O Interessante Caso da Fé de Jesus


Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem – Rom 3:22

É bem provável que o nosso leitor já tenha lido, estudado e quem sabe ensinado o texto de Romanos 3:22. Esse texto é bem conhecido entre os cristãos evangélicos, em especial pelos reformados. A centralidade da fé em Cristo como critério da obtenção da justiça que vem de Deus é fundamental para a teologia reformada e parte integral da teologia evangélica. Contudo, o que talvez nosso leitor não saiba é que existe nesse texto um dilema de tradução que poderia oferecer uma perspectiva interessante sobre o ensino de Paulo aqui.

A expressão grega δικαιοσύνη δὲ θεοῦ διὰ πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ (justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, NVI) além da interpretação tradicional (fé em Jesus) poderia ser entendida como se a fé/fidelidade de Cristo estivesse em foco aqui. Em outras palavras, o texto poderia dizer que a justiça de Deus se manifestou (v.21) não mediante a fé em Jesus, mas por causa da fidelidade de Jesus. A diferença entre essas duas leituras é significativa, e faremos bem em prestar atenção nas possibilidades exegéticas aqui.

I. Introdução: Entenda o caso

A leitura tradicional (fe em Jesus), também chamada de leitura antropológica, é encontrada em todas as traduções portuguesas (cf. ARA, ARC, ACF, NVI, NVT) e é a mais comumente encontrada nos comentários, sejam eles populares [1] ou não [2], e em alguns artigos teológicos [3]. A leitura alternativa (fidelidade de Jesus), também conhecida como leitura cristológica, além de desconhecida nas traduções em português é raramente apresentada nos comentários de Romanos [4]. Por outro lado, essa leitura tem ganhado recente suporte e é apresentada em algumas gramáticas [5], defendida em alguns livros específicos [6] e definida em jornais de teologia [7].

A diferença entre essas duas leituras subjaz no uso do genitivo Ἰησοῦ Χριστοῦ [de Jesus Cristo] em Rom 3:22. A questão é se esse genitivo deve ser entendido de modo objetivo (leitura antropológica) ou subjetivo (leitura cristológica). O dilema é assim apresentado por que entende-se que em alguns casos uma construção modificada por um substantivo no genitivo pode conter um processo verbal implícito no qual o genitivo pode ser (1) ou o objeto dessa idéia verbal ou (2) o sujeito da mesma.

II. Gramática: O que são os Genitivos Verbais?

Em algumas construções específicas, o genitivo pode ser usado no grego koine para descrever ou o sujeito ou o objeto do processo verbal que o substantivo que ele modifica parece indicar [8]. De acordo com Köstenberger, “o uso verbal do genitivo ocorre quando o genitivo é relacionado a um substantivo que comunica uma ação que poderia ser ‘transformado’ em um verbo(Köstenberger, 2016:96). Mathewson descreve esses genitivos da seguinte forma:

Quando um genitivo restringe um substantivo que pode indicar um processo verbal (comumente esse substantivo tem  um verbo cognato, e.g., ἀγάπη [amor] e ἀγαπάω [amar], este pode ser subjetivo ou objetivo. Se o genitivo é o agente do processo verbal, ele pode ser denominado como subjetivo. Se o genitivo é o objeto do processo verbal, ele pode ser denominado objetivo. (Mathewson, 2016:14).

A identificação desse tipo de genitivo é bem apresentada por Wallace (ExSyn 112-119). De acordo com ele, essa categoria é lexico-sintática, isto é, acontece apenas em algumas construções cujo substantivo modificado pelo genitivo expressa um processo verbal. Esse processo verbal é, como mencionado por Mathewson, normalmente expresso pela forma verbal cognata do substantivo em questão. Além disso, a idéia verbal expressa por essa construção deve ser necessariamente transitiva se o genitivo objetivo é esperado. Por outro lado, o genitivo subjetivo pode acontecer com substantivos cuja idéia verbal  seja transitiva ou intransitiva, mas nunca com verbos de ligação. Abaixo, apresento alguns exemplos dessas categorias com a intenção de demonstrar a validade dessas categorias sintáticas e clarificar as definições acima mencionadas.

