Caminhar é Perseverar


Leitura Bíblica: Marcos 2.1-3.6


“O início da conspiração contra a vida de Jesus encerra a seção de controvérsias em 2:1–3: 6 com uma nota sombria. Os poderes que levarão Jesus à morte estão começando a se materializar; perto do início de seu ministério, o fim já está à vista.” – Joel Marcus

Certa vez, enquanto ensinava a respeito do evangelho numa classe de novos membros da igreja onde servia como pastor, eu fui abordado por duas mulheres com um pedido interessante: “O senhor poderia orar pelo nosso ambiente de trabalho?” Confuso com a solicitação, pedi para que me elas me explicassem melhor o que tinham em mente. Prontamente a mais velha das duas mulheres adicionou: “Todos os nossos colegas de trabalho não são cristãos. Eles falam palavrão o tempo todo, fazem piadas desnecessárias, e isso tem afetado nosso relacionamento com Jesus.” E naquele momento, eu pensava ter entendido a situação, eu fui novamente surpreendido: “É que nós temos orados por isso e Deus não tem respondido nossas orações. É por isso que gostaríamos que o senhor, que é pastor, fizesse uma oração poderosa para que Deus fechasse a boca dos nossos colegas de trabalho.”

Sem querer entrar na questão de que que a oração do pastor não é mais poderosa, eu ofereci uma alternativa: “O que vocês acham de ao invés de orar para que Deus feche a boca dos seus amigos, nós orássemos para que Deus abrisse a boca de vocês? Eu acredito que são vocês as pessoas que Deus gostaria de usar na dos seus colegas de trabalho, para que eles também possam conhecer o evangelho sobre o qual aprendemos hoje aqui.” Para minha surpresa, minha sugestão não foi bem recebida, alias, ela foi prontamente rejeitada. Com um semblante pesado de quem havia sido frustrada uma das mulheres respondeu: “Se nós falarmos de Cristo no nosso ambiente de trabalho, nós seremos criticadas e rejeitadas. Nós corremos o risco de perder o nosso emprego.” Elas queriam uma solução mágica para os seus problemas, mas não queriam dificuldades no seu caminho. Elas queriam algo de Cristo, mas não queriam ser instrumentos Dele no mundo. Elas queriam seguir a Cristo, mas não queriam sofrer confrontação, não queriam sofrer riscos, não queriam sofre oposição.

Diferente do que muitas pessoas podem pensar, Jesus não viveu de modo a sugerir que seus seguidores levariam uma vida sem oposição ou confrontação. Ao contrário, compromisso de Jesus estava sempre com a verdade de Deus e sua missão, como claramente vemos em seu ministério. Seu foco era irretocável: Ele conhecia sua missão, sabia quem era e estava pronto para fazer o necessário para realizar sua missão. Jesus não se acovardava diante da oposição. Jesus não recuava diante da confrontação. Na verdade, Jesus enfrenta de modo corajosamente persistente a oposição.

E isso fica muito claro no texto que lemos hoje. Nele, Marcos seleciona cinco estórias em que Jesus é confrontado pelas autoridades judaicas e através delas apresenta dois elementos acontecendo ao mesmo tempo: enquanto Jesus manifesta sua autoridade, as autoridades manifestam a sua rejeição; enquanto Jesus caminha para dar sua vida, as autoridades caminham para tirá-la (2:7 [cf. 14:64]; 3:6 [cf. 14:1]). Marcos organiza essas cinco estórias de Jesus para nos alertar para um simples fato da vida cristã: Se nosso Senhor sofreu oposição, nós que seguimos os seus passos também sofreremos.

Autoridade de Jesus

Ao ler esse evangelho com atenção, percebemos que Marcos sutilmente demonstra a autoridade de Jesus desde o início do seu evangelho (cf. 1:1; 7-8; 11; 22; 27; 31; 41). Entretanto, o desenvolvimento da história de Cristo nesse evangelho não aponta para a crescente popularidade de Jesus, como alguns esperariam. Ao contrário, à medida que ele manifesta sua autoridade e deixa clara sua missão, Jesus torna-se cada vez mais impopular (!) E na perícope de hoje vemos o início do fim da história de Jesus com uma sutil mudança no tom da narrativa: a crescente popularidade de Jesus (por razões equivocadas) que vimos na perícope passada (1:21-45), transforma-se em crescente oposição a Ele (também por razões equivocadas) por parte das autoridades judaicas. Aos poucos, a mensagem e missão de Jesus tornam-se mais claras para seus ouvintes, que aos poucos passam a se indispor contra Ele. E diante desse cenário, Jesus não se acovarda, nem muda seu discurso. Ao contrário, Marcos nos ensina que Jesus corajosamente persevera em realizar seu ministério mesmo em meio à crescente oposição.

