Celso e a Historicidade de Cristo


Celso foi um filósofo grego neoplatonista opositor do Cristianismo do segundo século que escreveu seu principal ataque pouco depois de Luciano ter escrito The death of Pelegrinus. O seu trabalho ficou conhecido como o primeiro escrito, dentre os que conhecemos hoje, que ataca o cristianismo: The True Word. Sua principal tese é demonstrar que Jesus Cristo não era de Deus, mas em nenhum momento Celso atacou a historicidade de Cristo.

Seu trabalho foi preservado pelo trabalho de Orígenes o teólogo alexandrino que dedicou-se à exaustão a responder as indagações de Celso, o anti-cristão. O livro é chamado Contra Celsum e é a única referência que temos sobre sua pessoa, e além disso quase nada sabe-se sobre sua vida pessoal. O que se infere de sua obra é que Celso era bem informado sobre o cristianismo do segundo século que florescia em Alexandria e Roma, que era interessado em antigas religiões do Egito e parecia familiar com a doutrina judaica do Logos, o que sugere que sua obra tenha sido escrito em Alexandria.

Antes de aprofundarmos nas declarações de Celso, que são numerosas e variadas, é importante que apresentar dois fatos relacionados a esse personagem:

  1. Em quase todos os casos apresentados até aqui os críticos apresentem ocasiões em que sugerem uma interpolação cristão tardia, isso não acontece (nem poderia) acontecer com as afirmações de Celso. O nível de ataque e de hostilidade para com Cristo e os cristãos impossibilita que se trate de um material adulterado por um cristão.
  2. Outra situação que parece recorrente é a ideia de que autores antigos tenham cristãos como fontes, mas esse não é o caso com Celso também, até por que seu escrito supõe um diálogo com um judeu crítico, o que nos sugere que suas fontes não seriam cristãos, mas possivelmente judaicas.

Vale a pena lembrar que o texto de Celso foi preservado em Orígenes um autor cristão, e parece absurdo supor que Orígenes tenha se dado ao trabalho de adulterar o livro que pretende responder. Robert Voorst, de modo geral, apresenta o modo como Celso apresenta a Jesus Cristo no seu livro do seguinte modo:

“Celso monta um amplo ataque a Jesus como o fundado da fé. Ele ignora ou melhor, denigre os ancestrais de Cristo, sua concepção, nascimento, infância, ministério, morte, ressurreição e sua influência continuada. De acordo com Celso, os ancestrais de Jesus vinham de uma vila judaica (Against Celsos, 1.28), e sua mãe era uma pobre menina do campo que ganhava a vida como costureira (1.28). Ele realizou seus milagres por magia (1.28; 2.32; 2.49; 8.41). Ele era fisicamente feio e pequeno (6.75). Até onde tinha conhecimento, Jesus guardava todos os costumes judaicos, incluindo o sacrifício no tempo (2.6). Ele reuniu apenas dez seguidores e os ensinou seus terríveis hábitos, incluindo mendigar e roubar (1.62; 2.44). Esses seguidores, formados por dez marinheiros e coletores de impostos, foram os únicos que ele convenceu de sua divindade, mas agora seus seguidores convenceram multidões (2.46). A notícia de sua ressurreição veio de uma mulher histérica, e a crença na ressurreição de Cristo proveio da magia de Jesus, do pensamento positivo dos seus seguidores, ou alucinação em massa, tudo com o propósito de impressionar outros e aumentar a chance de que outros se tornem pedintes (2.55)” (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: na introduction to the anciente evidence, Eedermnans, 2000, pp.66)

O resumo apresentado por Voorst provém de diversas citações diretas de Celso preservadas por Orígenes, e como pode notar-se, parece tolo que alguém se dedicasse tanto para provar a tolice do ensino de outrem se este mesmo não existisse. Como nossa intenção não é reescrever uma crítica às proposições de Celso, mas de apresentar a historicidade de Cristo atestada por seu criticismo, vamos apenas citar algumas de suas acusações.