A. Genitivo Subjetivo

Um exemplo interessante do genitivo subjetivo é encontrado em Romanos 8:35: τίς ἡμᾶς χωρίσει ἀπὸ τῆς ἀγάπης τοῦ Χριστοῦ (NVI: Quem nos separará do amor de Cristo). Observe que do modo como o texto é traduzido para o português alguém poderia perguntar se a expressão “de Cristo” significa o amor que Cristo possui, ou o amor que vem de Cristo ou quem sabe o amor que Cristo tem. Note, entretanto, que nesse caso o genitivo τοῦ Χριστοῦ (de Cristo) modifica o substantivo τῆς ἀγάπης (o amor), um substantivo que tem um verbo cognato (ἀγαπάω). Nesse caso, o processo verbal aqui descrito poderia ter o genitivo τοῦ Χριστοῦ (de Cristo) funcionando ou como o sujeito (agente) do processo verbal, ou como o objeto do mesmo. Em outras palavras, o genitivo poderia ser objetivo e descrever o amor do qual Cristo é o objeto (o amor que temos a Cristo); ou poderia ser um genitivo subjetivo e descrever o amor que Cristo tem por nós. Nesse caso, parece contextualmente óbvio que “nada pode nos separar do amor que Cristo tem por nós,” fazendo do uso do genitivo aqui claramente subjetivo. Nesse caso, seria equivocado traduzir essa expressão como um genitivo objetivo.

Outro caso que nos ajuda a compreender essa categoria é 1João 4:9: ἐν τούτῳ ἐφανερώθη ἡ ἀγάπη τοῦ θεοῦ ἐν ἡμῖν (ARA: Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco). Novamente, o genitivo aqui modifica um substantivo cuja ideia verbal é transitiva. Idealmente o genitivo τοῦ θεοῦ (de Deus) poderia ser ou o objeto do processo verbal descrito pelo substantivo articulado ἡ ἀγάπη (o amor), dando a entender o amor que temos a Deus; ou poderia ser o sujeito do mesmo processo, e descrever o amor que Deus tem por nós. Contextualmente, entretanto, o complemento ἐν ἡμῖν (para conosco, por nós) exige que o genitivo aqui seja tomado como subjetivo por que o objeto do processo verbal descrito por ἡ ἀγάπη torna-se explícito nesse complemento. Em outras palavras, o texto fala  que “nisto foi manifesto o amor que Deus tem por nós.”

B. Genitivo Objetivo

O genitivo objetivo, como já mencionado, é aquele que modifica um substantivo cuja idéia verbal é transitiva e faz do genitivo seu objeto. Um exemplo interessante dessa categoria é Mateus 13:31: ἡ δὲ τοῦ πνεύματος βλασφημία οὐκ ἀφεθήσεται (Lit. mas a blasfêmia do Espírito não será perdoada). Observe que o genitivo τοῦ πνεύματος (do Espírito) modifica o substantivo βλασφημία (blasfêmia) cuja idéia verbal pode ser transitiva (cf. βλασφημέω – Tg 2:7). Nesse caso, é possível que o genitivo esteja sendo usado como objeto do processo verbal. Note, entretanto, que se a expressão ἡ τοῦ πνεύματος βλασφημία (lit. a blasfêmia do Espírito) fosse um genitivo subjetivo, ela deveria ser entendida como a blasfêmia que o Espírito realiza. Ao passo que, se tomada com o genitivo objetivo, a mesma expressão poderia ser traduzida como a blasfêmia cometida contra com Espírito. Contextualmente, parece claro que esse é exatamente o sentido esperado aqui.

Outro exemplo interessante e significativo para nosso entendimento de Rom 3:22, é Marcos 11:22: ἔχετε πίστιν θεοῦ (NVI: Tenham fé em Deus). Como nos outros casos, θεοῦ (lit. de Deus) modifica o substantivo πίστις (fé), cuja ideia verbal pode ser transitiva no NT (πιστεύω – Lc 16:11; Jo 2:24). Caso θεοῦ fosse aqui entendido como o sujeito da ideia verbal de πίστιν, a ideia seria: “Tenham fé como aquela que Deus tem.” Ainda que possível, essa tradução parece contextualmente improvável. Por outro lado, contextualmente a ideia do genitivo objetivo parece se adequar perfeitamente aqui: “Tenham fé em Deus“. Nesse caso, Deus seria o objeto da fé dos discípulos. Por ser um caso sintaticamente semelhante àquele encontrado em Rom 3:22, por usar o mesmo substantivo modificado (πίστις) modificado pelo genitivo em questão, muitos comentaristas ilustram sua decisão em Rom 3:22 usando esse mesmíssimo texto.

III. Teologia: O que o texto nos ensina?

Tendo demonstrado o dilema de tradução de Rom 3:22, e as possíveis opções gramaticais acima mencionadas, é oportuno demonstrar como esse dilema tem sido entendido nos comentários e quais são as implicações teológica das diferentes interpretações desse texto.

