Onde está a tua lealdade?


Nos últimos anos temos visto em nosso país uma grande polarização política tomar conta das mídias sociais. Pessoas de todos os lugares tem usado esses aplicativos como plataforma de discurso político, seja para criticar a oposição, seja para defender sua posição. Cada lado tem seus ‘gurus’ e todos tem suas lealdades bem definidas.

Entretanto, diferente do que acontecia a alguns anos, a igreja evangélica brasileira tem crescido em sua influência política, e pessoas importantes do meio evangélico tem estrategicamente nos ajudado a pensar e refletir sobre o assunto de uma perspectiva cristã. Infelizmente, essa iniciativa inicialmente positiva nem sempre tem colhido efeito esperados.

A bem da verdade, a polarização política que divide o país aos poucos tem encontrado seu caminho para dentro das nossas comunidade. E para piorar, cristãos agora munidos das opiniões dos seus ‘gurus políticos evangélicos’ tem usado suas preferências políticas como critério para descrever a ortodoxia e definir a catolicidade da fé. E como consequência, tem criado um ambiente contraproducente para nossa identidade e missão. 

O resultado não desejado desse novo modelo de participação política é que alguns dos nossos irmãos em Cristo tem perdido sua perspectiva do que realmente importa, e com isso, a lealdade de alguns tem aos poucos mudado do Reino de Cristo para o reino de suas preferências políticas. 

Por isso, acredito que é hora de voltarmos nossos olhos aos discípulos de Cristo e aprender com eles o que significa pertencer ao grupo de discípulos. Falo isso, porque quando olho para o grupo de homens que Cristo escolheu para si, vejo que a diversidade desse grupo (Mc 3:13-19//Mt 10:1-4//Lc 6:12-16) pode nos ensinar alguns princípios que precisamos urgentemente relembrar em nossos dias.

(1) A Lealdade a Cristo era maior que a Lealdade ao Mercado

No grupo de discípulos de Cristo encontramos quatro pessoas que sabemos eram empresários, Simão, André, Tiago e André. Diferente do que normalmente pensamos,  o mercado da pescaria na Galiléia nos dias de Cristo era um negócio próspero. Ao que parece Pedro tinha seu próprio barco (Lc 5:3b) e era sócio de Tiago e João (Lc 5:10). Juntos eles tinham eles tinham barcos (Lc 5:2-3a) e funcionários contratados para viabilizar o negócio (Mc 1:20; Lc 5:7). 

Entretanto, quando eles tiveram seu encontro com Cristo suas vidas foram transformadas. Ao ouvir o convite do Mestre eles deixam tudo para trás (Mc 1:20//Mt 4:22//Lc 5:11). Enquanto Mateus enfatiza uma a família (Mt 4:22), Lucas enfatiza os barcos e os negócios (Lc 5:11). Mas Marcos descreve a cena de modo muito claro: “Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com seus empregados, seguiram após Jesus” (Mc 1:20). As vezes eu tenho a impressão que os ensinos de Jesus sobre riquezas eram difíceis para Pedro digerir (Mc 10:23-31//Mt19:23-30//Lc 18:24-30). Deve ser por isso, que é ele que reage (Mc 10:28//Mt 19:27//Lc 18:28) diante da constatação de Jesus que ricos dificilmente entrariam no Reino (Mc 10:23//Mt 19:23//Lc 18:24). Ele sabia o que era ser rico. Por outro lado, eu acredito que diante da grandeza de Cristo, a lealdade de Pedro e de seus parceiros estava com Cristo e não com o mercado. Os negócios não importavam mais que Cristo. Nada era mais importante do que seguir a Cristo. 

(2) A Lealdade a Cristo era maior que a Lealdade ao Estado

Entre os discípulos de Cristo existia uma figura muito interessante: ele era conhecido como Simão o Zelote. Esse Simão, diferente de Pedro, não era um empresário, ele era nacionalista. Os ‘zelotes’ eram um grupo que primava pelo zelo religioso com causas sociais e econômicas. Ainda que o movimento não tivesse sido organizado de modo bélico (o que acontece pouco depois 66 EC) o sentimento nacionalista, pró-Israel e anti-Império era palpável nos dias de Cristo. Esses eram aqueles que rejeitavam as influências helênicas feitas pelo Império Romano e acreditavam que deveriam manter Israel livre de tal imperialismo. Eles queriam não apenas a liberdade do estado do Israel do domínio do Império, eles queriam liberdade cultural.

Entretanto, quando convidado para estar com Cristo, Simão o nacionalista era apenas um seguidor de Cristo. Nos evangelho ele aparece com os discípulos aos pés de Jesus aprendendo com seu ensino e servindo lado a lado com eles. As vezes eu imagino o quão deslocado ele deve ter ficado ao aprender de Cristo sobre o conceito da não resistência (Mt 5:38-39//Lc 6:29-30). A mensagem de Cristo era incompatível com sua visão política (e provavelmente incompatível com sua expectativa messiânica), e ainda assim, nós vemos que ele era tão parte do grupo de discípulos como seu homônimo mais conhecido. Ou seja, embora tivesse uma visão política nacionalista, Simão demonstra que sua lealdade estava com Cristo e com seu Reino. 

