A Escravidão, a Escritura e a Hermenêutica


“Se essa fosse uma questão a ser determinada por minha simpatia pessoal, preferência ou sentimento, eu seria tão rápido quanto outros homens a condenar a instituição do trabalho escravo, por que todos os meus preceitos educacionais, hábitos e posição social estão em completa oposição a escravidão. Entretanto, como cristão, eu sou compelido a submeter meu intelecto fraco e pecador à autoridade do Todo Poderoso. Por que apenas assim posso estar seguro das minhas conclusões” – John Henry Hopkins

John Henry Hopkins (1792-1868) foi um bispo da primeira Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Irlandês de nascimento, esse imigrante entrou no ministério jovem e posteriormente acabou fazendo parte do polêmico posicionamento dos cristãos norte americanos em relação a instituição da escravidão. Em 1861 ele publicou o livro A Scriptural, Ecclesiastical, and Historical View of Slavery no qual defendeu que a escravatura era parte da organização da humanidade, fazia parte da igreja e (pasmem!) parte das recomendações das escrituras.

Para Hopkins, as escrituras como um todo defendiam o direito dos donos de escravos em ter escravos. Com exemplos de Gênesis a Apocalipse, Hopkins tentou demonstrar que para os cristãos não existia outra opção senão adotar a escravatura como parte da sociedade autorizada por Deus. Por exemplo, Hopkins afirma que Abraão teve escravos e não foi condenado por isso;  a lei previa o direito a se ter escravos e os judeus sempre tiveram escravos; Jesus nada disse sobre o assunto, e como um agitador social, jamais mencionou qualquer palavra que sugerisse que a instituição da escravatura fosse um defeito social; Paulo regulamenta a escravatura em suas cartas sem jamais sugerir que tal instituição deveria ser abolida. Hopkins também afirma que todas as pessoas são criadas por Deus, brancos e negros são descendentes de Noé, mas acredita que socialmente eles não são iguais, mas exercem funções diferentes: Deus estabeleceu essa distinção e a abençoou nas escrituras.  Aliás, depois de analisar as evidências da escritura em defesa da escravatura, Hopkins conclui:

“As evidências [das escrituras] terminam aqui, provando claramente que a instituição da escravatura não foi abolida pelo Evangelho.” – John Hopkins, A Scriptural, Ecclesiastical, and Historical View of Slavery, p.15

Pouco à frente, Hopkins lida com as questões sociais e a pressão da “mente moderna” em defesa do fim da instituição da escravatura, e novamente confronta seu leitor com as evidências claras das escrituras em defesa e regulamentação da escravidão. Tendo feito isso, ele ataca seus oponentes:

“Quem somos nós, para presumir em nossa sabedoria moderna que rejeitar a Palavra de Deus, zombar do exemplo do nosso Redentor, tratar com desrespeito a pregação e o ensino dos apóstolos e inventar para nós mesmos uma “lei superior” que aquela apresentada nas sagradas escrituras que nos foi dada como lâmpada para nossos pés e luz para o nosso caminho na escuridão de um mundo imundo e pecaminoso?” – John Hopkins, A Scriptural, Ecclesiastical, and Historical View of Slavery, p.16.

Para Hopkins (como para muitos cristãos desse período) a idéia de abolir a escravatura era uma forma de oposição da verdade revelada de Deus. Não é a escritura suficientemente clara ao dizer a escravatura é parte da própria fibra da sociedade? Não é a escritura suficientemente clara ao demonstrar que Deus não apenas abençoa como recomenda a escravatura? Para Hopkins a resposta a essas perguntas é um sonoro SIM; a autoridade e veracidade das escrituras eram suficientes para definir a questão: Se você quiser ser fiel ao Senhor, você tem que se submeter à autoridade de Deus revelada na escritura e apoiar a escravatura!

Hermenêutica Escravicionista

Caso não tenha ficado evidente, Hopkins se utiliza de alguns princípios teológicos e hermenêuticos muito claros em defesa de sua visão da escravatura:

