Caminhar é Obedecer

Leitura Bíblica: Marcos 3.7-35


O caminho de Jesus estava intimamente ligado a obediência a vontade de Deus. Portanto, a própria experiência de rejeição de Jesus por sua família serve como modelo para um discipulado que pode muito bem custar a outros seus laços familiares.” – Robert Guelich

Nessa perícope, Marcos mais uma vez organiza suas histórias de modo muito perspicaz. Antes de seguir com a história de Jesus, Marcos oferece um resumo transicional entre o que ele acabou de contar e o que ele pretende apresentar (3:7-12). Nesse resumo, vemos novamente a multidão seguindo a Jesus em função de sua fama (vv.7-9) e a continuidade do ministério de Cristo (vv.10-12). O modo como Marcos escreve aqui nos lembra um pouco daquilo que ele já apresentou sobre o início do ministério de Cristo (1:21-45).

Isso fica ainda mais evidente quando Marcos apresenta o chamado dos discípulos (3:13-19) de modo muito parecido às outras vezes que vimos nosso Senhor convidar pessoas para o seguir (1:16-20; 2:13-14). Entretanto, Marcos volta nossos olhos para esses momentos, sem perder de vista o claro antagonismo que Jesus recebeu das autoridades religiosas na perícope anterior (2:1-3:6). O que nos chama a atenção aqui é a a extensão desse antagonismo contra Jesus, que agora, além das autoridades religiosas (vv.22-30), também inclui os próprios familiares de Jesus (vv.20-21; 31-35).

E ao retomar a esses temas, Marcos demonstra mais uma vez que a grande maioria das pessoas apresentadas nesse evangelho não estão seguindo a Jesus de verdade. Enquanto a multidão está atrás de Jesus para ganhar alguma coisa (1:28, 33; 45; 3:10), os familiares estão atrás de Jesus para prendê-lo (3:21) e as autoridades religiosas estão atrás dele para condená-lo (3:6; 22; 30). E diante desse fato, nós começamos a nos perguntar: Quem é que de fato está seguindo a Jesus nesse evangelho? E na perícope que lemos hoje Marcos nos oferece essa resposta de modo muito interessante.

A Multidão e os Discípulos

Em primeiro lugar, Marcos nos ensina sobre a diferença de fazer parte da multidão e ser um verdadeiro seguidor de Jesus. Ao apresentar a multidão nessa perícope (ὄχλος – ochlos, 3:9, 20, 32; πλῆθος – plēthos, 3:7-8), Marcos usa termos similares para descrever pessoas indo atrás de Jesus (cf. 3:7, 8, 9, 20) e verdadeiros seguidores (3:32). Além disso, é bem possível que Marcos tenha usado o mesmíssimo verbo para descrever os discípulos que seguem a Jesus (ἀκολουθέω, akoloutheō; 1:18; 2:14, 15) para descrever a multidão que vai ate Ele (cf. variante textual, 3:7).  Isso não significa, contudo, que Marcos não nos ensine a perceber a diferença entre eles.

Antes de mais nada, a multidão segue de Jesus por razões equivocadas (3:7-10).  A multidão quer algo de Cristo e o procura porque tinha ouvido “a respeito de tudo o que Ele estava fazendo” (3:8). O modo como Jesus apresenta sua autoridade sobre o mundo sobrenatural e sobre as doenças (1:27; cf1:24, 41-42) chama atenção das pessoas a ponto de multidões (cf. 1:32-34; 45) O procurarem para serem abençoadas por Ele. A fama de Jesus se espalhava, mas não baseado no que ele ensinava, muito menos na declaração de missão de Jesus. A bem da verdade, eram suas curas e exorcismos que o tornavam famoso, e por isso as pessoas se apertavam só para encostar nele e dele receber o que queriam: “Pois Ele havia curado a muitos, de modo que todos os que sofriam de doenças ficavam se empurrando para conseguir tocar nele” (3:10). Eles não queriam a Jesus, nem ouvir o que ele tinha a ensinar. Eles queriam usar a Jesus.

Além disso, essa multidão é apresentada com indo até Ele sem que a mesma tenha sido convidada. A expressão usada por Marcos para descrever a atitude da multidão de ir até Jesus (ἦλθον πρὸς αὐτόν – ēlthon pros auton; 3:8) é usada em outros lugares no evangelho de modo negativo (1:45; 3:13). Até aqui, em nenhum momento Jesus convidou essa multidão para estar com Ele (cf. 8:34). Ao contrário, sempre que pode Jesus solicitou silêncio das pessoas que recebiam dele algum benefício (1:43-44) ou quando estava diante de demônios que O conheciam muito bem (3:12; cf. 1:34). A impressão que temos é que Jesus não queria que sua fama se espalhasse pelos motivos errados, porque Ele sabia que isso atrairia pessoas pelos motivos errados. E foi exatamente isso que aconteceu: a fama sobre o que Jesus fazia era o que atraia pessoas.

Em outras palavras, a motivação da multidão em ir até Jesus tem pouco a ver com quem Ele era. A bem da verdade, para multidão faz pouquíssima diferença quem ele é, o que realmente importa é o que Ele estava fazendo. Ele era um milagreiro famoso e isso era suficiente para a multidão. A multidão não quer a Cristo, ela quer algo Dele. Eles não querem estar com Cristo, eles querem usar a Cristo. Além disso, a multidão não vai até Jesus por causa do seu ensino (cf. 1:21-22; 32-34; 45; 3:10), a multidão vai até Ele em busca de seus próprios interesses.

Aliás, essa multidão é apresentada por Marcos com uma sutil nota de desgosto. Ao descrever a multidão se aproximando de Jesus, nosso autor usa um jogo de palavras muito interessante: Enquanto a multidão jogava-se sobre Jesus (ἐπιπίπτω – epipiptō; 3:9) os demônios jogavam-sediante dele (προσπίπτω – prospiptō; 3:11). Ainda que a atitude dos espíritos imundos seja completamente desprovida de adoração, ela pelo menos era marcada pelo reconhecimento da autoridade de quem Jesus Cristo realmente é. Agora, a atitude da multidão é realmente desprezível: não apenas era uma ação desprovida de adoração, era uma ação desprovida de respeito e reconhecimento da autoridade de quem Jesus realmente era. Em outras palavras, a multidão portava-se pior que os demônios.

Distintos da multidão, os verdadeiros seguidores de Cristo são chamados por Ele: “Jesus subiu a um monte e chamou a si aqueles que Ele quis” (3:13a). O verbo escolhido por Marcos para descrever a ação de Cristo é frequentemente usada no evangelho para descrever o ato de Jesus chamar para si os seus discípulos, seja para ensiná-los (8:1; 10:42; 12:43), seja para enviá-los a pregar (6:7). Ao que parece, esse é o modo pelo qual Marcos descreve a iniciativa de Jesus em escolher para si mesmo pessoas que Ele quer por perto. Aliás, quando a multidão o pressionava, era para os discípulos que ele pedia ajuda: “Por causa da multidão, Ele pediu aos discípulos que lhe preparassem um pequeno barco, para evitar que o comprimissem” (3:9). Enquanto a multidão queria algo de Jesus, Ele queria estar com seus discípulos.

Outro detalhe que diferencia o verdadeiro discípulo da multidão é que os discípulos respondem de modo obediente ao chamado de Cristo: “os quais vieram para junto dele” (3:13b). Enquanto a multidão vai até Ele (ἦλθον πρὸς αὐτόν – ēlthon pros auton; 3:8; cf. 1:45; 2:13) por motivos pessoais, os discípulos fazem o mesmo (cf. ἀπῆλθον πρὸς αὐτόν, apēlthon pros auton, 3:13c) em obediência ao convite do Mestre. E isso faz toda a diferença. Embora Marcos não nos informe a razão para tal obediência, nem o motivo pelo qual eles largaram tudo para traz (1:18, 20b; 2:14b), ele é claro em demonstrar que os discípulos responderam de modo obediente ao convite de Cristo (1:17; 20a; 2:14a).  Eles queriam estar com Cristo.

Os verdadeiros seguidores de Cristo são claramente convidados para estar com Cristo: “Jesus escolheu doze homens para estar com Ele” (3:14a). Para os verdadeiros discípulos Jesus Cristo oferece sua presença e não seus milagres. Não que Ele não possa graciosamente realizar milagres que os beneficie (1:29-13), mas que Sua proposta para eles é outra. Ele não quer oferecer apenas Seu poder, Ele quer dar-se a conhecer durante sua jornada a Jerusalém.

Além disso, os verdadeiros seguidores são comissionados por Cristo para perpetuar o ministério iniciado ele: “Jesus escolheu doze homens para estar com Ele e para os enviar a pregar e exercer autoridade sobre demônios” (3:14b-15). Jesus os aproxima de Si com a intenção de prepara-los para os enviar para pregar o evangelho. É por isso que ele modela esse ministério para os discípulos, e assim os treina. Oportunamente seus discípulos serão enviados por Ele para realizar o ministério sem Ele (cf.6:7-13), e serão conhecidos como os apóstolos de Cristo, isto é, aqueles que foram enviados por Ele (variante textual 3:14; 6:30; cf. 1 Pe 1:1; 2Pe 1:1; Jd 1:17).

Oposição e Afirmação

O segundo modo pelo qual Marcos nos ensina sobre o verdadeiro discípulo está no contraste entre a crença da oposição e aquilo que se espera que um discípulo creia. A bem da verdade, essa distinção é muito sutil no texto, como costuma acontecer no evangelho de Marcos. Mas, ao observar as três afirmações sobre quem Cristo é pronunciada pelos opositores de Jesus nesse texto, nós percebemos o que o autor quer nos ensinar sobre nossa confissão de fé em relação a Cristo.

Os parentes de Jesus, vendo-o trabalhar incansavelmente, a ponto de não conseguirem se quer parar para comer (3:20), saíram ao encontro de Jesus para detê-lo: “Quando seus familiares ouviram falar disso, saíram para prendê-lo” (3:21a). A perspectiva que eles tinham de Jesus certamente não era nada positiva: “Ele está fora de si!” Para seus parentes, Jesus era um lunático!

Os escribas pensavam diferente. Como eram testemunhas oculares dos exorcismos de Cristo, eles não poderiam negar que os mesmos não tinham acontecido. Entretanto, eles tinham uma explicação razoável: Para eles os poderes miraculosos que operam em Jesus tinham sua fonte em Satanás: “Ele está possuído com Belzebu! Pelo príncipe dos demônios é que Ele expulsa demônios” (3:22; cf. 3:30). Ou seja, enquanto os parentes o viam como um lunático, as autoridades o viam como um endemoninhado.

Surpreendente, entretanto, é que em todas as afirmações feitas pela oposição de Cristo, somente os demônios estavam corretos: “Tu és o Filho de Deus” (3:11). Essa definição nos é apresentada no início do evangelho (1:1) e só é apresentada por um humano no final após a morte de Jesus (15:39). Ao que parece, durante todo o evangelho são apenas os demônios que o chamam por esse título (cf. 5:7). Para os demônios, Jesus era o Filho de Deus.

Esse é mais um sutil paralelo que Marcos apresenta em seu evangelho. E aqui percebemos que os opositores humanos eram também piores que os demônios: enquanto familiares e escribas o acusavam equivocadamente sem saber quem Ele realmente era, os demônios pelo menos estavam certos (3:12). Ainda assim, independente de qualquer veracidade na afirmação dos demônios, Marcos nos ensina aqui que seguir a Cristo, além de uma disposição de obediência, é fundamental que o discípulo saiba e creia em quem Jesus realmente é. Isso fica muito claro pelo fato que o autor inicia e termina o seu Evangelho defendendo a filiação divina de Cristo (cf. 1:1; 15:39). E é exatamente isso o que o nosso autor nos ensina aos poucos: a medida que contas as estórias de Jesus, ele nos ensina sobre quem Ele realmente é.

Embora até o momento Marcos não tenha nos contado o que exatamente pensavam os discípulos a respeito de Jesus, pela firme decisão deles em largar tudo para seguir a Cristo, nós entendemos que eles discordavam tanto dos familiares como das autoridades religiosas. Ou seja, o verdadeiro discípulo a segue a Jesus por quem Ele é, e não por aquilo que gostaria que Ele fosse.

Os Familiares e a Família

Por fim, Marcos nos ensina sobre seguir a Cristo ao diferenciar os familiares de Jesus de sua verdadeira família. Dentre os familiares (cf. 3:21), Marcos nos conta sobre a mãe e os irmãos de Jesus, pessoas que estavam do lado de fora da casa onde Jesus estava (3:31a). De modo quasi irônioco, do lado de fora eles mandam chamar a Jesus de um modo muito parecido com o modo que Jesus chama seus discípulos (3:31b, καλέω; kaleō; 3:14, προσκαλέω; proskaleō). Ainda que os familiares de Jesus pudessem ser pessoas naturalmente parte da família de Jesus, Marcos nos demonstra que existe uma grande diferença entre aqueles que estão do lado de fora e aqueles que estão com Ele do lado de dentro.

Em primeiro lugar, os que estão dentro estão com Cristo: “Havia uma multidão assentada ao seu redor” (3:32). Essa multidão estava em volta de Cristo, em termos similares aos discípulos que foram chamados para estar com Jesus (3:14). Eles são descritos como multidão, mas eles pertencem aos seguidores de Cristo. Aliás, olhado para essas pessoas ele define quem é sua verdadeira família: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?”, perguntou Ele. Então olhou para os que estavam assentados ao seu redor e disse: Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”

A diferença entre os familiares e a Família de Cristo era muito simples: era uma questão de obediência. E aqui vemos Marcos apontar para algo que ele nos ensinou em toda essa perícope. Seguir a Jesus é uma questão de obediência. Para fazer parte da Família de Jesus, seus seguidores devem estar dispostos a obedecer a Deus. E existe algo grandioso acontecendo aqui, afinal, a multidão tão depreciada no início dessa perícope é convidada por Cristo a viver uma vida de obediência. O convite para o caminho do discipulado com Cristo não era restrito aos doze homens, incluía um convite a todos, homens e mulheres dispostos a viver uma vida de obediência a Deus (cf. 8:34).

Em outras palavras, de modo muito claro Marcos nos ensina a diferença entre fazer parte da multidão, ser um opositor ou ser um seguidor de Cristo. E para aqueles que tem dúvidas sobre onde se encontram nesse dilema, Marcos nos oferece duas perguntas importantes: “Você vai até Jesus em busca de benefícios ou você foi convidado para estar com Ele?”. A resposta a essa pergunta faz toda diferença, afinal verdadeiros discípulos são chamados para estar com Cristo e não o buscam por interesses pessoais.