A. Leitura Antropológica

A leitura tradicional, ie por meio da fé em Jesus, é defendida pelos seguintes argumentos derivados do contexto e da teologia de Paulo:

(1) Ênfase: no que se refere a aparente repetição de ideias na sentença “διὰ πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ εἰς πάντας τοὺς πιστεύοντας” (por meio da fé em Jesus para todos os que creem), defensores do uso objetivo do genitivo entendem que Paulo aqui enfatiza a necessidade da fé (Dunn, 1998:1.166; Murray, 1968: 371). Em resposta, defensores da leitura cristológica entendem que isso seria uma tautologia.

(2) Contexto Imediato: Fica evidente pelo contexto imediato que a fé em Jesus está em vista aqui no v.26: εἰς τὸ εἶναι αὐτὸν δίκαιον καὶ δικαιοῦντα τὸν ἐκ πίστεως Ἰησοῦ (para se tornar o justo e o justificador daqueles que [tem] fé em Jesus) (Bruce, 1985:107; Mounce, 1995:114-15; Barrett, 1991:70); em resposta, os defensores da leitura cristológica afirmam que enquanto o contexto é claro no v.26, o mesmo não pode ser dito do v.22; Moo oferece um argumento mais convincente aqui; de acordo com ele, ainda que a expressão πιστίς Χριστοῦ (v.22) pudesse indicar a fidelidade de Cristo (cf. Rm 3:3) e que Paulo defende a relação entre a obediência e fidelidade de Cristo e a nossa justificação (cf. Rm 5:19), nada no contexto parece exigir tal interpretação (Moo, 1996:225);

(3) Uso do Artigo: O argumento aqui é que se πιστις aparece articulado, então o sentido deve ser objetivo; caso seja usado de modo anartro, então o  sentido deve ser subjetivo (Porter-Pitts, 2009: 49-51; Hultgren, 1980: 253, Dunn, 2002: 253; Fee, 2007: 224-25). Mesmo defendendo a leitura antropológica, Moisés Silva não parece encontrar nesse argumento qualquer validade (Silva, 2004:227); seguem Silva aqui, Hays (2002: 295), Williams (1987: 432) e Wallis (1995: 70 n. 26).

(4) Contraste entre obras da lei e fé em Cristo: O contraste entre a expressão ἔργων νόμου (lit. obras da lei; cf. v.20) e πιστίς Χριστοῦ (v.22) sugerem que as duas expressões devem ser entendidas como sendo centradas no homem. Uma vez que tal contraste aparece com certa frequência nos escritos paulinos (cf. Rm. 3.28, 4.5, 4.13-16, 9.32, 10.4; Gl. 2.16, 3.2, 3.5, 3.11-12, 3.23-26; Ef. 2.8; e Fp. 3.9), os defensores da leitura antropológica usam tal contraste para demonstrar o sentido objetivo do genitivo da expressão πιστίς Χριστοῦ (Murray, 1968: 365-67, Keener, 2009:57; Fee, 2007: 226; Dunn, 2002: 270-71; Hultgren; 1980: 258-59). Por outro lado, esse contraste poderia sugerir que enquanto ἔργων νόμου descreve o esforço humano, πιστίς Χριστοῦ descreve a ação divina, como os defensores da leitura cristológica preferem argumentar;

(5) Linguagem Paulina:  Α expressão πιστίς ἐν Χριστῷ (lit. fé em Cristo) não é comum em Paulo, e portanto, ele usa πιστίς Χριστοῦ. Moisés Silva entende que aqueles que falavam grego entenderiam a expressão πιστίς Χριστοῦ de modo objetivo (Silva, 2004:228-30). Argumentos similares foram também apresentados por Hultgren (1980:254) e Matlock (2002:306); em resposta a essa afirmação, defensores da leitura cristológica apontam ocasiões que Paulo utiliza πιστίς ἐν Χριστῷ em suas cartas (cf. Rom 3.25; Gal 3:26; Ef 1:15); além disso, o uso da expressão πιστίς ἐν Χριστῷ não pode determinar as nuances semânticas do genitivo na expressão πιστίς Χριστοῦ.

