O Maior Problema da Interpretação


Nos últimos post tenho enfatizado o quanto uma metodologia hermenêutica adequada é fundamental para a Teologia. No post Escravidão, Escritura e Hermenêutica tentei demonstrar que existem alguns pressupostos hermenêuticos que não são adequados para a interpretação bíblica, mesmo quando são defendidos por cristãos zelosos e apaixonados pela escritura. Nesse artigo, pretendo continuar falando sobre hermenêutica, e gostaria de demonstrar o que acredito ser o maior problema da hermenêutica bíblica.

De modo geral, o livros que tratam da hermenêutica bíblica apresentam métodos organizados, de fácil entendimento que levam o estudante da hermenêutica à teologia e eventualmente ao púlpito, entretanto ignoram o que acredito ser o maior problema da interpretação: o intérprete. É ele quem traz para o texto seus pressupostos, experiências, preferências e limitações. É ele quem determina as correlações que determinados textos devem fazer, que prioriza textos em detrimento de outros, que determina a ordem com que diferentes textos devem ser interpretados e em última análise é quem determina a metanarrativa que pretende adotar para analizar textos. Uma vez que a  Reforma Protestante colocou a escritura nas mãos dos cristãos, e que os mesmos entendem que tem liberdade para ler e interpretar as escrituras sem as restrições da regula fidei ou da tradição histórica da igreja, o intérprete acredita que pode colocar-se como árbitro final da verdade. É por isso que não é incomum nos diálogos sobre as diferenças de opinião a expressão “Eu não vejo assim” é tão recorrente.

Dessa forma, eu acredito que foco de atenção inicial do intérprete não deveria ser os aspectos literários, contextuais, gramaticais, sintáticos ou históricos relacionados a um determinado texto, mas os pressupostos e preferências pessoais que o intérprete carrega consigo, de tal modo que possa analisar o texto preparado para identificar onde e como seus pressupostos e preferências o afetam na tarefa de entender o sentido do texto.

Em outras palavras, eu estou defendendo que o intérprete desenvolva sua autopercepção teológica a ponto de que tenha plena consciência de suas preferências antes de iniciar a análise de um texto, para que encontrando no texto sagrado algo que desafie, questione ou rejeite suas preferências, o intérprete esteja preparado para valorizar a escritura em detrimento de suas preferências pessoais.

Portanto, nesse artigo eu gostaria de sugerir alguns pontos de atenção que o intérprete cristão deve considerar antes mesmo de abrir a escritura para estuda-la. Esses princípios, entretanto, serão importantíssimos especialmente quando ele abrir as escrituras para estudar e interpretá-la. Tendo a crer que tais princípios ajudarão o intérprete a ler as escrituras com a predisposição de priorizar a escritura em detrimento das preferências pessoais e com isso valorizar a integridade das escrituras, bem como a veracidade de seus ensinos. Vale mencionar que nem todos os exemplos apresentados nesse artigo serão de natureza primariamente hermenêutica (visto que o mesmo seria potencialmente recheado de ad hominen), mas todos são relacionados ao temas que abordamos abaixo.

Sobre a Distinção entre Opinião e Verdade

Em primeiro lugar, é importante que o intérprete saiba que somente as escrituras podem ser classificadas como verdade absoluta. Todas as opiniões sobre as escrituras são apenas as melhores abstrações que o intérprete pode inferir a partir das escrituras. Existem critérios técnicos (seja de natureza, gramatical, sintática, literária, contextual, teológica, histórica, e assim por diante) que serão usados pelo intérprete para validar determinada consideração hermenêutica, mas ele deve estar ciente que esse exercício passa por suas preferências e pressupostos. Se o intérprete cristão consegue diferenciar a veracidade das escrituras e suas opiniões sobre a verdade expressa nas escrituras, ele deixará de condenar desnecessariamente aqueles que dele discordam [1].