Mas, se ainda assim a dúvida persistir, Marcos nos oferece uma segunda pergunta: “Quem é Jesus pra você?” Se sua resposta é que Jesus é um meio para um fim desejado, talvez você ainda pertença à multidão. Se ele é um lunático ou um endemoninhado, então você pertença à categoria de opositores. Por outro lado, se Jesus é de fato Filho de Deus e você o busca por quem ele realmente é, então você pertence ao grupo dos discípulos de Cristo, que o seguem porque foram convidados para estar com Ele e para serem enviados a pregar o evangelho.

Caminhar é Perseverar

Leitura Bíblica: Marcos 2.1-3.6


“O início da conspiração contra a vida de Jesus encerra a seção de controvérsias em 2:1–3: 6 com uma nota sombria. Os poderes que levarão Jesus à morte estão começando a se materializar; perto do início de seu ministério, o fim já está à vista.” – Joel Marcus

Certa vez, enquanto ensinava a respeito do evangelho numa classe de novos membros da igreja onde servia como pastor, eu fui abordado por duas mulheres com um pedido interessante: “O senhor poderia orar pelo nosso ambiente de trabalho?” Confuso com a solicitação, pedi para que me elas me explicassem melhor o que tinham em mente. Prontamente a mais velha das duas mulheres adicionou: “Todos os nossos colegas de trabalho não são cristãos. Eles falam palavrão o tempo todo, fazem piadas desnecessárias, e isso tem afetado nosso relacionamento com Jesus.” E naquele momento, eu pensava ter entendido a situação, eu fui novamente surpreendido: “É que nós temos orados por isso e Deus não tem respondido nossas orações. É por isso que gostaríamos que o senhor, que é pastor, fizesse uma oração poderosa para que Deus fechasse a boca dos nossos colegas de trabalho.”

Sem querer entrar na questão de que que a oração do pastor não é mais poderosa, eu ofereci uma alternativa: “O que vocês acham de ao invés de orar para que Deus feche a boca dos seus amigos, nós orássemos para que Deus abrisse a boca de vocês? Eu acredito que são vocês as pessoas que Deus gostaria de usar na dos seus colegas de trabalho, para que eles também possam conhecer o evangelho sobre o qual aprendemos hoje aqui.” Para minha surpresa, minha sugestão não foi bem recebida, alias, ela foi prontamente rejeitada. Com um semblante pesado de quem havia sido frustrada uma das mulheres respondeu: “Se nós falarmos de Cristo no nosso ambiente de trabalho, nós seremos criticadas e rejeitadas. Nós corremos o risco de perder o nosso emprego.” Elas queriam uma solução mágica para os seus problemas, mas não queriam dificuldades no seu caminho. Elas queriam algo de Cristo, mas não queriam ser instrumentos Dele no mundo. Elas queriam seguir a Cristo, mas não queriam sofrer confrontação, não queriam sofrer riscos, não queriam sofre oposição.

Diferente do que muitas pessoas podem pensar, Jesus não viveu de modo a sugerir que seus seguidores levariam uma vida sem oposição ou confrontação. Ao contrário, compromisso de Jesus estava sempre com a verdade de Deus e sua missão, como claramente vemos em seu ministério. Seu foco era irretocável: Ele conhecia sua missão, sabia quem era e estava pronto para fazer o necessário para realizar sua missão. Jesus não se acovardava diante da oposição. Jesus não recuava diante da confrontação. Na verdade, Jesus enfrenta de modo corajosamente persistente a oposição.

E isso fica muito claro no texto que lemos hoje. Nele, Marcos seleciona cinco estórias em que Jesus é confrontado pelas autoridades judaicas e através delas apresenta dois elementos acontecendo ao mesmo tempo: enquanto Jesus manifesta sua autoridade, as autoridades manifestam a sua rejeição; enquanto Jesus caminha para dar sua vida, as autoridades caminham para tirá-la (2:7 [cf. 14:64]; 3:6 [cf. 14:1]). Marcos organiza essas cinco estórias de Jesus para nos alertar para um simples fato da vida cristã: Se nosso Senhor sofreu oposição, nós que seguimos os seus passos também sofreremos.

Autoridade de Jesus

Ao ler esse evangelho com atenção, percebemos que Marcos sutilmente demonstra a autoridade de Jesus desde o início do seu evangelho (cf. 1:1; 7-8; 11; 22; 27; 31; 41). Entretanto, o desenvolvimento da história de Cristo nesse evangelho não aponta para a crescente popularidade de Jesus, como alguns esperariam. Ao contrário, à medida que ele manifesta sua autoridade e deixa clara sua missão, Jesus torna-se cada vez mais impopular (!) E na perícope de hoje vemos o início do fim da história de Jesus com uma sutil mudança no tom da narrativa: a crescente popularidade de Jesus (por razões equivocadas) que vimos na perícope passada (1:21-45), transforma-se em crescente oposição a Ele (também por razões equivocadas) por parte das autoridades judaicas. Aos poucos, a mensagem e missão de Jesus tornam-se mais claras para seus ouvintes, que aos poucos passam a se indispor contra Ele. E diante desse cenário, Jesus não se acovarda, nem muda seu discurso. Ao contrário, Marcos nos ensina que Jesus corajosamente persevera em realizar seu ministério mesmo em meio à crescente oposição.

Na primeira estória, Jesus confronta convicções teológicas (2:1-12). A teologia judaica entendia corretamente que apenas Deus poderia perdoar pecados, afinal ele era em última análise o principal ofendido pelo pecado (cf. Sl 51:1-4). Para eles, um profeta poderia eventualmente proclamar o perdão de Deus para pecados, mas eles jamais poderiam oferecer perdão aos pecadores. Mas nessa estória, Jesus demonstra que tem autoridade para perdoar pecados ao curar um paralítico (2:9-13). Sendo assim, percebemos que a demonstração do poder e autoridade que Jesus tem para curar pessoas e expulsar demônios, ganha aqui uma nova dimensão: Ele também tem autoridade para perdoar pecados, algo que somente Deus pode fazer (2:7). A impressão que Marcos nos dá aqui, é que Jesus desafia as convicções religiosas por ser plenamente convicto de sua identidade: “Para que vocês saibam que o Filho do homem tem poder para perdoar pecados – disse ao paralítico – Eu te mando, Levanta, toma o teu leito e vai para casa” (2:10-11). Ele sabe quem é: Filho do homem; Ele sabe o que veio fazer: Veio oferecer o perdão divino.

Na segunda, Jesus confronta convenções sociais (2:13-17) ao convidar um publicano para juntar-se ao seu grupo de discípulos (2:14; cf. 1:16-20) e ao juntar-se a eles para comer (2:15-17). De acordo com a perspectiva do judaísmo do primeiro século, pessoas verdadeiramente piedosas não andavam com pecadores, muito menos, partilhavam refeições com eles. Entretanto, Jesus pensava de outra maneira: Não apenas ele entende que tal convenção social é inadequada, como Ele passa a confrontá-la ao chamar pecadores para se juntar ao seu movimento (2:14), de tal forma que entre os seus seguidores se contassem inúmeros “pecadores” (2:15). E pior, Jesus passa a defender que essa é exatamente a sua missão: “Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, e sim pecadores (v.17). Ou seja, Jesus não quer apenas que esses pecadores façam parte de seu ministério, Ele mesmo quer estar com eles e com eles dividir suas refeições (2:16). Nesse momento, Marcos demonstra que embora a elite religiosa tivesse suas convenções sociais, Jesus não se importa com elas, e está pronto para confrontá-las pelo bem da expansão do Reino de Deus e da proclamação de sua mensagem. Jesus sabem quem ele: Ele é o médico enviado por Deus para cura a principal doença do homem, o seu pecado. Jesus sabe qual é sua missão: Ele não veio apenas para oferecer perdão, ele veio convidar pecadores para estar com Ele e desfrutarem de sua comunhão.

No terceiro episódio, Jesus desafia o consenso religioso (2:18-22). Nos dias de Jesus, o jejum era uma prática muito comum e era semanalmente observado por alguns grupos religiosos. Os fariseus por exemplo, jejuavam toda segunda e quinta (cf. Didaque, 8). Essa era uma marca da piedade daqueles dias, e por isso era de se espantar que Jesus e seus discípulos não estivessem observando o jejum, que até mesmo os discípulos de João observavam naqueles dias (2:18). E nesse contexto, Jesus aproveita para ensinar que Sua presença havia inaugurado uma nova era que não se importaria em reaproveitar velhos costumes religiosos, ao contrário, preocupava-se em demonstrar que a novidade dos valores do Reino de Deus era superior à antiga religião (2:21-22). Isso, por outro lado, não significaria que os discípulos jamais jejuariam (v.20), mas que as práticas religiosas e vazias da cultura judaica daqueles dias não poderiam absorver a novidade que Jesus veio trazer, e que por isso, eram finalmente incompatíveis. Jesus sabia quem Ele era: Ele era Aquele que inaugura um novo e vivo caminho para Seus seguidores. Ele sabia qual era sua missão: não apenas oferecer perdão para que pecadores desfrutem de sua companhia e comunhão, mas também oferecer um novo modo de vida para seus discípulos, que rejeita os velhos modelos religiosos da tradição.

Por fim, Jesus rejeita a tradição religiosa (2:23-3:6). Talvez não exista nada mais caracteristicamente judaico que a teologia do sábado. De tão importante, o sábado ocupava boa parte da reflexão das autoridades judaicas. Por entenderem que o sábado deveria ser santificado (cf.Ex. 20:8-11; Dt 5:12-15), e por zelo por esse princípio, os fariseus criaram uma série de expansões desse mandamento na tentativa de proteger os judeus da violação desse mandamento. Entretanto, com o tempo a criatividade zelosa dos fariseus tornou-se mais importante que o próprio mandamento, e como resultado, as escrituras foram colocadas em segundo plano (2:25-26). Ao colher espigas no sábado Jesus rejeitava diretamente a tradição das autoridades judaicas, e o fazia por entender exatamente quem Ele era: Ele é o Senhor do sábado (2:28). Em outras palavras, além de estender perdão a pecadores, os incluir em sua comunidade e os instruir sobre o novo modo de vida que veio trazer, Jesus Cristo rejeita a religiosidade vazia do zelo criativo e legalista. A nova vida que Ele oferece não pode ser vivida nos termos da religiosidade.

Reação das Autoridades a Jesus

Ao organizar lado a lado esses episódios da vida de Jesus, Marcos nos oferece a perspectiva que as autoridades judaicas tinham de Jesus, e explica a razão pela qual o ministério do nosso Senhor não foi tão popular como alguns pensam. Com isso, ele nos ajuda a entender a razão pela qual Aquele que havia sido aclamado pelas multidões com seus milagres (cf. 1:45) terminaria condenado a cruz por uma multidão que grita: Crucifica-o! (15:12-15). A verdade é que Jesus foi corajosamente confrontador em Seu ministério.

Mas, observe como foi crescente a reação das autoridades religiosas. Quando Jesus diz ao paralítico que seus pecados estão perdoados (2:5), a reação das autoridades religiosas foi interna: “Estavam sentados ali alguns mestres da lei, raciocinando em seu íntimo:
“Por que esse homem fala assim? Está blasfemando! Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?” (2:6-7). Ainda que a afirmação de Cristo tenha sido poderosamente desafiadora para a comunidade teológica daqueles dias, ao que parece Jesus gozava de algum crédito. Os escribas entendem perfeitamente a afirmação de Jesus e a classificaram como blasfêmia (2:6), mas eles não rasgaram suas vestes nem o condenaram a morte (cf. 14:63-64). Ao contrário, ao ouvir o que Jesus falou, sentado eles refletiam. Para eles, algo estava errado, mas naquele momento a oposição não se levanta para contrariar a Jesus.

Quando Jesus passa a incluir pecadores e publicanos entre os seus seguidores, as autoridades judaicas perceberam ali um problema. Mas dessa vez eles não permaneceram calados, nem ficaram apenas assistindo: “Quando os mestres da lei que eram fariseus o viram comendo com pecadores e publicanos, perguntaram aos discípulos de Jesus: ‘Por que ele come com publicanos e pecadores’?” (2:16). As ações de Jesus começavam a levantar suspeita sobre quem Ele era para as autoridades religiosas, e agora eles não podem mais ficar parados. Eles têm que fazer alguma coisa. Entretanto, ao invés de questionar o próprio Jesus a respeito de suas atitudes, covardemente as autoridades procuram pelos discípulos.

Quando Jesus quebra a tradição semanal do jejum, a afronta parece tomar novas proporções. O acúmulo de ofensas e desafios de Jesus à tradição religiosa começa a incomodar as autoridades judaicas a tal ponto que eles precisam fazer alguma coisa. Nessa ocasião, entretanto, ao invés de visitar os discípulos, eles vão direto para Jesus: “Algumas pessoas [dentre as autoridades judaicas] vieram a Jesus e lhe questionaram: ‘Por que os discípulos de João e os dos fariseus jejuam, mas os teus não?’” (2:18). O desafio de Jesus aqui não é, nem de longe, tão agressivo quanto a afirmação de ter autoridade para perdoar pecados. Mas, considerando o caminho que as coisas estão tomando, a simples recusa em impor o jejum para seus discípulos passa a ser um grande problema.

Agora, quando Jesus desafia a teologia do sábado, os fariseus não conseguiram mais se controlar: não ficaram sentados, nem foram aos discípulos, nem se quer resolveram perguntar alguma coisa a Jesus. Nesse momento, os fariseus estavam prontos par acusa-lo: “Olha, por que eles estão fazendo o que não é permitido no sábado?” (2:24). As ofensas haviam se acumulado e a partir desse momento ficava claro para as autoridades religiosas que Jesus não poderia ser quem Ele dizer ser: O Messias teria o seu comportamento judaico irretocável, e Jesus não representava nada disso. Para as autoridades judaicas, Jesus era um impostor. Ele precisa ser parado.

E é exatamente o que começa a acontecer quando Jesus volta para a sinagoga (3:1). Esse foi o mesmo ambiente no qual Jesus costumava ensinar (1:21; cf. 1:39) e onde realizou seu primeiro exorcismo público nesse evangelho (1:21-28). Entretanto, o maravilhamento com Jesus, seu ensino e sua autoridade (1:22, 27) é sutilmente substituído por um ambiente de cilada: “Alguns deles [das autoridades judaicas] estavam procurando um motivo para acusar Jesus; por isso o observavam atentamente, para ver se ele iria curá-lo no sábado.” (3:2). O cenário está montado e a ocasião apresenta-se diante de Cristo: Um homem com mão ressequida para ser curado na sinagoga no sábado. E claro, assim que testemunha a cura desse homem, as autoridades judaicas passam a conspirar para matar a Jesus: “Então os fariseus saíram e começaram a conspirar com os herodianos contra Jesus, sobre como poderiam matá-lo.” (3:6).