(6) O uso da expressão em Gálatas: Em Gálatas 2:16 Paulo vemos mais uma expressão que os defensores da leitura antropológica entendem ser a melhor explicação para a expressão πιστίς Χριστοῦ: διὰ πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ, καὶ ἡμεῖς εἰς Χριστὸν Ἰησοῦν ἐπιστεύσαμεν (NVI: mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus). Nesse caso, a expressão εἰς Χριστὸν Ἰησοῦν ἐπιστεύσαμεν (cremos em Cristo) explicaria a expressão anterior sugerindo que o genitivo Χριστοῦ deve ser entendido de modo objetivo (cf. Murray (1968: 371), Hultgren (1980: 255), Schreiner (1998: 185), Silva (2004: 232), Fee (2007: 224) e Matlock (2009: 83-86).

A teologia dessa leitura é comumente conhecida e difundida entre os cristãos. Por ser a mais conhecida das possíveis interpretações desse texto, não precisamos nos delongar em sua defesa ou explicação. John Murray expressa mutíssimo bem a teologia desse texto de acordo com a leitura antropológica:

Ao representar Jesus Cristo como objeto de fé, o apóstolo traz à tona uma consideração que não havia sido expressamente declarada até agora nesta epístola. A fé que é trazida em relação à justificação não é uma fé geral em Deus; Muito menos é fé sem conteúdo bem definido e inteligível. É a fé dirigida a Cristo, e quando é denominado “Jesus Cristo”, estes títulos são fundamentais de tudo o que Jesus era e é pessoal, historicamente e oficialmente. É Jesus Cristo de acordo com Romanos 1: 3, 4, que é o objeto da fé justificadora. Em termos dos versículos 21, 22, é essa fé que nos coloca em relação efetiva à justiça de Deus. Nos versículos sucessivos, o apóstolo define a realização de Cristo pelo qual ele é constituído o objeto apropriado desta fé, uma realização definida como redenção, propiciação e reivindicação da justiça. É Jesus Cristo na eficácia que lhe pertence como redentor e propiciador que é o objeto próprio da fé. A fé está focada nele no caráter específico que é dele como Salvador, Redentor e Senhor. (Murray, 1968:111).

B. Leitura Cristológica

A leitura cristológica, ie por meio da fidelidade de Jesus, é defendida pelos seguintes argumentos derivados do contexto e da teologia de Paulo:

(1) Tautologia: no que se refere a aparente repetição de ideias na sentença “διὰ πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ εἰς πάντας τοὺς πιστεύοντας” (por meio da fé em Jesus para todos os que creem), defensores do uso objetivo do subjetivo entendem que repetição de ideias aqui se parece com uma tautologia desnecessária (Barth, 1969: 368, O’Rourke, 1973: 189, Williams, 1975: 47-48; 1980: 274, L. T. Johnson, 1982: 79, Hooker, 1989: 322, 336, Keck, 1989: 454-56, Matera, 1992: 100-101, Howard, 1992: 758, Campbell, 1992: 64; e Hays, 2002: 158). É evidente que repetições similares a essa acontecem em outros lugares (Dunn, 2002, 262), mas nesse caso os defensores da leitura cristológica o veem desnecessário. Apesar de largamente utilizado, esse argumento parece ser irrelevante na decisão da questão que poderia ser descartado, como sugere Campbell, um defensor da leitura Cristológica (Campbell, 2005:221-22 n.19).

(2) Função de pistis: uma crítica que aparece frequentemente entre os defensores da leitura antropológica é que no argumento de Paulo pistis funciona como um ato de auto-revelação divina: “Νυνὶ δὲ χωρὶς νόμου δικαιοσύνη θεοῦ πεφανέρωται (…) διὰ πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ” (mas agora, a parte de lei, se manifestou a justiça de Deus (…) por meio pisteös Iësou Cristou). Para os defensores da leitura Cristológica, parece pouco provável que a fé humana possa ser o meio pelo qual a justiça de Deus é revelada (Robinson, 1970:80; Keck, 1989:456; Hays, 2002:158-60; Campbell (1992: 63; 1994: 272-76; 2005: 197; 2009a: 379, 610; 2009b: 67-70). Se essa observação está correta, a leitura Cristológica faz muito sentido contextualmente, sugerindo que é na fidelidade de Cristo que a justiça de Deus é revelada àqueles que creem. Campbell sugere que a fé é aqui descrita como assensus e por isso responde a algo já revelado (2005: 197; 2009: 68). Em resposta a essa observação, Schlatter sugere que a fé descrita aqui é causada pela justiça de Deus (1995: 94), de tal forma que a fé humana é na verdade um ato iniciado na divindade. De fato, a teologia de Paulo parece aceitar esse princípio em outros lugares, mas existe como validar essa interpretação teológica aqui? Ao que parece, nenhum defensor da leitura antropológica conseguiu demonstrar isso contextualmente (até onde tenho conhecimento).