Na primeira estória, Jesus confronta convicções teológicas (2:1-12). A teologia judaica entendia corretamente que apenas Deus poderia perdoar pecados, afinal ele era em última análise o principal ofendido pelo pecado (cf. Sl 51:1-4). Para eles, um profeta poderia eventualmente proclamar o perdão de Deus para pecados, mas eles jamais poderiam oferecer perdão aos pecadores. Mas nessa estória, Jesus demonstra que tem autoridade para perdoar pecados ao curar um paralítico (2:9-13). Sendo assim, percebemos que a demonstração do poder e autoridade que Jesus tem para curar pessoas e expulsar demônios, ganha aqui uma nova dimensão: Ele também tem autoridade para perdoar pecados, algo que somente Deus pode fazer (2:7). A impressão que Marcos nos dá aqui, é que Jesus desafia as convicções religiosas por ser plenamente convicto de sua identidade: “Para que vocês saibam que o Filho do homem tem poder para perdoar pecados – disse ao paralítico – Eu te mando, Levanta, toma o teu leito e vai para casa” (2:10-11). Ele sabe quem é: Filho do homem; Ele sabe o que veio fazer: Veio oferecer o perdão divino.

Na segunda, Jesus confronta convenções sociais (2:13-17) ao convidar um publicano para juntar-se ao seu grupo de discípulos (2:14; cf. 1:16-20) e ao juntar-se a eles para comer (2:15-17). De acordo com a perspectiva do judaísmo do primeiro século, pessoas verdadeiramente piedosas não andavam com pecadores, muito menos, partilhavam refeições com eles. Entretanto, Jesus pensava de outra maneira: Não apenas ele entende que tal convenção social é inadequada, como Ele passa a confrontá-la ao chamar pecadores para se juntar ao seu movimento (2:14), de tal forma que entre os seus seguidores se contassem inúmeros “pecadores” (2:15). E pior, Jesus passa a defender que essa é exatamente a sua missão: “Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, e sim pecadores (v.17). Ou seja, Jesus não quer apenas que esses pecadores façam parte de seu ministério, Ele mesmo quer estar com eles e com eles dividir suas refeições (2:16). Nesse momento, Marcos demonstra que embora a elite religiosa tivesse suas convenções sociais, Jesus não se importa com elas, e está pronto para confrontá-las pelo bem da expansão do Reino de Deus e da proclamação de sua mensagem. Jesus sabem quem ele: Ele é o médico enviado por Deus para cura a principal doença do homem, o seu pecado. Jesus sabe qual é sua missão: Ele não veio apenas para oferecer perdão, ele veio convidar pecadores para estar com Ele e desfrutarem de sua comunhão.

No terceiro episódio, Jesus desafia o consenso religioso (2:18-22). Nos dias de Jesus, o jejum era uma prática muito comum e era semanalmente observado por alguns grupos religiosos. Os fariseus por exemplo, jejuavam toda segunda e quinta (cf. Didaque, 8). Essa era uma marca da piedade daqueles dias, e por isso era de se espantar que Jesus e seus discípulos não estivessem observando o jejum, que até mesmo os discípulos de João observavam naqueles dias (2:18). E nesse contexto, Jesus aproveita para ensinar que Sua presença havia inaugurado uma nova era que não se importaria em reaproveitar velhos costumes religiosos, ao contrário, preocupava-se em demonstrar que a novidade dos valores do Reino de Deus era superior à antiga religião (2:21-22). Isso, por outro lado, não significaria que os discípulos jamais jejuariam (v.20), mas que as práticas religiosas e vazias da cultura judaica daqueles dias não poderiam absorver a novidade que Jesus veio trazer, e que por isso, eram finalmente incompatíveis. Jesus sabia quem Ele era: Ele era Aquele que inaugura um novo e vivo caminho para Seus seguidores. Ele sabia qual era sua missão: não apenas oferecer perdão para que pecadores desfrutem de sua companhia e comunhão, mas também oferecer um novo modo de vida para seus discípulos, que rejeita os velhos modelos religiosos da tradição.