Sobre o nascimento, vida e milagres de Cristo:

“Ele [Celso] o [Jesus] acusa de ‘inventar seu nascimento de uma virgem’ e o censura como sendo ‘nascido em uma determinada vila judaica, de uma mulher pobre de seu país, que ganhava a vida como costureira, e que foi expulsa de casa por seu marido, um carpinteiro por profissão, por que ela fora condenada por adultério; após ter sido expulsa por seu marido, e vagueando por uns tempos, ela desgraçadamente deu a luz a Jesus, um filho ilegítimo, que fora empregado como serviçal no Egito em função de sua pobreza, e tendo aí adquirido alguns poderes mágicos, nos quais os egípcios tanto se orgulham, e [então] retornou ao seu país, sendo exaltado por conta deles, e por meio deles se proclamou como um deus” (Origens, Contra Celsum, 1.28; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.408)

O retrato que Celso apresenta de Cristo está longe de ser fictício, opção que ele poderia apresentar, entretanto, o que ele faz é apresentar sua versão sobre a situação do nascimento de Cristo por rejeição do conceito do nascimento virginal. A proposta alternativa para o nascimento de Cristo, como um caso extraconjugal de Maria, parece-se muito com um relato já conhecido no Talmud Judeu, como veremos a frente. Essa indicação favorece a ideia de que não apenas suas fontes eram não cristãs, como sua preferência para explicar aquilo que odiava era cínica, crítica e desprezível, do ponto de vista da história do evangelho. Entretanto, isso prova a existência de Cristo como figura histórica e não mitológica.

Sobre a encarnação de Cristo:

“’E mais uma vez’ diz ele [Celso] ‘vamos retomar o assunto desde o início, com uma gama maior de provas. Eu não faço nenhuma afirmação nova, mas digo o que já está definido a muito tempo. Deus é bom, belo, abençoado, e isso no melhor e mais belo patamar. Mas, sele desceu entre os homens, ele deve ter sofrido uma mudança, e uma mudança de bom para o mal, de virtude para o vício, da felicidade para à miséria, de melhor para pior. Quem, então, faria a escolha de tal mudança? É da natureza mortal, de fato, sofrer alteração e transformação, mas a natureza de um imortal permanece a mesma, inalterada. Deus, não pode admitir uma mudança como essa” (Origens, Contra Celsum, 1.28; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.502)

Celso manifesta um conhecimento, ainda que elementar da doutrina cristã da encarnação, e apresenta, o que na sua visão, é um absurdo. A ideia de ocorrer mudança em Deus é tão deplorável para ele que parece impossível acontecer. De fato, não é isso que se defende na encarnação de Cristo, mas a pergunta que ele levanta merece nossa atenção: “Quem, então, faria a escolha de tal mudança?”.

De fato, o que se propunha a Cristo na encarnação não era a mudança em si, mas as implicações de abrir mão de seu estado de Graça e exaltação com o Pai, bem como do uso irrestrito de seus infinitos recursos e atributos, e ser encontrado na figura de um ser humano servo para sofrer em sua morte sacrificial, tornando-se pecado pelos pecados de cada indivíduo de todas as épocas e lugares. Quem faria isso? Somente um Deus amoroso e preocupado com sua criação faria isso, e Jesus Cristo o fez.

Sobre Cristo e seus discípulos:

“Jesus reuniu próximo a si mesmo dez ou onze pessoas de caráter notório, o mais doentio dos cobradores de impostos, marinheiros, e com eles fugiu de lugar em lugar, e obteve sua sobrevivência de um modo vergonhoso e inoportuno” (Origens, Contra Celsum, 1.62; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.423)

Nessa declaração, Celso confirma o fato de que Cristo investiu no discipulado de cerca de onze homens, e também é assertivo no que se refere a profissão que eles tinham. O desdém com que ele apresenta esse fato sugere que ele realmente acreditava no que conhecia sobre Cristo e os cristãos. É interessante que ao fazer isso, torna-se um testemunho antigo a respeito de afirmações que as escrituras fazem sobre Jesus Cristo. Em outra citação, ele faz outras declarações sobre Cristo e seus discípulos, que também confirmam detalhes interessantes apresentados pelas escrituras, observe:

“[Ele foi] abandonado e entregue por esses mesmo com quem tinha se associado, que o tinham como professor, e que acreditavam que ele era o salvador, o filho do Altíssimo Deus (…) Esses com quem se associou enquanto estava vivo, que ouviram sua voz, que apreciaram suas instruções como seus professor, ao o verem sujeito a punição e morte, nem mesmo morreram por ele (…) mas negaram que foram seus discípulos” (Origens, Contra Celsum, 1.62; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.423)

Mais uma vez Celso demonstra seu criticismo contra a figura de Cristo como alguém digno de respeito, afinal os únicos homens que o seguiam e acreditavam em seu ensino são os mesmos que o entregam a morte e o abandonam nesse sofrimento. Ele também critica a postura dos cristãos que são martirizados por Cristo, coisa que seus primeiros seguidores não foram capazes de fazer quando seu Professor foi punido e morto. Essa declaração, ainda que repleta de cinismo, confirma mais uma vez o fato apresentado pelas escrituras: Cristo foi entregue à morte por um dos seus discípulos, foi abandonado por todos em sua morte, a quem tinha se dedicado como Instrutor e que haviam manifestado apreço por Seu ensino e havia sido considerado como Filho de Deus.

