Estupro, machismo e a mania de culpar a Igreja


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Eu fico admirado com a quantidade de heróis sociais evangélicos que se levantam na web para mostrar toda a sua indignação e culpar as igrejas e o cristianismo. Agora virou moda jogar para a torcida e atacar o próprio arraial quando algo de trágico ocorre no mundo. Dá ibope. A Igreja e os cristãos viraram o bode expiatório de toda barbárie que pulula no jornal ou na rede. E todos batem palmas. Como se pedir desculpas em nome dos cristãos fosse resolver alguma coisa.

Verdade seja dita, o que ocorreu no Rio de Janeiro há dias atrás envolvendo o estupro de uma adolescente por trinta e três homens foi hediondo. Independentemente de quem seja a garota – que, segundo consta, namorava um dos rapazes, conhecia bem a região, usava drogas, sumia de casa por dias inteiros e publicou no facebook um dia antes da agressão um plano nada decoroso. Mas não importa. Não justifica. Seja qual for o burburinho sobre o caráter da moça, o que ocorreu foi abominável, como o é todas as vezes em que acontece um estupro não noticiado. Sou pai de duas meninas. Lamentei o que ocorreu com ela e com tantas outras que sofrem na obscuridade. Céus e terra estão repudiando o incidente, admirados com a “cultura do estupro” no Brasil. Pessoas de todas as religiões e crenças. Graças à imagem de Deus no ser humano, ainda há sintomas de moralidade absoluta, rastros de uma matriz criacional comum, que rompe (ironicamente) com a balela do relativismo cultural. O que viralizou se tornou símbolo de consternação humana. Temos, mesmo, uma bússola moral herdada do Éden. Neste sentido, um “viva” aos absolutos inscritos na imago dei.

Preciso reiterar que é lamentável toda e qualquer expressão de machismo. Este, que diminui as mulheres da sua dignidade e alta posição posta pelo próprio Criador. Que toma formas de violência, opressão e humilhação ao sexo feminino. Ora, isto é o indiscutível resultado da Queda, em grau egoísta, covarde e maligno. Na cosmovisão cristã, a raiz disto chama-se pecado. E se queremos atacar a raiz do problema, queridos irmãos postadores-de-blá-blá-blá-contextualizados, parem, vocês, de ser hipócritas, tenham coragem mínima e chamem o problema do nome certo. Pecado. Não de cristianismo, ou igreja, ou Bíblia. Será que não leram o próprio Jesus, que disse que tais males não vêm de qualquer cenário exterior, estrutural, social, mas procedem do coração? Não sejam insensatos de generalizar o diagnóstico de toda a igreja brasileira, como se a conhecessem toda. Como se toda ela fosse machista, incorrendo neste pecado por dogma e catecismo. Que cada um se desculpe por si mesmo, e no máximo por sua própria igreja local, se tiver este direito. Quanto a mim, sou um indivíduo capaz para me desculpar quando for culpado, de fato. E minha igreja, também.

Lembro-me do meu avô. Crente assembleiano; homem forte, líder da casa. Teve oito filhos, sendo cinco mulheres. Ainda tinha minha bisavó, que morava no mesmo teto. Viveu tempos em que não se falava de ideologia de gênero, pois masculinidade e feminilidade eram expressões mais nítidas na sociedade passada (embora, também, sujeitas a outros erros). Nunca vi meu avô desdenhar de uma mulher. Tratava minha avó como uma flor, com respeito e graça. Cuidava de sua mãe, bisa Mariana, como uma peça de porcelana. Acaso o falecido pai de minha mãe, crente antigo, dos bons, precisa voltar do túmulo para se desculpar de alguma coisa? Haja hipocrisia!

Penso: será que queremos, também, assumir a culpa dos condenados na Lava-Jato? Por que este tipo de culpa ninguém saiu assumindo? Simples: “porque não fui eu quem roubei o Brasil e o contribuinte”. A verdade é que ao ideologizarmos a questão, tiramos a culpa dos indivíduos e a transferimos para a sociedade. E se o assunto é de ordem sexual, então, culpemos a igreja e os cristãos! Estamos parecendo Nero quando incendiou Roma em 64 d.C e pôs a culpa nos discípulos de Jesus. Mas, hoje, quando os loucos põem fogo na cidade, são os “cristãos contextualizados” que querem assumir o incêndio. Ora, se as acusações vêm de fora, meus irmãos, não me espanto; mas o que dizer destes cristãos que acham um ato de humildade se desculpar em nome da Igreja como se esta fosse o calcanhar de Aquiles da dignidade humana e do progresso social? Por favor…

Apesar de todas frentes da sociedade estarem degradadas em algum nível, a cosmovisão cristã não perde a perspectiva de que a culpa é individual e a raiz do problema é o coração. O nome do mal chama-se pecado, alienação de Deus, rebelião, impiedade. E o homem chega aonde chega porque despreza a Deus e Sua Palavra. Foi assim nos dias dos Juízes em Israel, quando cada um fazia o que lhe parecia mais reto. Quando a mulher de um levita foi estuprada por todo um vilarejo, esquartejada em doze partes pelo marido e seu corpo foi distribuído às doze tribos de Israel em protesto. Não se engane, meu irmão crente. É o pecado de indivíduos que gera sistemas injustos, corrupção política, imoralidade midiática, ideologias limitantes e sofismas atraentes. Convenhamos: os trinta e três agressores são criminosos. E transferir a culpa deles para instituições e sistemas é fazer cara de paisagem na fuga das galinhas. É zombar da vítima.