Por fim, Jesus rejeita a tradição religiosa (2:23-3:6). Talvez não exista nada mais caracteristicamente judaico que a teologia do sábado. De tão importante, o sábado ocupava boa parte da reflexão das autoridades judaicas. Por entenderem que o sábado deveria ser santificado (cf.Ex. 20:8-11; Dt 5:12-15), e por zelo por esse princípio, os fariseus criaram uma série de expansões desse mandamento na tentativa de proteger os judeus da violação desse mandamento. Entretanto, com o tempo a criatividade zelosa dos fariseus tornou-se mais importante que o próprio mandamento, e como resultado, as escrituras foram colocadas em segundo plano (2:25-26). Ao colher espigas no sábado Jesus rejeitava diretamente a tradição das autoridades judaicas, e o fazia por entender exatamente quem Ele era: Ele é o Senhor do sábado (2:28). Em outras palavras, além de estender perdão a pecadores, os incluir em sua comunidade e os instruir sobre o novo modo de vida que veio trazer, Jesus Cristo rejeita a religiosidade vazia do zelo criativo e legalista. A nova vida que Ele oferece não pode ser vivida nos termos da religiosidade.

Reação das Autoridades a Jesus

Ao organizar lado a lado esses episódios da vida de Jesus, Marcos nos oferece a perspectiva que as autoridades judaicas tinham de Jesus, e explica a razão pela qual o ministério do nosso Senhor não foi tão popular como alguns pensam. Com isso, ele nos ajuda a entender a razão pela qual Aquele que havia sido aclamado pelas multidões com seus milagres (cf. 1:45) terminaria condenado a cruz por uma multidão que grita: Crucifica-o! (15:12-15). A verdade é que Jesus foi corajosamente confrontador em Seu ministério.

Mas, observe como foi crescente a reação das autoridades religiosas. Quando Jesus diz ao paralítico que seus pecados estão perdoados (2:5), a reação das autoridades religiosas foi interna: “Estavam sentados ali alguns mestres da lei, raciocinando em seu íntimo:
“Por que esse homem fala assim? Está blasfemando! Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?” (2:6-7). Ainda que a afirmação de Cristo tenha sido poderosamente desafiadora para a comunidade teológica daqueles dias, ao que parece Jesus gozava de algum crédito. Os escribas entendem perfeitamente a afirmação de Jesus e a classificaram como blasfêmia (2:6), mas eles não rasgaram suas vestes nem o condenaram a morte (cf. 14:63-64). Ao contrário, ao ouvir o que Jesus falou, sentado eles refletiam. Para eles, algo estava errado, mas naquele momento a oposição não se levanta para contrariar a Jesus.

Quando Jesus passa a incluir pecadores e publicanos entre os seus seguidores, as autoridades judaicas perceberam ali um problema. Mas dessa vez eles não permaneceram calados, nem ficaram apenas assistindo: “Quando os mestres da lei que eram fariseus o viram comendo com pecadores e publicanos, perguntaram aos discípulos de Jesus: ‘Por que ele come com publicanos e pecadores’?” (2:16). As ações de Jesus começavam a levantar suspeita sobre quem Ele era para as autoridades religiosas, e agora eles não podem mais ficar parados. Eles têm que fazer alguma coisa. Entretanto, ao invés de questionar o próprio Jesus a respeito de suas atitudes, covardemente as autoridades procuram pelos discípulos.

Quando Jesus quebra a tradição semanal do jejum, a afronta parece tomar novas proporções. O acúmulo de ofensas e desafios de Jesus à tradição religiosa começa a incomodar as autoridades judaicas a tal ponto que eles precisam fazer alguma coisa. Nessa ocasião, entretanto, ao invés de visitar os discípulos, eles vão direto para Jesus: “Algumas pessoas [dentre as autoridades judaicas] vieram a Jesus e lhe questionaram: ‘Por que os discípulos de João e os dos fariseus jejuam, mas os teus não?’” (2:18). O desafio de Jesus aqui não é, nem de longe, tão agressivo quanto a afirmação de ter autoridade para perdoar pecados. Mas, considerando o caminho que as coisas estão tomando, a simples recusa em impor o jejum para seus discípulos passa a ser um grande problema.