Sobre a morte de Cristo

“Em sua próxima declaração, Celso afirma com indescritível tolice: ‘Se, depois de inventar defesa para o que é absurdo, e por isso deduz ridiculamente, ou melhor, imagina que realmente fez uma boa defesa, o que o inibe a respeito daqueles outros indivíduos que foram condenados, e morreram uma morte miserável, e foram maiores e mais divinos no seu papel de mensageiros dos céus que Jesus?” (Origens, Contra Celsum, 2.44; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.448)

Nessa citação Celso contra argumenta o que os cristãos primitivos falavam sobre Cristo e sua morte como uma boa defesa para a divindade do Filho de Deus, por afirmar que Cristo não foi o único que morreu uma morte miserável e até mesmo considerado um mensageiro dos céus. O ponto de Celso é: Se Cristo não é o único nesses quesitos, o que dizer dos outros que por isso passaram? O questionamento de Celso, por mais anticristão que seja, apresenta detalhes sobre a morte de Cristo, tal como apresentada pelas escrituras: Cristo de fato morreu uma morte miserável. Celso não descreve que tipo de morte seria essa nessa citação, mas ele o afirma pouco à frente:

“Jesus se apresentou após sua morte apenas com a aparência das feridas recebidas na cruz, e na verdade ele não estava tão ferido como ele é descrito como tendo sido” (Origens, Contra Celsum, 2.44; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.448)

Nesta declaração, Celso confirma morte de Jesus por crucificação, embora alegue que as feridas que Jesus recebeu só foram as inflingidas pela crucificação (negando assim qualquer tortura anterior tinha ocorrido). Mas a história ainda não oferece a Celso o benefício da dúvida, afinal as flagelações eram a forma padrão de tortura dado às vítimas antes da
crucificação. Entretanto, é importante dizer que Celso se contradiz novamente mais tarde quando ele afirma Jesus provavelmente não sequer foi crucificado, mas sim um impostor morreu no seu lugar. Mais uma vez, Celso parece ter acesso a versões diferentes sobre a morte de Cristo, provavelmente vindas de fontes judaicas.

Sobre os cristãos:

“Após estes pontos, Celso cita algumas objeções contra os ensinos de Jesus, feita por muito poucos indivíduos que são considerados cristãos, não dos mais inteligentes, como ele supõe, mas da classe mais ignorante, e afirma que ‘são as seguintes as regras estabelecidas por eles. Que ninguém instruído venha a nós, ou que seja prudente ou sábio (por que essas qualificações são consideradas maléficas para nós), mas se há alguém ignorante, ou não inteligente, ou não instruído, ou tolo, que venham com confiança. Com essas palavras, reconhecendo que tais indivíduos são dignas de seu deus, eles mostram claramente que eles desejam e são capazes de sobrepujar os tolos, os medíocres e os estúpidos, com mulheres e crianças’” (Origens, Contra Celsum, 1.28; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.481-2)

Ainda que o ensinamento de Cristo e dos cristãos apareça distorcido aqui, é evidente que Celso estava cercado de pessoas que professavam uma fé que ele mesmo não se agradava e tinha prazer em criticar. É bem provável que a primeira bem-aventurança do sermão da montanha seja a mensagem que possivelmente Celso satiriza. Em uma nota de rodapé, entretanto, o editor do texto de Orígenes nos lembra que não apenas o ensino de Cristo e dos cristãos é satirizado, mas que o cenário cristão também é apresentado de modo propositadamente pejorativo, pois o cristianismo primitivo era formado por pessoas de todas as classes sociais, como vimos em Tácito.

O que podemos dizer sobre as declarações de Celso? Em primeiro lugar, devemos notar o caráter crítico de sua obra e a grande quantidade de cinismo e desprezo com que ele apresenta a Cristo e os cristãos. Em segundo lugar, devemos perceber que ainda que tal criticismo seja ferrenho, ele apresenta alguns detalhes sobre Cristo em conformidade com o que se conhece dele nos evangelhos. Diante disso, entendemos que Celso, com todo seu fervor anti-cristão, ironicamente, tornou-se boa fonte para demonstrar a historicidade de Cristo, afinal, não o imaginamos escrevendo um livro como esse sobre alguém que jamais teria existido.

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