O que é assustador nesse episódio, é que a cura de um homem em sofrimento é a última gota de água em um copo pronto a transbordar para as autoridades. Dificilmente a cura de alguém seria motivo de ofensa, aliás, em Marcos era exatamente isso que tinha feito Jesus tão popular (cf. 1:33-34; 39; 45). Mas, para as autoridades judaicas o parecer já está claro: Por toda Sua confrontação a religiosidade judaica, Jesus não poderia ser o Messias. Para eles, Jesus era um impostor que precisava ser parado.

O Modelo de Jesus

O que nós vemos nessas estórias é que o problema era diferença de percepção a respeito da identidade de Jesus: enquanto Jesus era plenamente consciente de sua identidade e missão, as autoridades judaicas o viam como um impostor. Agora a missão das autoridades está clara: Eles têm que destruir Jesus. Ou seja, enquanto Jesus caminha para dar sua vida, as autoridades judaicas caminham para tirá-la.

Além disso, nós vemos um outro interessante movimento nessa perícope: a crescente oposição a Jesus vista entre as estórias (reflexão pessoal, 2:6; pergunta, 2:16; questionamento, 2:18; acusação, 2:24; e conspiração, 3:6) não faz com que Ele se acovarde ou evite o conflito. Muito pelo contrário, nós vemos a Jesus corajosamente perseverando em meio à crescente oposição. Ele resolutamente segue em frente, sem temer a oposição. Por um lado, Jesus fica indignado com a audácia dos fariseus de considerar uma cura no sábado como uma deturpação da teologia judaica do sábado. Por outro lado, ele está entristecido pela dureza do coração deles (3:4-5). Por um lado, ele sabe que será morto pelas autoridades judaicas (8:31-33; 10:33-34; cf. 14:1; 43; 53; 60; 15:1; 31-32). Por outro, ele sabe que veio para dar a sua vida em resgate de muitos (10:45). Ele sabia quem era e qual era a sua missão.

E assim Marcos nos ensina que seguir a Jesus é perseverar em meio à oposição. Nosso mestre foi perseguido, e se seguirmos atentamente aos passos Dele, nós também seremos. Entretanto, diante da crescente oposição nosso mestre não se acovardou. Consciente de sua identidade e missão, Jesus seguiu em frente. E nós devemos fazer o mesmo. Em meio a oposição, não precisamos temer a confrontação e antagonismo, mas devemos perseverar corajosamente em fazer aquilo que o nosso Senhor espera de nós. Nós somos seguidores de Cristo, e nossa missão é ser pescadores de homens, propagadores do evangelho. Por isso, devemos seguir o exemplo de Cristo e corajosamente perseverar na realização da nossa missão que Ele nos deu para a glória de Deus.

Marcos e a Redenção da Multidão

Marcos enquanto autor é uma figura interessante. O livro como um todo é uma mistura muito interessante de simplicidade linguistica e profundada artística. As vezes me assusta o modo como essas duas características são entrelaçadas nesse evangelho.

Por um lado, quando nos debruçamos sobre o texto de Marcos percebemos o quanto o autor é direto. As ênfases teológicas, bem como a direção histórica da narrativa são claramente apresentadas com uma linguagem simples e direta. De tão simples, Marcos é frequente citado entre os autores com o menor domínio literário da lingua grega. O recorrente e indiscriminado uso de καἰ (conj. coordenada) e o quase “insuportável” uso de ευθυς (adv. temp.), são duas das muitas características quasi crassas do uso do grego koine por Marcos. 

Por outro lado, quem quer que se dedique a observar a retórica do autor, ficará encantado com sua sutileza artística. O modo como o autor organiza as estórias de Jesus demonstra uma criatividade literária digna de reconhecimento. Marcos é sem sombra de dúvidas um editor do material de Jesus que tinha disponível, e sua edição é feita com maestria. Tal maestria é principalmente percebida em sua sutileza retórica, como por exemplo a apresentação comparativa de personagens, o contraste de atitudes e emoções dos personagens, em particular Jesus. Marcos é literariamente brilhante.

E entre essas duas características, o autor apresenta a “multidão” como um personagem coletivo em sua história de modo muito interessante.

O Crescimento da Multidão

A medida que Marcos nos conta a estória de Jesus, aos poucos ele nos apresenta seus personagens principais. Jesus é apresentado no primeiro verso, mas a primeira personagem a ser desenvolvida é João Batista seu precursor (1:2-6). Ao apresentá-lo, sutilmente descreve uma “multidão” de numerosas pessoas de modo hiperbólico, contudo, sem usar o termo “multidão”: πᾶσα ἡ Ἰουδαία χώρα καὶ οἱ Ἱεροσολυμῖται πάντες (v.5) Nessa sentença, a expressão πᾶσα ἡ Ἰουδαία (päsa he Ioudaía lit. toda Judeia) é uma sinédoque usada para descrever pessoas de toda a região da Judéia, do mesmo modo que  οἱ Ἱεροσολυμῖται πάντες (hoi Ierosolumïtai tantas – lit. todos os israelitas), sugere pessoas de toda parte de Israel. Ou seja, ainda que o termo multidão não seja usado, e a linguagem pudesse ser mais específica, o ponto é simples e direto: João recebia uma multidão de seguidores.

Entretanto, ao descrever a estória de Jesus, Marcos sutilmente demonstra que o ministério de Jesus, embora tenha iniciado desprovido de influência, cresce a ponto de atrair uma multidão de pessoas. Em primeiro lugar, embora seja descrito como alguém mais poderoso que João Batista, ele é apresentado como um seguidor do mesmo (v.7; ὀπίσω μου; cf. 1:17; 8:33-34), e por ele é batizado (1:1:9-11). Aliás, antes de qualquer ministério (cf. ευθυς), Jesus é levado pelo ES para o deserto, onde Ele não teve contato com ninguém (1:12-13). Posteriormente, Jesus é descrito como pregando o evangelho do Reino (1:14-15), mas nós não somos informados a quem ele fazia isso. Aliás, a primeira referência de influência de Jesus é vista nos primeiros discípulos que Ele convida para o seguirem (1:16-19), homens que imediatamente o seguem (cf. ευθυς; vv. 18, 20).

É a partir desse momento em sua apresentação do ministério de Cristo que Marcos passa a demonstrar a crescente influência de Jesus entre as pessoas. De acordo com sua narrativa, a influência de Jesus se inicia em uma desconhecida sinagoga em Cafarnaum (1:21; cf. ευθυς), onde as pessoas presentes ficam maravilhadas com seu ensino (1:22). Depois de realizar um exorcismos (1:23; cf. ευθυς), entretanto, percebemos que a fama de Jesus rapidamente ultrapassa a Cafarnaum e chega a cidades circunvizinhas (1:28cf. ευθυς). De repente, nós vemos que todos os doentes e endemoninhados eram trazidos para ele (cf. uso de πάντας, pantas; 1:32), de tal modo que toda a cidade estava à porta da casa da sogra de Pedro (ἦν ὅλη ἡ πόλις; en holë hé pólis; 1:32). Mais uma vez, usando uma figura de linguagem, Marcos demonstra que pessoas de toda a cidade o procuravam para receber dele alguma coisa.

E a partir daqui, esse grande número de pessoas começa a crescer no evangelho, de tal forma que Marcos nos conta que καὶ ἤρχοντο πρὸς αὐτὸν πάντοθεν. (kai ērchonto pros auton pantothen – lit e vinha até ele de todos os lados). Novamente, usando a sinédoque novamente, Marcos descreve que pessoas de todos os lados vinham ter com Jesus.

E aqui vemos pela primeira vez Jesus ultrapassando em influência a João Batista. Enquanto pessoas de toda Judéia e Jerusalém vinham até ele no deserto, pessoas de todos os lugares vinham até Jesus. Aliás, as pessoas iam até João Batista no deserto (ἐν τῇ ἐρήμῳ – en tē erēmō; 1:4), do mesmo modo que iam até Jesus em regiões desérticas (ἐπ᾿ ἐρήμοις τόποις – ep᾿ erēmois topois; 1:45).

E ao que parece, esse grupo de pessoas que afluía até Jesus cresceu a tal ponto de ser chamada de multidão (ὄχλος – ochlos; 2:4). E agora, Marcos faz com que essa multidão vá até Jesus o acompanhando o desenvolvimento de sua narrativa (cf. 2:13), até ao ponto que a mesma é chamada de grande multidão (πολὺ πλῆθος – poly plēthos; 3:7, 8). E agora, esse grande aglomerado de pessoas é descrita com vinda “da Judeia, de Jerusalém, da Iduméia e das regiões dalém do Jordão e dos arredores de Tiro e Sidom” (3:8). Novamente, a linguagem de Marcos poderia ser melhor (esp. 3:7-8), mas o ponto é novamente claro: A influência de Jesus crescia a medida que as pessoas ouviam a respeito daquilo que ele fazia (cf. 1:28; 32-33; 45; 3:8).

Mas, é interessante notar que tal crescimento da multidão não é apresentada por Marcos como algo positivo. Na verdade, a multidão é descrita de modo negativo. Ao que parece, a multidão quer algo de Cristo e o procura porque tinha ouvido “a respeito de tudo o que Ele estava fazendo” (3:8). A fama de Jesus se espalhava, mas não baseado no que ele ensinava, muito menos na declaração de missão de Jesus. A bem da verdade, eram suas curas e exorcismos que o tornavam famoso (1:27; cf 1:24, 41-42), e por isso as pessoas se apertavam só para encostar nele e dele receber o que queriam: “Pois Ele havia curado a muitos, de modo que todos os que sofriam de doenças ficavam se empurrando para conseguir tocar nele” (3:10). Eles não queriam a Jesus, nem ouvir o que ele tinha a ensinar. Eles queriam usar a Jesus.

Em outras palavras, a motivação da multidão em ir até Jesus tem pouco a ver com quem Ele era. A bem da verdade, para multidão faz pouquíssima diferença quem ele é, o que realmente importa é o que Ele estava fazendo. Ele era um milagreiro famoso e isso era suficiente para a multidão. A multidão não quer a Cristo, ela quer algo Dele. Eles não querem estar com Cristo, eles querem usar a Cristo. Além disso, a multidão não vai até Jesus por causa do seu ensino (cf. 1:21-22; 32-34; 45; 3:10), a multidão vai até Ele em busca de seus próprios interesses. 

Aliás, essa multidão é apresentada por Marcos com uma sutil nota de desgosto. Ao descrever a multidão se aproximando de Jesus, nosso autor usa um jogo de palavras muito interessante: Enquanto a multidão jogava-se sobre Jesus (ἐπιπίπτω – epipiptō; 3:9) os demônios jogavam-se diante dele (προσπίπτω – prospiptō; 3:11). Ainda que a atitude dos espíritos imundos seja completamente desprovida de adoração, ela pelo menos era marcada pelo reconhecimento da autoridade de quem Jesus Cristo realmente é. Agora, a atitude da multidão é realmente desprezível: não apenas era uma ação desprovida de adoração, era uma ação desprovida de respeito e reconhecimento da autoridade de quem Jesus realmente era. Em outras palavras, a multidão portava-se pior que os demônios.

Multidão dos Discípulos

É verdade que historicamente, a multidão que andava perto de Jesus incluísse pessoas com diferentes motivações, mas na estória narrada por Marcos, até aqui a multidão era má. Mas, isso não significa que a “multidão” não possa ser redimida, isto é, literariamente redimida.

Chama a atenção que o próximo uso do termo multidão usada por Marcos aconteça dentro da casa de Simão (3:20; cf. 1:29; 2:1). Na narrativa, Jesus tem um embate com escribas de Jerusalém e demonstra que os mesmos estavam equivocados sobre seu ministério de exorcismo. E naquele mesmo momento, a mãe e os irmãos de Jesus aparecem à porta da casa, e ficam do lado de fora. Ao que parece, existia uma multidão na casa (3:32; cf. 2:4), de tal modo que não conseguiam entrar para falar com Jesus. Entretanto, ao invés de procurarem uma alternativa para chegar até Ele, como fizeram os amigos do paralíticos movidos por fé (2:4), os familiares o “convocam” a Jesus para o lado de fora. Diferente dos amigos do paralítico, descritos como aqueles que tem  sua fé percebida por Cristo, os familiares manifestam seu repúdio (cf. 3:21) e falta de fé. 

Agora, a multidão (ὄχλος – ochlos; 3:32) é novamente apresentada na narrativa de Marcos. Mas dessa vez, ela não é descrito como indo até Jesus, mas é descrita como estando com Ele: τοὺς περὶ αὐτὸν κύκλῳ καθημένους (tous peri auton kyklō kathēmenous – lit. aqueles que estão assentados em volta dele). Eles estão περὶ αὐτὸν (peri auton – com ele) do mesmo modo que os discípulos foram chamados para estar μετ᾿ αὐτοῦ (met᾿ autou – com ele).

Chama a atenção que a multidão aqui está assentada ao seu redor (3:32), com uma atitude muito diferente daquela que se apertava para tocá-lo (3:9-10). Ao que parece eles estão prontos para ouvir o seu ensino, e para deixar isso claro, Marcos enfatiza por duas vezes a atitude da multidão em sentar-se ao redor de Cristo (3:23-34). Algo tinha acontecido nessa narrativa, que transformou a multidão interesseira no curandeiro ser descrita como interessada no Messias. E o paralelo entre os discípulos e a multidão deixa isso muito claro: Do mesmo modo que os discípulos haviam obedecido o chamado de Cristo (3:13) para estar com Ele, essa multidão é descrita como obediente à vontade de Deus ao estar com Ele (3:34-45). A multidão foi literariamente redimida por Marcos! Eles são agora descritos como pertencendo aos seguidores de Cristo, que estão com Ele por quem Ele é. 

E para deixar isso muito claro, Marcos descreve a Jesus como voltando a ensinar à beira mar (4:1a). O mar era o lugar onde Jesus tinha ido para fugir da multidão (3:7), mas é agora descrito como o lugar para onde Jesus vai para ensinar a multidão. E aquela multidão numerosa (πολὺ πλῆθος – poly plēthos; 3:7, 8) e procurava  pressionar Jesus para receber dele alguma coisa, é agora uma multidão ainda maior (ὄχλος πλεῖστος – ochlos pleistos; observe o superlativo aqui). E a motivação dessa multidão ainda maior era ainda melhor: Eles queriam ouvir a Jesus ensinar (4:2). 

A multidão foi finalmente redimida. Os termos são similares, mas o contexto e os motivos narrativos são outros. Aliás, aqui até mesmo o barquinho foi redimido. Aquele instrumento usado para fugir da multidão (3:9), é então usado como púlpito para o seu ensino (4:1). A multidão foi redimida!