Aqui Norman Geisler e Albert Mohler nos servem como exemplo negativo. Quando Michael Licona publicou o livro The Resurrection of Jesus de caráter apologético, Licona intentava usar as ferramentas da historiografia para analisar os evangelhos para defender a ressurreição de Cristo como fato histórico. No processo ele concluiu que Mat 27:52-53 deveria ser entendido como uma imagem apocalíptica que atesta a expectativa futura dos cristãos, mas não como um evento histórico. Sabendo disso, o apologeta Norman Geisler e o teólogo Albert Mohler saíram em defesa da inerência das escrituras, afirmando que o posicionamento de Licona viola tanto a inerrância como a inspiração das escrituras. Geisler chegou a ponto de publicamente lembrar Licona de que, em um assunto similar, Robert Gundry havia sido expulso da  Evangelical Theological Society (ETS), e que se ele não afirmasse a historicidade de Mat 27.52-53 ele poderia seguir o mesmo caminho (veja todo o diálogo entre Geisler e Licona aqui). O problema nesse caso é que tanto Geisler como Mohler atribuíram suas próprias interpretações o status de inspirada, e por consequência entenderam que opiniões distintas (ou contraditórias, como eles preferem ver), seriam em última análise uma forma de violação das escrituras.

O que tanto Mohler e Geisler (e tantos outros) não perceberam é que o assunto é de natureza hermenêutica, como observado por vários expectadores desse diálogo público. Vários autores conservadores também se posicionaram em defesa de Licona, não por concordar com a abordagem ou com as conclusões que ele defende, mas por entenderem que o caso em nada tinha a ver com a doutrina da inspiração ou  da inerrância. Um documento público foi redigido por Licona para demonstrar exatamente esse ponto, e o mesmo foi assinado por teólogos como W. David Beck, James Chancellor, William Lane Craig, Jeremy A. Evans, Gary R. Habermas, Craig S. Keener, Douglas J. Moo, J. P. Moreland, Heath A. Thomas, Daniel Wallace, Edwin M. Yamauchi (veja o documento assinado aqui), que jamais poderiam ser chamados de liberais ou violadores da inspiração das escrituras. Outros autores, como Paul Copan, Craig Bloomberg, Bill Warren, fizeram o mesmo por meio de outras vias também públicas. Em outras palavras, apesar de não concordar com as conclusões de Licona, esses autores entendem que o debate é de natureza primariamente hermenêutica, e que as conclusões de Licona em nada afetam a doutrina na inspiração. Entretanto, ao associarem suas opiniões teológicas pessoais à verdade da escritura, Geisler e Mohler acabaram defendendo que suas opiniões eram tão inerrantes quanto a própria escritura e condenando Licona e tantos outros que deles discordam.

Ou seja, ao ignorar que existe certa distinção entre nossas opiniões e a verdade nas escrituras, nós corremos o risco de rotularmos nossos irmãos de hereges simplesmente por discordarem de nossas opiniões, e quando assim procedemos, nos colocamos em pé de igualdade com as escrituras e atribuímos infalibilidade às nossas interpretações. É por isso que o intérprete é o maior problema da interpretação.

Sobre o Conhecimento Prévio

Em segundo lugar, é importantíssimo que o todo estudante das escrituras saiba que estuda as escrituras com uma série de informações presumidas. Tais informações fazem parte do conhecimento prévio do intérprete, que o influencia a perspectiva com a qual ele aborda um determinado texto da escritura. De acordo com Scott Duvall e Daniel Hayes o conhecimento prévio “se refere a todas as nossas noções e conhecimentos pré concebidos que trazemos para o texto, e que foram formuladas, consciente ou inconscientemente, antes mesmo de estudarmos um texto em detalhes” (Gransping God’s Word, 89). Eles também afirmam que o conhecimento prévio “é formado tanto por influências negativas como positivas, e podem ser corretas ou não” (p.89). Na grande maioria das vezes, nosso conhecimento preconcebido está equivocado, e por isso que o intérprete deve estar atento ao modo como aborda o texto das escrituras. O fato é que todos nós somos influenciados por questões culturais, sociais, familiares, e de modo consciente ou não, nós trazemos todas essas influências para a tarefa de interpretar as escrituras.

