Marcos e a Redenção da Multidão


Marcos enquanto autor é uma figura interessante. O livro como um todo é uma mistura muito interessante de simplicidade linguistica e profundada artística. As vezes me assusta o modo como essas duas características são entrelaçadas nesse evangelho.

Por um lado, quando nos debruçamos sobre o texto de Marcos percebemos o quanto o autor é direto. As ênfases teológicas, bem como a direção histórica da narrativa são claramente apresentadas com uma linguagem simples e direta. De tão simples, Marcos é frequente citado entre os autores com o menor domínio literário da lingua grega. O recorrente e indiscriminado uso de καἰ (conj. coordenada) e o quase “insuportável” uso de ευθυς (adv. temp.), são duas das muitas características quasi crassas do uso do grego koine por Marcos. 

Por outro lado, quem quer que se dedique a observar a retórica do autor, ficará encantado com sua sutileza artística. O modo como o autor organiza as estórias de Jesus demonstra uma criatividade literária digna de reconhecimento. Marcos é sem sombra de dúvidas um editor do material de Jesus que tinha disponível, e sua edição é feita com maestria. Tal maestria é principalmente percebida em sua sutileza retórica, como por exemplo a apresentação comparativa de personagens, o contraste de atitudes e emoções dos personagens, em particular Jesus. Marcos é literariamente brilhante.

E entre essas duas características, o autor apresenta a “multidão” como um personagem coletivo em sua história de modo muito interessante.

O Crescimento da Multidão

A medida que Marcos nos conta a estória de Jesus, aos poucos ele nos apresenta seus personagens principais. Jesus é apresentado no primeiro verso, mas a primeira personagem a ser desenvolvida é João Batista seu precursor (1:2-6). Ao apresentá-lo, sutilmente descreve uma “multidão” de numerosas pessoas de modo hiperbólico, contudo, sem usar o termo “multidão”: πᾶσα ἡ Ἰουδαία χώρα καὶ οἱ Ἱεροσολυμῖται πάντες (v.5) Nessa sentença, a expressão πᾶσα ἡ Ἰουδαία (päsa he Ioudaía lit. toda Judeia) é uma sinédoque usada para descrever pessoas de toda a região da Judéia, do mesmo modo que  οἱ Ἱεροσολυμῖται πάντες (hoi Ierosolumïtai tantas – lit. todos os israelitas), sugere pessoas de toda parte de Israel. Ou seja, ainda que o termo multidão não seja usado, e a linguagem pudesse ser mais específica, o ponto é simples e direto: João recebia uma multidão de seguidores.

Entretanto, ao descrever a estória de Jesus, Marcos sutilmente demonstra que o ministério de Jesus, embora tenha iniciado desprovido de influência, cresce a ponto de atrair uma multidão de pessoas. Em primeiro lugar, embora seja descrito como alguém mais poderoso que João Batista, ele é apresentado como um seguidor do mesmo (v.7; ὀπίσω μου; cf. 1:17; 8:33-34), e por ele é batizado (1:1:9-11). Aliás, antes de qualquer ministério (cf. ευθυς), Jesus é levado pelo ES para o deserto, onde Ele não teve contato com ninguém (1:12-13). Posteriormente, Jesus é descrito como pregando o evangelho do Reino (1:14-15), mas nós não somos informados a quem ele fazia isso. Aliás, a primeira referência de influência de Jesus é vista nos primeiros discípulos que Ele convida para o seguirem (1:16-19), homens que imediatamente o seguem (cf. ευθυς; vv. 18, 20).

É a partir desse momento em sua apresentação do ministério de Cristo que Marcos passa a demonstrar a crescente influência de Jesus entre as pessoas. De acordo com sua narrativa, a influência de Jesus se inicia em uma desconhecida sinagoga em Cafarnaum (1:21; cf. ευθυς), onde as pessoas presentes ficam maravilhadas com seu ensino (1:22). Depois de realizar um exorcismos (1:23; cf. ευθυς), entretanto, percebemos que a fama de Jesus rapidamente ultrapassa a Cafarnaum e chega a cidades circunvizinhas (1:28cf. ευθυς). De repente, nós vemos que todos os doentes e endemoninhados eram trazidos para ele (cf. uso de πάντας, pantas; 1:32), de tal modo que toda a cidade estava à porta da casa da sogra de Pedro (ἦν ὅλη ἡ πόλις; en holë hé pólis; 1:32). Mais uma vez, usando uma figura de linguagem, Marcos demonstra que pessoas de toda a cidade o procuravam para receber dele alguma coisa.