  1. Inspiração das Escrituras: Frequentemente Hopkins faz alusão ao texto ou ao autor inspirado, de modo que fica evidente que ele acredita que a fonte última da escritura não é o autor humano, mas o próprio Deus. Por isso, ele sente-se à vontade para conclamar seus leitores às escrituras;
  2. Autoridade da Escritura: Para Hopkins, as escrituras são inspiradas por Deus, e portanto refletem a vontade final de Deus sobre os mais diferentes assuntos que intentou legislar, como no caso da escravatura; E como o direito a se ter escravos está presente nas narrativas e na lei do Antigo Testamento, e que não foi abolida pelo Senhor, mas sancionada em suas parábolas, bem como pelos apóstolos que o sucederam, Hopkins conclui que a autoridade das escrituras é final no assunto;
  3. Veracidade da Escritura: A partir do fato que as escrituras se originam no próprio Deus, Hopkins defende que os ensinos apresentados nas escrituras são verdadeiros por que refletem a vontade e o caráter do próprio Deus. Portanto, seja Deus verdadeiro e falso todos aqueles que se opõe ao claro ensino das escrituras;
  4. A Visão do Todo: De Gênesis a Apocalipse Deus manifesta sua aprovação à instituição da escravatura: Foi Noé quem estabeleceu a escravatura com aprovação divina (Gen 9:25-27); Abraão teve muitos escravos (Gen 14:14), comprou outros (Gen 17:12) e teve escravas (Gen 16:9); Os Dez Mandamentos incluem os escravos como evidência suprema da sanção divina da escravatura e da manifestação de sua lei moral (Exo 20:17); A sabedoria divina é também manifesta na legislação de Israel que em diversas ocasiões legisla favoravelmente à escravatura (Exo 21:2-4; 5-6); O próprio tratamento punitivo dos escravos foi abençoado por Deus (Exo 21:20-21, 26-27), que deveriam ser considerados como propriedade (Lev 25:10). Digno de nota é que os profetas nunca acusaram Israel de erro ao manterem sua postura escravatura; dentre os inúmeros pecados cometidos pela nação de Israel, em nenhuma ocasião, a escravatura foi mencionada entre eles. Em outras palavras, do ponto de vista dos profetas, a escravatura não era um pecado, nem mesmo um problema social. Aliás, o próprio Cristo nada falou sobre o assunto, apesar de em sua região a escravatura ser normativa. Entretanto, sabemos que Ele veio para cumprir a Lei e os profetas, e portanto, ele aprovou a escravatura prevista na legislação de Israel. Isso fica evidente nas parábolas que conta. Esse era o mesmo sentimento dos apóstolos e dos judeus convertidos ao cristianismo (Atos 21:20); Digno de nota os preceitos e a própria conduta de Paulo sobre o assunto, que em diversas vezes sanciona o direito dos cristãos em ter escravos e os ensina sobre como deve tratá-los (Col 3:22; 4:1; Efe 6:5-9; 1Tim 6:1-8). Pedro ainda sugere que o escravo aceite ser fustigado por Seu senhor, por que é isso que ele aprende de Cristo (1 Ped 2:18-21). Ora, se a escritura como um todo nada diz contra a escravatura, e ainda, repetidas vezes a sanciona e abençoa, que direito tem os abolicionistas em rejeitar a autoridade e veracidade de Deus claramente expressa nas inspiradas escrituras? Aqueles que negam essa verdade expressa por toda escritura, rejeitam tanto a escritura, como o Deus que a inspirou;
  5. Literalidade: Todos os textos analisados são interpretados de modo literal, e como um todo, a escritura inspirada demonstra literalmente que a escravatura era abençoada por Deus, seja na lei de Israel ou no ensino dos apóstolos;
  6. Prioridade da Escritura aos Ideais Contemporâneos: Não se pode comparar a excelsitude e veracidade da escritura com o frívolo raciocínio dos homens caídos; as inovações dos homens podem parecer inteligentes e até mesmo elegantes, mas não superam a sabedoria do Criador de todas as coisas; Há um grande mal que assola a igreja e a aflige: A comunidade cristã prefere a mentira dos homens do que a verdade de Deus.

É por isso que Hopkins, e tantos outros, poderiam dizer de consciência tranquila que sua defesa da escravatura era autorizada pela escritura. E talvez, Hopkins não consiga mais convencer os cristãos dos nossos dias a voltar ao que ele considerava como ideal divino, a escravatura, mas espero seriamente que meus leitores entendam que o tipo de argumentação que ele usa é extremamente perigosa. Em outros assuntos, são esses os mesmos princípios hermenêuticos e teológicos que muitos usam para defender suas teorias sobre governo, política, ministério, casamento e tantos outros assuntos.

