Início da Jornada


Leitura BíblicaMarcos 1.1-20


“Do mesmo modo que Marcos quis enfatizar que o evangelho é centrado no sofrimento de Jesus pelos outros, ele também quis corrigir a noção do discipulado como uma vida fácil e triunfante. Não há apenas uma profunda teologia do evangelho neste livro, mas também uma profunda compreensão da vida cristã” – Larry Hurtado

Eu ainda me lembro a alegria que senti quando entendi o evangelho pela primeira vez. Eu era apenas uma criança na escola bíblica ouvindo um seminarista apresentar a história do evangelho com um antigo livro infantil. E foi naquela manhã fria e ensolarada de domingo que eu finalmente entendi que era incapaz de salvar a minha própria vida.  Confesso que a princípio senti um certo medo ao compreender a minha própria incapacidade. Mas quando entendi a suficiência do sacrifício de Cristo por mim, meu coração foi tomado por uma alegria que eu não saberia explicar.

Mas, eu era apenas uma criança. Eu não tinha clareza das implicações da decisão que tinha tomado. Eu não sabia o quanto isso me custaria. Foi apenas mais tarde, com mais entendimento e conhecimento que passei a compreender que o chamado de Cristo, incluía também uma comissão, e que essa comissão também teria os seus custos.

E lendo o Evangelho de Marcos, tenho a impressão que os discípulos de Jesus passaram por um processo semelhante. Eles prontamente decidem seguir a Jesus quando ouviram o seu chamado (1:16-20), mas eles demoram todo o livro para finalmente entender quem Jesus de fato era (8:29), qual era a sua missão (9:31) e o que Ele esperava dos seus seguidores (14:28; 16:7). Deve ser por isso que Marcos inicia seu evangelho a sugerir de maneira sutil que a vida do discipulado é marcada pela alegria do chamado, pelo privilégio da comissão, e pelos custos da vida do discipulado.

Alegria do Chamado

Ao apresentar o chamado de João, Jesus e dos Discípulos, Marcos consistente demonstra a presença da voz divina iniciando o chamado de cada um deles. A voz do Espírito Santo é ouvida no uso que Marcos faz das escrituras ao apresentar o chamado de João: “Conforme está escrito em Isaías, o profeta: Eis que estou enviando diante de ti o meu mensageiro, que prepara o teu caminho” (1:2). A voz do Pai é ouvida no chamado de Cristo quando Ele sai das águas após seu batismo: “Tú és o meu filho amado em quem eu me deleito” (1:11). E a voz de Cristo é ouvida quando Marcos descreve o chamado dos discípulos: “Sigam-me!” (1:17). Ao que parece Marcos sugere que o chamado para a vida do discipulado tem o seu começo na iniciativa divina. Deus é soberano em fazer sua voz ser ouvida na vida daqueles a quem Ele convida para viver com Ele.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo e com você quando finalmente entendemos a mensagem do evangelho. A voz divina foi ouvida e nossa vida foi inundada pela alegria da nossa salvação. Não estamos mais perdidos e sem direção, fomos encontrados e resgatados por um Deus amoroso. Não somos mais escravos dos nossos pecados, mas fomos libertos por Cristo para uma nova vida. Nós fomos chamados para estar com Cristo e viver para Deus.

Privilégio da Comissão

Mas é também interessante notar que Marcos também demonstra que cada um dos personagens apresentados na introdução do seu evangelho, não são apenas chamados, eles são também comissionados. João Batista, por exemplo, é descrito como aquele que no deserto “preparará o caminho para o Senhor” (1:2), Ele é também descrito como aquele que pregar “o batismo de arrependimento para remissão dos pecados” (1:3). Ou seja, como precursor do Messias, João batista prepararia o caminho para Ele pregando sobre o batismo de arrependimento.

Similarmente, Marcos nos conta que Jesus também foi comissionado para uma missão: “Jesus foi para Galiléia para pregar o evangelho de Deus” (1:14) De acordo com Marcos, essa era a sua mensagem: “O tempo é chegado, e o Reino de Deus está às portas. Arrependam-se e creiam no evangelho!” (1:15). Como era de se esperar, os discípulos são também comissionados nesse texto: “Sigam-me! E eu os farei pescadores de homens” (1:17). Ou seja, João foi comissionado a pregar; Jesus foi comissionado a pregar; os discípulos foram comissionados para pregar.