E a partir daqui, esse grande número de pessoas começa a crescer no evangelho, de tal forma que Marcos nos conta que καὶ ἤρχοντο πρὸς αὐτὸν πάντοθεν. (kai ērchonto pros auton pantothen – lit e vinha até ele de todos os lados). Novamente, usando a sinédoque novamente, Marcos descreve que pessoas de todos os lados vinham ter com Jesus.

E aqui vemos pela primeira vez Jesus ultrapassando em influência a João Batista. Enquanto pessoas de toda Judéia e Jerusalém vinham até ele no deserto, pessoas de todos os lugares vinham até Jesus. Aliás, as pessoas iam até João Batista no deserto (ἐν τῇ ἐρήμῳ – en tē erēmō; 1:4), do mesmo modo que iam até Jesus em regiões desérticas (ἐπ᾿ ἐρήμοις τόποις – ep᾿ erēmois topois; 1:45).

E ao que parece, esse grupo de pessoas que afluía até Jesus cresceu a tal ponto de ser chamada de multidão (ὄχλος – ochlos; 2:4). E agora, Marcos faz com que essa multidão vá até Jesus o acompanhando o desenvolvimento de sua narrativa (cf. 2:13), até ao ponto que a mesma é chamada de grande multidão (πολὺ πλῆθος – poly plēthos; 3:7, 8). E agora, esse grande aglomerado de pessoas é descrita com vinda “da Judeia, de Jerusalém, da Iduméia e das regiões dalém do Jordão e dos arredores de Tiro e Sidom” (3:8). Novamente, a linguagem de Marcos poderia ser melhor (esp. 3:7-8), mas o ponto é novamente claro: A influência de Jesus crescia a medida que as pessoas ouviam a respeito daquilo que ele fazia (cf. 1:28; 32-33; 45; 3:8).

Mas, é interessante notar que tal crescimento da multidão não é apresentada por Marcos como algo positivo. Na verdade, a multidão é descrita de modo negativo. Ao que parece, a multidão quer algo de Cristo e o procura porque tinha ouvido “a respeito de tudo o que Ele estava fazendo” (3:8). A fama de Jesus se espalhava, mas não baseado no que ele ensinava, muito menos na declaração de missão de Jesus. A bem da verdade, eram suas curas e exorcismos que o tornavam famoso (1:27; cf 1:24, 41-42), e por isso as pessoas se apertavam só para encostar nele e dele receber o que queriam: “Pois Ele havia curado a muitos, de modo que todos os que sofriam de doenças ficavam se empurrando para conseguir tocar nele” (3:10). Eles não queriam a Jesus, nem ouvir o que ele tinha a ensinar. Eles queriam usar a Jesus.

Em outras palavras, a motivação da multidão em ir até Jesus tem pouco a ver com quem Ele era. A bem da verdade, para multidão faz pouquíssima diferença quem ele é, o que realmente importa é o que Ele estava fazendo. Ele era um milagreiro famoso e isso era suficiente para a multidão. A multidão não quer a Cristo, ela quer algo Dele. Eles não querem estar com Cristo, eles querem usar a Cristo. Além disso, a multidão não vai até Jesus por causa do seu ensino (cf. 1:21-22; 32-34; 45; 3:10), a multidão vai até Ele em busca de seus próprios interesses. 

Aliás, essa multidão é apresentada por Marcos com uma sutil nota de desgosto. Ao descrever a multidão se aproximando de Jesus, nosso autor usa um jogo de palavras muito interessante: Enquanto a multidão jogava-se sobre Jesus (ἐπιπίπτω – epipiptō; 3:9) os demônios jogavam-se diante dele (προσπίπτω – prospiptō; 3:11). Ainda que a atitude dos espíritos imundos seja completamente desprovida de adoração, ela pelo menos era marcada pelo reconhecimento da autoridade de quem Jesus Cristo realmente é. Agora, a atitude da multidão é realmente desprezível: não apenas era uma ação desprovida de adoração, era uma ação desprovida de respeito e reconhecimento da autoridade de quem Jesus realmente era. Em outras palavras, a multidão portava-se pior que os demônios.

Multidão dos Discípulos

É verdade que historicamente, a multidão que andava perto de Jesus incluísse pessoas com diferentes motivações, mas na estória narrada por Marcos, até aqui a multidão era má. Mas, isso não significa que a “multidão” não possa ser redimida, isto é, literariamente redimida.

Chama a atenção que o próximo uso do termo multidão usada por Marcos aconteça dentro da casa de Simão (3:20; cf. 1:29; 2:1). Na narrativa, Jesus tem um embate com escribas de Jerusalém e demonstra que os mesmos estavam equivocados sobre seu ministério de exorcismo. E naquele mesmo momento, a mãe e os irmãos de Jesus aparecem à porta da casa, e ficam do lado de fora. Ao que parece, existia uma multidão na casa (3:32; cf. 2:4), de tal modo que não conseguiam entrar para falar com Jesus. Entretanto, ao invés de procurarem uma alternativa para chegar até Ele, como fizeram os amigos do paralíticos movidos por fé (2:4), os familiares o “convocam” a Jesus para o lado de fora. Diferente dos amigos do paralítico, descritos como aqueles que tem  sua fé percebida por Cristo, os familiares manifestam seu repúdio (cf. 3:21) e falta de fé. 