Conclusão

Em outras palavras, ao que parece, Marcos descreve literariamente o que literalmente faz o nosso Senhor. Ele é o redentor das multidões que o procuram por benefícios pessoais. É ele quem redime aqueles que por motivos errados o buscam, se apertam e pressionam para tocá-lo. Ele é o redentor de uma multidão pecadora. 

Mas o que realmente impressiona, é que de acordo com Marcos, essa multidão descrita como aprendendo de Jesus, era uma multidão ainda maior que aquela que o queria para fins pessoais. A influência de Jesus cresceu, porque Ele redimiu a multidão. E alias, esse é o tema de suas parábolas no capítulo quatro (4:3-34): O crescimento do Reino e a expansão da sua mensagem. Ou seja, Marcos segue com seu evangelho demonstrando o poder redentor de Cristo, cuja mensagem e influência continuará a crescer de forma exponencial (4:20; 28-39; 30-32). O Messias que redimiu a multidão é o Cristo que redime multidões. E é por isso que continuamos a proclamar a mensagem do evangelho! Nossa expectativa é ver multidões redimidas diante do nosso Senhor.

E é aqui que a simplicidade gramatical e linguística de Marcos encontram sua genialidade literária. E é assim que esse evangelho se apresenta como um misto de simplicidade linguística e profundidade artística. Marcos é genial, e é difícil fazer jus à sua grandeza literária ao transformar essas percepções hermenêuticas em texto. Entretanto, deixo aqui minha percepção de como é simples e sensacional ao mesmo tempo. 

SDG

Onde está a tua lealdade?

Nos últimos anos temos visto em nosso país uma grande polarização política tomar conta das mídias sociais. Pessoas de todos os lugares tem usado esses aplicativos como plataforma de discurso político, seja para criticar a oposição, seja para defender sua posição. Cada lado tem seus ‘gurus’ e todos tem suas lealdades bem definidas.

Entretanto, diferente do que acontecia a alguns anos, a igreja evangélica brasileira tem crescido em sua influência política, e pessoas importantes do meio evangélico tem estrategicamente nos ajudado a pensar e refletir sobre o assunto de uma perspectiva cristã. Infelizmente, essa iniciativa inicialmente positiva nem sempre tem colhido efeito esperados.

A bem da verdade, a polarização política que divide o país aos poucos tem encontrado seu caminho para dentro das nossas comunidade. E para piorar, cristãos agora munidos das opiniões dos seus ‘gurus políticos evangélicos’ tem usado suas preferências políticas como critério para descrever a ortodoxia e definir a catolicidade da fé. E como consequência, tem criado um ambiente contraproducente para nossa identidade e missão. 

O resultado não desejado desse novo modelo de participação política é que alguns dos nossos irmãos em Cristo tem perdido sua perspectiva do que realmente importa, e com isso, a lealdade de alguns tem aos poucos mudado do Reino de Cristo para o reino de suas preferências políticas. 

Por isso, acredito que é hora de voltarmos nossos olhos aos discípulos de Cristo e aprender com eles o que significa pertencer ao grupo de discípulos. Falo isso, porque quando olho para o grupo de homens que Cristo escolheu para si, vejo que a diversidade desse grupo (Mc 3:13-19//Mt 10:1-4//Lc 6:12-16) pode nos ensinar alguns princípios que precisamos urgentemente relembrar em nossos dias.

(1) A Lealdade a Cristo era maior que a Lealdade ao Mercado

No grupo de discípulos de Cristo encontramos quatro pessoas que sabemos eram empresários, Simão, André, Tiago e André. Diferente do que normalmente pensamos,  o mercado da pescaria na Galiléia nos dias de Cristo era um negócio próspero. Ao que parece Pedro tinha seu próprio barco (Lc 5:3b) e era sócio de Tiago e João (Lc 5:10). Juntos eles tinham eles tinham barcos (Lc 5:2-3a) e funcionários contratados para viabilizar o negócio (Mc 1:20; Lc 5:7). 

Entretanto, quando eles tiveram seu encontro com Cristo suas vidas foram transformadas. Ao ouvir o convite do Mestre eles deixam tudo para trás (Mc 1:20//Mt 4:22//Lc 5:11). Enquanto Mateus enfatiza uma a família (Mt 4:22), Lucas enfatiza os barcos e os negócios (Lc 5:11). Mas Marcos descreve a cena de modo muito claro: “Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com seus empregados, seguiram após Jesus” (Mc 1:20). As vezes eu tenho a impressão que os ensinos de Jesus sobre riquezas eram difíceis para Pedro digerir (Mc 10:23-31//Mt19:23-30//Lc 18:24-30). Deve ser por isso, que é ele que reage (Mc 10:28//Mt 19:27//Lc 18:28) diante da constatação de Jesus que ricos dificilmente entrariam no Reino (Mc 10:23//Mt 19:23//Lc 18:24). Ele sabia o que era ser rico. Por outro lado, eu acredito que diante da grandeza de Cristo, a lealdade de Pedro e de seus parceiros estava com Cristo e não com o mercado. Os negócios não importavam mais que Cristo. Nada era mais importante do que seguir a Cristo. 

(2) A Lealdade a Cristo era maior que a Lealdade ao Estado

Entre os discípulos de Cristo existia uma figura muito interessante: ele era conhecido como Simão o Zelote. Esse Simão, diferente de Pedro, não era um empresário, ele era nacionalista. Os ‘zelotes’ eram um grupo que primava pelo zelo religioso com causas sociais e econômicas. Ainda que o movimento não tivesse sido organizado de modo bélico (o que acontece pouco depois 66 EC) o sentimento nacionalista, pró-Israel e anti-Império era palpável nos dias de Cristo. Esses eram aqueles que rejeitavam as influências helênicas feitas pelo Império Romano e acreditavam que deveriam manter Israel livre de tal imperialismo. Eles queriam não apenas a liberdade do estado do Israel do domínio do Império, eles queriam liberdade cultural.

Entretanto, quando convidado para estar com Cristo, Simão o nacionalista era apenas um seguidor de Cristo. Nos evangelho ele aparece com os discípulos aos pés de Jesus aprendendo com seu ensino e servindo lado a lado com eles. As vezes eu imagino o quão deslocado ele deve ter ficado ao aprender de Cristo sobre o conceito da não resistência (Mt 5:38-39//Lc 6:29-30). A mensagem de Cristo era incompatível com sua visão política (e provavelmente incompatível com sua expectativa messiânica), e ainda assim, nós vemos que ele era tão parte do grupo de discípulos como seu homônimo mais conhecido. Ou seja, embora tivesse uma visão política nacionalista, Simão demonstra que sua lealdade estava com Cristo e com seu Reino. 

(3) A Lealdade a Cristo era maior que a Lealdade a Si Mesmo

Diferente dos outros dois grupos, existia entre os discípulos de Cristo alguém cuja lealdade estava claramente consigo mesmo. Mateus era um publicano. Para ele nem o mercado nem o estado importavam. O que realmente importava para ele era o o seu ‘sucesso financeiro’, e para isso, ele estava disposto a trair a ambos o nacionalista e o empresário para vender-se ao Império e funcionar como alguém que poderia extorquir seus compatriotas em serviço a Roma (cf. Lc 19:8). Esses cobradores de impostos eram religiosa (Mc 2:15, Mt 9:10, Lc 7:34), etnica (Mt 5:46; 18:17)  e moralmente (Mt 21:31) desqualificados nos dias de Jesus. Nos escritos rabínicos posteriores, eram classificados ao lado dos ladrões, assassinos e pecadores (M.Torar 7.6; mB.Qam 10.2; m.Ned 3.4) e pessoas indignas para negócios (b.Sanh 25b). A única razão para alguém aceitar tal repressão social era a oportunidade de ganho financeiro. A pessoa que aceitava esse tipo de trabalho tinha sua lealdade a si mesmo acima de qualquer coisa.

Entretanto, quando Levi ouviu o chamado de Cristo, ele deixou tudo para trás para seguir a Cristo (Mc 2:13-14//Mt 9:9//Lc 5:27). Para alguém cuja lealdade estava consigo mesmo, não deve ter sido fácil para Levi ouvir o ensino de Cristo sobre a lealdade exclusiva a Ele: “Quem não está comigo, está contra mim, e quem comigo não ajunta, espalha” (Lc 11:14//Mt 12:30). Mas, ao que parece, diante da grandeza de Cristo, Levi resolveu abrir mão de sua lealdade a si mesmo para seguir a Cristo.

Em outras palavras, quando esses empresários, nacionalistas e individualistas encontraram pessoalmente a Jesus, eles abandoaram a suas lealdades e preferências para seguir a Cristo juntos. A mensagem de Cristo era pesada e contrária a todos eles, mas a medida que aprendiam a negar a eles mesmo, ele entendiam o que significava carregar diariamente a cruz. Com o tempo, eles puderam aprender que seguir a Cristo significava abrir mão de suas preferências e antigas lealdades. Como resultado, vemos que a lealdade deles a Cristo torna-se tão fundamental para eles que suas causas pessoais e preferências políticas já não eram mais tão importantes. Para eles, seguir a Cristo tornou-se mais importante do que qualquer outra causa.

Mas, devemos também nos lembrar que a lista de discípulos de Cristo termina com uma nota sombria. Judas, o último discípulo listado nos evangelhos, é reconhecido como o traidor. Esse homem foi chamado para estar com Cristo e foi enviado por Ele para pregar (Mc 3:14). Mas, ao que parece, sua lealdade nunca esteve de fato com Cristo, afinal ele tem um caso de lealdade com o dinheiro, e em função disso, rouba os discípulos (Jo 12:5-6) e vende o Mestre (Mc 14:10-11//Mt 26:14-16//Lc 22:3-6). Sua lealdade dividida acabou o levando não apenas ao fracasso e abandono de Jesus, mas também ao abandono da fé e da vida (Mt 27:3-10). Ao que aprece, sua lealdade dividida no fim das contas era uma evidência de que ele mesmo nunca pertenceu ao grupo de discípulos de Cristo (Jo 6:70-71). Em outras palavras, a lealdade dividida além de indesejada tem um fim mortal.

Por isso, considerando o que vejo no grupo de discípulos de Cristo, a pergunta que eu faço a vocês não é: “Qual é a sua preferência política?” A minha pergunta é: “Onde está a sua lealdade?”. 

Caminhar é Servir

Leitura Bíblica: Marcos 1.21-45


“É aqui que vemos o início da tragédia: a multidão chegou, mas eles vieram porque queriam algo de Jesus. Eles não vieram porque o amavam; eles não vieram porque vislumbraram alguma nova visão. Na verdade, eles queriam apenas usá-Lo” – William Barclay

A cena é muito bem apresentada. Marcos organiza uma série de eventos da história de Cristo como se todos tivessem acontecido num período de um dia (cf. vv.32, 35). E nesse dia, Marcos emoldura essas estórias entre dois eventos interessantes, que servem como início e fim de sua perícope: primeiro um exorcismo (1:21-28), e então a cura de um leproso (vv.40-45). Ambos os eventos têm em comum a manifestação da autoridade divina de Jesus sobre males físicos e espirituais. Ambos demonstram o modus operandi de Cristo em seu ministério e servem como modelo de aprendizado para os discípulos. Ambas as estórias apontam para a verdadeira identidade de Jesus, sendo que para o endemoninhado, Jesus é o Santo de Deus (v.24), e para o leproso alguém digno de adoração (v.40). E por fim, ambas as estórias terminam com um relato da expansão da fama de Jesus pelas regiões vizinhas (vv. 28, 45). Marcos parece ter pensado muito bem para apresentar dessa forma a história de Jesus aqui. Mas, o que ele quer nos ensinar com isso?

Eu acredito que a resposta a essa pergunta, encontra-se nas três estórias colocadas entre o exorcismo e a cura do leproso. Trata-se de três eventos narrados em poucos detalhes, mas que acrescem à sua estória informações importantes. Primeiro Marcos nos apresenta a cura da sogra de Pedro, que estava de cama em função de uma febre (vv.29-31); depois ele nos conta sobre os muitos milagres que teria realizado à porta da casa da casa de Simão (vv.32-34); e por fim, nos conta sobre a postura de Jesus a respeito de sua missão (vv.35-39). E ao colocar esses três eventos em sequência, Marcos nos apresente três diferentes perspectivas sobre quem é Jesus.

A Perspectiva da Multidão

Ao que parece, a multidão conhecia a Jesus apenas por sua fama. Aquele ensino que havia originalmente maravilhado as pessoas (vv.21-22), parece ter sido esquecido diante dos atos poderosos que realizava (vv.27-28). Quando Jesus manifestou sua autoridade sobre o mundo espiritual ao expulsar um demônio com suas palavras, sem o costumeiro uso de adereços místicos, as pessoas viram Nele alguém com um tipo de autoridade que eles não conheciam (v.27). Quem Ele é, a multidão não sabe, mas ela sabe o que Ele é capaz de fazer. E baseado nisso, a fama de Jesus começou a se espalhar (v.29).

E por isso não nos surpreende que pouco à frente na narrativa nós encontramos pessoas de toda a cidade de Cafarnaum trazendo até Jesus pessoas doentes e endemoninhadas (vv.32-33). Algo realmente novo estava acontecendo nesse vilarejo da Galiléia (v.27), e as pessoas passaram a encontrar em Jesus um meio para receberem o que procuravam. Para eles, Jesus era a resposta para o seu sofrimento.

A Perspectiva dos Discípulos

Agora, surpreendente é o fato de que os próprios discípulos se deixaram levar pelos aplausos da multidão. Nessas três estórias, os discípulos aparecem apenas duas vezes, e nas duas ocasiões eles parecem mais interessados neles mesmos do que no próprio Senhor. Na cena da cura da sogra de Pedro, são os discípulos que O procuram para contar-lhe sobre o problema deles (v.30). Quase despercebidos na narrativa, os discípulos não perderam tempo em avisar o Senhor sobre a enfermidade da sogra de Pedro. E aqui, vemos um paralelo muito interessante com a cena da multidão: os discípulos, como a multidão que não o conhecia, viam a Jesus como um meio para recebero que eles precisavam.

E pior, isso acontece novamente na cena seguinte. Enquanto Jesus sai de Cafarnaum a procurar um lugar para orar em solitude (v.35), os discípulos o procuravam por todos os lados (v.36). Mas porque eles o procuravam? Ao que tudo indica, os habitantes de Cafarnaum precisavam que Jesus continuasse a manifestar sua autoridade, curando enfermos e expulsando demônios (v. 37; cf. vv. 33-34), e os discípulos foram os agentes que a multidão usou para reorganizar a agenda do Mestre e adequá-la às suas necessidades (cf. v.38 para resposta de Jesus). E de um modo muito triste, Marcos demonstra que os discípulos, como a multidão, estavam seguindo a Jesus pelas razões erradas. Para eles, Jesus era um meio para receber o que eles entendiam que precisavam.