Isso significa que sem a devida percepção das influências culturais, sociais que afetam o conhecimento prévio do intérprete, e a devida ponderação sobre as escrituras no seu contexto literário e histórico, o intérprete pode transpor do texto princípios práticos para o dia a dia hoje que ignoram o texto e supervalorizam seu contexto. Isso acontece, por que é o intérprete quem traz para o texto suas preferências e percepções da realidade, e é ele quem “extrai” do texto o que ele acredita ter encontrado lá. São essas decisões hermenêuticas que fazem do intérprete tão perigoso para a teologia. Sem um preparo adequado e sem o necessário esforço para investigar um texto, o intérprete pode ser muito perigoso para a reflexão teológica e para a comunidade da fé. E esse é o grande perigo, pois existem pessoas que acreditam que seu conhecimento prévio e abordagem estão sempre corretos. Kevin Vanhoozer denomina essa atitude de orgulho, e afirma que esse tipo de orgulho “nos encoraja a pensar que nós alcançamos o sentido correto de um texto muito ante de termos realizado o esforço apropriado para encontrá-lo. O orgulho não aprende, ele sabe” (Is There a Meaning in this Text?, p.462). No livro “Espiral Hermenêutica,” Grant Osborne afirma que “o problema é que o nosso entendimento prévio torna-se conhecimento preconcebido muito facilmente, um conjunto de argumentos à priori que limita a Escritura e faz com que ela se conforme com esses conceitos pré-definidos [pelo intérprete].” (Hermeneutical Spiral, p.29).

E quem faz isso (conscientemente ou não), não é o método que o estudante usa para interpretar as escrituras, mas o próprio intérprete. É por isso, que o intérprete é o maior problema da interpretação.

Sobre as Limitações do Conhecimento

Em terceiro lugar, o intérprete deve estar ciente da limitação do seu conhecimento. De todo conhecimento teológico disponível no universo, nós temos acesso apenas a uma pequena parte do mesmo, e eventualmente essa ignorância é a causa da diferença de opinião sobre a interpretação de determinado texto. E em alguns casos, essa ignorância transcende àquelas evidências conhecidas pela academia, afinal alguém em algum lugar, algum dia pode descobrir algo novo que irá mudar completamente o modo como entendemos o texto do NT.

Exemplo disso pode ser encontrado no historicamente recente desenvolvimento da lexicografia do NT. A partir do momento que o NTGrego voltou a ter primazia no estudo teológico no mundo pós-reforma, a literatura nele encontrada foi comparada e contrastada com a literatura grega clássica. Um dos grandes problemas desse exercício é que existem pouquíssimos paralelos sintáticos e léxicos entre eles, afinal os textos grego clássicos estão distante historicamente dos texto do NT. Essa falta de relação entre esses documentos levou muitos teólogos a defenderem que o texto do NT havia sido escrito em um idioma espiritual, sem qualquer relação com o grego como idioma conhecido nas obras do grego clássico. Aliás, o teólogo luterano Richard Rothe (1799–1867) chegou a defender que o idioma do NT deveria ser propriamente reconhecido como “linguagem do Espírito Santo” (Zur Dogmatik, 238), exatamente por sua falta de relação com o grego conhecido através da literatura grega clássica.

Essa pressuposição fez parte de grande parte da reflexão lexicográfica e influenciou largamente a visão que o lexicógrafos tinham da natureza do idioma do NT, especialmente em função dos termos encontrados no NT que não eram encontramos em nenhum lugar na literatura grega clássica. Partindo do ponto que o grego do NT era um idioma distinto, o exercício léxico do NT era feito basicamente de modo paralelo ao grego clássico, em especial quando lidava com hapax legomenon. Um exemplo clássico disso é o Thayer’s Greek New Testament Lexicon publicado em 1896 por Joseph Henry Thayer, como uma versão revisada e expandida do léxico Clavis Novi Testamenti Philologica de Christian Gottlob Wilke publicado em 1840. Thayer teria investido 25 anos nesse projeto e o resultado do seu esforço foi recebido com louvor pela comunidade acadêmica. Entretanto, ele foi produzido debaixo da pressuposição de que o NT era um idioma distinto do grego clássico, uma ideia que poucos anos mais tarde teria sido completamente abandonada pela academia do NT.

Fundamental para essa mudança, foi a descoberta e publicação dos Manuscritos de Oxirrinco, uma coleção de papiros gregos que continha textos em grego do primeiro ao quarto século da era Cristã. Em 1901 Gustav Adolf Deissmann publicou o livro Bible Studies: Contributions Chiefly from Papyri and Inscriptions to the History of the Language, the Literature, and the Religion of Hellenistic Judaism and Primitive Christianity (1901 e 1910) no qual demonstrou a similaridade entre o idioma encontrado nesses papiros e o idioma do NT.  Posteriormente também publicou o Light from the Ancient East: the New Testament Illustrated by Recently Discovered Texts of the Graeco-Roman World (1910) que ajudou a aprimorar a definições inadequadas de muitos termos gregos do NT. Com isso, Deissman demonstrou indiretamente que o Thayer’s Lexicon estava completamente obsoleto em seus pressupostos e análise (muito embora ainda seja largamente usado na reflexão teológica contemporânea).