Agora, quando Jesus desafia a teologia do sábado, os fariseus não conseguiram mais se controlar: não ficaram sentados, nem foram aos discípulos, nem se quer resolveram perguntar alguma coisa a Jesus. Nesse momento, os fariseus estavam prontos par acusa-lo: “Olha, por que eles estão fazendo o que não é permitido no sábado?” (2:24). As ofensas haviam se acumulado e a partir desse momento ficava claro para as autoridades religiosas que Jesus não poderia ser quem Ele dizer ser: O Messias teria o seu comportamento judaico irretocável, e Jesus não representava nada disso. Para as autoridades judaicas, Jesus era um impostor. Ele precisa ser parado.

E é exatamente o que começa a acontecer quando Jesus volta para a sinagoga (3:1). Esse foi o mesmo ambiente no qual Jesus costumava ensinar (1:21; cf. 1:39) e onde realizou seu primeiro exorcismo público nesse evangelho (1:21-28). Entretanto, o maravilhamento com Jesus, seu ensino e sua autoridade (1:22, 27) é sutilmente substituído por um ambiente de cilada: “Alguns deles [das autoridades judaicas] estavam procurando um motivo para acusar Jesus; por isso o observavam atentamente, para ver se ele iria curá-lo no sábado.” (3:2). O cenário está montado e a ocasião apresenta-se diante de Cristo: Um homem com mão ressequida para ser curado na sinagoga no sábado. E claro, assim que testemunha a cura desse homem, as autoridades judaicas passam a conspirar para matar a Jesus: “Então os fariseus saíram e começaram a conspirar com os herodianos contra Jesus, sobre como poderiam matá-lo.” (3:6).

O que é assustador nesse episódio, é que a cura de um homem em sofrimento é a última gota de água em um copo pronto a transbordar para as autoridades. Dificilmente a cura de alguém seria motivo de ofensa, aliás, em Marcos era exatamente isso que tinha feito Jesus tão popular (cf. 1:33-34; 39; 45). Mas, para as autoridades judaicas o parecer já está claro: Por toda Sua confrontação a religiosidade judaica, Jesus não poderia ser o Messias. Para eles, Jesus era um impostor que precisava ser parado.

O Modelo de Jesus

O que nós vemos nessas estórias é que o problema era diferença de percepção a respeito da identidade de Jesus: enquanto Jesus era plenamente consciente de sua identidade e missão, as autoridades judaicas o viam como um impostor. Agora a missão das autoridades está clara: Eles têm que destruir Jesus. Ou seja, enquanto Jesus caminha para dar sua vida, as autoridades judaicas caminham para tirá-la.

Além disso, nós vemos um outro interessante movimento nessa perícope: a crescente oposição a Jesus vista entre as estórias (reflexão pessoal, 2:6; pergunta, 2:16; questionamento, 2:18; acusação, 2:24; e conspiração, 3:6) não faz com que Ele se acovarde ou evite o conflito. Muito pelo contrário, nós vemos a Jesus corajosamente perseverando em meio à crescente oposição. Ele resolutamente segue em frente, sem temer a oposição. Por um lado, Jesus fica indignado com a audácia dos fariseus de considerar uma cura no sábado como uma deturpação da teologia judaica do sábado. Por outro lado, ele está entristecido pela dureza do coração deles (3:4-5). Por um lado, ele sabe que será morto pelas autoridades judaicas (8:31-33; 10:33-34; cf. 14:1; 43; 53; 60; 15:1; 31-32). Por outro, ele sabe que veio para dar a sua vida em resgate de muitos (10:45). Ele sabia quem era e qual era a sua missão.

E assim Marcos nos ensina que seguir a Jesus é perseverar em meio à oposição. Nosso mestre foi perseguido, e se seguirmos atentamente aos passos Dele, nós também seremos. Entretanto, diante da crescente oposição nosso mestre não se acovardou. Consciente de sua identidade e missão, Jesus seguiu em frente. E nós devemos fazer o mesmo. Em meio a oposição, não precisamos temer a confrontação e antagonismo, mas devemos perseverar corajosamente em fazer aquilo que o nosso Senhor espera de nós. Nós somos seguidores de Cristo, e nossa missão é ser pescadores de homens, propagadores do evangelho. Por isso, devemos seguir o exemplo de Cristo e corajosamente perseverar na realização da nossa missão que Ele nos deu para a glória de Deus.

Publicado por Marcelo Berti

Bacharel em Missões pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia pelo Dallas Theological Seminary, Marcelo Berti é editor do Teologando e atualmente está iniciando um processo de plantação da Igreja Batista Fonte SP na cidade de São Paulo. É casado com a Gabriela Sachi e pai do Nathan e da Melissa.

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