alimentação (Rom.14). Existe espaço na comunidade cristã para a diferença de opinião e eu acredito que a reflexão teológica alicerçada nas escrituras é o caminho a se seguir.

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

  3. Ivani Costi Montesano

    Louvado seja Deus pela sua vida e seu artigo tão esclarecedor. Sou sempre a favor de analisar muito bem a situação e não tomar medidas que podem nos afastar de pessoas que poderíamos levar a Cristo.

  4. Cara, seu artigo é realmente impressionante. Estou muito grato por tê-lo encontrado. Não só me ajudou muito como tem ajudado a outros a quem tenho indicado. Entendo que o evangelho é algo digno de um mergulho profundo, mas insistimos em nadar no raso. Quanto mais fundo vamos, melhor aprendemos a pensar, a dialogar, e a construir argumentos e práticas embasadas numa sólida hermenêutica bíblica. Não basta “embasamento bíblico” se não compreendemos o que de fato dizem as Escrituras. Isso sim é fazer teologia. Valeu mesmo ;)

  5. Pingback: Natal: uma festa pagã? | HEAD OF THE CHURCH

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