A Perspectiva da Sogra de Pedro

E junto com essas duas estórias de fracasso, Marcos nos conta a mais surpreendente de todas as estórias dessa perícope. A estória de uma mulher anônima e desconhecida. E pior, não apenas anônima e desconhecida, mas a estória de uma sogra (!). Dentre tantos personagens, Marcos escolheu contar a estória dessa mulher justo aqui. E a respeito dela Marcos escreve apenas uma pequena frase que descreve sua perspectiva a respeito de Jesus: “A febre a deixou, e ela começou a serví-los” (v.31). Dentre todas as pessoas apresentadas nessas três estórias, essa mulher desconhecida, alguém descrita como mãe da mulher de alguém, é ela que o autor usa como modelo para nossa jornada com Jesus. De acordo com Marcos, ao contrário da multidão (que em breve irá voltar-se contra ele), e dos discípulos (que oportunamente o abandonarão), essa mulher entendeu que seguir a Jesus não é uma questão de receber de Jesus alguma coisa, mas de serví-lo. Aliás, eu gostaria que você observasse o pronome no plural: “começou a servílos.” Ela não apenas serviu a Jesus, mas também os discípulos Dele. Com isso, Marcos nos ensina que caminhar com Cristo é servir a Ele e aos Seus seguidores.

Mas, existe algo aqui que é grande demais para deixar de notar. O termo que Marcos usou para descrever o serviço é o verbo grego diaconéö, o mesmo verbo que Marcos usa para descrever a assistência que os anjos deram a Jesus nos dias da sua tentação (1:13). É o mesmo verso que descreve o ministério das mulheres em servir a Jesus durante seu ministério na Galiléia (15:41). Mas, mais interessante, é que Jesus usa o mesmíssimo verbo para descrever sua missão: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (10:45). Ou seja, a sogra de Pedro já está fazendo por Jesus aquilo o próprio Jesus pretende modelar para seus discípulos. Em outras palavras, dentre todas as pessoas apresentadas nessas estórias, é essa mulher anônima e desconhecida que nos ensina aquilo que o Senhor espera de nós. Em nossa jornada com Cristo, nós fomos chamados para servir e não para receber.

Mas, e o que dizer do leproso? Não foi ele quem reconheceu a autoridade de Jesus (v.40)? Não foi ele que saiu pregando a respeito de Jesus por onde passava (v.45)? Exatamente! Mas é aqui que nós encontramos uma interessante ironia na narrativa de Marcos. Tendo colocado a expulsão de um espírito imundo (v.25-26) e a cura de um leproso (v.42), como moldura dessas estórias, Marcos deixou um último contraste entre o demônio e o leproso: Ambos recebem de Jesus a ordem de ficar em silencio. Os demônios recebem um forte “Cala-te!” (v.25), ao passo que o leproso recebe uma veemente advertência para ficar em silêncio (v.43-44). Entretanto, enquanto o demônio O obedeceu (vv.25-26; cf. v.34), o leproso saiu a propagar mais notícias a respeito de Jesus, aumentando assim a sua fama (v.45). Essa sutil desobediência ajudou ainda mais a fomentar a fama de Jesus pelas razões erradas. Mais uma vez, as notícias de Jesus eram propagadas (cf. v.28), mas elas faziam Jesus parecer um curandeiro e não o Messias que Ele realmente era.

Além disso, a partir da próxima perícope vemos que os ensinos de Jesus geram oposição e não fama (cf. 2:1-3:6). Essa sutil diferença entre a pregação de Cristo e a do leproso sugerem que ainda que tenha sido agraciado com um milagre, o próprio leproso não tinha entendido quem Ele realmente era. E desobediente, o leproso passa a servir os interesses da multidão, que procurava em Cristo alguém para aliviar seus sofrimentos. E aqui vemos a grande tragédia do início do ministério de Jesus: as pessoas procuravam a Cristo para receber dele alguma coisa.

E digo mais: é aqui que encontramos grande parte da tragédia do Cristianismo dos nossos dias. Em nome da manifestação do poder de Cristo, muitos tem feito dele um meio para se receber alguma coisa. Para muitos, Jesus é o meio pelo qual receberão sucesso nessa vida, dinheiro, cura e tantas outras coisas. Ao invés de apresenta-lo por quem Ele é, muitos servem os desejos da multidão e fazem de Cristo um milagreiro, um curandeiro, alguém que tem condição de dar para as pessoas o que elas gostariam, sem qualquer menção do “Siga-me!” que ecoa tão veemente no início do evangelho.

Graças a Deus por essa mulher anônima e desconhecida, que nos ensinou que caminhar com Cristo é uma questão de servir a Ele e aos Seus. E você, como tem servido a Cristo e aos seus discípulos?

Início da Jornada

Leitura BíblicaMarcos 1.1-20


“Do mesmo modo que Marcos quis enfatizar que o evangelho é centrado no sofrimento de Jesus pelos outros, ele também quis corrigir a noção do discipulado como uma vida fácil e triunfante. Não há apenas uma profunda teologia do evangelho neste livro, mas também uma profunda compreensão da vida cristã” – Larry Hurtado

Eu ainda me lembro a alegria que senti quando entendi o evangelho pela primeira vez. Eu era apenas uma criança na escola bíblica ouvindo um seminarista apresentar a história do evangelho com um antigo livro infantil. E foi naquela manhã fria e ensolarada de domingo que eu finalmente entendi que era incapaz de salvar a minha própria vida.  Confesso que a princípio senti um certo medo ao compreender a minha própria incapacidade. Mas quando entendi a suficiência do sacrifício de Cristo por mim, meu coração foi tomado por uma alegria que eu não saberia explicar.

Mas, eu era apenas uma criança. Eu não tinha clareza das implicações da decisão que tinha tomado. Eu não sabia o quanto isso me custaria. Foi apenas mais tarde, com mais entendimento e conhecimento que passei a compreender que o chamado de Cristo, incluía também uma comissão, e que essa comissão também teria os seus custos.

E lendo o Evangelho de Marcos, tenho a impressão que os discípulos de Jesus passaram por um processo semelhante. Eles prontamente decidem seguir a Jesus quando ouviram o seu chamado (1:16-20), mas eles demoram todo o livro para finalmente entender quem Jesus de fato era (8:29), qual era a sua missão (9:31) e o que Ele esperava dos seus seguidores (14:28; 16:7). Deve ser por isso que Marcos inicia seu evangelho a sugerir de maneira sutil que a vida do discipulado é marcada pela alegria do chamado, pelo privilégio da comissão, e pelos custos da vida do discipulado.

Alegria do Chamado

Ao apresentar o chamado de João, Jesus e dos Discípulos, Marcos consistente demonstra a presença da voz divina iniciando o chamado de cada um deles. A voz do Espírito Santo é ouvida no uso que Marcos faz das escrituras ao apresentar o chamado de João: “Conforme está escrito em Isaías, o profeta: Eis que estou enviando diante de ti o meu mensageiro, que prepara o teu caminho” (1:2). A voz do Pai é ouvida no chamado de Cristo quando Ele sai das águas após seu batismo: “Tú és o meu filho amado em quem eu me deleito” (1:11). E a voz de Cristo é ouvida quando Marcos descreve o chamado dos discípulos: “Sigam-me!” (1:17). Ao que parece Marcos sugere que o chamado para a vida do discipulado tem o seu começo na iniciativa divina. Deus é soberano em fazer sua voz ser ouvida na vida daqueles a quem Ele convida para viver com Ele.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo e com você quando finalmente entendemos a mensagem do evangelho. A voz divina foi ouvida e nossa vida foi inundada pela alegria da nossa salvação. Não estamos mais perdidos e sem direção, fomos encontrados e resgatados por um Deus amoroso. Não somos mais escravos dos nossos pecados, mas fomos libertos por Cristo para uma nova vida. Nós fomos chamados para estar com Cristo e viver para Deus.

Privilégio da Comissão

Mas é também interessante notar que Marcos também demonstra que cada um dos personagens apresentados na introdução do seu evangelho, não são apenas chamados, eles são também comissionados. João Batista, por exemplo, é descrito como aquele que no deserto “preparará o caminho para o Senhor” (1:2), Ele é também descrito como aquele que pregar “o batismo de arrependimento para remissão dos pecados” (1:3). Ou seja, como precursor do Messias, João batista prepararia o caminho para Ele pregando sobre o batismo de arrependimento.

Similarmente, Marcos nos conta que Jesus também foi comissionado para uma missão: “Jesus foi para Galiléia para pregar o evangelho de Deus” (1:14) De acordo com Marcos, essa era a sua mensagem: “O tempo é chegado, e o Reino de Deus está às portas. Arrependam-se e creiam no evangelho!” (1:15). Como era de se esperar, os discípulos são também comissionados nesse texto: “Sigam-me! E eu os farei pescadores de homens” (1:17). Ou seja, João foi comissionado a pregar; Jesus foi comissionado a pregar; os discípulos foram comissionados para pregar.

Ao colocar a história desses três personagens no início do seu evangelho, Marcos nos ensina que a vida do discipulado é mais do que somente a alegria do chamado. A bem da verdade, a vida do discipulado também inclui o privilégio da comissão para pregar o evangelho. Como João, Jesus e os discípulos, nós também temos a responsabilidade de pregar o evangelho, de sermos pescadores de homens. Como discípulos do nosso Mestre, devemos seguir os seus passos e abraçar o privilégio da nossa comissão.

Custos da Comissão

Mas isso não significa que tudo será simples, fácil e triunfante. Aliás, Marcos sutilmente parece apontar para outra direção. De modo quase despercebido, Marcos demonstra que João Batista, o profeta chamado e comissionado por Deus, enfrentaria dias difíceis. Sem muitos detalhes, Marcos apenas anuncia que João teria sido preso (1:14). O termo usado aqui dá a ideia de que João teria sido entregue às autoridades. É verdade que Marcos volta a contar como a história se desenrolou mais a frente no evangelho e como João veio a morrer (cf. 6:16-29), mas por enquanto tudo o que sabemos é que aquele que fora chamado e comissionado, enfrenta aqui os custos de uma vida dedicada a Deus.

Mais interessante, é que esse mesmo termo usado para descrever a prisão de João, é usado por Marcos para descrever a “entrega” de Jesus às autoridades: “O Filho do Homem será traído e entregue nas mãos dos homens” (9:31). Nós que conhecemos a história de Jesus, sabemos exatamente onde a história dele vai terminar (cf. 15:33-39). Ele que é o Filho Amado em que Deus se deleita; Ele que foi comissionado para pregar o evangelho de Deus; Ele mesmo, será traído, abandonado e entregue às autoridades, e então, será Ele morto. Em outras palavras, tanto o precursor do Messias, quanto próprio Messias são enfrentariam uma vida de sofrimento que os levou a morte.

O que nos salta aos olhos, entretanto, é que Marcos é completamente silente ao descrever o custo que os discípulos teriam a enfrentar. Ao que parece, o autor preferiu escrever um livro inteiro para demonstrar quais são os custos de se seguir a Cristo. Em outras palavras, ao invés de escrever de modo direto, Marcos optou por uma rota mais sutil. É como se ele dissesse: “O sofrimento virá. Os custos virão. Continuem lendo”.

É aqui que começamos a nos perguntar: E o que isso tem a ver conosco? E a resposta é simples: Tudo! Lendo o início do Evangelho de Marcos aprendemos sobre a alegria do nosso chamado e do privilégio da nossa comissão, mas também aprendemos que seguir os passos de Jesus significa assumir riscos e dificuldades, e que em última análise pode custar nossas vidas. De modo bem sutil, Marcos está nos ensinando aquilo que o nosso próprio Senhor já nos ensinou em outro lugar: “Se alguém quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa e pelo evangelho a salvará” (Mc 8:34-35).

É bem possível que você se lembre do dia em que você ouviu a voz de Deus e finalmente entendeu o evangelho. E talvez, sua memória, como a minha, seja marcada pela alegria de compreender a suficiência do sacrifício de Cristo por você. Mas, se Marcos nos ensina alguma coisa, é que isso é apenas o começo de uma jornada que durará toda a nossa vida. É por isso que Marcos nos convida a uma jornada literária guiada por ele, onde vamos aprender com mais clareza o que significa seguir a Cristo. E nesse Evangelho, vamos observar que a missão que o nosso Senhor nos delegou tem seus custos e eles são altos. Você está preparado para enfrentar essa jornada comigo?


Veja também o vídeo dessa mensagem:

Seguindo a Jesus: Um Devocional Semanal

Post Originalmente Publicado no site Voltemos ao Evangelho.


O Evangelho de Marcos é o mais antigo livro a respeito de Jesus Cristo que temos conhecimento. Ele registra a história do ministério público de Jesus, desde o seu batismo até sua ressurreição. Sua intenção é claramente contar a história de Jesus como uma explicação para sua morte e ressurreição.

Entretanto, de modo artisticamente genial, o autor nos convida a entrar na história de Jesus como se pudéssemos participar com Ele e Seus discípulos dos eventos narrados nesse livro. A cada cena, história, diálogo nós somos convidados a aprender mais sobre quem Ele é e o que Ele espera de nós como seus seguidores.

Uma Jornada com Jesus

E para fazer isso, Marcos descreve Jesus sempre em movimento, em uma jornada com seus discípulos em em direção a Jerusalém. Nesse evangelho temos a impressão de que Jesus está sempre a caminho de algum lugar. Isso fica evidente quando percebemos que a palavra grega para “caminho” (gr. ὁδός / hodós) aparece 16x nesse evangelho (1:2, 3, 2:23; 4:4, 15; 6:8; 8:3, 27; 9:33, 34; 10:17, 32, 46, 52; 11:8, 12:14) sugerindo que o autor escolheu apresentar a história de Jesus através de uma jornada literária que pode ser dividida em três partes:

(1) Ministério na Galiléia: Marcos inicia seu evangelho contando a história do ministério de Jesus a Galiléia (1:1-8:21), focando em seus primeiros encontros com seus discípulos, sua relação inicial com a multidão, seus ensinos e conflitos iniciais com as autoridades judaicas. É nessa fase de sua história que Jesus faz seus primeiros convites para que pessoas passem a seguí-lo (1:16-20; 2:13-14, 3:13-19).  Com isso, Marcos nos ajuda a responder a pergunta: “Quem é Jesus?” (4:41 cf. 1:7-8, 22-27, 34, 38; 2:5-12, 17, 28; 3:11, 20-29; 5:7; 6:3-4, 14-16, 48-52; 7:36-37; 8:11-13).

