O Lugar da Mulher na Igreja


“Foram mulheres que choravam quando ele estava indo para a cruz, que o seguiam a caminho da cruz, e que estavam sentadas ao seu sepulcro quando ele foi enterrado. Foram mulheres as primeiras a vê-lo na manhã da ressurreição, e elas que primeiro anunciaram aos seus discípulos de que ele havia ressuscitado”

John Bunyan, The Pilgrim’s Progress (Harmondsworth: Penguin, 1965), 316

Eu não me lembro quantos anos eu tinha quando li pela primeira vez o livro “O Peregrino” escrito por John Bunyan. Me lembro, entretanto, que era uma versão ilustrada e bem antiga. Lembro-me também que meu pai havia me pedido para contar a história de Cristão em nossos devocionais durante o café da manhã antes de nos levar para a escola. Confesso também que não me lembro muito do enredo, afinal faz muitos anos que o li pela última vez (ainda na adolescência). Entretanto, a citação destacada acima é uma dentre tantas que me chamam a atenção no livro: Ao que parece, lendo os evangelhos Bunyan percebeu algo que chama a atenção dos cristãos e seus adversários desde os tempos mais antigos [1]: mulheres tiveram um lugar especial na morte, ressurreição e nas subsequentes aparições de Jesus.

Tal fato, de tão inusitado tornou-se amplo campo de debate em referência à sua significância para a história do Cristianismo. De um lado, alguns chegam a suspeitar da historicidade desses eventos, considerando os como apenas uma “lenda apologética” [2]. De outro lado, considerando que o testemunhos de mulheres era comumente tratado como sem confiabilidade, especialmente no judaísmo palestiniano do primeiro século da era cristã (cf. Jos, Ant 4.219)[3], alguns teólogos sugerem que seria altamente improvável que tal estória tenha sido inventada como algum tipo de propaganda religiosa [4]. Como de costume, as diferentes opiniões sobre o assunto demonstram o quanto o assunto é controvertido.

Mais recentemente, entretanto, o papel da mulher nas narrativas da ressurreição de Cristo encontrou um outro amplo local de debate, mais próximo do que pretendemos escrever nessa série de artigos: O lugar da mulher na igreja. De um lado, alguns autores encontram nesse fato uma demonstração de que o cristianismo mais primitivo entendia que as mulheres tinham autoridade para ensinar [5]. Por outro lado, outros passaram a afirmar que ainda que exista aqui algo historicamente inusitado, tal evento não tem qualquer relação com a questão do lugar da mulher na igreja[6]. O ponto é o seguinte: não importa por onde se comece responder a pergunta em questão, a saber, qual é o lugar da mulher na igreja, sempre existirá algum tipo de polarização histórica, teológica e até mesmo ideológica no modo como texto é lido, interpretado e aplicado.

E é exatamente isso o que acontece (em uma escala ainda maior) quando o assunto é 1Timóteo 2:9-15, em particular o verso 12: “Eu não permito que a mulher ensine ou tenha autoridade sobre homem“. É quase impossível ler algo sobre o lugar da mulher na igreja e não se deparar com algum tipo de proposta exegética, hermenêutica, teológica a respeito desse verso. Aliás, de tanto de tão acalorado o debate sobre o correto entendimento desse texto, eu diria que é quasi-impossível acompanhar o que se escreveu nos últimos anos sobre o lugar da mulher na igreja [7].

Ainda assim, tendo a clara consciência da impossibilidade de ser exaustivo na análise do texto e de suas referências acadêmicas, pretendo nessa série apresentar uma visão que seja ao mesmo tempo honesta com as diferentes opiniões sobre o assunto, como também honesta com as dificuldades encontradas na opinião defendida pelo autor. Busco também ser abrangente, sem ser exaustivo, profundo sem ser acadêmico, claro sem ser taxativo e convicto sem ser dogmático. No fim das contas, os artigos aqui apresentados representam minha tentativa de interpretar um dos texto mais complexos do Novo Testamento.