Agora, a multidão (ὄχλος – ochlos; 3:32) é novamente apresentada na narrativa de Marcos. Mas dessa vez, ela não é descrito como indo até Jesus, mas é descrita como estando com Ele: τοὺς περὶ αὐτὸν κύκλῳ καθημένους (tous peri auton kyklō kathēmenous – lit. aqueles que estão assentados em volta dele). Eles estão περὶ αὐτὸν (peri auton – com ele) do mesmo modo que os discípulos foram chamados para estar μετ᾿ αὐτοῦ (met᾿ autou – com ele).

Chama a atenção que a multidão aqui está assentada ao seu redor (3:32), com uma atitude muito diferente daquela que se apertava para tocá-lo (3:9-10). Ao que parece eles estão prontos para ouvir o seu ensino, e para deixar isso claro, Marcos enfatiza por duas vezes a atitude da multidão em sentar-se ao redor de Cristo (3:23-34). Algo tinha acontecido nessa narrativa, que transformou a multidão interesseira no curandeiro ser descrita como interessada no Messias. E o paralelo entre os discípulos e a multidão deixa isso muito claro: Do mesmo modo que os discípulos haviam obedecido o chamado de Cristo (3:13) para estar com Ele, essa multidão é descrita como obediente à vontade de Deus ao estar com Ele (3:34-45). A multidão foi literariamente redimida por Marcos! Eles são agora descritos como pertencendo aos seguidores de Cristo, que estão com Ele por quem Ele é. 

E para deixar isso muito claro, Marcos descreve a Jesus como voltando a ensinar à beira mar (4:1a). O mar era o lugar onde Jesus tinha ido para fugir da multidão (3:7), mas é agora descrito como o lugar para onde Jesus vai para ensinar a multidão. E aquela multidão numerosa (πολὺ πλῆθος – poly plēthos; 3:7, 8) e procurava  pressionar Jesus para receber dele alguma coisa, é agora uma multidão ainda maior (ὄχλος πλεῖστος – ochlos pleistos; observe o superlativo aqui). E a motivação dessa multidão ainda maior era ainda melhor: Eles queriam ouvir a Jesus ensinar (4:2). 

A multidão foi finalmente redimida. Os termos são similares, mas o contexto e os motivos narrativos são outros. Aliás, aqui até mesmo o barquinho foi redimido. Aquele instrumento usado para fugir da multidão (3:9), é então usado como púlpito para o seu ensino (4:1). A multidão foi redimida!

Conclusão

Em outras palavras, ao que parece, Marcos descreve literariamente o que literalmente faz o nosso Senhor. Ele é o redentor das multidões que o procuram por benefícios pessoais. É ele quem redime aqueles que por motivos errados o buscam, se apertam e pressionam para tocá-lo. Ele é o redentor de uma multidão pecadora. 

Mas o que realmente impressiona, é que de acordo com Marcos, essa multidão descrita como aprendendo de Jesus, era uma multidão ainda maior que aquela que o queria para fins pessoais. A influência de Jesus cresceu, porque Ele redimiu a multidão. E alias, esse é o tema de suas parábolas no capítulo quatro (4:3-34): O crescimento do Reino e a expansão da sua mensagem. Ou seja, Marcos segue com seu evangelho demonstrando o poder redentor de Cristo, cuja mensagem e influência continuará a crescer de forma exponencial (4:20; 28-39; 30-32). O Messias que redimiu a multidão é o Cristo que redime multidões. E é por isso que continuamos a proclamar a mensagem do evangelho! Nossa expectativa é ver multidões redimidas diante do nosso Senhor.

E é aqui que a simplicidade gramatical e linguística de Marcos encontram sua genialidade literária. E é assim que esse evangelho se apresenta como um misto de simplicidade linguística e profundidade artística. Marcos é genial, e é difícil fazer jus à sua grandeza literária ao transformar essas percepções hermenêuticas em texto. Entretanto, deixo aqui minha percepção de como é simples e sensacional ao mesmo tempo. 

SDG

Publicado por Marcelo Berti

Bacharel em Missões pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia pelo Dallas Theological Seminary, Marcelo Berti é editor do Teologando e atualmente está iniciando um processo de plantação da Igreja Batista Fonte SP na cidade de São Paulo. É casado com a Gabriela Sachi e pai do Nathan e da Melissa.

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