O que dizer das Antigas Versões do Novo Testamento?


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ESBOÇO DO ARTIGO COMPLETO:

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Marcelo Berti

Toda evidência textual histórica encontrada é analisada e classificada em antiguidade, qualidade e tipo-texto. A antiguidade de um documento é analisada por diferentes métodos de datação associados ao estudo paleográfico do documento. A qualidade é avaliada por vários quesitos, incluindo o tamanho do documento encontrado, a quantidade de fragmentação, sua relação com os textos-família de outras regiões. Além disso, também considera-se, ao encontrar-se códices, que livros fazem parte do documento encontrado, pois a partir disso podemos levantar possibilidades sobre que tipo de evidência é essa encontrada. O tipo-texto é a característica geral de leitura do texto de acordo com a região em que normalmente é encontrada. Fruto de muitos debates e contraversões, o método genealógico consiste, nas palavras de Westcott e Hort:

O acurado método de Genealogia consiste … na recuperação mais ou menos completa dos textos de ancestrais sucessivos, pela análise e comparação dos textos variantes dos seus descendentes respectivos, cada texto ancestral assim recuperado sendo por sua vez usado, em conjunção com outros textos similares, para a recuperação do texto de um ancestral comum e ainda mais antigo” (WESTCOTT, Brooke Foss, HORT, Fenton Jonh Anthony, The New Testament in the original greek. Macmillian, 1881. pp.73).

Por último, as evidências textuais também sofrem uma análise de caráter teológico, pois, diferente do que Landers parece supor, todas as versões representam algum distintivo teológico. Até por que, supõe-se com razão que as versões em outros idiomas foram feitas para suprir a lacuna de informação apostólica para uma região onde o idioma original não poderia ser lido com facilidade. Possivelmente, missionários realizavam preocupados com o desenvolvimento e propagação da fé.

Além disso, devemos lembrar que existem limitações nos benefícios de uma versão antiga do Novo Testamento. Observe o que Bruce Metzger afirma sobre o assunto:

É necessário ser observado que existem certas limitações no uso de versões para o criticismo textual do Novo Testamento. Não apenas algumas traduções foram preparadas por pessoas que tinham um imperfeito conhecimento do Grego, como alguns aspectos sintáticos da sintaxe e vocabulário não podem ser convertidos em uma tradução. Por exemplo, o Latim não tem artigo definido; o Siríaco não distingue entre o aoristo e o perfeito grego; e o Copta é faltoso com a voz passiva e deve usar o circumlocution” (METZGER, Bruce, The Text of the New Testament. Oxford, 1992. pp.68).

Tendo considerado isso, vamos analisar a versão copta saídica do ponto de vista da antiguidade em comparação com outras versões para então procedermos para a tradução de João 1.1c do documento. Para os interessados em analisar o documento do ponto de vista qualitativo e tipo-textual, consultar: METZGER, Bruce, The text o f the new testament. Oxford, 1992. pp. 67-85; ALAND, Barbara , Kurt, The text of the new testament. Eerdermnas, 1995. pp.185-214; LIGHTFOOT, Neil R, Comprendamos como se formo la Bíblia. Mundo Hispano, 2003. pp.74-84; PAROSCHI, Wilson, Crítica textual do novo testamento. Vida Nova, 2008. pp. 58-66. Para uma visão mais detalhada ver: METZGER, Bruce, The early versions of the new testament.  Oxford, 1977.

A. As versões Coptas

A tradição copta hoje tem versões completas do Novo Testamento, incluindo versões críticas. Na internet, por exemplo, você pode ter acesso ao Novo Testamento Egípcio no dialeto Saídico (seguindo o texto grego egípcio) disponível para consulta em todos os livros e inclusive acesso a um dicionário para auxílio em pesquisas.

Mas, nem sempre foi assim. O processo de produção de manuscritos do Novo Testamento em copta parece ter iniciado por volta do fim terceiro início do quarto século da Era Cristã (ALAND, TTNT, pp.200). Entretanto, Metzger afirma que essa produção no dialeto saídico iniciou por volta do início do terceiro século de tal forma que, com o passar do tempo todos os livros do Novo Testamento foram traduzidos para esse dialeto (METZGER, TTNT, pp.68). Paroschi afirma que cerca de um século depois as produções no dialeto Boárico também iniciaram no Baixo Egito (PAROSCHI, CTNT. pp.66).

Ou seja, os dialetos boárico e saídico representam manuscritos neotestamentários bem antigos. Isso indica que, do ponto de vista da crítica textual, são documentos de grande valor e úteis para se compreender como a tradição manuscrita do NT se comportou na história. Já do ponto de vista da bibliologia é fantástico, pois supõe-se que um corpo neotestamentário estivesse pronto bem cedo já nas regiões do norte do Egito.