Proposta da Série

Mas, antes de fazer isso, permita-me demonstrar a proposta dessa série. Antes de mais nada, essa série de artigo é uma tentativa de dar minha contribuição para o tão conturbado tema do ministério feminino na igreja local (ver apresentação e índice de artigos aqui).

Na primeira parte dessa série de artigos, pretendo apresentar uma visão que busca ir além das discussões sobre machismo e feminismo na sociedade e na igreja. Em outras palavras, nessa série pretendo focar em como cristãos reformados e evangélicos podem ler as escrituras com critério e cuidado sem fazer da polarização do diálogo contemporâneo (feminismo vs. machismo) o critério primário da interpretação das escrituras. Também pretendo definir e demonstrar como as mais conhecidas opções teológicas sobre o assunto (complementarismo e o igualitarismo) tratam do lugar da mulher na igreja. Por fim, pretendo demonstrar outras alternativas hermenêuticas menos conhecidas e demonstrar como o assunto precisa ser lido com atenção exegética e sensibilidade cultural.

Na segunda parte, pretendo apresentar uma visão cultural e exegeticamente detalhada do texto de 1Tim 2:9-15. O primeiro artigo da segunda parte lida com questões culturais da cidade de Éfeso e como podemos relacionar o que conhecemos através do registro histórico com a primeira carta de Paulo a Timóteo. Tendo feito isso, trataremos com atenção o texto, enfatizando contextualmente expressões usadas por Paulo a respeito do lugar da mulher na igreja, a saber, μανθανέτω ἐν πάσῃ ὑποταγῇ (aprenda com toda submissão, v.12), διδάσκειν δὲ γυναικὶ οὐκ ἐπιτρέπω οὐδὲ αὐθεντεῖν ἀνδρός (não permito que a mulher ensine nem exerça autoridade sobre homem, v.13). Além disso, trataremos de duas questões teologicamente importantes nesse texto, o fundamento teológico para a exortação de Paulo (vv.13-14) e por fim, a salvação [proteção, livramento] da mulher (v.15).

Na terceira parte, pretendo demonstrar como a interpretação oferecida na segunda parte se harmoniza com o ensino das escrituras em outros lugares, respondendo perguntas especificas sobre o lugar da mulher na igreja primitiva, como por exemplo: (1) mulheres pode servir como diaconisas?; (2) podem ser missionárias?; (3) podem ser profetizas?; (4) podem ser pastoras? A intenção dessa parte é demonstrar a partir do Novo Testamento que é possível encontrar nos registros apostólicos uma Teologia Bíblica do ministério feminino e do seu lugar na igreja primitiva.

Por fim, na última parte, pretendo fazer algumas reflexões pastorais contemporâneas considerando o que apresentamos sobre o Texto e a Teologia Bíblica do ministério feminino na igreja primitiva. A ideia é oferecer uma visão que seja ao mesmo tempo bíblica (partes 2-3) e contemporânea (parte 4) para o ministério feminino na igreja local nos nossos dias. Como nota-se claramente, essa é uma série oportuna para um momento oportuno.[8]

Ponto de Vista da Série

Agora, antes que o leitor interaja com os artigos da série, é fundamental que ele saiba que está lendo uma série de artigos de perspectiva complementarista[9]. Em outras palavras, essa não é uma série que busca descobrir qual das muitas opções sobre o assunto melhor interpreta o texto das escrituras, mas é uma série que apresenta a opinião que o autor tem sobre as escrituras. Essa é uma série escrita por alguém acampado entre os complementaristas, mas que busca com todo esforço não fazer de sua conclusão o ponto de partida de suas análises. Em outras palavras, nessa série de artigos pretendo demonstrar que o complementarismo oferece uma boa leitura das escrituras e pode oferecer uma boa plataforma para a reflexão e execução do ministério feminino na igreja local.