Estes cristãos demagogos parecem não conhecer sua Bíblia. E também perderam o senso crítico para analisar a própria cultura imoral e o que esta faz com a mulher. Nos faltaria tempo para enumerar as incontáveis manifestações culturais de objetificação da mulher nas músicas, nos reality shows, nas propagandas, na moda, nos programas de auditório, nas piadas entre colegas, nas novelas, nos filmes, seriados e internet. Citando Mauro Meister, “se há uma cultura do estupro, esta é promovida por aqueles que lutam contra a verdade dos relações humanas e a substituem por todo tipo de loucura cultural (…), promiscuidade de todo tipo, seja no que se canta, escreve, pulica-se e encena-se.” Agora o cúmulo da incoerência: a mídia que noticia a barbárie, estupefata, é a mesma que, na barra lateral da notícia, ou na programação a seguir da TV, depreciará a mulher em forma de entretenimento. Mas vamos nos assentar no sofá, voltar ao facebook, dar umas risadas e pedir desculpas em nome da igreja e do cristianismo. Parabéns pela sua humildade. Belo manifesto de compaixão.

Nesta atual queda de braço entre machismo e feminismo, o que nos interessa (cristãos) é o que a Bíblia diz, à luz de uma séria interpretação. E se você é mesmo um cristão verdadeiro, terá que voltar a ela como fonte de nossa cosmovisão. Bem vindo à hermenêutica, exegese, línguas originais, estudo de vocábulos, gêneros literários, transposições do abismo cultural, figuras de linguagens de uma língua morta, etc. Entretanto, se você não tem tempo para isso, o português resolve bem para os alfabetizados que têm reto coração. Como diria Marcos Granconato, depois de saber lê-la, só é preciso ser honesto. O livro de Gênesis, em seus dois primeiros capítulos, apresenta o relato da criação. O texto hebraico é escrito em prosa, até que o estilo literário irrompe em poesia:

E criou Deus o homem à sua imagem;

À imagem de Deus o criou;

Homem e mulher os criou.

Eis o primeiro poema da Sagrada Escritura. A mudança brusca no estilo literário hebraico  indica beleza e perfeição. Justo na descrição do gênero humano, como macho e fêmea, é estabelecida a igualdade de imagem. Ou seja, Deus fez o homem e a mulher na mesma condição perante Ele. São iguais quanto à espiritualidade e ao potencial de reflexo do Eterno. É isto o que significa ser imagem de Deus. E tanto o homem quanto à mulher são distintos da criação neste sentido. São gênero humano. Dignos, porque Deus é digno. Entretanto, não são idênticos. Ou seja, embora iguais em valor e importância perante o Criador, não foram feitos idênticos. A narrativa específica da criação da mulher no capítulo dois aponta para sua correspondência com Adão, alguém que está adiante, que mesmo sendo igual não é idêntica, mas complementar. Qualquer psicólogo poderá dizer que meninos e meninas, nos primeiros anos da infância, apresentam diferenças na estrutura emocional. A adolescência as reforça. Tudo isso para que o quadro da complementaridade seja belo e perfeito entre homem e mulher. A anatomia sinaliza e celebra a complementaridade de modo maravilhoso para ambos, e em tudo isto Deus é percebido e glorificado.

Como discípulos de Jesus precisamos romper com este raciocínio viciado, de falsa humildade, aderente de uma moda politicamente correta de achar que tudo de errado que estoura na sociedade, a culpa é da Igreja. Este negócio de se achar responsável por tudo o que acontece não é humildade, é orgulho. Soberba. Necessidade de aplauso do mundo. Não se pede perdão institucional para os quatro ventos sem termos o direito de falar em nome de todos, nem podendo comprovar a culpa coletiva generalizada. Os genuínos lares cristãos não deveriam ser machistas, nem feministas. Pois em ambos há verdades e mentiras. Embora raciocinemos dentro de um contexto e de uma cultura decaída estando sujeitos a pender para os lados, deveríamos nos aproximar dos princípios eternos que honram a igualdade e a complementaridade dos sexos à luz da redenção que há em Cristo. Que os culpados paguem por seus crimes. E cada cidadão crente se limite a assumir seus próprios pecados ao invés de jogá-los nas costas da Igreja de Cristo, o que é muito fácil e soa bem.

Digo às meninas cristãs, que vocês não precisam recorrer a rótulos, movimentos, ideologias e cosmovisões dúbias, que tenham outras concepções sobre Criação, Queda, Redenção e Consumação, para defender a dignidade humana e, especificamente, a da mulher. O diálogo com os teóricos sociais têm seu valor, mas a Sagrada Escritura continua sendo a referência sublime no assunto. Homem e mulher foram criados pelas mãos de Deus. São Sua imagem e semelhança. Não são idênticos. São complementares. Deus é benevolente e perfeito. Cuidadoso com cada um, no gênero em que foi concebido. Na ótica de Deus, masculinidade e feminilidade são bênçãos, não opressão. E é com esta certeza que ensinarei às minhas filhas, convicto de quem nem machismos, nem feminismos nos representam de modo límpido.


BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada, versão Revista a Corrigida – JFA

Champlin, R. Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol 3. Ed. Hagnos.

Piper e Grudem. Homem e Mulher, seu papel no lar, na igreja e na sociedade. Ed. Fiel 1996.

Zem, Samuel. Ensaios Críticos. Ed. Schoba. 2014.

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