Ao colocar a história desses três personagens no início do seu evangelho, Marcos nos ensina que a vida do discipulado é mais do que somente a alegria do chamado. A bem da verdade, a vida do discipulado também inclui o privilégio da comissão para pregar o evangelho. Como João, Jesus e os discípulos, nós também temos a responsabilidade de pregar o evangelho, de sermos pescadores de homens. Como discípulos do nosso Mestre, devemos seguir os seus passos e abraçar o privilégio da nossa comissão.

Custos da Comissão

Mas isso não significa que tudo será simples, fácil e triunfante. Aliás, Marcos sutilmente parece apontar para outra direção. De modo quase despercebido, Marcos demonstra que João Batista, o profeta chamado e comissionado por Deus, enfrentaria dias difíceis. Sem muitos detalhes, Marcos apenas anuncia que João teria sido preso (1:14). O termo usado aqui dá a ideia de que João teria sido entregue às autoridades. É verdade que Marcos volta a contar como a história se desenrolou mais a frente no evangelho e como João veio a morrer (cf. 6:16-29), mas por enquanto tudo o que sabemos é que aquele que fora chamado e comissionado, enfrenta aqui os custos de uma vida dedicada a Deus.

Mais interessante, é que esse mesmo termo usado para descrever a prisão de João, é usado por Marcos para descrever a “entrega” de Jesus às autoridades: “O Filho do Homem será traído e entregue nas mãos dos homens” (9:31). Nós que conhecemos a história de Jesus, sabemos exatamente onde a história dele vai terminar (cf. 15:33-39). Ele que é o Filho Amado em que Deus se deleita; Ele que foi comissionado para pregar o evangelho de Deus; Ele mesmo, será traído, abandonado e entregue às autoridades, e então, será Ele morto. Em outras palavras, tanto o precursor do Messias, quanto próprio Messias são enfrentariam uma vida de sofrimento que os levou a morte.

O que nos salta aos olhos, entretanto, é que Marcos é completamente silente ao descrever o custo que os discípulos teriam a enfrentar. Ao que parece, o autor preferiu escrever um livro inteiro para demonstrar quais são os custos de se seguir a Cristo. Em outras palavras, ao invés de escrever de modo direto, Marcos optou por uma rota mais sutil. É como se ele dissesse: “O sofrimento virá. Os custos virão. Continuem lendo”.

É aqui que começamos a nos perguntar: E o que isso tem a ver conosco? E a resposta é simples: Tudo! Lendo o início do Evangelho de Marcos aprendemos sobre a alegria do nosso chamado e do privilégio da nossa comissão, mas também aprendemos que seguir os passos de Jesus significa assumir riscos e dificuldades, e que em última análise pode custar nossas vidas. De modo bem sutil, Marcos está nos ensinando aquilo que o nosso próprio Senhor já nos ensinou em outro lugar: “Se alguém quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa e pelo evangelho a salvará” (Mc 8:34-35).

É bem possível que você se lembre do dia em que você ouviu a voz de Deus e finalmente entendeu o evangelho. E talvez, sua memória, como a minha, seja marcada pela alegria de compreender a suficiência do sacrifício de Cristo por você. Mas, se Marcos nos ensina alguma coisa, é que isso é apenas o começo de uma jornada que durará toda a nossa vida. É por isso que Marcos nos convida a uma jornada literária guiada por ele, onde vamos aprender com mais clareza o que significa seguir a Cristo. E nesse Evangelho, vamos observar que a missão que o nosso Senhor nos delegou tem seus custos e eles são altos. Você está preparado para enfrentar essa jornada comigo?


Veja também o vídeo dessa mensagem:

Publicado por Marcelo Berti

Bacharel em Missões pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia pelo Dallas Theological Seminary, Marcelo Berti é editor do Teologando e atualmente está iniciando um processo de plantação da Igreja Batista Fonte SP na cidade de São Paulo. É casado com a Gabriela Sachi e pai do Nathan e da Melissa.

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