O que ficou evidente depois dessa descoberta é que o grego do NT era deveras similar àquele encontrado no grego vernacular de Oxirrinco, e isso mudou completamente o modo como o texto do NT era lido e entendido. Exemplo disso é o léxico Vocabulary of the Greek Testament, publicado por James Hope Moulton e George Millian em 1930, que usou como base de sua pesquisa basicamente os textos encontrados em Oxirrinco e diversas inscrições também encontradas no Egito. A contribuição de Deissman para a compreensão da natureza do idioma do NT exigiu uma nova abordagem lexicográfica, como àquela encontrada na obra de Moulton-Milligan. Essa pequena mudança no entendimento da natureza do idioma do NT teve um impacto brutal na interpretação das escrituras.

Em outras palavras, a “ignorância” de Joseph Henry Thayer era relacionada à evidências não conhecidas no período de preparação e publicação de sua obra, mas no fim das contas isso fez pouca diferença. Afinal, sua obra hoje é analisada a partir da perspectiva de que seus pressupostos e métodos estão ultrapassados. Nem sempre nossa ignorância deve-se ao fato de desconhecermos a evidência disponível, mas o fato é que todos somos em algum nível ignorantes em diversos dos temas do estudo da teologia, seja em relação a natureza do idioma, da história da lexicografia, da sintaxe dos idiomas originais, da relação entre os testamentos e assim por diante.

Nesse ponto, D.A. Carson nos serve como excelente exemplo. Carson, no artigo “Unity and Diversity in the New Testament,” defende que apesar das diferentes e divergentes abordagens à teologia do NT, é possível manter ao mesmo tempo a unidade de temas e a diversidade de abordagens em relação ao NT. Para demonstrar isso, Carson cita uma série de autores e obras que exemplificam o caso, sem entretanto explicar o desenvolvimento das diferentes abordagens e suas conclusões. De modo resumido ele afirma: “Não é meu objetivo identificar o surgimento desses [diferentes] desenvolvimentos. Suas raízes se estendem até o Iluminismo, e meu conhecimento a respeito do desenvolvimento deles é suficiente apenas para me garantir que eu não tenho o conhecimento detalhado da história necessário para desenredá-los” [Carson, “Unity and Diversity in the New Testament: The Possibility of Systematic Theology, IN: Carson, Woodbridge, eds., Scripture and Truth (Baker: Michigan, 1992), 65]. Se um dos mais importantes teólogos do NT publicamente confessa suas limitações relacionadas à origem das diferentes teorias e teologia do NT, que sou eu pra pensar que já estudei a teologia do NT suficiente?

Ou seja, é fundamental que o estudante de teologia, em especial o iniciante, tenha como pressuposto sua própria ignorância em assuntos relacionados a temas que estuda. Assumir essa santa ignorância antes de teologizar é fundamental para o labor teológico, pois não apenas humaniza o teólogo como também o mantém humilde. Essa predisposição intelectual ajudará o estudante de teologia a manter-se humilde diante da excelsitude do conhecimento de Deus.

Sobre a Importância da Comunidade da Fé

Em quarto lugar, o intérprete deve estar ciente de que Teologia se faz em comunidade. Não existem teólogos verdadeiramente cristãos desassociados da comunidade da fé. Eles podem ser teólogos, filósofos, exegetas e muito mais, mas não podem ser teólogos cristãos. O teólogo cristão parte do pressuposto de que toda verdade é verdade de Deus, mas que a verdade do evangelho (Col 1.5) e a doutrina dos apóstolos (At.2.42) foi confiada e confinada à comunidade da fé. Ele entende que a comunidade da fé é a coluna e fundamento da verdade (1Tim 3.15), edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef.2.20), e que ele é em última análise um servo de Deus, à serviço dela. É por isso que a reflexão teológica que faz, o labor teológico que executa, o empenho hermenêutico que realiza não pode ser feito à parte da igreja.