Além disso, com essa série pretendo contribuir para a reflexão exegética, teológica e pastoral de um assunto que é tão importante para nosso momento histórico. Pretendo oferecer uma honesta reflexão dos dados que tenho ao meu alcance de modo claro e para o bem do reino. Alias, gostaria de iniciar essa série seguindo o modelo proposto por Craig Blomberg:

“O debate sobre as funções do homem e da mulher no ministério é um dos mais voláteis da igreja cristã nos nossos dias. Isso não é nem um pouco surpreendente, afinal o senso de identidade, chamado, vocação e serviço das pessoas está profundamente envolvido com a questão. Não escrevo o que escrevo para agradar a qualquer campo identificável dentro do cristianismo, ou porque foi com essa visão que cresci (não é – fui criado em uma denominação protestante igualitária), mas porque o estudo repetido e intenso desse debate por mais de vinte e cinco anos me convenceu de que minha posição é a síntese mais responsável de todos textos relevantes. Ao mesmo tempo, reconheço que eruditos igualmente piedosos e comprometidos com a inerrância da Bíblia chegam a conclusões diferentes devido à complexidade dos dados. Não há lugar legítimo neste debate para impugnar colegas evangélicos que diferem entre si usando os rótulos pejorativos de ‘liberal’ ou ‘fundamentalista’, simplesmente por causa de suas opiniões sobre esse tópico. Todos nós que falamos e escrevemos sobre a relação entre gênero e função eclesiástica faríamos bem em começar e terminar todos os discursos com as advertências: “Eu posso estar errado” e: “Eu respeito o direito dos companheiros evangélicos e igrejas evangélicas de chegar a conclusões diferentes, e eu cooperaria com eles em vez de combatê-los [nesse assunto] pela causa maior de Cristo e seu reino, que precisa desesperadamente de tal unidade

Craig Blooberg, “Women in Ministry: A Complementarian Perspective” in Stanley N. Gundry and James R. Beck. Two Views on Women in Ministry. Counterpoints: Bible and Theology. (Grand Rapids: Zondervan, 2005) Kindle Edition.

Em outras palavras, escrevo nessa série o que escrevo porque acredito ser a melhor síntese dos textos relevantes, em particular 1Timóteo 2:9-15. Mas também reconheço: posso estar errado.


NOTAS

[1] Orígenes no seu livro Contra Celso, apresenta várias críticas feitas por Celso às narrativas dos evangelhos, em particular quando introduz o testemunho de ‘Maria Madalena’: “E desacreditando a narrativa de Maria Madalena, que é descrita como tendo-O visto, ele responde: ‘Uma mulher meio frenética, como você afirma.’ E como ela não é a única pessoa descrita como alguém que viu o Salvador após Sua ressurreição, mas outros também são mencionados, Celso calunia essas declarações também ao acrescentar: ‘E mais alguém entre os que estão envolvidos no mesmo sistema de engano!‘” (Orig, Cels. 2.59).

[2] Rudolf Bultmann, The History of the Synoptic Tradition (Oxford: Blackwell, 1968), 290; ver também Martin Dibelius, From Tradition to Gospel (London: Nicholson and Watson, 1934), 190.

[3] Sobre a validade do testemunho legal de uma mulher, Josefo diz: “Que nenhuma evidência seja aceita, em função da leviandade e imprudência do seu sexo” (Ant. 4.19).

[4] Grant Osborne, “Jesus’ Empty Tomb and His Appearance in Jerusalem”, Darrell Bock and Robert Webb, Key Events in the Life of the Historical Jesus, 785-88; Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitness (Grand Rapdis: Eerdmans, 2006), 48-51; ver também Edward E. Bode, The First Easter Morning (Rome: Biblical Institute Press, 1970), 157-58; Gerald O’Collins, The Resurrection of Jesus Christ (Valley Forge: Judson, 1973)

[5] John. Dominic Crossan, The Historical Jesus (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1991), 341–44; ver também Elisabeth Schüssler Fioreza, Discipleship of Equals (New York: Corssroad, 1993), 78.

[6] Craig Bloomberg, “Woman in Ministry: Complementarian Perspective”, Stanley N. Gundry and James R. Beck. Two Views on Women in Ministry (Grand Rapids: Zondervan, 2005 Kindle Edition).