A versão copta saídica, em particular, é provavelmente a versão mais antiga e tem grande valor para a crítica textual. A datação no terceiro século é validada pela existência de uma cópia de 1 Pedro datada do fim desse século. Um dos detalhes interessantes sobre essa versão é que, ao contrário da versão bohárica, ela não apresenta tantas evidências de uma revisão progressiva. É verdade que os documento não são sempre concordantes (como acontece com outras versões), mas há maior credibilidade nessa versão pelo fato de não ter grandes evidências de correção durante a história da manutenção desse texto.

No que se refere a tipo texto, é normalmente declarado que nos evangelhos a versão saídica é Alexandrina, com algumas evidências de leituras ocidentais especialmente no evangelho de João, o que não é incomum em manuscritos dessa natureza. Em Atos é majoritariamente Alexandrino, com poucas evidências de influência Ocidental, como também parece acontecer nas epístolas católicas. Apenas nas cartas paulinas é que uma situação deferente é encontrada, pois apesar de aparentemente ser Alexandrino, tem um tom Ocidental. É normalmente associado com o Códice Vaticano e com o Papiro 75.

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Para mais informações sobre as versões coptas, ver: HORNER, George Willian, The Coptic Version of the New Testament in Southern dialect, otherwise called Sahidic and Thebaic. Vol.3. Oxford, 1911. MEZGER, Bruce, The early versions of the New Testament, Oxford, 1977, pp. 99-151.

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Entretanto, não podemos deixar de evidenciar que as versões coptas não são as únicas testemunhas textuais do cristianismo primitivo. Embora sejam excelentes fonte para o estudo crítico do Novo Testamento, temos que levar em consideração também as versões Sírias e Latinas, pois também são conhecidas em sua antiguidade e podem elucidar o cenário de produção textual em outros idiomas ao redor do mundo antigo.

B. Versões Sírias:

As versões coptas mais antigas são precedidas pelas versões Sírias, que alguns teólogos ousam datar entre 160-180 d.C (cf. T. Nicol, Internacional Standard Bible Enciclopedia). Tal alusão não vem desprovida de evidência: Na obra mais importante de Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, ele cita um fato referente a Hegésipo que “declara alguns particulares do evangelho dos hebreus e do siríaco e, em especial, da língua hebraica” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. CPAD, 1999. Vol IV, xxii. Pp. XX). Se essa citação reflete a existência de um corpo de evangelho em Siríaco, temos a evidência que aponta para a mais antiga versão síria de que se tem conhecimento.

O que de fato é certo, entretanto, é que essa alusão é frágil demais para se ter uma conclusão definitiva. Contudo, essa não é a única evidência que suporta uma data ainda bem antiga para as versões sírias: Existem ainda dois textos siríacos que marcam sua antiguidade por não serem representantes da tradição síria posterior as edições latinas de Jerônimo:

(1)      Síria Curetoniana: Esse exemplar siríaco consiste em fragmentos dos evangelhos encontrados em 1842 na região do Deserto de Nitria no Egito. Embora o material do documento seja datado no quarto século, muitos acadêmicos estão certos que a leitura do texto (vorlagën[1]) seja do segundo século (cf. METZGER, Bruce, TTNE. Pp.69)

(2)      Síria Sinaítica: Esse é o exemplar mais interessante de todos, pois além conter os evangelhos quase que completamente, foi analisado cuidadosamente e datado no segundo século. Ou seja, esse exemplar representa a mais antiga versão síria encontrada. Entretanto, do ponto de vista da leitura do texto, pode-se dizer que trata-se de um exemplar resultado de uma recensão.

Quando colocamos as versões sírias[2] em comparação com as versões coptas podemos com certeza afirmar a tradição manuscrita avança rápido pelo mundo antigo e conforme o alcance da fé cristã propagava-se as versões a acompanhavam.

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Para mais informações sobre as versões Sírias, ver: LEWIS, Agnes Smith, A translation of the four gospels from de siriac of the sinaitic palimpsest. Macmillan, 1894; MEZGER, Bruce, The early versions of the New Testament, Oxford, 1977, pp. 3-97.

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Isso nos ajuda a compreender que a antiguidade por si só não é sinal de evidência final para determinada leitura de um texto, quanto menos de uma tradução. O objetivo de levantar versões antigas em outros idiomas é que nos auxilia a perceber um mundo um pouco maior no que refere-se a tradição manuscrita.

C. Versões Latinas:

As questões relacionadas a quando e onde as traduções latinas iniciaram a ser feitas é sempre bem debatido, entretanto, parece consenso que já no segundo quarto do segundo século na região de Cartago as primeiras traduções em latim[3] já estivessem prontas (PAROSCHI, CTNT. pp.62).