Hermenêutica [In]Consistente

O grande perigo desse tipo de hermenêutica está na sua valorização do texto da escritura: O argumento todo é construído sobre a percepção da inspiração, autoridade, veracidade e da mensagem do todo da escritura. O cuidado em apresentar textos que favoreçam suas conclusões demonstra que eles tem a escritura em alta honra, mas mesmo usando-a desse modo, eles defendem algo que as escrituras não defende.  Fazendo isso, ele fazem com que o texto da escritura seja sobreposto à sua mensagem; a letra ao espírito; as palavras ao princípio. Essa super valorização da interpretação literalista da escritura em detrimento de sua mensagem, é onde reside o grande perigo dessa proposta hermenêutica. Ela soa tão ortodoxa que é capaz de convencer cristãos apaixonados pelas escritura a defenderem conclusões teológicas em afronta à própria escritura. Mas, fora esse grande perigo, existem ainda alguns problemas sérios nessa proposta hermenêutica:

O primeiro problema da hermenêutica escravicionista é a incapacidade em se distinguir entre aquilo que é descrito pela escritura, e aquilo que é prescrito por ela. Sem dúvida todos os textos citados por eles se encontram nas escrituras, entretanto, em nenhum momento se considerou a possibilidade de que tais textos não fossem prescritivos para a comunidade cristã. É fato que as escrituras falam sobre pessoas que tem escravos, e as ensina a tratá-las de modo adequado, mas isso não significa que Deus tenha a escravatura como modelo social atemporal, ou como uma necessidade social para diferentes eras. Não é por que as escrituras contam as histórias de fracasso dos nossos heróis (cf. Abraão, Davi, Moisés, et al) que nós somos convidados a falhar com eles. Descrever não é prescrever.

O segundo problema grande da hermenêutica escravicionista encontra-se no fato de que eles equipararam suas conclusões teológicas com a verdade de Deus. Para eles, quem se opõe às suas conclusões teológicas, objeta ao próprio Senhor. Por não entenderem a distância entre a verdade do texto da escritura e a sua interpretação da mesma, esses cristãos “conservadores” atribuem ao Senhor sua opiniões sobre as ela, de tal modo que aqueles que divergem de suas interpretações ou de suas conclusões, na verdade discordam de Deus, violam a escritura e negam a inerrância. Para eles, ser abolicionista é negar a inspiração.

O terceiro problema da hermenêutica escravicionista está no fato de que eles acreditam que a revelação divina aconteceu no vácuo. Não existe contexto histórico, não existem razões sociais, não existem diferentes dimensões no texto da escritura. Para eles, a escritura é um livro texto para ser sistematizado de acordo com suas próprias doutrinas [mesmo quando o fazem de modo piedoso]. E eles isso fazem, utilizando uma percepção supra-cultural da escritura, utilizando inúmeros textos prova que demonstrem a validade de suas idéias: “Como alguém poderia, com as escrituras na mão, dizer que Deus não aprova a instituição do trabalho escravo, quando as escrituras demonstram que Deus a aprova?” Sem qualquer atenção ao contexto histórico, esses textos foram agrupados para defender o que a escritura jamais prescreveu.

O quarto problema da hermenêutica escravicionista está no fato de que eles entendem a escritura de modo estático. Não apenas a escritura não tem profundidade cultural, como ela mesma é incapaz de adaptar-se a diferentes culturas. A mensagem da escritura pode apenas ser fielmente representada se for lida e reproduzida literalmente, sem qualquer preocupação com os elementos culturais presentes no texto. A escritura é simples e só será lida de modo apropriado se sua transposição conceitual do passado para o presente for realizada sem qualquer reflexão cultural, seja dos elementos contidos no texto, ou no contexto onde se aplica seus ensinos. A única reflexão possível é a teológica, do ponto de vista da sistemática, que organiza textos provas como evidência de uma teologia bíblica em defesa da escravidão. Esse princípio hermenêutico é nocivo para a teologia cristã. Larry Morrison, após investigar uma série de artigos de jornal do período das controvérsias escravicionistas, demonstra exatamente isso:

Defensores da escravatura explicitamente argumentaram que uma vez que Deus reconheceu a escravatura na Sagrada Escritura, então, por definição, a ela não poderia ser imoral. O apelo sempre foi a leitura literal das Escrituras e a autoridade da Bíblia; o objetivo era sempre a descobrir sanções para a escravidão e, assim, justificar a sua própria prática e instituição da escravidão. Tais argumentos não eram uma aberração; eles eram consistentes com os pontos de vista de uma sociedade que foi convencida por experiência pessoal e necessidade psicológica da legitimidade da escravatura. A defesa bíblica da escravatura foi, assim, uma conseqüência natural dos valores dessa sociedade. – Larry Morrison, Religious Defense of American Slavery Before 1830, p.29.