(3) O Uso de Habacuque: para os defensores da leitura cristológica, o uso que Paulo faz de Habacuque 2:4 em Romanos 1:17 e Gálatas 3:11 parece decidir a questão (Hanson, 1974:40-45; Campbell, 1994:281-84; 2009:613-16; Wallis, 1995:110-11). O argumento sugere que o ‘justo’ de Habacuque é interpretado por Paulo em referência a Cristo Jesus. Dessa forma, a fidelidade de Cristo até a morte e subsequente ressureição torna-se a referência da justiça divina oferecida por Deus (Hays, 2002:132-41). Em resposta a essa observação, Cranfield pergunta se os leitores de Paulo teriam como entender tal interpretação, tendo em vista que Cristo não se faz presente no contexto imediato em Romanos 1 (Cranfield, 1998:88). Entretanto, o argumento proposto por Hays e Campbell vai ainda além de Rm 1:17 e Gl 3:13: de acordo com ambos, a expressão ek pisteōs é usado por Paulo somente em Romanos e Gálatas. Para Campbell, por exemplo, todas vezes que Paulo usa essa expressão ele faz referência à Habacuque 2:4 como uma forma de demonstrar a fidelidade de Cristo (Campbell 1992: 67; 1994; 2009: 58-60; cf. Hays 2002: 132-33). Em outras palavras, esse argumento em defesa da leitura cristológica é dependente de uma leitura cristológica de Habacuque e da subsequente interpretação Paulina dessa leitura.

(4) Fé singular e externa: há ainda outro argumento em defesa da leitura cristológica, e encontra-se na interpretação de Gálatas 3:23: “Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da Lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada“. De acordo com os defensores da leitura cristológica, essa fé não expressa a chegada da possibilidade da fé, mas descrever uma fé que é singular e externa. Dessa forma, essa fé que haveria de vir, não é o despertar interior e individual, mas é um ato de fidelidade revelada [em Cristo]. Campbell sugere que essa ‘chegada’ em Gálatas está diretamente relacionada à ‘promessa’ realizada em Cristo como nota-se em Gl 3:16 e v.19 (Campbell, 2009: 869). Em outras palavras, a semente prometida (singular) em 3:16 é Cristo e que a lei foi colocada em seu lugar até sua chegada em 3:19. Em 3:23 a fé (singular) é quem haveria de vir, e de acordo com Campbell, aqui a referência é feita à fidelidade de Cristo. Dunn, entendendo a dificuldade em se interpretar de modo singular fé nesse verso, sugere que Paulo faz referência à ‘era da fé’ e não à fidelidade de Cristo (Dunn,2008: 364). Um argumento interessante, mas pouco convincente.

A teologia derivada dessa leitura é interessante, e talvez Howard (1992: 760) possa nos ajudar aqui:

“É provável que a fórmula pistis Christou, especialmente quando ocorre em Romanos e Gálatas, esteja relacionada principalmente à inclusão dos gentios. A fé de Cristo é o cumprimento da promessa dada a Abraão de que todas as nações serão abençoadas nele. Cristo manteve a fé (= fé em Cristo) com a promessa divina, abrindo as portas para as nações gentias. Para Paulo, então, a doutrina da justificação pela fé é a doutrina pela qual a fidelidade de Cristo Deus uniu Israel e as nações da era atual, a fim de levá-las à fé em Deus e realizar a salvação da humanidade.”

IV. Conclusão

Tendo considerado os dilemas de tradução, as possibilidades gramaticais e as implicações teológicas de cada uma dessas opções, duas conclusões são inevitáveis: (1) Que uma decisão aqui é exegeticamente difícil; e (2) que a teologia de ambas as decisões são plausíveis. A questão, entretanto, é como validar uma ou outra decisão: Como o estudante de teologia pode ter certeza de qual interpretação melhor representa o texto sagrado?

A resposta a essa pergunta não é simples, mas eu gostaria de oferecer algumas sugestões:

(1) Respeite o dilema: tendo observado os argumentos de cada lado do debate, é evidente que existem pontos fracos e fortes em todos os argumentos. Ao que parece, com a exceção do argumento (4) da leitura cristológica, todos os pontos afirmados em ambos os lados do debate tem suas respostas plausíveis, e diante de tal cenário, a sugestão de Robert Jewett é importante: “Ambas as teorias do genitivo objetivo e subjetivo tal como atualmente apresentadas tem suas falhas, e portanto, um alto grau de certeza não deveria ser reivindicada no processo de decidir entre elas” (Jewett, 2007: 277);

(2) Entenda as limitações da gramática: Embora os argumentos baseados em gramática tem seu lugar na exegese do texto, a exegese não é feita de gramática apenas: o contexto ainda permanece rei. A exegese do texto não deve ser aprisionada à análise dos termos genitivos em questão.