(3) A Lealdade a Cristo era maior que a Lealdade a Si Mesmo

Diferente dos outros dois grupos, existia entre os discípulos de Cristo alguém cuja lealdade estava claramente consigo mesmo. Mateus era um publicano. Para ele nem o mercado nem o estado importavam. O que realmente importava para ele era o o seu ‘sucesso financeiro’, e para isso, ele estava disposto a trair a ambos o nacionalista e o empresário para vender-se ao Império e funcionar como alguém que poderia extorquir seus compatriotas em serviço a Roma (cf. Lc 19:8). Esses cobradores de impostos eram religiosa (Mc 2:15, Mt 9:10, Lc 7:34), etnica (Mt 5:46; 18:17)  e moralmente (Mt 21:31) desqualificados nos dias de Jesus. Nos escritos rabínicos posteriores, eram classificados ao lado dos ladrões, assassinos e pecadores (M.Torar 7.6; mB.Qam 10.2; m.Ned 3.4) e pessoas indignas para negócios (b.Sanh 25b). A única razão para alguém aceitar tal repressão social era a oportunidade de ganho financeiro. A pessoa que aceitava esse tipo de trabalho tinha sua lealdade a si mesmo acima de qualquer coisa.

Entretanto, quando Levi ouviu o chamado de Cristo, ele deixou tudo para trás para seguir a Cristo (Mc 2:13-14//Mt 9:9//Lc 5:27). Para alguém cuja lealdade estava consigo mesmo, não deve ter sido fácil para Levi ouvir o ensino de Cristo sobre a lealdade exclusiva a Ele: “Quem não está comigo, está contra mim, e quem comigo não ajunta, espalha” (Lc 11:14//Mt 12:30). Mas, ao que parece, diante da grandeza de Cristo, Levi resolveu abrir mão de sua lealdade a si mesmo para seguir a Cristo.

Em outras palavras, quando esses empresários, nacionalistas e individualistas encontraram pessoalmente a Jesus, eles abandoaram a suas lealdades e preferências para seguir a Cristo juntos. A mensagem de Cristo era pesada e contrária a todos eles, mas a medida que aprendiam a negar a eles mesmo, ele entendiam o que significava carregar diariamente a cruz. Com o tempo, eles puderam aprender que seguir a Cristo significava abrir mão de suas preferências e antigas lealdades. Como resultado, vemos que a lealdade deles a Cristo torna-se tão fundamental para eles que suas causas pessoais e preferências políticas já não eram mais tão importantes. Para eles, seguir a Cristo tornou-se mais importante do que qualquer outra causa.

Mas, devemos também nos lembrar que a lista de discípulos de Cristo termina com uma nota sombria. Judas, o último discípulo listado nos evangelhos, é reconhecido como o traidor. Esse homem foi chamado para estar com Cristo e foi enviado por Ele para pregar (Mc 3:14). Mas, ao que parece, sua lealdade nunca esteve de fato com Cristo, afinal ele tem um caso de lealdade com o dinheiro, e em função disso, rouba os discípulos (Jo 12:5-6) e vende o Mestre (Mc 14:10-11//Mt 26:14-16//Lc 22:3-6). Sua lealdade dividida acabou o levando não apenas ao fracasso e abandono de Jesus, mas também ao abandono da fé e da vida (Mt 27:3-10). Ao que aprece, sua lealdade dividida no fim das contas era uma evidência de que ele mesmo nunca pertenceu ao grupo de discípulos de Cristo (Jo 6:70-71). Em outras palavras, a lealdade dividida além de indesejada tem um fim mortal.

Por isso, considerando o que vejo no grupo de discípulos de Cristo, a pergunta que eu faço a vocês não é: “Qual é a sua preferência política?” A minha pergunta é: “Onde está a sua lealdade?”. 

Publicado por Marcelo Berti

Bacharel em Missões pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia pelo Dallas Theological Seminary, Marcelo Berti é editor do Teologando e atualmente está iniciando um processo de plantação da Igreja Batista Fonte SP na cidade de São Paulo. É casado com a Gabriela Sachi e pai do Nathan e da Melissa.

Um comentário em “Onde está a tua lealdade?

  1. Olá, fraternais saudações Solicito, gentilmente, que em meus assentamentos seja alterado meu endereço de e-mail para :

    aricm31@icloud.com

    O do Yahoo será desativado.

    Por gentileza, acuse o recebimento desta. Antecipadamente fico agradecido Att- Ari Costa Melo

    >

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