Em outras palavras, ao ignorar os elementos culturais da própria escritura, eles defenderam os valores tradicionais de sua própria cultura usando as escrituras por meio de textos prova. A falta de reflexão cultural, seja aquela presente no texto, ou aquela presente onde se pretende aplicar o texto da escritura, foi nocivo tanto para a interpretação do texto, como para sua aplicação e os resultados de tal exercício extremamente vergonhoso para a comunidade cristã.

O quinto problema da hermenêutica escravicionista é sua crença no mito da visão do todo. A não ser que o proponente de fato conheça intimamente o todo das escrituras em todas as suas partes, ou trate-se de um assunto restrito a pouquíssimos versos, a idéia de que se conhece o todo da escritura sobre determinado assunto é normalmente equivocada. Ao afirmarem possuir uma clara visão do todo, os escravicionistas queriam dizer que sua teologia continha versos das escrituras de capa-a-capa. De modo similar, alguns usavam a expressão “visão do todo da escritura,” quando na verdade queriam apenas descrever suas conclusões teológicas: “Diante do todo da escritura que eu conheço, organizei e signifiquei.” Argumentar desse ponto de vista é perigoso para a aplicação das escrituras no nosso contexto.  Fazer teologia é mais do que citar versos prova, mas é pensar com as escrituras nas mãos.

Questões para Reflexão

Defender a necessidade de uma hermenêutica consistente é bem mais fácil do que ser consiste com sua hermenêutica. Interpretar as escrituras é uma arte e uma ciência que exige prática, pois como toda habilidade, se desenvolve com tempo, persistência, dedicação e muitos equívocos no processo. Por isso, minha intenção com esse texto é provocar meus leitores à reflexão dos valores hermenêuticos que utilizam ao interpretarem as escrituras, especialmente em função de que o método hermenêutico usado pelos escravicionistas é muito parecido com aquele usado por outros conservadores dos nossos dias. Ou seja, lembre-se que:

  1. Nem todo argumento que nasce de uma visão correta da escritura é correto: Defender a inspiração, autoridade e veracidade das escrituras não é garantia de que a interpretação dos textos da escritura será fiel ao texto ou mensagem da mesma. Não se define a veracidade hermenêutica pelas preferências teológicas do autor. É por isso que que nem todo argumento que nasce de uma visão incorreta da escritura é incorreto. A validade de um argumento é dependente da sua consistência com a mensagem das escrituras.
  2. Nem todo argumento dependente de uma interpretação literalista defende o texto da escritura: Ser literalista na interpretação não é garantia de representação do texto da escritura. Aliás, nem mesmo a famosa interpretação normal (que valoriza os diferentes gêneros da escritura) garante que a interpretação correta do texto. A bem da verdade, um leitura exclusivamente literalista tende a ser normativa onde a escritura é descritiva. O grande perigo do literalismo é ignorar as dimensões culturais do texto da escritura, especialmente em questões sociais controvertidas.
  3. Nem todo argumento construído com vasto uso das escrituras é correto: Todo aquele que faz teologia, usa em algum nível o conceito de harmonização. Todos nós, sem exceção, vamos agrupar textos para apresentar determinado conceito teológico como válido. Entretanto, o exercício em si não é garantia da veracidade. Se nós acreditamos que a escritura é de fato inspirada, a verdade nela pode estar presente em apenas um verso, e ela continuará a ser verdadeira. Não é “mais” verdadeira a construção teológica que faz uso vários versos em oposição a outra que tenha um número menor de versos. O que é verdade, é verdade, não importa quantas vezes ela seja mencionada nas escrituras. Teologia não é feita nos moldes da democracia, não se faz teologia com voto da maioria. Teologia não é matemática, não se faz com proporção. Teologia se faz com diligência e com cuidado, para não impor ao texto nossas preferências pessoais.
  4. Nem todo argumento resultado de uma visão apaixonada pela escritura defende a escritura: Se existia um grupo apaixonado pelas escrituras, ortodoxos, conservadores, que valorizavam a autoridade da escritura e estavam prontos a se sujeitar aos seus ensinos, não importa quão impopulares eles seriam em suas próprias culturas, esses eram os escravicionistas. Entretanto, ainda assim eles estavam equivocados. O apreço do teólogo a escritura não é garantia de uma interpretação adequada da escritura. Mesmo os bons teólogos erram.
  5. Nem todo argumento que nasce da rejeição da “modernidade” dos ensinos contemporâneos é de fato bíblica: Rejeitar os ensinos da sociedade dos nossos dias não é a mesma coisa que ensinar as escrituras. Os escravicionistas rejeitam a “invenção” social dos abolicionistas, mas defendiam os elementos culturais descritos na escritura ao invés de defender sua mensagem.