(3) Entenda o lugar da teologia do autor: Ainda que a teologia do autor faça parte da exegese em um caso como esse, o intérprete tem que ser cauteloso no seu uso, afinal, podemos introjetar aspectos mais simples e claros em questões mas complexas e menos claras como uma forma de explicar o dilema. Embora muito comum, essa é a forma mais comum de eisegese encontrada nos dilemas exegéticos: não se decide dilemas gramaticais a partir da teologia. O lugar da teologia de um autor é sempre o fim a que se dirige a exegese, e não o contrário. É o texto que tem primazia à teologia (ad fontes).

(4) Entenda o lugar da sua teologia: Se a teologia do autor pertence ao fim do processo exegético, o que dizer da teologia do intérprete? É evidente que não temos como interpretar sem nossas perspectivas e preferências, mas o interprete tem a responsabilidade de ler o texto, antes de teologizar sobre ele. O intérprete que é incapaz de ler o texto antes de teologizar sobre ele, sempre corre o risco de encontras suas preferências teológicas no fim de seu processo exegético. Isso acontece, porque usa a escrituras como espelho, ao invés de usá-la como uma janela para enxergar aquilo que ela ensina. Eis aqui um dos maiores maus da hermenêutica confessional: as conclusões teológicas são feitas ponto de partida para exegese. Nesse método exegético, o teólogo sempre encontra a si mesmo no texto. Alguns exemplos são aqui evidentes:

“Em nenhum ou lugar Paulo afirma de modo claro (ao invés de uma expressão preposicionada de sentido ambíguo), que nossa salvação depende da fidelidade de Cristo (Fee, 2007:225);

“Se a fidelidade de Cristo fosse tão central para o pensamento de Paulo como essas afirmações parecem sugerir, seria estranho, então, que suas cartas não tenham nenhuma referência não ambígua em sua referência” (Cranfield, 1998:94)

Em outras palavras, como Paulo não é claro em outros lugares, logo esse sentido não é possível aqui. Esse argumento, embora comumente apresentado por exegetas competentes (cf. Dunn, 2009; Schreiner, 1998:185), é primário e equivocado. Se Romanos 3:22 fosse a única ocasião inequívoca que Paulo enfatizasse a fidelidade de Cristo, nós precisaríamos reconhecer que embora não fosse central à sua teologia, ou ainda, que fosse um aspecto não afirmado em nenhum outro lugar, ela ainda seria verdadeira aqui. Esse tipo de argumento de maioria inibe leituras singulares nas escrituras, e projeta a teologia do intérprete sobre o texto. Ainda que bem intencionada, essa é uma clara forma de eisegese. Diga-se de passagem, um erro do qual todos nós somos passíveis (basta ler mais artigos nesse blog, e você encontrará esse erro).

(5) Entenda o cerne da questão: o cerne da questão não é se a expressão deva ser traduzida como fé em Jesus ou como a fidelidade de Jesus. O debate já deixou claro que ambas traduções são possíveis. O cerne da questão são as implicações teológicas dessa expressão. O que Paulo quis dizer com essa expressão e como isso se relaciona com sua teologia? Esse é o ponto, e nesse quesito, a gramática apenas nos aponta para as opções. O labor hermenêutico e teológico é necessário aqui.

Tendo dado esses conselhos, eu gostaria que o leitor soubesse que diante de tal dilema exegético eu ainda não consegui definir minha opinião. De fato, a leitura antropológica, embora não tenha me convencido, oferece uma conclusão teológica que mais facilmente se ajusta a visão que tenho da teologia paulina. Por outro lado, os argumentos em defensa da leitura cristológica, tomados no seu devido contexto, parecem coerentes para mim. Infelizmente, tal interpretação exige uma reestruturação da visão que tenho da teologia de Paulo. Em outras palavras, ainda que a leitura cristológica faça sentido, a conclusão teológica dela derivada pede um entendimento mais adequado do modo como leio a teologia de Paulo. Talvez eu precise estudar mais o assunto para definir a questão. E você: que leitura você prefere? Por quê?