[7] Por exemplo, entre aqueles que defendem uma visão mais restrita do ministério feminino na igreja, também conhecidos como complementaristas, eu destacaria aqui alguns dos muitos livros escritos sobre o assunto: Women in the Church (Grand Rapids: Baker Academic, 2005) editado por Köstenberger e Schreiner, que trata diferentes elementos da exegese e hermenêutica do texto em 5 capítulos, tem um capítulo adicional para uma reflexão feminina sobre o papel da mulher na igreja escrita por Dorothy Patterson. Além desse, também lembro dos livros Discovering Biblical Manhood and Womanhood (Wheaton: Crossway, 2006) editado por Piper e Grudem , Women and Men in Ministry (Chicago: Moody, 2001) editado por Saucy e Tenelshof; Evangelical Feminism and Biblical Truth (Sisters: Multmonah, 2004) escrito por Wayne Grudem. Considerando aqueles que não teriam restrições com nenhum tipo de ministério feminino, também conhecidos como igualitaristas, destaco os seguintes livros: Discovering Biblical Equality (Downers Grove: IVP, 2005) editado por Pierce e Groothuis; Women, Ministry and the Gospel (Downers Grove: IVP Academic, 2007), editado por Husbands and Larsen; Men and Women in the Church (Downers Grove: IVP, 2003) escrito por Sarah Sumner; Slaves, Women and Homosexuals (Downers Grove: IVP Academic, 2001) escrito por William Webb; Gospel Women (Grand Rapids: Eerdmans, 2002) escrito por Richard Bauckham. Lembro também do diferentão Recovering Biblical Ministry by Women (XulonPress: 2003) editado por Winston e Winston que tenta ser diferente a ambos complementaristas e igualitaristas. Além dos livros citados, devemos lembrar da miríade de artigos publicados nos mais diferentes tipos de jornais de teologia, dos quais alguns poucos se farão presentes nessa série de artigos no Teologando.

[8] Como o Teologando é nada mais que um hobbie do seu autor, os artigos não serão produzidos para publicação às pressas, mas serão escritos à medida que a rotina familiar, pastoral e pessoal do autor lhe permitirem. Ao término, entretanto, teremos algo que sintetiza a minha visão sobre o assunto e como pretendo usá-lo na Fonte São Paulo.

[9] Os títulos complementarista e igualitarista não descrevem conceitos estáticos nem claramente definidos. Como vamos demonstrar nos artigos dessa série, ambos os termos carregam um grande espectro de opiniões distintas. Por isso, ao descrever autores como complementaristas ou igualitaristas nessa série, levaremos em conta o título teológico escolhido pelo autor/teólogo e não o ‘rótulo teológico‘ que lhe é imposto por seus opositores. Ou seja, se um autor denomina-se complementarista, mas é descrito como um igualitarista por um ‘complementarista mais conservador‘, nessa série optarei por descrever o autor pelo título de sua preferência; e vice versa. Tendo dito isso, é bem possível (e talvez esperado) que existam complementaristas mais conservadores do que eu que optariam por um rótulo distinto ao de complementarista à opinião apresentada nessa série.

Publicado por Marcelo Berti

Bacharel em Missões pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia pelo Dallas Theological Seminary, Marcelo Berti é editor do Teologando e atualmente está iniciando um processo de plantação da Igreja Batista Fonte SP na cidade de São Paulo. É casado com a Gabriela Sachi e pai do Nathan e da Melissa.

5 comentários em “O Lugar da Mulher na Igreja

  1. Pastor, excelente proposta. Estarei acompanhando os seus artigos.

    Gostaria de saber por acaso, tem algum estudo ou artigo sobre o texto de 1Pe 3.7 sobre a mulher ser o vaso mais frágil.

    Desde já agradeço pela atenção.

    Fraternalmente em Cristo,

    Luiz Cláudio dos Santos

    1. Essa série é voltada para a diferentes abordagens hermenêuticas relacionadas a 1Tim 2:8-11. Depois de apresentar algumas dessas abordagens, vou apresentar a minha interpretação do texto para por fim oferecer algumas orientações pastorais sobre o assunto. Não pretendo, por outro lado, tratar do assunto de perspectiva denominacional.

Comentários encerrados.

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