Conclusão

Diferente de vários dos meus artigos, resolvi deixar meu leitor em suspenso sem anunciar no início do post quais eram minhas intenções com esse artigo. Mas, tendo provocado sua curiosidade e reflexão gostaria de deixar evidente quais são minhas intenções com esse post:

Em primeiro lugar, devo dizer que escolhi o tema da escravidão para tentar demonstrar como uma proposta hermenêutica pode ser perigosa, mesmo quando nasce do desejo de submeter-se à autoridade da escritura, defender a inspiração, autoridade e inspiração da escritura. Nossos irmãos do passado eram super conservadores, preocupados com a verdade, mas por não avaliarem suas próprias preferências culturais e rejeitarem os elementos culturais da escritura defenderam a escravatura como uma norma divina. Escolhi esse tema por que imagino que meus leitores discordem veementemente das conclusões escravicionistas dos cristãos da América do Norte. Escolhi esse tema, por que também imagino que muitos dos meus leitores, apesar de rejeitar as conclusões escravicionistas, adotam uma hermenêutica muito similar. Escolhi esse tema, por que ele nos permite pensar de modo mais ponderado e menos passional sobre os princípios hermenêuticos que usamos para construir nossa teologia. Espero que tenha conseguido ajudar meus leitores a considerar a importância do estudo aprofundado e cuidadoso da escritura, em especial dos elementos culturais presentes no texto sagrado.

Em segundo lugar, escrevi esse artigo para provocar sua reflexão teológica. Minha intenção, no fim das contas, é auxiliar reflexão teológica dos meus leitores sobre seus pressupostos hermenêuticos com o objetivo de ajudá-los a perseguir uma interpretação mais objetiva da escritura. Entretanto, uma segunda nota de intenção é também necessária: Não intento sugerir aos meus leitores a rejeitar as propostas hermenêuticas utilizadas pelos escravicionistas, nem sugerir que todo argumento que nasce desses princípios hermenêuticos devem ser rejeitados. O objetivo é demonstrar que esses conhecidos princípios hermeneuticos não são garantia de uma boa interpretação ou afirmação da verdade. Devemos defender a verdade de modo coerente com a verdade. Nossos métodos não inspirados, nossa hermenêutica não inspirada deve sempre ser considerada como falível diante da veracidade da escritura.

Por isso, eu gostaria de sugerir alguns princípios para o estudante de teologia considerar quando estiver a interpretar a escritura:

  1. Evite associar sua interpretação com a verdade das escrituras, especialmente em questões polêmicas e complicadas. Mantenha sua opinião no lugar dela, como apenas uma opinião.
  2. Evite definir ortodoxia baseada na sua percepção teológica de assuntos secundários para a fé. Não é herege quem defende o cessassionismo ou é carismático, aliancista ou dispensacionalista, arminiano ou calvinista, preterista ou futurista, dicotomista ou tricotomista e assim por diante. Diferença de opinião teológica em questões secundárias não é paralelo ao abismo ortodoxia–heresia no qual você sempre se define do lado ortodoxo.
  3. Evite atribuir à sua interpretação o status de inspirada. Defenda-a o melhor que puder, mas entenda que existem outros cristãos, que amam o mesmo Senhor, leem a mesma escritura que talvez discordem de você sem serem assim hereges filhos de Belial.
  4. Permita-se mudar de opinião quando confrontado com as escrituras. Não defenda uma opinião teológica por pressão social, bairrismo teológico ou conivência pessoal. Se você está certo que as escrituras ensinam contra suas preferências teológicas, mude de opinião, mas jamais conscientemente viole o texto das escrituras. Mais vale um teólogo que muda de opinião ao ser confrontado com a escritura, do que dois que jamais mudam de opinião por acreditarem que estão sempre certos em tudo o que ensinam.
  5. Evite o tal argumento da “visão do todo.” Todas as vezes que ouvi alguém usar esse argumento, ao invés de ouvir o que diz a escritura, ouvi: “Se você estudasse as escrituras como eu estudei, se soubesse todos os versos que eu sei, então você iria concordar comigo que diante do todo das escrituras…” É um argumento prepotente, e normalmente mal usado. Afirmar conhecer o todo das escrituras em todas as suas partes em determinados assuntos é uma afirmação restrita a pouquíssimas pessoas extremamente competentes em seus avançados estudos teológicos. Se puder, evite esse argumento.