Notas

[1] Bruce, F. F. Romans: An Introduction and Commentary. Vol. 6. Tyndale New Testament Commentaries. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1985.; Stott, John R. W. The Message of Romans: God’s Good News for the World. The Bible Speaks Today. Leicester, England; Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2001; Osborne, Grant R. Romans. The IVP New Testament Commentary Series. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2004; Cottrell, Jack. Romans. Vol. 1. The College Press NIV Commentary. Joplin, MO: College Press Pub. Co., 1996; Lenski, R. C. H. The Interpretation of St. Paul’s Epistle to the Romans. Columbus, Ohio: Lutheran Book Concern, 1936; Witmer, John A. “Romans.” In The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, edited by J. F. Walvoord and R. B. Zuck. Wheaton, IL: Victor Books, 1985; Vincent, Marvin Richardson. Word Studies in the New Testament. New York: Charles Scribner’s Sons, 1887;  Robertson, A.T. Word Pictures in the New Testament. Nashville, TN: Broadman Press, 1933;

[2] Dunn, James D. G. Romans 1–8. Vol. 38A. Word Biblical Commentary. Dallas: Word, Incorporated, 1998; Murray, John. The Epistle to the Romans. The New International Commentary on the Old and New Testament. Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1968; Mounce, Robert H. Romans. Vol. 27. The New American Commentary. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1995; Barrett, C. K. The Epistle to the Romans. Rev. ed. Black’s New Testament Commentary. London: Continuum, 1991; Moo, Douglas J. The Epistle to the Romans. Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1996; Harrison, Everett F., and Donald A. Hagner. “Romans.” In The Expositor’s Bible Commentary: Romans–Galatians (Revised Edition), edited by Tremper Longman III & Garland, David E. Vol. 11. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2008; Keener, Craig S. Romans. New Covenant Commentary Series. Eugene, OR: Cascade Books, 2009; Schreiner, T., Romans – Baker Exegetical Commentary on the NT (Grand Rapids: Baker, 1998); VER TAMBÉM: Fee, Gordon, Pauline Christology: An Exegetical-Theological Study (Peabody: Hendrickson, 2007); Schlatter, A, Romans: The Righteousness of God (1995, Peabody: Hendrickson).

[3] Hultgren, A., “Pistis Christou Formulation in Paul”, NovT  1980:22: 248-63; Dunn, James, ‘Once More, PISTIS CRISTOU, reprinted IN: The Faith of Jesus Christ: The Narrative Substructure of Galatians 3:1–4:11 (Grand Rapids: Eerdmans, 2002); Silva, Moisés, ‘Faith versus Works of Law in Galatians’, in P.T. O’Brien, D.A. Carson and M.A. Seifrid (eds.), Justification and Variegated Nomism: Vol 2, The Paradoxes of Paul (Grand Rapids: Baker, 2004); Μatlock, R.B., ‘“Even the Demons Believe”: Paul and πιστίς Χριστοῦ” CBQ 64:2002; Hultgren, A., ‘The Pistis Christou Formulation in Paul’, NovT 22: 248-63 (1980); Porter, S.E., Pitts, A.W., “Πιστίς with a Preposition and Genitive Modifier: Lexical, Semantic, and Syntactic Considerations in the Πιστίς Χριστοῦ Discussion”, in Bird and Sprinkle (eds.) 2009: 33-53;

[4] Longenecker, Richard N. The Epistle to the Romans (New International Greek Testament Commentary). Macon, GA: Eerdmans, 2016;  Witherington, Ben, III, and Darlene Hyatt. Paul’s Letter to the Romans: A Socio-Rhetorical Commentary. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 2004; Wright, Tom. Paul for Everyone: Romans Part 1: Chapters 1-8. London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2004;  Morris, Leon. The Epistle to the Romans. The Pillar New Testament Commentary. Grand Rapids, MI; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press, 1988; Morris apesar de apresentar a possibilidade dessa leitura aqui, defende a mais improvável de todas elas: Que aqui Paulo pode estar defendendo as duas ideias ao mesmo tempo.