(2) Discipulado no Caminho: Na segunda parte do evangelho, Marcos passa a demonstrar o desenvolvimento da missão de Jesus com seus discípulos à caminho de Jerusalém (8:22-10:52). Nessa parte do evangelho, o autor nos convida observar o discipulado de Jesus com especial atenção ao seu relacionamento com os Doze Discípulos. Com isso, Marcos nos ajuda a responder a pergunta: “O que significa ser um discípulo de Jesus?” (8:34-38; cf. 8:27-30, 31-33; 9:7-8, 9-10; 18, 24, 29; 30-32; 33-37, 40, 42, 43-47; 49-50, 10:10-12; 10:15-16; 17-22, 26-31; 32-34, 38, 43-45).

(3) Morte em Jerusalém: Por fim, Marcos nos conta como o ministério de Jesus, que se inicia na Galiléia, se desenvolve a caminho com os discípulos, termina em Jerusalém com sua traição, sofrimento e morte de cruz (11:1-16:8). Ao que parece, todas as histórias narradas apontam para o momento da morte de Jesus, e o evangelho tem aqui seu ápice. E aqui Marcos nos ajuda a responder a pergunta: “O que Jesus espera dos seus seguidores?” (14:28; 16:7; cf. 11:7-11; 15-18; 20-25; 27-28; 12:10-11; 16-17; 28-34; 41-44; 13:24-27, 32-37; 14:3; 10, 20, 27-31, 37, 40, 41, 44, 47, 50, 51-52, 54, 66-72; 15:12-15, 22-26, 27-32; 16:8).

Com essa narrativa, Marcos apresenta a jornada do discipulado com Jesus, em uma narrativa que mistura a apresentação poderosa da pessoa de Jesus com a completa incompreensão dos discípulos a respeito de quem Jesus realmente era. E nessa jornada do discipulado com Jesus Marcos também nos ensina que ser um discípulo de Jesus é seguir os seus passos em meio às dificuldades e lutas. Em outras palavras, é uma questão de tomar a nossa cruz diariamente e seguir seus passos numa jornada com Ele por toda a vida.

Isso fica muito claro quando o autor descreve a jornada do discipulado com a frase “no caminho” (gr. ἐν τῇ ὁδῷ / en të hodöi; cf. 8:3, 27; 9:33, 34; 10:32,  52) no contexto de cada uma das três predições de sua morte feitas por Jesus (8:31-32a; 9:30-31; 10:32-34). Em outras palavras, para Marcos seguir a Jesus é estar com Ele a caminho da cruz todos os dias. Seguir a Jesus é um compromisso de estar com Ele até a morte!

Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa e pelo evangelho a salvará – Marcos 8:34, 35

Uma Jornada Fracassada

Mas é interessante que essa jornada com Jesus apresentada por Marcos é apresentada como uma jornada de fracassos. A cada história contada, Marcos demonstra que não era apenas a multidão, os opositores ou as autoridades que não haviam compreendido quem Ele era, mas que os próprios discípulos pareciam não entender quem Ele era (8:32), o que ele ensinava (7:18) e o que Mestre esperava deles (8:17-18). E isso fica evidente em cada uma das três partes do evangelho:

(1) Falta de Entendimento: Na primeira parte do livro (1:1-8:21), Marcos nos conta que os discípulos não haviam entendido quem Jesus de fato era (4:13; 7:18), pois eles o seguiam pelas razões erradas (1:21-45), não tinham fé (4:40), não acreditavam no seu poder (6:37, 8:4), não o reconheciam (6:49) e não conseguiam entender o que Jesus estava fazendo através dos seus milagres (8:16-21).

(2) Falta de Aceitação: Na segunda parte do livro (8:22-10:52) Marcos enfatiza as predições que Jesus faz a respeito de sua missão e morte, mas os discípulos parecem convencidos de que isso não iria acontecer de verdade. Pedro chega a exortar a Jesus procurando corrigi-lo de sua “tolice” (8:32), ao passo que os discípulos pareciam não querer aceitar que esse seria o destino de Seu mestre (9:32), ou preferiam ignorar completamente o que Ele havia ensinado sobre sua morte (10:35-45).

(3) Falta de Fidelidade: Por fim, na terceira parte do livro (11:1-16:8) Marcos demonstra como os discípulos demonstraram-se infiéis a Jesus. Diante de todo o entendimento equivocado sobre quem Ele de fato era e sobre qual seria Sua missão, os discípulos foram incapazes de serem fiéis ao Seu mestre: Judas, talvez o mais insatisfeito dos discípulos, decidiu traí-lo (14:10-11; 17-21). Pedro em toda sua autossuficiência, chega a dizer que jamais O abandonaria (14:27-31), mas acabou o negando três vezes (14:66-72). Os discípulos não foram capazes de orar com Seu mestre quando Ele mais precisou (14:32-41), e por fim todos eles fugiram deixando O sozinho para ser preso (14:50-52): nos últimos momentos de Sua vida e ministério, Jesus fora traído e abandonado por todos os Seus discípulos.

Uma Nova Jornada com Jesus

Em outras palavras, a jornada do discipulado de Jesus com seus discípulos tal como narrada por Marcos nada mais é do que uma jornada de repetidos fracassos dos seus discípulos diante de um Mestre que os ama até as últimas consequências. E é exatamente por isso que esse evangelho é tão significativo para nós: Como os discípulos, em nossa jornada com Cristo temos experimentado recorrentes fracassos diante daquilo que o Senhor esperada de nós, mas ainda assim estamos diante de um Mestre que nos ama imperfeito como somos.

Mas o que nos chama a atenção no Evangelho de Marcos é que através da descrição dessa jornada fracassada, Marcos nos ensina que como seguidores de Jesus precisamos (1) entender quem Ele é, (2) aceitar sua missão e (3) viver uma vida de fidelidade a Ele evitando os exemplos negativos dos seus discípulos. Em outras palavras, Marcos nos convida a uma nova jornada com Jesus, uma jornada de acordo com os ensinos e as expectativas do nosso Mestre, uma nova jornada com Ele a caminho da nova Jerusalém.

E nós que conhecemos a história muito bem, e que somos avisados desde o primeiro verso sobre quem Jesus é (1:1; cf. 15:39), e sabemos exatamente o que Ele veio fazer (cf. 8:31; 9:30-31; 10:32-34; 15:33-38; 16:5-7), temos uma perspectiva privilegiada para estudar esse livro: Nós podemos encontrar nessa jornada literária o que Marcos quer nos ensinar sobre o Jesus espera de nós como seus seguidores. Quando lemos o evangelho de Marcos, somos convidados a caminhar com Jesus por uma jornada que irá transformar nossa perspectiva sobre quem Ele é e sobre o que significa ser Seu discípulo.

É por isso que durante a série de devocionais “Seguindo a Jesus”, nós queremos convidar a você a ler esse evangelho semanalmente com a gente. Em cada um dos posts dessa série vamos deixar um link para a leitura do texto, para que você possa ler o Evangelho de Marcos e refletir em como tem sido a sua Jornada com Jesus a caminho da Nova Jerusalém. Nosso desejo é que esta série seja usada por Deus para transformar sua vida, para que você seja inspirado a seguir a Jesus mais de perto em sua vida. Vamos iniciar essa jornada com Jesus juntos?

Soli Deo Gloria!

Seguindo a Jesus em 2020

A virada do ano é normalmente um ritual de passagem para nós. É o momento que estabelecemos novos alvos, reavaliamos antigos sonhos e planejamos os novos rumos. Na Fonte São Paulo não é diferente! O ano de 2019 foi um ano incrível! Temos visto e experimentado o quando o Senhor tem trabalhado em nossas vidas e como Ele, no tempo Dele, tem feito nossa igreja crescer.

E nosso desejo é esse: Continuar a crescer na graça e no conhecimento de Deus como igreja, inspirando transformação pelo evangelho em 2020. E para isso, queremos iniciar o ano com os olhos fitos no nosso Senhor e ouvidos atentos à Sua palavra.

Por isso, no próximo domingo, já no primeiro domingo do mês, vamos iniciar uma NOVA SÉRIE de mensagens chamada Seguindo a Jesus. Nessa série vamos estudar o Evangelho de Marcos procurando aprender com ele o que significa ser um seguidor de Jesus.

E para fazermos isso juntos, nós preparamos um Lecionário para leituras semanais. Nesse lecionário, que você pode usar no seu tempo devocional, ou como uma ferramenta de estudo, você encontrará o texto do evangelho de Marcos organizado de acordo com os textos a serem apresentados aos domingos. Dessa formal você pode ler, orar e estudar a partir do texto que juntos vamos estudar aos domingos.

No arquivo abaixo, você encontrará uma Introdução à Série de Mensagens e o texto referente à primeira mensagem da série. Nossa sugestão é que você leia esse material como uma forma de se preparar para a exposição no domingo.

Estou convencido que o Senhor fará grandes coisas em nossas vidas se juntos nos dedicarmos a conhecer-lo melhor estudando as escrituras. E por isso, gostaria de convidar você a juntar-se a mim nessa jornada de discipulado com nosso Senhor através do evangelho de Marcos.

Vamos caminhar juntos?

Grande abraço,
Marcelo Berti

Baixe aqui nosso Lecionário

Nesse link você poderá encontrar a primeira parte do nosso lecionário com a leitura sugerida para o próximo domingo 05/Jan.

Caso queira acompanhar a leitura para os próximos domingos, deixe seu comentário abaixo que enviaremos semanalmente para você.

Espero que essa leitura guiada do Evangelho de Marcos possa enriquecer e muito sua vida jornada com Jesus


Atualização: Novidades!


As leituras e devocionais tem sido publicadas pelo site do Voltemos ao Evangelho e re-publicadas aqui mesmo no Teologando. Alias, no nosso blog você também encontra as os audios e vídeos das mensagens dessa série. Clique aqui para ver todo material disponível.

Bom Proveito!

Entre o Machismo e o Feminismo

Existem muitas maneiras pelas quais as mulheres podem proclamar adequadamente a palavra do Senhor e, em algumas delas, podem proclamá-Lo com mais eficiência do que os homens. Existem pessoas que serão atraídas pela maneira tenra, emotiva e vitoriosa pela qual a irmã em Cristo se expressa. Uma mãe cristã! Que ministro ela é para sua família! Uma mulher cristã solteira – no círculo familiar, ou mesmo no serviço doméstico – o que ela não pode realizar se seu coração se aquecer de amor pelo Salvador! Não podemos dizer às mulheres: “Vá para casa [go home], não há nada para você fazer no serviço do Senhor.” Longe disso, pedimos a Marta e Maria, Lídia e Dorcas, e toda a irmandade eleita, jovens e idosos, ricos e pobres, para instruir os outros como Deus os instrui.

C. H. Spurgeon, “All at It,” in The Metropolitan Tabernacle Pulpit Sermons, vol. 34 (London: Passmore & Alabaster, 1888), 520.

Não faz muito tempo que ouvimos John MacArthur, um ícone do complementarismo conservador, sugerir que Beth Moore deveria ir pra casa (“Go home!” – veja vídeo em inglês aqui). Num ambiente de perguntas e respostas, MacArthur foi convidado a dizer a primeira palavra que viesse à sua mente quando o entrevistador lhe apresentasse uma palavra. Para surpresa da audiência, que ri de modo audível, a primeira palavra oferecida a MacArthur foi: “Beth Moore“. Mesmo reconhecendo o perigo da situação em que foi publicamente colocado, MacArthur que não tem problema em falar o que pensa, sugere que o lugar de Moore era em casa.

O comentário de MacArthur gerou grande desconforto em todos os lados da questão: entre teólogos igualitários, o comentário de Macarthur foi descrito como patriarcal; entre complementaristas, como desrespeitoso; entre mulheres que pregam, a resposta veio à altura: nós não vamos pra casa! Beth Moore manifestou-se pelo Twitter em um tom que ganhou tanto o respeito como o desprezo de muitas pessoas (basta visitar sua conta no Twitter). E claro, depois de todo o alvoroço sobre o evento, o debate sobre o lugar da mulher na igreja voltou a fazer parte das mídias sociais, e dessa vez em peso. Durante alguns dias, minha timeline no Facebook foi invadida por posts e mais posts de todos os possíveis lados.

Nesse contexto, o texto de 1Timóteo 2:9-15 tornou-se [novamente] central no debate do Lugar da Mulher na Igreja. Como era esperado, calorosos debates foram travados e muitas certezas distribuídas sem o devido critério: os defensores do ministério pastoral feminino pareciam convencidos que esse texto foi escrito para um problema exclusivamente cultural na cidade de Éfeso; para os defensores da exclusividade masculina no ministério pastoral, esse texto é a prova de que mulheres não podem ensinar na igreja. Infelizmente, essa polarização percebida em particular nas mídias sociais causou a falsa impressão de que existem duas opiniões sobre o assunto, uma machista e outra feminista.

Entretanto, a literatura acadêmica parece nos apontar em outra direção. Muito embora os termos feminismo e machismo tenham sido usados como rótulos para descrever perspectivas distintas sobre o lugar da mulher na igreja, acredito que é importante notar que ambos os termos descrevem extremos no debate e que existem posições melhor definidas e qualificadas que precisam ser melhor conhecidas. É por isso que iniciamos essa série propondo uma melhor percepção do assunto, demonstrando que existem outras perspectivas sobre o assunto entre o Feminismo e o Machismo.[1]

Uma Taxonomia

Nessa série, proponho a seguinte classificação:

Uma proposta de classificação do debate sobre o lugar da mulher na igreja

Observando o debate acadêmico sobre o assunto, acredito que essa classificação melhor sintetiza e explica as diferentes posições sobre o assunto:[2] Nos extremos apresento o machismo e o feminismo, e entre eles encontro opções mediadoras, o complementarismo e o igualitarismo.[3] Eu acredito que, para iniciar um diálogo cristão saudável sobre o lugar da mulher na igreja, é fundamental que a taxonomia acima proposta seja entendida e respeitada. Desse modo, evitaríamos rotular de maneira pejorativa aqueles que discordam da nossa opinião, e nos permitiria encontrar entre aqueles de quem discordamos, pessoas com quem partilhamos convicções em comum.