Bom, eu imagino que o modo como escrevi esse artigo pode ter deixado alguns de vocês confusos a princípio, mas espero ter sido suficientemente claro em relação a minhas intenções e objetivos com esse post. Entretanto, caso não tenha sido claro o suficiente, ou tenha deixado algum ponto mal entendido, por favor, não hesite em comentar abaixo sua opinião sobre o assunto. Se tiver alguma dúvida, aproveite faça aqui sua pergunta. Agora, se você tiver críticas a fazer, por favor, faça-as de modo moderado. Estou pronto a ler e responder críticas ponderadas, feitas com respeito e evitando o famigerado ad hominem.

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Post Scriptum

Um dos primeiros leitores desse artigo percebeu que o modo como apresentei os argumentos desse artigo poderia dar a entender que com ele que estaria defendendo algum tipo casamento que não o monogâmico e hétero sexual que encontramos na escritura. Tendo em vista que nada falo especificamente sobre o assunto, mas menciono o caso do casamento, resolvi deixar evidente que nesse artigo não tenho qualquer intenção de defender um outro tipo de casamento que não aquele apresentado nas narrativas da criação de Gênesis 1 e 2.

Marcelo Berti (2 de Janeiro de 2016, 12:28 horário de Brasília)

17 comentários sobre “A Escravidão, a Escritura e a Hermenêutica

  1. Mais uma vez excelente o conteúdo, o desenvolvimento e conclusão.
    Acho estranho -se é que entendi – o universo de “não herege ” posicionamentos tão excludentes. É possível entender que tais “conclusões ” ao igualmente possíveis, saindo legitimamente das Escrituras quaisquer uma delas.
    Gostaríamos de obter notícias do estado de saúde de sua esposa.
    Minha admiração.

    1. Paulo,

      Muito obrigado por escrever e por se importar com minha amada esposa. Pela graça de Deus ela terminou seu tratamento oncológico (quimioterapia + radioterapia), mas em breve precisará passar por um tratamento profilático, com data ainda indefinida. Em função de uma deficiência genética detectada, os médicos são capazes de “prever” os possíveis próximos alvos do cancer, e por isso, é fundamental que ela continue com o tratamento. Mas, nós estamos bem, e muito felizes com os resultados dos exames feitos até aqui, que demonstram que o tratamento feito até aqui foi tão eficaz quanto possível.

      Em relação aos posicionamentos excludentes, de fato não quero dizer que os dois são iguais, igualmente possíveis ou igualmente aceitáveis. Eu também tenho minhas preferências teológicas, e evidentemente tenho meus julgamentos sobre certo e errado em relação a elas. O que não faço, é determinar que as opiniões diferentes das minhas em questões secundárias são necessariamente heréticas. Elas podem ser diferentes, equivocadas, mas não heréticas. Eu reservo, como a antiga tradição da igreja, o rótulo de heresia para distorções a elementos fundamentais da fé. Considerando os primeiros concílios ecumênicos da igreja católica, nós temos um excelente indicativo do que era fundamentalmente importante para a igreja. Entretanto, ousaria voltar ainda mais no tempo, e considerar as ênfases primárias do ensino apostólico como indicação das questões primárias (ou dos essenciais fundamentos da fé)da teologia cristã. O que você acha dessa proposta?

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

      1. Paulo Brasil

        Marcelo, boa noite.

        Ficamos felizes pela forma como Deus está conduzindo a vida do Irmão, bem como como de sua família, em especial sua esposa. Graças ao Altíssimo.

        Ontem à noite comentava com meu filho – que me visita – sobre você: “um garoto” e escreve e conhece as Escrituras. E logo depois, me deparei com seu – sempre equilibrado texto.

        Quanto a sua proposta – e questionamento – sugere um nivel de conhecimento e maturidade não muito comum na Igreja do Senhor. Mas extremamente saudável e conciliatória.

        Não costumo discutir dias, e comidas e preferências. Mas, confesso que precisaria selecionar – novamente – aquilo que realmente é “pão”. Para não demandar esforços com a periferia da fé.

        Contudo, quanto as posições calvinistas e arministas, considero uma questão central da fé. Pois, há um torneio ali, entre soberania divina e autonomia humana que conduz a vários aspectos centrais da obra do Senhor e sua bondade.

        No mais, minha admiração – gratidão pelos textos – e oração pela consumação da vontade do Senhor na vida do irmão e de todos os seus.

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  3. Carlos

    Obrigado por mais um texto…e como sempre “ponderado”… O Senhor continue abençoando você e sua família.