Baseado nesses princípios, eu gosto de manter um grupo de amigos, que amam mais ao Senhor do que a mim, com quem busco conselhos, orientações e até mesmo correção. Eu tenho o hábito de enviar artigos controvertidos para essas pessoas lerem, antes mesmo de publicar no Teologando. Em geral, eu escolho amigos que imagino a priori não concordarão com o que escrevi, na esperança de que possam me oferecer observações e correções valiosas. Eu faço isso por que temo os efeitos de uma ideia nociva para a comunidade da fé sendo propagada pelos meus artigos. É por isso, que alguns artigos nunca foram publicados, enquanto outros levaram anos para chegar lá. Um exemplo disso é o meu artigo sobre Halloween, que passou por inúmeras revisões e demorou três anos para ser finalmente publicado. Há quem diga que no artigo há muito que melhorar, mas que o viu em seu estágio embrionário sabe o quanto esse artigo melhorou.

Em nossos dias nós encontramos muitos lobos solitários perdidos na internet, teólogos de mídia social, que apesar de conseguirem fazer agudas críticas teológicas em 140 caracteres sem se quer terem lido um livro de 140 páginas, não tem qualquer respeito pela comunidade da fé. São homens e mulheres que amam mais suas opiniões do que a verdade de Cristo, que amam mais suas opiniões do que a unidade do corpo de Cristo. Esses não se importam em dividir a igreja e promulgar seus conhecimentos contrários à doutrina do apóstolos. Dificilmente esses que não tem respeito pelo Corpo de Cristo, tenham respeito pelo Cabeça da Igreja.

Por isso é fundamental que nosso labor teológico seja feito em comunidade, em parceria com outros cristãos.[2] Até por que, uma interpretação que seja exclusiva de um indivíduo, desconhecida na academia cristã, desconhecida na história da igreja, dificilmente poderá ser uma representação da verdade expressa no texto. Como aprendiz de teólogo eu sou mais um exegeta em treinamento do que um teólogo propriamente dito, e por isso, tenho diversas limitações. Quando o assunto é teologia histórica, contemporânea e até mesmo sistemática, meu conhecimento e treinamento não são tão afiados como de outras pessoas. Eu preciso da ajuda deles nesses assuntos, e não é à toa que procuro ler sobre esses assuntos escritos por pessoas cujo conhecimento da área transcende o meu. Por outro lado, como exegeta (e crítico textual) em treinamento, eu posso auxiliar meus irmãos que tem sua especialização em outras áreas do conhecimento teológico. É por isso que escrevo no Teologando, para servir pastores, estudantes de teologia e cristãos comprometidos com o ensino e aprendizado das escrituras (veja mais aqui).

Em outras palavras, o pastor depende do trabalho do teólogo, o teólogo do exegeta, o exegeta do crítico textual e todos da escritura e da comunidade da fé. Dependemos uns dos outros e servimos uns aos outros, em prol da verdade, a favor da comunidade para a glória de Deus, por que teologia se faz em parceria com outros cristãos e para a comunidade da fé. Fazendo isso, o intérprete terá condições de refletir em comunidade, aprender com outros, ser corrigido e com isso ensinar as escrituras com mais clareza e seriedade.

Sobre a influência da Hamartiologia na Hermenêutica

Por fim, o intérprete deve estar ciente de que sua mente ainda luta contra a verdade das escrituras, por que o pecado não é apenas um problema moral, social e relacional, o pecado é também um problema epistemológico. Albert Mohler afirma que “a grande crise epistemológica se inicia na queda. As consequências da queda em nossa capacidade de pensar foram nada menos do que devastadoras. Infelizmente, isso não é claramente evidente para nós, por que agora nós estamos tão distantes do conhecimento adequado de nós mesmo que nós nem sabemos quão pervertido nosso raciocínio é” (Piper, Mathis, Thinking. Loving. Doing., 54). Mohler também lista quatorze efeitos negativos da queda no intelecto humano, como a ignorância, distração, esquecimento, preconceito, perspectiva defeituosa, fatiga intelectual, inconsistência, falha em se chegar à conclusão correta, apatia intelectual, dogmatismo, orgulho intelectual, vã imaginação, má comunicação e conhecimento parcial (pp.56-8). Após listá-las e explicar cada uma delas, ele afirma: “Todos esses efeitos noutéticos da queda estão atrelados à nossa vontade. Esses efeitos influenciam não apenas nossas atividades intelectuais, mas também o modo como nossas atividades intelectuais funcionam e influenciam outros aspectos da nossa vida” (p.58).