A essas versões anteriores a Vulgata de Jerônimo (383-405), os críticos têm atribuído o nome de Antiga Latina. Um dado interessante sobre as versões da Antiga Latina é os manuscritos que sobreviveram ao tempo, apesar de estarem fragmentados, são encontrados em duas tradições principais, a Africana e a Européia. Os fragmentos sobreviventes são datados desde o quarto século até o décimo terceiro século, o que evidencia que ela ainda era copiada mesmo quando havia deixado de ser usada de modo geral (METZGER, TTNT. pp.72).

Quatro documentos latinos merecem nossa atenção quando falamos sobre datação:

(1)      O Códice Palatino: Esse exemplar é interessantíssimo, pois é escrito em letras prateadas em um pergaminho púrpuro, o que demonstra o valor atribuído ao documento em sua fabricação, considerando que tal empreendimento deveria ser caríssimo. Ele é normalmente datado no quinto século e representa a tradição africana, muito embora se suponha que posterior ele tenha sido alterado para ser compatível com a tradição européia. Entretanto, o mais facinante sobre esse texto, é que ele é similar ao que Agostinho faz uso antes de 400 d.C.

(2)      O Códice Veronese: Esse é um daqueles documento que nos brindam com um excelente visual. Escrito em um papiro púrpura onde as letras são ora prateadas, ora dourada. Esse códice contém os quatro evangelhos, e segundo especialistas (cf. Francis Burkkit; IN: PAROSCHI, CTNT. Pp.63) representa o tipo texto usado por Jerônimo na produção da Vulgata. Ele é normalmente datado no quinto século.

(3)      O Códice Vercelence: Representante da tradição Européia, e mantido na sala de tesouro em Vercelli no norte da Itália, é normalmente atribuído a Eusébio, bispo de Vercelli. Segundo a tradição, ele mesmo teria copiado a mão esse documento e por isso é datado antes de 370 d.C., quando Eusébio foi morto. E, provavelmente o mais antigo manuscrito latino da tradição européia.

(4)      O Códice Bobiense: é normalmente considerado a testemunha sobrevivente mais importante da tradição da Antiga Latina. O documento é bem fragmentado e contém apenas alguns trechos de Mateus e Marcos. Entretanto, a forma do texto encontrado nesse documento é muito aproximada da citações latinas feitas por Cipriano (250 d.C.). Falando sobre a vorlagen do documento, E.A. Lowe apresenta marcas paleortográficas de que o texto representa uma leitura do segundo século (IN: METZGER, TTNT. pp.73).

A existência de manuscritos da tradição da Antiga Latina não se resume a esses, mas são esses os considerados relevantes para nossa abordagem aqui. Sobre a existência de manuscritos antigos representantes da tradição da Antiga Latina, no The Greek New Testament, editado por Neste-Aland apresenta mais de cinqüenta manuscritos, mas temos certeza de que isso representa apenas uma pequena porção do número original. Tanto Metzger, Aland e Paroschi citam Jerônimo como evidencia desse fato, pois, segundo Jerônimo existiam tantas versões quanto eram os códices. Razão que o levou a fazer sua edição do texto latino conhecido como Vulgata.

É por isso que a mais importante fonte de leituras latinas do texto do Novo Testamento no segundo e terceiro século são os Pais da Igreja. Sobre o assunto, o casal Aland diz:

Os mais antigos textos latinos são encontrados nas numerosas citações de Tertuliano do Novo Testamento. Nós não sabemos exatamente quando ele começou a escrever, mas é bem provável que tenha acontecido por volta de 195 d.C.” (ALAND, TTNT. pp.186).

Por essa razão, vamos observar com mais atenção como os pais latinos do Igreja usaram o texto de Jo.1.1, que versão dispunham, como traduziram e como interpretaram.

PRÓXIMO


[1] Uma das distinções interessantes que devem ser feitas pelos críticos textuais é que a idade do documento não representa necessariamente a idade do texto do documento. Um manuscrito latino do oitavo século pode conter um texto do segundo século. É por essa razão que supõe-se que os exemplares coptas são anteriores à data do documento que representam. O termo técnico para representar essa idéia é a palavra germânica vorlagën, que não se encontrou como traduzir adequadamente, nem para o inglês ou português e normalmente é citada em alemão mesmo.

[2] Também é importante que se diga que, embora a versão síria sinaítica seja corrompida nos primeiros 24 versos do evangelho de João (LEWIS, Agnes Smith, A translation of the four gospels from de siriac of the sinaitic palimpsest. Macmillan, 1894), entretanto a tradição síria que contém o primeiro verso parece ser fiel a tradição manuscrita grega.

[3] Ao tratar do assunto, o casal Aland nos lembra que o próprio Agostinho teria dito que qualquer um que obtivesse um manuscrito grego iria traduzi-lo para o latim, não importando o quanto ele conhecia de ambos os idiomas (Aland, TTNT. pp.187). Isso nos ajuda a considerar que o processo de tradução nem sempre era acompanhado de um processo de competência, mas de necessidade.

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