  4. Abdênago Lisboa Junior

    Muito bem colocado e muito oportuno para o momento atual, pois a qualquer momento um teólogo maluco vai usar o livro de Josué para, em nome de Deus matar, destruir e invadir. É isto que o Estado Islâmico vem fazendo contra os infiéis. Creio que a hermenêutica é o tema mais importante e necessário nas igrejas brasileiras, por causa da grande salada teológica que a falta de ensino e estudo coerente nas últimas décadas produziu.

  5. Willian Wheeler Erthal

    Creio que o termo “abolicionista” no meio do parágrafo “O quinto problema da hermenêutica…”, seja na realidade “escravicionista”.
    Ótimo texto! A mensagem bíblica sobrepõe o texto.

      1. Boanerges

        A escravidão acompanha a humanidade desde os primórdios da monarquia na Terra. É algo de origem ancestral. O escravo era o rei e seu povo vencidos na guerra para pagar as “despesas”. E assim continuou. Culpar as Escrituras como fautora. Ou mantenedora da condição escrava é um acinte a inteligência humana. Deus criou o homem livre, criou-o para dominar quaisquer tipos de alimárias que nade, rasteje ou voe aqui. Porem não para dominar seus semelhantes. Isto JAMAIS!

  6. Alex Esteves da Rocha Sousa

    Estou aqui pela primeira vez, por indicação de um grande amigo que, como eu, é um cristão de linha ortodoxa (ele, calvinista, eu, pentecostal). O texto é excelente, profundo, necessário. Parabéns! Deixo somente uma pergunta: como distinguir a “visão do todo” da necessária e recomendada “Teologia Sistemática”?

    1. Alex,

      Na minha opinião, não existe muita diferença entre “visão do todo” e a Teologia Sistemática. De fato, a organização das afirmações bíblicas em categorias predefinidas é o que produz a TS, que em muitos casos, é a referência que usa-se para a interpretação das escrituras. Nesse sentido a TS funciona como uma “visão do todo” para o intérprete analisar as escrituras, com especial atenção aos dogmas da fé. Por outro lado, a TS é restrita em sua taxonomia, enquanto o argumento da “visão do todo” aplica-se a categorias além daquelas predefinidas pela TS. Por exemplo, no caso da escravidão mencionado no artigo, a “visão do todo” não se reporta primariamente à doutrina das escrituras, a redenção ou da escatologia, algumas das categorias predefinidas da TS, mas funciona de modo similar: o autor organiza a evidência das escrituras em determinadas categorias e aufere uma conclusão sobre o ensino das escrituras sobre a escravidão “como um todo.”

      Mais uma vez, na minha opinião, essa abordagem produz sérios problemas hermenêuticos, e infelizmente, esse é o método mais recorrentemente ensinado em nossos seminários. Nós ensinamos TS para os alunos terem uma “visão do todo” da doutrina cristã, para então, somente depois os ensinar a lidar com o texto das escrituras no seus idiomas originais (Hebraico, Aramaico, Grego). Quando o aluno começa a dar seus primeiros passos na exegese, ele toma decisões hermenêuticas baseadas na “visão do todo” da teologia que ele recebeu durante os primeiros anos de sua formação, e por vezes, importa as conclusões da TS como critério para a interpretação do texto das escrituras. Desapercebidamente, o aluno faz “eisegese” (importando para o texto algo fora do texto), ao invés de fazer “exegese” (extraindo do texto a verdade divina e então fazer teologia). Essa importação da “visão do todo” para análise da parte pode fazer com que o aluno viole a parte para defender o todo. Mas, violar a parte, é violar as escrituras. Para mim, isso é sério.

      É por isso que tenho defendido que a exegese deve ter primazia à teologia sistemática. É por isso que tenho defendido que a escritura deve ter primazia à teologia ou à tradição da igreja. Eu acredito que a escritura é por demais importante para ser confinada às limitações das nossas preferências teológicas. Isso me ajuda a não tentar fazer “malabarismos” hermenêuticos para tentar defender minhas preferências teológicas, e me mantém preparado para mudar de opinião quando confrontado com as escrituras.

      Se quiser ler um outro artigo sobre o assunto, visite esse aqui: Como chegar a uma Conclusão Teológica?