No livro The Noetic Effects of Sin, Stephen Moroney sugere que o Conhecimento de Deus é o mais evidente objeto de possível distorção do pecado nas faculdades cognitivas do homem, baseado no simples fato de que o pecado é a manifestação de todas as formas contrárias ao próprio Deus. Moroney defende que tal interferência do pecado na mente do homem não se limita às fontes que usa, mas também às influências que recebe e aos julgamentos que faz. Em outras palavras, da mesma forma que a vontade luta contra a pureza, a mente luta contra a verdade divina. É por isso que ele afirma: “A realidade que o pecado distorce nosso pensamento lembra-nos não apenas da necessidade da autocrítica, a abertura a correções dos outros, mas também da nossa necessidade de humildade. Se tomarmos os efeitos noutéticos do pecado à sério, então somos confrontados com a perspectiva humilhante que este lado do céu algumas de nossas crenças, em particular nossas crenças sobre Deus, estão equivocadas” (The Noetic Effects of Sin, 449). É por isso que o conselho de Moroney é tão importante:

Nossa finitude e natureza caída deve aumentar nossa humildade epistêmica. Nosso conhecimento, em especial o conhecimento de Deus, é limitado e contém distorções. No entanto, a autorevelação de Deus para nós nessa vida e a perspectiva da nossa futura glorificação e da comunhão com Deus na vida futura, deve nos ajudar a manter a esperança epistêmica. Nós sabemos algumas verdades agora e algum dia vamos conhece-las plenamente” (How Sin Affects Scholarship: A New Model, 451).

Vale dizer entretanto, que nem sempre as distorções do nosso conhecimento serão fruto direto da influência do pecado em nossa capacidade cognitiva. Entretanto, a simples percepção de que tal influência existe deve nos manter humildes e esperançosos diante do infindável conhecimento de Deus.

Conclusão

Como tentei demonstrar acima acima, o maior problema da interpretação é o intérprete. É ele quem tem que entender distinção entre a verdade das escrituras e suas opiniões pessoais e aprender a valorizar a escritura em detrimento de suas opiniões pessoais; é ele que tem que reconhecer o conhecimento prévio que carrega consigo e lutar ativamente para identificar sua influência no seu labor teológico; é ele que tem que reconhecer as limitações de conhecimento teológico que tem e batalhar para conscientemente vencer tais limitações tornando-se um leitor inveterado das escrituras e de obras de teologia; é ele quem tem que reconhecer que a verdade divina pertence à comunidade da fé e não aos indivíduos, e labutar para ao mesmo tempo influenciar e ser influenciado por ela; é ele tem que lutar contra os efeitos do pecado em sua reflexão teológica, contra o orgulho do conhecimento, a soberba da rejeição da correção e trabalhar para manter-se humilde diante de Deus e da comunidade da fé. Em outras palavras, o maior problema da interpretação somos eu e você.

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[1] Não me entenda mal, eu acredito que existem aspectos inegociável da fé cristã e minha tendência é assumir o kerigma cristão como cerne da teologia. A mensagem dos apóstolos em Atos e a subsequente ênfase apostólica na centralidade da cruz de Cristo sugerem que essa era a prioridade teológica da igreja primitiva. Em outras palavras, todas as doutrinas que tocam a doutrina da cruz fazem parte do cerne teológico cristão, como a depravação do homem, o sacrifício substitutivo de Cristo, sua ressurreição e assim por diante. Agora, a extensão de tais doutrinas seriam consideradas secundárias visto que as evidências neo-testamentária parecem não atribuir mesma ênfase a esses assuntos, embora todos eles sejam mencionados. Por exemplo, a depravação da homem pós-queda é inegável ante ao relato das escrituras, mas sua extensão já aparece de modo secundário. O mesmo pode ser dito da extensão do sacrifício substitutivo de Cristo, cuja veracidade é estampada por toda escritura, mas sua extensão é ainda assunto de debate teológico na história da igreja. O mesmo pode ser dito sobre a eleição e a justificação, que são doutrinas inegáveis do novo testamento, mas que são foco de debate teológico ainda nos nossos dias.