Por isso, preciso fazer cinco observações preliminares sobre como o assunto será tratado nessa série em particular:

1. Distinção entre Machismo e Complementarismo

Infelizmente, o debate, especialmente como conhecido nas mídias sociais, parece confundir com frequência o machismo com o complementarismo. Aliás, mesmo na literatura acadêmica, tal confusão é persistente. Por isso, é fundamental usar diferentes terminologias para tratar de modo adequado cada uma das posições. Nessa série, faremos uma distinção conceitual entre machismo e complementarismo sugerindo que enquanto a primeira opção sugere a superioridade masculina (em modelos normalmente tóxicos) o complementarismo defende a complementariedade dos gêneros, de tal forma que o homem não é superior a mulher. Para complementaristas, homem e mulher foram criados distintos um do outro estrutural e funcionalmente, mas ambos igualmente marcados pela mesma diginidade da Imago Dei e da mesma posição diante de Deus. Em outras palavras, homem e mulher são iguais diante de Deus e distintos um do outro.[4]

Para complementaristas, homem e mulher foram criados distintos um do outro estrutural e funcionalmente, mas ambos igualmente marcados pela mesma diginidade da Imago Dei e da mesma posição diante de Deus. Em outras palavras, homem e mulher são iguais diante de Deus e distintos um do outro

2. Distinção entre Feminismo e Igualitarismo

No contexto brasileiro evangélico e conservador, essa distinção é especialmente importante, afinal, nesse ambiente o termo feminismo é sobretaxado de conotações negativas.[5] Nessa série vamos diferenciar o feminismo do igualitarismo do sugerindo que primeiro defende a superioridade da mulher (em modelos normalmente tóxicos), enquanto o segundo defende que a distinção e complementariedade dos gêneros masculino e feminino não são ontologicamente hierárquicos. Ou seja, para igualitaristas, homem e mulher foram criados distintos um do outro estruturalmente, mas não funcional nem ontologicamente, sendo também igualmente marcados pela dignidade da Imago Dei e de mesma posição diante de Deus. Em outras palavras, homem e mulher são iguais diante de Deus e um do outro.[6]

Para igualitaristas, homem e mulher foram criados distintos um do outro estruturalmente, mas não funcional nem ontologicamente, sendo também igualmente marcados pela dignidade da Imago Dei e de mesma posição diante de Deus. Em outras palavras, homem e mulher são iguais diante de Deus e um do outro

3. Distinção entre Igualitarismo e Liberalismo

Além disso, acredito que não se deva equiparar igualitarismo com liberalismo teológico. Essa é outra confusão conceitual que acaba por distorcer a visão igualitatista. Esse fato é percebido corretamente por Wayne Grudem, que sugere:

“Eu sei que muitos de vocês [igualitaristas] pessoalmente nunca se moveram em direção ao liberalismo que eu descrevo nesse livro (…) Eu tenho um grande número de amigos igualitaristas que não se moveram nem um centímetro em direção ao liberalismo no resto de suas convicções doutrinárias, e que acreditam fortemente e defendem a inerrância da Bíblia (…) Esses homens são respeitados acadêmicos e líderes no mundo evangélico”

Wayne Grudem, Evangelical Feminism – A New Path to Liberalism? (Wheaton: Crossway, 2006), 19-20

Embora Grudem devote todo o resto do seu livro para demonstrar que os argumentos usados por igualitaristas (que ele também chama de feministas evangélicos) se parecem em muito aos usados por pessoas que desvalorizam as escrituras (que ele também chama de liberal), ele reconhece a existência de pessoas que se denominam igualitaristas que não podem ser classificados como liberais. Entre eles, Grudem menciona dois heróis do conservadorismo teológico, Walter Kaiser e Grant Osborne, mas eu acredito que a lista poderia ser bem maior. Mas seja como for, é importante notar que igualitarismo e liberalismo não são a mesma coisa. Em outras palavras, muito embora todos os liberais sejam igualitaristas, nem todos os igualitaristas são liberais.[7]

Muito embora todos os liberais sejam igualitaristas, nem todos os igualitaristas são liberais

4. Distinção entre Complementarismo e Fundamentalismo

Do mesmo modo, é importante notar que nem todos os complementaristas são identificados como fundamentalistas. Do mesmo modo que igualitarismo e liberalismo são categorias irmãs mas não idênticas, complementarismo e fundamentalismo também não o são. De fato, embora todo fundamentalistas seja complementarista, é importante reconhecer que nem todo complementarista é fundamentalista. Essa nuance não é sempre percebida nos acalorados debates, mas é real. Por exemplo, dificilmente alguém chamaria Craig Bloomberg, Harold Hoehner ou Buist Fanning de fundamentalistas. São evangelicais, sem sombra de dúvidas. O mesmo poderia ser dito por teólogos reformados, como Douglas Moo ou Thomas Schreiner, que embora sejam conservadores, não podem ser rotulados de fundamentalistas.

Muito embora todos os fundamentalistas sejam complementaristas, nem todos os complementaristas são fundamentalistas.

5. Insuficiencia das Categorias

Por fim, devemos notar que as categorias apresentadas acima não podem ser suficientes para descrever todas as opiniões sobre o assunto. De fato, as categorias acima mencionadas são insuficientes para serem exaustiva. Entretanto, acredito que tais categorias ofereçam em algum nível clareza entre as principais perspectivas nesse debate teológico dos nossos dias.

Vale mencionar que cada uma das categorias apresentadas na taxonomia acima (machismo – complementarismo – igualitarismo – feminismo) não são pontos em uma reta, mas um espectro de diferentes opiniões sobre o assunto. Em outras palavras, nem o complementarismo nem o igualitarismo são perspectivas monolíticas sobre o assunto: existe diversidade de opiniões dentro de cada uma das categorias apresentadas.

Portanto, a grande pergunta que fica depois de observar tal taxonomia é: Qual é o critério que permite a construção dessa taxonomia? Para mim a resposta é simples: hermenêutica. A diferença entre um igualitarista e um feminista, ou entre um complementarista e um igualitarista se encontra no método teológico utilizado, em particular a hermenêutica empregada para se analisar as escrituras.

É por isso que no próximo artigo pretendo demonstrar como o método teológico, em particular a hermenêutica, influencia a produção das diferentes alternativas e propostas sobre o lugar da mulher na igreja e como importantes representantes de cada uma dessas alternativas a desenvolvem nos seus artigos. Ficará, então, evidente que existe uma hermenêutica feminista, que é distinta da hermenêutica igualitarista que é distinta da hermenêutica complementarista. Muito embora existam convicções semelhantes entre igualitaristas e feministas o modo como chegam às suas convicções é deveras distinto (o que lhes garante, na minha opinião, uma categoria distinta).[8]

Até o próximo artigo!


Notas

[1] Antes de mais nada, é necessário dizer que classificar diferentes opiniões é sempre um desafio subjetivo. A perspectiva de quem classifica é sempre marcada por pressuposições que governam a análise das informações disponíveis, e por isso, em assuntos controvertidos, dificilmente se encontrará consenso no modo de se organizar as diferentes opiniões sobre o assunto. Por isso, é importante que o leitor saiba que a taxonomia aqui proposta não é definitiva nem recebida sem dificuldades. Sobre o assunto, o leitor fará bem em explorar a vasta literatura sobre o assunto para verificar se a proposta aqui oferecida faz jus à produção teológica sobre o assunto.

Para uma apresentação a respeito da prática da taxonomia teológica, recomendo o livro The Survivor’s Guide to Theology (M. James Sawyer). Nesse livro, Sawyer não apenas apresenta uma proposta para uma taxonomia teológica compreensiva, como também demonstra como diferentes sistemas teológicos organizam suas convicções. Um excelente livro para que inicia o estudo teológico e gostaria de identificar onde estão as diferenças essenciais entre diferentes sistemas teológicos.

Para uma visão ilustrada da taxonomia proposta por Sawyer, vale a pena ver o livro Taxonomic Charts of Theology and Biblical Studies. Longe de ser exaustivo ou definitivo, o livro apresenta de modo visual as diferentes visões teológicas a partir da perspectiva do autor. Para uma introdução ao assunto, ver o artigo Establishing a Doctrinal Taxonomy: A Hierarchy of Doctrinal Commitments, pelo mesmo autor.

[2] A síntese apresentada aqui, não seria recebida na literatura acadêmica sem suas críticas. A bem da verdade, entre os diferentes proponentes do igualitarismo e complementarismo, existe uma clara diferença de opinião sobre como um grupo entende o outro. Longe de propor uma visão mediadora, central ou isenta de preferências, aquilo que apresento aqui reflete o modo como eu entendo o dilema.

[3] As devidas definições do complementarismo e igualitarismo serão propriamente oferecidas nos posts subsequentes. Por ora, demonstraremos apenas a existência de tais perspectivas menos extremadas em relação ao machismo e ao feminismo.

[4] Isso não significa, por outro lado, que não existam manifestações machistas entre aqueles que se descrevem como complementaristas (como veremos à frente), ou até mesmo pessoas machistas entre os complementaristas. Infelizmente, o modo como alguns complementaristas manifestam sua opinião é marcada por modelos culturais que não correspondem ao conceito extraídos das escrituras que os mesmos defendem. Estou plenamente convencido que existem machistas travestidos de argumentos teológicos complementaristas, e acredito que muitas das páginas e perfis nas diferentes mídias sociais sobre masculinidade cristã não me deixam mentir aqui.

Sendo assim, quando o termo complementarismo for usado pelo autor, ele o será feito excluindo-se manifestações machistas que eventualmente são associadas a ele, ou a expressões igualmente tóxicas feitas por pessoas que se descrevem como complementaristas. Dessa forma, usa-se o termo como definição e não como rótulo.

[5] Nem todo uso do termo feminismo é necessariamente negativo. Por exemplo, no livro How I Change my Mind about Women in Leadership os editores definem e usam o termo feminismo da seguinte forma: “Nesse livro, entretanto, o termo é usado de modo positivo, referindo-se a igualdade de valor, justiça, privilégio, posição, oportunidade, serviço e liderança de mulheres como mulheres no programa do Reino de Deus, seja no lar, no casamento, na igreja ou nas estruturas sociais” (p.18). Definido desse modo, o termo se quer evoca as imagens que nós brasileiros temos quando usamos o mesmo termo. Entretanto, como é impossível eliminar do imaginário tupiniquim contemporâneo os conceitos e imagens associadas ao feminismo extremado e tóxico das redes sociais e da muitas vezes da mídia, especialmente entre os leitores mais conservadores, nessa série usaremos o termo com cautela, e via de regra em distinção de igualitarismo.

[6] Isso não significa que não existam manifestações feministas entre aqueles que se descrevem como igualitaristas (como veremos a frente), ou até mesmo feministas entre aqueles que se definem como igualitaristas. Infelizmente, o modo como alguns igualitaristas manifestam sua opinião é marcada por modelos culturais que não correspondem ao conceito extraídos das escrituras que os mesmos estudam. Também estou plenamente convencido que existe muita argumentação feminista travestida de igualitarismo.

Sendo assim, quando o termo igualitarismo for usado pelo autor, ele o será feito considerando pessoas que pertencem ao ambiente da reflexão teológica e que poderiam ser descritos como conservadores em outros assuntos. Dessa forma, nessa série pretendo usar o termo como definição e não como rótulo.

[7] Wayne Grudem faz outras observações interessantes sobre o assunto, considere:

Eu não estou defendendo que todos os igualitaristas sejam liberais (…) Mas é inquestionável que o liberalismo teológico caminhe na direção da ordenação de mulheres [ao ministério pastoral]. Embora nem todos os igualitaristas sejam liberais, todos os liberais são igualitaristas. Não existe nos nossos dias nenhuma denominação ou seminário teologicamente liberal nos Estados Unidos que se oponha a ordenação de mulheres. O liberalismo e a aprovação da ordenação de mulheres andam de mãos dadas” (p.29).

Como já expliquei no início desse livro, eu não estou dizendo que todos os igualitaristas são liberais, o que estão caminhado em direção ao liberalismo. Mas eu estou afirmando que os argumentos usados por igualitaristas minam a autoridade das escrituras vez após vez, e ao fazer isso estão levando a igreja passo a passo em direção ao liberalismo. Hoje alguns igualitaristas deram apenas um passo nessa direção e não foram mais longe. Mas um grande número de de líderes igualitaristas mais jovens foram mais longe (a ponto de chamar Deus de nossa Mãe), e a proxima geração irá ainda mais longe, porque essa é a direção para a qual o feminismo evangélico inevitavelmente leva” (p.262).

Apesar de discordar veementemente com Grudem em muitos assuntos (incluindo o modo como ele organizou seu argumento aqui), acredito que sua opinião reflete sabedoria. Aliás, já vimos esse filme em outros assunto. Entretanto, também precisamos nos perguntar: Será que Grudem não corre o mesmo risco? Não seria igualmente prudente sugerir que uma visão defendida de modo tão veemente leve seus leitores a uma visão mais conservadora que a própria Bíblia? Eu acredito que sim, e ele mesmo parece ter percebido esse perigo, e por isso alerta seus leitores:

Eu quero que você seja cuidadoso ao ler esse livro para não reagir além do necessário e se tornar mais conservador que a Bíblia! Isso o levaria a um legalismo equivocado que restringiria mulheres maduras, devotas e capacitadas pelo Espírito dos certos ministérios, como já aconteceu muitas vezes no passado” (p.22).

Grudem sabe que suas opiniões podem levar seus leitores a uma posição mais conservadora que a dele. A grande pergunta que fica então: Seria ele culpado pelo descuido dos seus seguidores, da mesma forma que ele culpabiliza os igualitaristas de abrirem o caminho para o liberalismo? Eu acredito que não! Grudem não deveria ser culpado pelo possível chauvinismo extremado de alguns dos seus leitores, do mesmo modo que Fee não poderia ser culpado pelo possível feminismo extremado de alguns dos seus seguidores. Por outro lado, eu realmente acredito que a hipocrisia legalista (que complementaristas incorrem o risco de defender) é tão perigosa quanto o orgulho liberal (que igualitaristas incorrem o risco de defender). Ambos devem ser evitados a todo custo!

[8] Como ficará evidente no nosso próximo post, diferente da categoria feminista no gráfico apresentado, não existe uma categoria hermenêutica chamada machista. Existe opiniões chauvinistas em obras teológicas (sem sombra de dúvidas), mas não existe um método teológico ou uma proposta hermenêutica criada para defender o machismo, como vemos acontecer com o feminismo. No vasto campo da teologia, existe tanto um método teológico como uma hermenêutica feminista.

O Lugar da Mulher na Igreja

“Foram mulheres que choravam quando ele estava indo para a cruz, que o seguiam a caminho da cruz, e que estavam sentadas ao seu sepulcro quando ele foi enterrado. Foram mulheres as primeiras a vê-lo na manhã da ressurreição, e elas que primeiro anunciaram aos seus discípulos de que ele havia ressuscitado”

John Bunyan, The Pilgrim’s Progress (Harmondsworth: Penguin, 1965), 316

Eu não me lembro quantos anos eu tinha quando li pela primeira vez o livro “O Peregrino” escrito por John Bunyan. Me lembro, entretanto, que era uma versão ilustrada e bem antiga. Lembro-me também que meu pai havia me pedido para contar a história de Cristão em nossos devocionais durante o café da manhã antes de nos levar para a escola. Confesso também que não me lembro muito do enredo, afinal faz muitos anos que o li pela última vez (ainda na adolescência). Entretanto, a citação destacada acima é uma dentre tantas que me chamam a atenção no livro: Ao que parece, lendo os evangelhos Bunyan percebeu algo que chama a atenção dos cristãos e seus adversários desde os tempos mais antigos [1]: mulheres tiveram um lugar especial na morte, ressurreição e nas subsequentes aparições de Jesus.