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

      1. Willian Erthal

        Caro Marcelo,
        Válida e competente a rejeição do argumento da “visão do todo”, usado como uma espécie de ferramenta hermenêutica desonesta.
        Surge porém algumas dúvidas: seria possível a “construção” de conhecimento teológico desprovido de pressupostos? Um pressuposto não é condição sine qua non para qualquer exegese?
        Digo isto porque isto porque vejo as escrituras como um verdadeiro sistema, formado por partes autônomas, mas dependentes e harmoniosas entre si. Sendo um sistema, contradições entre perícopes são verdadeiramente APARENTES, ou seja, a Bíblia não se contradiz, apesar da ilusão de contradições. Parece que cada perícope deve ser analisada à luz de outras, sendo desta forma, necessário a saudável visão do todo para uma saudável exegese. Se assim for, determinado texto não pode ter primazia sobre o sistema. Uma perícope recortada do sistema pode levar a conclusões absurdas.
        Parece que a “visão do todo” entre aspas, designa muito mais a desonestidade do hermeneuta, uma espécie de coringa, supertrunfo, do que a concepção sistemática das escrituras.

      2. Wlillian,

        Sua pergunta é excelente! De fato, é impossível “construir” um argumento teológico sem qualquer tipo de pressupostos. Aliás, no artigo Como Chegar a uma Conclusão Teológica, eu defendo exatamente isso: Uma conclusão teológica é o resultado da combinação dos pressupostos, evidência e método.

        Meu ponto nesse artigo, entretanto, é demonstrar que existem alguns pressupostos que não são adequados, mesmo quando eles são defendidos por cristãos zelosos e apaixonados pela escritura. O argumento da “visão do todo” é na minha opinião perigoso por questões metodológicas. Por exemplo, quando o intérprete defende a visão do todo, e acredita que ela “determina as partes,” ou “ilumina as passagens obscuras,” o intérprete corre o risco de cometer um de dois erros: Sobreposição Conceitual (imposição de A sobre B, por que A é mais fácil de entender [no julgamento do intérprete] do que B) ou a Falácia do Círculo Vicioso (A significa X, por que B significa X, e B=X pq A=X). Aliás, as pessoas que defendem a visão do todo como determinante das partes, geralmente tem um tratamento deficiente de passagens de sentido singular, ou temas que não são amplamente defendidos por toda escritura, ou temas cujas partes são controvertidas, em tensão ou aparente contradição (como vc mencionou). A impressão que eu tenho é que para as pessoas que usam esse argumento a conclusão teológica é mais importante que a escritura.

        É por isso que eu prefiro usar uma abordagem que vai na direção oposta. Eu parto do pressuposto de que são as partes que fazem o todo, e não o todo que determina a parte (Hermenêutica). Eu acredito na interdependência do todo e da parte, mas eu inicio a pesquisa a partir das partes para então chegar ao todo (Teologia). Eu não sei se consigo defender as escrituras como sistema, aliás, eu acho que nossa teologia é o sistema, e a escritura o substrato primário desse sistema, que também usa lógica, filosofia, história, filologia, gramática e etc. É por isso que não coloco a parte sobre o todo, não coloco um texto sobre as escrituras, por que ao fazer isso estaria contrastando a escritura com ela mesma. O que estou sugerindo é a prioridade da escritura sobre a teologia, mesmo quando o texto é difícil de entender, ou coloca em tensão a verdade.

        Já a questão da relação das partes, da perícope recortada do seu contexto, eu concordo com você, e quando falo sobre a primazia da parte sobre o todo, não quero dizer uma análise textual que retira do contexto o texto. Isso seria um erro primário.

        Espero ter ajudado,
        Marcelo Berti

  7. João Armando Coelho

    E eu sou o “grande amigo” a que se referiu o Alex, do comentário acima. Aspas à parte, é mesmo um amigão. Deparei-me com o seu blog pesquisando ao preparar a aula da Escola Dominical de amanhã, especificamente sobre Hebreus ao discorrer sobre Abel… longa história! O artigo alertou-me, a mim que me achava muito seguro e imune, senão a qualquer erro, ao menos aos mais graves, por abraçar a mesma (e, penso, correta) maneira de abordar o ensino bíblico. Não conhecia o blog, mas já o incluí no meu Feedly. Você tem talento para escrever e ensinar. Use-o e multiplique-o para a glória de Deus.

  8. Pingback: O Maior Problema da Interpretação – Teologando

  9. Eduardo Bezerra de Oliveira Junior

    Caro Marcelo, parabéns por suas colocações equilibradas. Muito me chamou à atenção a questão dos “pressupostos teológicos”. O tema da “Escravidão”, como você mesmo mencionou, é ponto pacífico nos nossos dias, mas o que dizer de tema como o “ministério feminino”? Bem que você poderia escrever – nesta mesma linha da hermenêutica – sobre este tema.
    abç
    Eduardo Bezerra

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