[2] É importante que se diga que fazer teologia em comunidade, ou em parceria, não significa necessariamente estar no mesmo lugar fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo. Grande parte dos meus diálogos teológicos são realizados com os livros que leio e seus autores. Eu faço anotações, escrevo perguntas, faço pesquisa para verificar a validade das afirmações que fazem, sem sair de casa e sem falar com alguém (in persona).

4 comentários sobre “O Maior Problema da Interpretação

  1. “Ou seja, ao ignorar que existe certa distinção entre nossas opiniões e a verdade nas escrituras, nós corremos o risco de rotularmos nossos irmãos de hereges simplesmente por discordarem de nossas opiniões, e quando assim procedemos, nos colocamos em pé de igualdade com as escrituras e atribuímos infalibilidade às nossas interpretações. É por isso que o intérprete é o maior problema da interpretação.” Marcelo Berti quem dera que o Corpo Governante das testemunhas de Jeová fosse humilde em reconhecer isso! Eles confundem suas opiniões interpretativas com a verdade das Escrituras, medem com isso a fé e o grau de compromisso com a verdade e com Deus e expulsam ostracizando todos aqueles que questionam tais interpretações, que pelo histórico da Torre de Vigia, são mutáveis e jamais poderiam ser encarados como verdades absolutas. Parabéns pela clareza em seu artigo. Há alguns anos tenho lido livros de bons teólogos para me desintoxicar das idéias distorcidas em relação à interpretação bíblica que adquiri em meus 20 anos dentro da Torre, e seus artigos são um auxílio inestimável para mim nesse sentido!

  2. Seu texto está claro quanto ao principal problema hermenêutico: o interprete. Agora fiquei pensando sobre um problema recorrente entre os evangélicos brasileiros: os cincos pontos do Calvinismo. Em especial, a eleição incondicional, assim, como pensar essa grande questão teológica a luz do problema do interprete? Ótimo texto. Em Cristo, Pb. Cleverton Lima.

    1. Cleverton,

      Sua pergunta, em última análise, é: Considerando que todos nós temos nossas preferências, limitações, pre-conhecimento, é possível definir uma doutrina como verdade, ou no fim das contas tudo é uma questão de opinião? Eu acredito que é possível se chegar à verdade divina, mas não em todas as questões, não em todos os detalhes, não em todos os fatos. Nossas limitações humanas ainda não nos permitem transcender ao conhecimento pleno da divindade. Ou seja, nossas limitações alertam-nos para a impossibilidade da ausência de distorções em nossa percepção e conclusões teológicas, mas de maneira nenhuma sugerem que estamos completamente alheios à possibilidade de auferir a verdade divina. Nossas limitações nos mantém humildes, não ignorantes. Ignorancia é reconhecer as limitações que temos e não nos esforçarmos para limitá-las. Aquele que não é consciente de suas próprias limitações não é ignorante, é ingênuo.

      Todos nós temos nossas definições doutrinárias, e cabe a cada um de nós o empenho necessário para validar a veracidade de nossas doutrinas à luz das escrituras. No caso específico da doutrina da predestinação, acho que as escrituras são claras em afirmá-la como fato. Nenhum teólogo consciente das escrituras negará que elas falam a respeito dessa doutrina. Por outro lado, o modo como essa predestinação acontece é ainda uma questão de debate teológico. Ou seja, a verdade das escrituras é clara no que se refere a afirmação da doutrina, mas não é exaustiva em suas afirmações para definir sem sombra de dúvidas como essa predestinação acontece. Seria ela definida pelo conhecimento prévio de Deus, ou por sua soberana determinação? Eu acredito na segunda opção, mas estou consciente de que existem outros cristãos que optam pela primeira. É nesse nível que preciso manter-me humilde ante ao conhecimento de Deus, pois aqui estou manifestando minha opinião sobre a verdade das escrituras.

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

  3. Eduardo Bezerra de Oliveira Junior

    Parabéns Marcelo por seu bom texto a respeito da hermenéutica. Depois de o ler e refletir sobre suas colocações me o seguinte questionamento: como esse conhecimento pode ser trabalhado coletivamente nas comunidades cristãs a fim de que o Evangelho venha a ser pregado?
    abç
    Eduardo Bezerra.

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