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3 comentários em “Introdução a Escatologia – Aula 8

  1. Professor Marcelo, muito obrigado por compartilhar seus conhecimentos. Estou achando todas as aulas muito boas. Sou cristão há mais de 15 anos, mas novo nessa área de teologia em si. Sempre entendi que a minha maior e melhor fonte de estudo para conhecer a Deus é a sua própria Palavra, que é rica em vida e transforma o homem para a glória de Deus. Comecei estudando o Hebraico para entender melhor a Torah, após perceber que as traduções variam de acordo com o background do tradutor e as suas influências, mas nunca pensei em estudar a teologia pelo mesmo motivo; me basear em pessoas que como eu, eram pecadoras e poderiam muito bem ter as suas visões e entendimentos deturpados pelas suas próprias imperfeições. Conforme vamos estudando a Palavra e formando nossas próprias visões quanto aos seus significados, a convivência e até permanência em igrejas com entendimentos diferentes dos seus se tornam cada vez mais difíceis. Talvez seja esse um dos motivos de termos tantas diferentes denominações.

    Ao seu entendimento, quais são os benefícios e malefícios de estudarmos esses tantos e tantos autores cristãos que formam essas tantas vertentes teológicas? Vale realmente fazer um curso ou graduação em teologia para sermos melhores servos de Deus? Será que o imergir no mundo da teologia nos tornamos mais estudiosos do que praticantes em si da Palavra? Nos tornamos pessoas mais movidas por nossos próprios conhecimentos e conquistas do que pelo próprio Espírito Santo de Deus?

    Faço essas perguntas ao senhor por ver ao final dessa aula que, antes de você ser um teólogo é um servo de Deus! Agradeço pelo sua vida e que o Senhor te abençoe grandemente e te sustente em suas caminhada, para a honra e glória do nome dEle!

    1. Daniel,

      Suas perguntas são muito boas e aqui pretendo oferecer minha resposta a elas. Aliás, seria interessante que você procurasse outras pessoas com as mesmas perguntas para avaliar as diferentes perspectivas sobre elas.

      Quais são os benefícios e malefícios de estudarmos esses tantos e tantos autores cristãos que formam essas tantas vertentes teológicas?

      Eu não acredito em malefícios ao estudar as escrituras ou teologia. No caso específico em questão, a saber a doutrina do fim dos tempos, o perigo que o estudante corre em mergulhar mais profundamente nas diferentes visões do assunto é a atingir a incapacidade de se decidir qual dessas melhor representa o ensino da escritura. Outro perigo seria ignorar as correntes teológicas diferentes da sua e fazer da sua opinião a única visão possível. Essa postura seria decorrente da soberba e contaminaria seu labor teológico, qualquer que fosse sua opinião sobre o assunto. Fora esses perigos existem outros não mencionados, mas nenhum deles é propriamente derivado do estudo em si, mas do coração pecaminoso que todos nós temos. Uma pessoa pode desenvolver esses mesmíssimos problemas sem ter lido uma página se quer de um livro de teologia. Só que nesse caso, a força motriz por trás desses problemas/pecados seria a ignorância e a preguiça. Não existe qualquer vantagem na ignorância e na preguiça. Ou seja, esses problemas são mais relacionados à natureza caída do ser humano, do que propriamente do labor teológico do estudante de teologia.

      Os benefícios desse tipo de estudo são muitos:

      (1) Ele oferece uma visão abrangente das diferentes opiniões sobre o assunto; conhecer essas correntes teológicas nos permiti identificar as questões textuais, hermeneuticas e teológicas que servem de norte para cada uma das correntes. E isso enobrece nossa visão sobre o assunto;

      (2) Ele demonstra os pontos fracos da nossa perspectiva do assunto; são dois os problemas dos teólogos não profissionais, (a) eles leem as críticas à sua perspectiva teológica escritas por aqueles que a defendem; ou pior, (b) se quer leem as críticas, seja daqueles que com ele concordam, seja daqueles que dele discordam. Raros são os exemplos de pessoas que interagem profundamente com os problemas do seu próprio sistema teológico, mas é fundamentalmente importante que o estudante de teologia saiba onde estão os pontos fracos do seu sistema. Agora, é impossível fazer um estudo honesto das diferentes visões da escatologia sem se deparar com os problemas da sua própria teologia.

      (3) Ele nos livra da soberba teológica: Se existe um mal que assola os teólogos é a soberba do conhecimento parcial da verdade; é muito triste ouvir/ler teólogos defenderem suas opiniões pessoais como se as mesmas fossem a representação exata da verdade divina. O elevar da opinião pessoal ao status de verdade inspirada é o maior problema do teólogo. Saber que existem opiniões bem fundamentadas, e que aqueles que a defendem são teólogos extremamente capazes, nos coloca em nosso lugar: não somos donos da verdade; não somos o profeta divino que toda verdade sabe; somos apenas servos que por meio do estudo consistente e consciente da teologia temos nossas convicções, mas não ousamos equipará-la com a verdade das escrituras. Sabendo que sou pecador, e que o pecado não é apenas um problema moral, social e religioso, mas também cognitivo e epistemológico, eu posso estar errado em qualquer uma das minhas opiniões teológicas. Por isso, prefiro conhecer com profundidade a visão teológica daqueles que de mim discordam e lutar para explicar os problemas e dilemas do meu sistema teológico (ou até mudar de opinião sobre o assunto), do que me contentar com a pobreza teológica que a ignorância impõe sobre mim. O oposto da ignorância não é a soberba, pois elas são aliadas. O oposto da ignorância é a humildade epistemológica.

      Bom, como essa resposta ficou um pouco grande, continuarei a respondê-lo oportunamente nos comentários abaixo.

      Um grande abraço,
      Marcelo Berti

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