Tal fato, de tão inusitado tornou-se amplo campo de debate em referência à sua significância para a história do Cristianismo. De um lado, alguns chegam a suspeitar da historicidade desses eventos, considerando os como apenas uma “lenda apologética” [2]. De outro lado, considerando que o testemunhos de mulheres era comumente tratado como sem confiabilidade, especialmente no judaísmo palestiniano do primeiro século da era cristã (cf. Jos, Ant 4.219)[3], alguns teólogos sugerem que seria altamente improvável que tal estória tenha sido inventada como algum tipo de propaganda religiosa [4]. Como de costume, as diferentes opiniões sobre o assunto demonstram o quanto o assunto é controvertido.

Mais recentemente, entretanto, o papel da mulher nas narrativas da ressurreição de Cristo encontrou um outro amplo local de debate, mais próximo do que pretendemos escrever nessa série de artigos: O lugar da mulher na igreja. De um lado, alguns autores encontram nesse fato uma demonstração de que o cristianismo mais primitivo entendia que as mulheres tinham autoridade para ensinar [5]. Por outro lado, outros passaram a afirmar que ainda que exista aqui algo historicamente inusitado, tal evento não tem qualquer relação com a questão do lugar da mulher na igreja[6]. O ponto é o seguinte: não importa por onde se comece responder a pergunta em questão, a saber, qual é o lugar da mulher na igreja, sempre existirá algum tipo de polarização histórica, teológica e até mesmo ideológica no modo como texto é lido, interpretado e aplicado.

E é exatamente isso o que acontece (em uma escala ainda maior) quando o assunto é 1Timóteo 2:9-15, em particular o verso 12: “Eu não permito que a mulher ensine ou tenha autoridade sobre homem“. É quase impossível ler algo sobre o lugar da mulher na igreja e não se deparar com algum tipo de proposta exegética, hermenêutica, teológica a respeito desse verso. Aliás, de tanto de tão acalorado o debate sobre o correto entendimento desse texto, eu diria que é quasi-impossível acompanhar o que se escreveu nos últimos anos sobre o lugar da mulher na igreja [7].

Ainda assim, tendo a clara consciência da impossibilidade de ser exaustivo na análise do texto e de suas referências acadêmicas, pretendo nessa série apresentar uma visão que seja ao mesmo tempo honesta com as diferentes opiniões sobre o assunto, como também honesta com as dificuldades encontradas na opinião defendida pelo autor. Busco também ser abrangente, sem ser exaustivo, profundo sem ser acadêmico, claro sem ser taxativo e convicto sem ser dogmático. No fim das contas, os artigos aqui apresentados representam minha tentativa de interpretar um dos texto mais complexos do Novo Testamento.

Proposta da Série

Mas, antes de fazer isso, permita-me demonstrar a proposta dessa série. Antes de mais nada, essa série de artigo é uma tentativa de dar minha contribuição para o tão conturbado tema do ministério feminino na igreja local (ver apresentação e índice de artigos aqui).

Na primeira parte dessa série de artigos, pretendo apresentar uma visão que busca ir além das discussões sobre machismo e feminismo na sociedade e na igreja. Em outras palavras, nessa série pretendo focar em como cristãos reformados e evangélicos podem ler as escrituras com critério e cuidado sem fazer da polarização do diálogo contemporâneo (feminismo vs. machismo) o critério primário da interpretação das escrituras. Também pretendo definir e demonstrar como as mais conhecidas opções teológicas sobre o assunto (complementarismo e o igualitarismo) tratam do lugar da mulher na igreja. Por fim, pretendo demonstrar outras alternativas hermenêuticas menos conhecidas e demonstrar como o assunto precisa ser lido com atenção exegética e sensibilidade cultural.

Na segunda parte, pretendo apresentar uma visão cultural e exegeticamente detalhada do texto de 1Tim 2:9-15. O primeiro artigo da segunda parte lida com questões culturais da cidade de Éfeso e como podemos relacionar o que conhecemos através do registro histórico com a primeira carta de Paulo a Timóteo. Tendo feito isso, trataremos com atenção o texto, enfatizando contextualmente expressões usadas por Paulo a respeito do lugar da mulher na igreja, a saber, μανθανέτω ἐν πάσῃ ὑποταγῇ (aprenda com toda submissão, v.12), διδάσκειν δὲ γυναικὶ οὐκ ἐπιτρέπω οὐδὲ αὐθεντεῖν ἀνδρός (não permito que a mulher ensine nem exerça autoridade sobre homem, v.13). Além disso, trataremos de duas questões teologicamente importantes nesse texto, o fundamento teológico para a exortação de Paulo (vv.13-14) e por fim, a salvação [proteção, livramento] da mulher (v.15).

Na terceira parte, pretendo demonstrar como a interpretação oferecida na segunda parte se harmoniza com o ensino das escrituras em outros lugares, respondendo perguntas especificas sobre o lugar da mulher na igreja primitiva, como por exemplo: (1) mulheres pode servir como diaconisas?; (2) podem ser missionárias?; (3) podem ser profetizas?; (4) podem ser pastoras? A intenção dessa parte é demonstrar a partir do Novo Testamento que é possível encontrar nos registros apostólicos uma Teologia Bíblica do ministério feminino e do seu lugar na igreja primitiva.

Por fim, na última parte, pretendo fazer algumas reflexões pastorais contemporâneas considerando o que apresentamos sobre o Texto e a Teologia Bíblica do ministério feminino na igreja primitiva. A ideia é oferecer uma visão que seja ao mesmo tempo bíblica (partes 2-3) e contemporânea (parte 4) para o ministério feminino na igreja local nos nossos dias. Como nota-se claramente, essa é uma série oportuna para um momento oportuno.[8]

Ponto de Vista da Série

Agora, antes que o leitor interaja com os artigos da série, é fundamental que ele saiba que está lendo uma série de artigos de perspectiva complementarista[9]. Em outras palavras, essa não é uma série que busca descobrir qual das muitas opções sobre o assunto melhor interpreta o texto das escrituras, mas é uma série que apresenta a opinião que o autor tem sobre as escrituras. Essa é uma série escrita por alguém acampado entre os complementaristas, mas que busca com todo esforço não fazer de sua conclusão o ponto de partida de suas análises. Em outras palavras, nessa série de artigos pretendo demonstrar que o complementarismo oferece uma boa leitura das escrituras e pode oferecer uma boa plataforma para a reflexão e execução do ministério feminino na igreja local.

Além disso, com essa série pretendo contribuir para a reflexão exegética, teológica e pastoral de um assunto que é tão importante para nosso momento histórico. Pretendo oferecer uma honesta reflexão dos dados que tenho ao meu alcance de modo claro e para o bem do reino. Alias, gostaria de iniciar essa série seguindo o modelo proposto por Craig Blomberg:

“O debate sobre as funções do homem e da mulher no ministério é um dos mais voláteis da igreja cristã nos nossos dias. Isso não é nem um pouco surpreendente, afinal o senso de identidade, chamado, vocação e serviço das pessoas está profundamente envolvido com a questão. Não escrevo o que escrevo para agradar a qualquer campo identificável dentro do cristianismo, ou porque foi com essa visão que cresci (não é – fui criado em uma denominação protestante igualitária), mas porque o estudo repetido e intenso desse debate por mais de vinte e cinco anos me convenceu de que minha posição é a síntese mais responsável de todos textos relevantes. Ao mesmo tempo, reconheço que eruditos igualmente piedosos e comprometidos com a inerrância da Bíblia chegam a conclusões diferentes devido à complexidade dos dados. Não há lugar legítimo neste debate para impugnar colegas evangélicos que diferem entre si usando os rótulos pejorativos de ‘liberal’ ou ‘fundamentalista’, simplesmente por causa de suas opiniões sobre esse tópico. Todos nós que falamos e escrevemos sobre a relação entre gênero e função eclesiástica faríamos bem em começar e terminar todos os discursos com as advertências: “Eu posso estar errado” e: “Eu respeito o direito dos companheiros evangélicos e igrejas evangélicas de chegar a conclusões diferentes, e eu cooperaria com eles em vez de combatê-los [nesse assunto] pela causa maior de Cristo e seu reino, que precisa desesperadamente de tal unidade

Craig Blooberg, “Women in Ministry: A Complementarian Perspective” in Stanley N. Gundry and James R. Beck. Two Views on Women in Ministry. Counterpoints: Bible and Theology. (Grand Rapids: Zondervan, 2005) Kindle Edition.

Em outras palavras, escrevo nessa série o que escrevo porque acredito ser a melhor síntese dos textos relevantes, em particular 1Timóteo 2:9-15. Mas também reconheço: posso estar errado.


NOTAS

[1] Orígenes no seu livro Contra Celso, apresenta várias críticas feitas por Celso às narrativas dos evangelhos, em particular quando introduz o testemunho de ‘Maria Madalena’: “E desacreditando a narrativa de Maria Madalena, que é descrita como tendo-O visto, ele responde: ‘Uma mulher meio frenética, como você afirma.’ E como ela não é a única pessoa descrita como alguém que viu o Salvador após Sua ressurreição, mas outros também são mencionados, Celso calunia essas declarações também ao acrescentar: ‘E mais alguém entre os que estão envolvidos no mesmo sistema de engano!‘” (Orig, Cels. 2.59).

[2] Rudolf Bultmann, The History of the Synoptic Tradition (Oxford: Blackwell, 1968), 290; ver também Martin Dibelius, From Tradition to Gospel (London: Nicholson and Watson, 1934), 190.

[3] Sobre a validade do testemunho legal de uma mulher, Josefo diz: “Que nenhuma evidência seja aceita, em função da leviandade e imprudência do seu sexo” (Ant. 4.19).

[4] Grant Osborne, “Jesus’ Empty Tomb and His Appearance in Jerusalem”, Darrell Bock and Robert Webb, Key Events in the Life of the Historical Jesus, 785-88; Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitness (Grand Rapdis: Eerdmans, 2006), 48-51; ver também Edward E. Bode, The First Easter Morning (Rome: Biblical Institute Press, 1970), 157-58; Gerald O’Collins, The Resurrection of Jesus Christ (Valley Forge: Judson, 1973)

[5] John. Dominic Crossan, The Historical Jesus (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1991), 341–44; ver também Elisabeth Schüssler Fioreza, Discipleship of Equals (New York: Corssroad, 1993), 78.

[6] Craig Bloomberg, “Woman in Ministry: Complementarian Perspective”, Stanley N. Gundry and James R. Beck. Two Views on Women in Ministry (Grand Rapids: Zondervan, 2005 Kindle Edition).

[7] Por exemplo, entre aqueles que defendem uma visão mais restrita do ministério feminino na igreja, também conhecidos como complementaristas, eu destacaria aqui alguns dos muitos livros escritos sobre o assunto: Women in the Church (Grand Rapids: Baker Academic, 2005) editado por Köstenberger e Schreiner, que trata diferentes elementos da exegese e hermenêutica do texto em 5 capítulos, tem um capítulo adicional para uma reflexão feminina sobre o papel da mulher na igreja escrita por Dorothy Patterson. Além desse, também lembro dos livros Discovering Biblical Manhood and Womanhood (Wheaton: Crossway, 2006) editado por Piper e Grudem , Women and Men in Ministry (Chicago: Moody, 2001) editado por Saucy e Tenelshof; Evangelical Feminism and Biblical Truth (Sisters: Multmonah, 2004) escrito por Wayne Grudem. Considerando aqueles que não teriam restrições com nenhum tipo de ministério feminino, também conhecidos como igualitaristas, destaco os seguintes livros: Discovering Biblical Equality (Downers Grove: IVP, 2005) editado por Pierce e Groothuis; Women, Ministry and the Gospel (Downers Grove: IVP Academic, 2007), editado por Husbands and Larsen; Men and Women in the Church (Downers Grove: IVP, 2003) escrito por Sarah Sumner; Slaves, Women and Homosexuals (Downers Grove: IVP Academic, 2001) escrito por William Webb; Gospel Women (Grand Rapids: Eerdmans, 2002) escrito por Richard Bauckham. Lembro também do diferentão Recovering Biblical Ministry by Women (XulonPress: 2003) editado por Winston e Winston que tenta ser diferente a ambos complementaristas e igualitaristas. Além dos livros citados, devemos lembrar da miríade de artigos publicados nos mais diferentes tipos de jornais de teologia, dos quais alguns poucos se farão presentes nessa série de artigos no Teologando.

[8] Como o Teologando é nada mais que um hobbie do seu autor, os artigos não serão produzidos para publicação às pressas, mas serão escritos à medida que a rotina familiar, pastoral e pessoal do autor lhe permitirem. Ao término, entretanto, teremos algo que sintetiza a minha visão sobre o assunto e como pretendo usá-lo na Fonte São Paulo.

[9] Os títulos complementarista e igualitarista não descrevem conceitos estáticos nem claramente definidos. Como vamos demonstrar nos artigos dessa série, ambos os termos carregam um grande espectro de opiniões distintas. Por isso, ao descrever autores como complementaristas ou igualitaristas nessa série, levaremos em conta o título teológico escolhido pelo autor/teólogo e não o ‘rótulo teológico‘ que lhe é imposto por seus opositores. Ou seja, se um autor denomina-se complementarista, mas é descrito como um igualitarista por um ‘complementarista mais conservador‘, nessa série optarei por descrever o autor pelo título de sua preferência; e vice versa. Tendo dito isso, é bem possível (e talvez esperado) que existam complementaristas mais conservadores do que eu que optariam por um rótulo distinto ao de complementarista à opinião apresentada nessa série.

O Interessante Caso da Fé de Jesus

Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem – Rom 3:22

É bem provável que o nosso leitor já tenha lido, estudado e quem sabe ensinado o texto de Romanos 3:22. Esse texto é bem conhecido entre os cristãos evangélicos, em especial pelos reformados. A centralidade da fé em Cristo como critério da obtenção da justiça que vem de Deus é fundamental para a teologia reformada e parte integral da teologia evangélica. Contudo, o que talvez nosso leitor não saiba é que existe nesse texto um dilema de tradução que poderia oferecer uma perspectiva interessante sobre o ensino de Paulo aqui.Continuar lendo “O Interessante Caso da Fé de Jesus”