[5] Wallace, Daniel B. Greek Grammar Beyond the Basics: an Exegetical Syntax of the New Testament with Scripture, Subject, and Greek Word Indexes. Grand Rapids, Mich.: Zondervan, 1997; [favorece a leitura cristológica]; Zerwick, Max. Biblical Greek Illustrated by Examples. English ed., adapted from the fourth Latin ed. Vol. 114. Scripta Pontificii Instituti Biblici. Rome: Pontificio Istituto Biblico, 1963; [favorece a leitura cristológica]; Porter, Stanley E. Idioms of the Greek New Testament. Sheffield: JSOT, 1999; [dilema não resolvido]; Köstenberger, Andreas J., Benjamin L Merkle, and Robert L. Plummer. Going Deeper with New Testament Greek: an Intermediate Study of the Grammar and Syntax of the New Testament. Nashville, TN: B&H Academic, 2016 [dilema não resolvido]; Mathewson, David L., and Elodie Ballantine Emig. Intermediate Greek Grammar: Syntax for Students of the New Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2016; [dilema não resolvido]; Tanto Köstenberger, como Mathewson e Porter entendem que o dilema não pode ser decidido por questões gramaticais ou sintáticas apenas, mas que o contexto é quem tem primazia na decisão aqui. Em outras publicações, Porter assume a leitura antropológica (cf. Porter-Pitts, “Πιστίς with a Preposition and Genitive Modifier: Lexical, Semantic, and Syntac-tic Considerations in the πιστίς Χριστοῦ Discussion,” IN Bird and Sprinkle (eds.), Faith of Jesus Christ, The: Exegetical, Biblical, and Theological Studies 2009: 33-53.

[6]  Wright, N. T. Paul and the Faithfulness of God. 2 vols. Minneapolis: Fortress Press, 2013; Hays, Richard B. The Faith of Jesus Christ: the Narrative Substructure of Galatians 3:1-4:11. 2nd ed. Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 2002; Bird, Michael F., and Preston M. Sprinkle, eds. Faith of Jesus Christ, The: Exegetical, Biblical, and Theological Studies. Grand Rapids: Baker Academic, 2010; Longenecker, Richard N. Paul, Apostle of Liberty. 2 ed. Macon, GAe: Eerdmans, 2015; Wallis, I.G., The Faith of Jesus Christ in Early Christian Traditions (SNTSMS, 84; Cambridge: Cambridge University Press: 1995); Campbell, D.A., The Rhetoric of Righteousness in Romans 3.21-26 (JSNTSup, 65; Sheffield:JSOT Press, 1994); Campbell, D.A., The Quest for Paul’s Gospel: A Suggested Strategy (London: T & T Clark, 2005). Robert Jewett, Romans: A Commentary (Hermeneia; Minneapolis: Fortress, 2007), George Howard, “Faith: ‘Faith of Christ,’” ed. David Noel Freedman, The Anchor Yale Bible Dictionary (New York: Doubleday, 1992).

[7] G. Howard, “The ‘Faith of Christ’,” ExpTim 85 [1974]: 212-15; R. B. Hays, The Faith of Jesus Christ [SBLDS, 56: SBl, 1983]; Morna D. Hooker, “Πίστις Χριστοῦ,” NTS 35 [1989]: 321-42; Williams, S.K, ‘Again Pistis Christou’, CBQ 49: 431-47; M. Barth, “The Faith of the Messiah,” HeyJ 10:363-70;

[8] Considere também a discussão dessa categoria de genitivo nas seguintes gramáticas: Young, Richard A. Intermediate New Testament Greek: a Linguistic and Exegetical Approach. Nashville, Tenn.: B&H Academic, 1994, pp. 30-31; Blass, Friedrich, Albert Debrunner, and Robert Walter Funk. A Greek Grammar of the New Testament and Other Early Christian Literature. Chicago: University of Chicago Press, 1961, pp. 89-93; Robertson, A. T. A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research. Logos Bible Software, 2006; pp. 499-501; Moule, C. F. D. An Idiom Book of New Testament Greek. 2 ed. New York: Cambridge University Press, 1959; pp.39-40;

Publicado por Marcelo Berti

Bacharel em Missões pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia pelo Dallas Theological Seminary, Marcelo Berti é editor do Teologando e atualmente está iniciando um processo de plantação da Igreja Batista Fonte SP na cidade de São Paulo. É casado com a Gabriela Sachi e pai do Nathan e da Melissa.

3 comentários em “O Interessante Caso da Fé de Jesus

  1. Não sou teólogo, mas estudante da Palavra. Não vou apontar a questão gramatical pois não tenho competência. Mas vou pensar a partir da capacidade de escrita de Paulo. Eu escrevo poesias e gosto de usar palavras que tragam mais de um sentido para fazer um jogo intencional com elas…

    assim, será que cabe a pergunta: será Paulo quis exatamente permitir que os leitores interpretassem das duas formas? Pois, s.m.j., estas duas formas são profundas e bíblicas. É forçar a barra?

    A fé em Cristo salva, mas a salvação só é possível pois Jesus Cristo cumpriu o seu propósito, designado pelo Pai. Jesus foi tentado a não cumprir, mas foi fiel até o fim.

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